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As Freguesias: História e a

reforma territorial 2011-2013


Mestrado de Administração Público- Privada
Gestão Autárquica
Docente: Maria José Leal Castanheira Neves

Carla Afonso
Daniela Lages
1
A HISTÓRIA
1.º Desde a ocupação sueva/romana até 1830: a freguesia não é
autarquia local;
2.º De 1830 a 1878: fase de grandes indecisões e de substituição
rápida de soluções;
3.º De 1878 até à atualidade: a freguesia consolida-se como
autarquia local

2
1.º Período
Desde a invasão dos suevos até 1830: a freguesia
não é autarquia local

3

Artigo 3.º

A freguesia é uma pessoa coletiva territorial, dotada


de órgãos representativos, que visa a persecução de
interesses próprios da população, na respetiva
circunscrição.

Lei nº 79/ 77 de 25 de Outubro

4

«Freguesias» são as autarquias locais que, dentro
do território municipal, visam a prossecução de
interesses próprios da população residente em
cada circunscrição paroquial.

Diogo Freitas do Amaral, Curso de Direito Administrativo, Volume 1


p. 507

5

«freguesia» é uma palavra que vem de «fregueses»
vem de «filii eclesiae» (que deu filigreses, e depois
fregueses), expressão que significava filhos da igreja

6
Administração pública & Administração eclésiastica

“comunidade de pessoas que sentiram a necessidade de encarregar


alguém de resolver os problemas comuns para manter a ordem, a
paz, a boa convivência entre todos quantos ali habitavam”

Órgãos eleitos pelos «fregueses» denominavam-se de juízos e os


quais estavam encarregues de resolver problemas de convivência e
de economia rural.

7
2.º Período
De 1830 a 1878: fase de grandes indecisões e de
substituição rápida de soluções

8
Constituição de 1822
1823

Carta constituciconal de 1826


1828

De 1832 a 1834
Guerra Civil

9
Decreto de 26 de
novembro de Luís
Mouzinho publicado
nos Açores

1830 1835 1842

1832 1836
Decreto n.º 23 de 16
de maio de Mouzinho
da Silveira

10
Decreto de 26 de Novembro de 1830

“Sendo necessário para o bom regimento e polícia dos povos que haja em todas as
paróquias alguma autoridade local, que possua a inteira confiança dos vizinhos
e que seja especialmente encarregada de prover e administrar os negócios e
interesses particulares dos mesmos: manda a regência em nome da rainha que
enquanto por lei constitucional não for devidamente estabelecida nova ordem de
administração municipal se guardem as seguintes disposições.”

Artigo 1.º

Haverá em cada paróquia uma junta nomeada pelos vizinhos da paróquia e


encarregada de promover e administrar todos os negócios que forme de
interesse puramente local.

11
Decreto de 26 de
novembro de Luís
Mouzinho publicado
nos Açores

1830 1835 1842

1832 1836
Decreto n.º 23 de 16
de maio de Mouzinho
da Silveira

12
Decreto de 16 de maio de 1832 de Mouzinho da Silveira

13
Decerto de 18 de
Decreto de 26 de junho, publicado
novembro de Luís no seguimento da
Mouzinho publicado Carta de Lei de 25
nos Açores de abril

1830 1835 1842

1832 1836
Decreto n.º 23 de 16
de maio de Mouzinho
da Silveira

14
Carta lei de 25 de abril de 1835 e o Decreto de 18 de julho

DISTRITO CONCELHO FREGUESIA


MAGISTRATOS Governador civil Administrador do Comissário de
ADMINISTRATIVOS concelho paróquia

CORPO Junta geral do Câmara municipal Junta de paróquia


ADMINISTRATIVO distrito

15
Decerto de 18 de
Decreto de 26 de junho, publicado
novembro de Luís no seguimento da
Mouzinho publicado Carta de Lei de 25
nos Açores de abril

1830 1835 1842

1832 1836
Decreto n.º 23 de 16 Código
de maio de Mouzinho administrativo
da Silveira de 31 de
dezembro

16
Código administrativo de 1836


«Artigo 1.º dispunha que o território do continente
e ilhas era dividido em distritos, subdividido em
concelhos, compondo-se estes de uma ou mais
freguesias.»

