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O CAMINHO É O

XIS DO PROBLEMA: para o


poeta e para o crítico
O CAMINHO

Para David Arrigucci Jr., a poesia de Carlos


Drummond de Andrade é marcada por um “denso
lirismo meditativo” (p.15), em que “tudo acontece
por conflito” (p.15)
DAVI ARRIGUCCI JR. ANTONIO CANDIDO
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
“O equívoco entre poesia e povo já é demasiadamente sabido
para que valha a pena insistir nele. Denunciemos antes o
equívoco entre poesia e poetas. A poesia não se “dá”, é hermética
ou inumana, queixam-se por aí. Ora, eu creio que os poetas
poderiam demonstrar o contrário ao público. De que maneira?
Abandonando a idéia de que poesia é evasão. E aceitando
alegremente a idéia de que poesia é participação. Não basta dizer
que já não há torres de marfim; a torre desmoronou-se pelo
ridículo, porém muitos poetas continuam vendo na poesia um
instrumento de fuga da realidade ou de correção do que essa
realidade ofereça de monstruoso e de errado. Desenvolve-se
então entre eles a linguagem cifrada, que nenhum leigo entende,
e que suscita o equívoco já célebre entre poesia e povo.
RELAÇÃO

MUNDO INTIMIDADE
EXTERIOR (ALMA)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

“Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não


considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje sobre
dor-de-cotovelo, falta de dinheiro, ou momentânea tomada de
contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos
trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da
contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um
poeta desarmado é, mesmo um ser à mercê de inspirações fáceis,
dócil às modas e compromissos. Infelizmente, exige-se pouco do
nosso poeta; menos do que se reclama ao pintor, ao músico, ao
romancista... Mas iríamos longe nessa conversa” (ANDRADE, 2011,
p.68) .

Autobiografia para uma revista. In: ______. Confissões de Minas


RELAÇÃO

emoção
Sentimento Expressão
Mundo
razão Poética
E A CRÍTICA?
“POESIA É MINERAÇÃO” (ARRIGUCCI, 2002, p.17)
e “Drummond valeu-se de todo tipo de meio
para a sua mineração poética”
(TITAN,2012,p.124)

“Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me
esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos”
Cora Coralina
A PEDRA E A REFLEXÃO
No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra


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tinha uma pedra
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Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Primeira publicação: número 3 da Revista de
Antropofagia
ELEMENTOS DE CHOQUE:

• Linguagem coloquial
• Repetição mecânica
• Banalidade do acontecimento

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra


tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento


na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Espécie de piada combinada um núcleo grave e
reflexivo
ESSENCIAL

Arte
combinatória
Repetição dos
(ritmo) segmentos
de versos
“(...) o poeta, ao perceber um objeto, percebe, ao mesmo
tempo, um certo sutil ritmo próprio de cada coisa, seu
ritmo que nasce do fato de todas as coisas estarem fluindo
– como diria Heráclito – um ritmo interno e externo em
estreita relação com o nome do objeto e com todos os
fenômenos que nele se reúnem, um ritmo da coisa em si e
da coisa em relação às outras coisas, pertencentes ou não à
mesma categoria.” (FAUSTINO, 1976, p.52)
“Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas”
O ETERNO RETORNO

Pedra Sensibilidade
do poeta
RELAÇÃO CÍCLICA

SENSIBILIDADE
DO POETA
PEDRA POEMA
REFLEXÃO
No meio do caminho
No meio do caminho
SEM SAÍDA
“Áporo”

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,


em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto


(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se..
SEM SAÍDA: metamorfoses
e labirintos
“Áporo”

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,


em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto


(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se..

In: Rosa do povo (1945)


CAVANDO NO
LABIRINTO:
O pequeno e o grande
O trabalho épico do inseto

O paradoxo: “um trabalho minúsculo,


sem alarde […] não dá margem
suficiente para o épico, que supõe um
conteúdo chamativo, de vasto assunto,
que se contempla com sereno
distanciamento.
(ARRIGUCCI JR, 2002, p. 86)
O trabalho épico do inseto

“[…] se se trata de um reles inseto […]


que interesse pode ter para motivar
uma história?”