17

18

19

20
Decerto de 18 de
Decreto de 26 de junho, publicado
novembro de Luís Código
no seguimento da
Mouzinho publicado administrativo
Carta de Lei de 25
nos Açores de 16 de março
de abril

1830 1835 1842

1832 1836
Decreto n.º 23 de 16 Código
de maio de Mouzinho administrativo
da Silveira de 31 de
dezembro

21
Código Administrativo de 1842

22
23
3.º Período
De 1878 até à atualidade: a freguesia consolida-se
como autarquia local

24
Código
administrativo
de Rodrigues
Sampaio

1878 1892 1913 1940

1886 1896 1916

25
Código Administrativo de Rodrigues Sampaio de 1878

26
Código
administrativo
de Rodrigues Decreto n.º
Sampaio 6 de agosto:
risco de
extinção

1878 1892 1913 1940

1886 1896 1916


Código Código
administrativo administrativo
de 17 de julho de 4 de maio

27
Código administrativo de 1886

28
Decreto 6 de agosto de 1892

“Não ouso propor a V. Majestade a extinção das paróquias. Profundamente


radicada nos costumes do país, a extinção das juntas de paróquia tem ainda
por si corresponder a uma verdadeira necessidade púbica (…) o seu natural
destino é a gerência dos negócios atinente fábrica da Igreja paroquial e o
desempenho de algumas funções de beneficência. E limitadas a este modesto
fim as juntas de paróquia prestam um serviço importante (…). Foi realmente
infeliz a experiência que se fez, exaltando a administração da paroquia à
categoria de administração civil.”

ARTIGO 16.º Ficavam “pertencendo às juntas de paróquia simplesmente a


administração dos bens e rendimentos da fábrica da igreja paroquial e as
suas dependentes bem como o encargo de comissões de beneficência das
respetivas freguesias”

29
Código administrativo de 1896

30
Código
administrativo Decreto n.º
de Rodrigues 6 de agosto:
Sampaio risco de
Lei n.º 88 de 7
extinção
de agosto

1878 1892 1913 1940

1886 1896 1916


Código Código Lei n.º 621 de 23
administrativo administrativo de junho
de 4 de maio

31
Lei n.º 88 de 7 de agosto de 1913 e a Lei n.º 621 de 23 de junho de 1916

32
Lei nº 621 de 23 de maio de 1916

Paróquia Civil vs. Freguesia

33
Código
administrativo Decreto n.º
de Rodrigues 6 de agosto: Código
Sampaio risco de administrativo
Lei n.º 88 de 7 de 31 de
extinção
de agosto dezembro

1878 1892 1913 1940

1886 1896 1916


Código Código Lei n.º 621 de 23
administrativo administrativo de junho
de 17 de julho de 4 de maio

34
Código administrativo de 1940

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38
39
A REFORMA TERRITORIAL
2011-2013

40
Origem da reforma
• Crise económico-financeira (2008)
• Pedido de assistência financeira à Troika
• Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de
Política Económica (17 de maio de 2011)
• Necessidade de consolidação orçamental e de reformas
estruturais: redução do número de entidades locais e dos seus
custos

41

Existem atualmente 308 municípios e 4259 freguesias. Até julho de
2012, o Governo desenvolverá um plano de consolidação para
reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades. O
Governo implementará estes planos baseado num acordo com a CE
[Comissão Europeia] e o FMI [Fundo Monetário Internacional]. Estas
alterações, que deverão entrar em vigor no próximo ciclo eleitoral
local, reforçarão a prestação do serviço público, aumentarão a
eficiência e reduzirão custos.

(Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de Política Económica)

42
Processo de reforma
Fase preliminar

43
a) Rever o atual mapa administrativo, com vista à redução substancial do
atual número de freguesias, designadamente por via de soluções que
veiculem a respetiva aglomeração, dotando-as de escala e de dimensão
mais adequadas, atentas as respetivas tipologias e desde que
salvaguardadas as especificidades locais;
b) Elaborar uma matriz de critérios demográficos e geográficos
suficientemente habilitadores das opções a tomar, tendo presente a
tipologia decorrente das noções de freguesia predominantemente urbana,
de freguesia maioritariamente urbana e de freguesia predominantemente
rural;
c) Promover um debate profundo ao nível dos órgãos autárquicos;
d) Estimular o processo de integração de municípios, tendo por
pressuposto o respeito pelas especificidades e identidades territoriais
próprias.

(Resolução do Conselho de Ministros nº40/2011, de 22 de setembro)


44
a) Reorganizar o mapa administrativo através da redução do número de
freguesias;

b) Criar novas freguesias, com ganhos de escala e dimensão, gerando a


descentralização de novas competências e o reforço da sua atuação;

c) Salvaguardar as especificidades locais, diferenciando áreas de baixa e


alta densidade populacional e distinguindo áreas urbanas e áreas rurais;

d) Considerar a contiguidade territorial como um fator determinante.

(Documento Verde da Reforma da Administração Local


– Uma Reforma de Gestão, uma Reforma de Território e uma Reforma Política)

45
Proposta de Matriz de Critérios de Organização Territorial

46
Processo de reforma
Fase legislativa

47
Lei nº22/2012, de 30 de maio


Artigo 4º
1 — A reorganização administrativa territorial autárquica implica a
agregação de freguesias a concretizar por referência aos limites
territoriais do respetivo município, segundo parâmetros de agregação
diferenciados em função do número de habitantes e da densidade
populacional de cada município.