“Ou então, qual o sentido de se dar


importância à anedota insignificante de
um inseto?” (ARRIGUCCI JR., 2002 p.
87)
“Carlos Drummond e a obscuridade”
“A poesia moderna nasceu sobre as ruínas
da unidade do homem e contra a ilusão de
que só teria valor a expressão do impessoal.
O poeta sentiu a necessidade de se
reintegrar no humano e até na ‘anedota’, de
se revelar através do efêmero, do
aparentemente fugaz, do momento que
passa, a fim de revalorizar a poesia como
instrumento de comunicação.” (MONTEIRO,
1965, p. 50).
Um inséto cáva
cáva sém alárme
pérfurándo a térra
sém achár escápe.
“Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?”
O CENTRO
PROBLEMÁTICO
enlace de noite
raiz e minério.
“Carlos Drummond e a obscuridade”
“A imagem tomou na poesia moderna o lugar
que antes dela fora ocupado pelo conceito.
Outrora, o poeta já conhecia o mundo, entrava
numa ordem preestabelecida; hoje tem que
refazer o caminho inteiro à sua própria custa.
Daí que ele pareça obscuro àqueles que não
sabem ler as imagens […] Cada poeta tem de
inventar o seu mundo, o seu vocabulário,
recolher os pedaços estilhaçados do grande
espelho do mundo.” (MONTEIRO, 1965, p. 50).
“O termo ‘labirinto’, que aparece
na estrofe seguinte, designa com
perfeição o impasse: aí se reúnem
em laço apertado múltiplos
caminhos e nenhum.” (ARRIGUCCI
JR., 2002, p. 90)
enlace de noite
enlace de noite
raiz e minério.

raiz e minério .
“[Dédalo] confunde
A imagem poética – O mito
todas as indicações e
“Um dos traços fortes da naturezainduz em erro o olhar,
perturbado
da literatura consiste em promover pelos
a anamnese (a memória profunda) rodeios do caminho,
da cultura, revivescendo no
em várias direções.”
presente imagens individuais e
(OVÍDIO, 1983, p.
coletivas, e procurando interrogar-
se sobre o sentido do destino do 146).
homem.” (BOSI, 2001, p. 21) Do mesmo modo que, nos
campos frígios, brinca o
Meandro de águas límpidas,
cujo dorso hesitante segue
uma direção, depois uma
outra […] e acaba fatigando
as suas águas incertas […]”
A imagem poética – O mito

“Eis que o labirinto


(oh razão, mistério)
presto se desata:”
A imagem poética – O mito “[…] a transformação
do caos em cosmos é
o próprio sentido do
“É aí que o mito se articula com o mito. A mitologia
logos (o que se exprime destina-se, afinal, a
ironicamente, elo oxímoro ‘oh explicar o lugar do
razão, mistério’) e, unindo-se ao homem no universo.
mesmo movimento contraditório Ele procura encontrar
[…] algum significado
da reflexão, […] se transforma em
coeso […] tenta
problema concreto para o fazer abranger coisas
humano, ou seja, em história. díspares para
Esta, a mais inesperada das configurar imagens
metamorfoses.” (ARRIGUCCI JR, simbolizantes.” (BOSI,
2002, p. 92). 2001, p. 28).
Inseto transformado em flor
“Em verde, sozinha,
Flor-poema
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.” Poema-flor
“a arte é uma atividade humana que
explora, e por este modo cria,“[…] nova
o poeta, por pensar
realidade de um modo supra-racional,
for a de qualquer sistema,
imaginário, e apresenta-se simbólica ou
metaforicamente como
fala todo
um
das revelações que a
microcósmico e significando vida lhe proporciona sem
um todo
macrocósmico.” (KAHLER apud se preocupar com a
BARBOSA,
1980, p. 111). coerência ou incoerência
“[…] a criação artística do que afirma.” (GULLAR,
inclui
inexoravelmente uma [s.d.], p. 9).
reformualção dos dados reais”
(idem, ibidem)
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. São Paulo: Cosac
Naify, 2011.

______. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

ARRIGUCCI, Davi. Dificuldades no trabalho. In: ______. Coração Partido. São


Paulo: Cosac Naify, 2002.

BARBOSA, João Alexandre. Aproximações aos estudos poéticos. In: ______.


Opus 60: ensaios de crítica. São Paulo: Duas Cidades, 1980, p. 107-115.

BOSI, Viviana. A imagem na poesia: Jorge de Lima. In: ______ et al (org). O


poema: leitores e leituras. Cotia/SP: Ateliê editorial, 2001, p. 21-50

CANDIDO, Antonio. As inquietudes na poesia de Drummond. In: ______.


Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre o azul, 2012.

______. O poeta itinerante. In: ______. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro:


Ouro sobre o azul, 2010.
GULLAR, Ferreira. Poesia ou não saber. In: SILVA, Dora Ferreira, et al. Boa
companhia: poesia. São Paulo: Companhia das letras, [s.d.], p. 9-10.

MARTINS, Hélcio. A rima em Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro:


José Olympio, 1968.

MONTEIRO, Adolfo Casais. Carlos Drummond e a obscuridade. In: ______.


Lavra essencial: estudos sobre a poesia. São Paulo: EdUsp, 1965, p. 48-50.

OVÍDIO. O labirinto. In: ______. As metamorfoses. Tradução de David Jardim


Junior. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1983. p. 146-147.

TINTAN, Samuel. Poeta do mundo terreno. In: ______. ANDRADE, Carlos


Drummond de. Claro Enigma. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

VILLAÇA, Alcides. Os passos de Drummond. São Paulo: Cosac Naify, 2006.