48
Artigo 4.º n.º 2 Artigo 6.º n.º 1

Nível 1: municípios com densidade Redução global do respetivo número de


populacional superior a 1000 habitantes por freguesias correspondente a, no mínimo, 55%
km² e com população igual ou superior a do número de freguesias cujo território se
40000 habitantes. situe, total ou parcialmente, no mesmo lugar
urbano ou em lugares urbanos sucessivamente
contíguos e 35% do número das outras
freguesias.

Nível 2: municípios com densidade Redução global do respetivo número de


populacional superior a 1000 habitantes por freguesias correspondente a, no mínimo, 50%
km² e com população inferior a 40000 do número de freguesias cujo território se
habitantes, bem como municípios com situe, total ou parcialmente, no mesmo lugar
densidade populacional entre 100 e 1000 urbano ou em lugares urbanos sucessivamente
habitantes por km² e com população igual ou contíguos e 30% do número das outras
superior a 25000 habitantes. freguesias.

Nível 3: municípios com densidade Redução global do respetivo número de


populacional entre 100 e 1000 habitantes por freguesias correspondente a, no mínimo, 50%
km² e com população inferior a 25000 do número de freguesias cujo território se
habitantes, bem como municípios com situe, total ou parcialmente no mesmo lugar
densidade populacional inferior a 100 urbano ou em lugares urbanos sucessivamente
habitantes por km². contíguos e 25% do número das outras
49 freguesias.

Artigo 6º
2 — Da reorganização administrativa do território das freguesias
não pode resultar a existência de freguesias com um número
inferior a 150 habitantes.

50

Artigo 8º
c) As freguesias devem ter escala e dimensão demográfica
adequadas, que correspondem indicativamente ao máximo de 50
000 habitantes e aos mínimos de:

i) Nos municípios de nível 1, 20 000 habitantes por freguesia


no lugar urbano e de 5000 habitantes nas outras freguesias;
ii) Nos municípios de nível 2, 15 000 habitantes por freguesia
no lugar urbano e de 3000 nas outras freguesias;
iii) Nos municípios de nível 3, 2500 habitantes por freguesia no
lugar urbano e de 500 habitantes nas outras freguesias.

51

Artigo 11º
1 — A assembleia municipal delibera sobre a reorganização
administrativa do território das freguesias, respeitando os parâmetros
de agregação e considerando os princípios e as orientações
estratégicas definidos na presente lei [...].

3 — A deliberação a que se refere o n.º 1 designa –se pronúncia da


assembleia municipal.

52
5 — A pronúncia da assembleia municipal deve conter os seguintes
elementos:

a) Identificação das freguesias consideradas como situadas em lugar


urbano, nos termos e para os efeitos da presente lei;

b) Número de freguesias;

c) Denominação das freguesias;

d) Definição e delimitação dos limites territoriais de todas as freguesias;

e) Determinação da localização das sedes das freguesias;

f) Nota justificativa.

Artigo 13º
1 — É criada a Unidade Técnica para a Reorganização
Administrativa do Território, adiante designada por Unidade
Técnica, que funciona junto da Assembleia da República.

54
Artigo 14º

1 — À Unidade Técnica compete:


a) Acompanhar e apoiar a Assembleia da República no
processo de reorganização administrativa territorial
autárquica, nos termos da presente lei;
b) Apresentar à Assembleia da República propostas concretas
de reorganização administrativa do território das freguesias,
em caso de ausência de pronúncia das assembleias
municipais;
c) Elaborar parecer sobre a conformidade ou desconformidade
das pronúncias das assembleias municipais [...] e apresentá –
lo à Assembleia da República;
d) Propor às assembleias municipais, no caso de
desconformidade da respetiva pronúncia, projetos de
reorganização administrativa do território das freguesias.
55
2 — A Unidade Técnica é composta por:
a) Cinco técnicos designados pela Assembleia da República, um dos
quais é o presidente;
b) Um técnico designado pela Direção -Geral da Administração
Local;
c) Um técnico designado pela Direção -Geral do Território;
d) Cinco técnicos designados pelas comissões de coordenação e
desenvolvimento regional (CCDR), um por cada uma, sob parecer
das respetivas comissões permanentes dos conselhos regionais;
e) Dois representantes designados pela Associação Nacional de
Municípios Portugueses;
f) Dois representantes designados pela Associação Nacional de
Freguesias.

56
A UTRAT acabou por deparar-se com
uma generalizada não colaboração
das assembleias municipais. De um
total de 229 municípios, apenas 78
emitiram pronúncia (58 conforme e
20 desconforme, sendo que apenas 3
a corrigiram). Desta forma, teve de
elaborar 151 propostas, face à
ausência de pronúncia por parte das
assembleias municipais, e mais 17,
face à não correção de pronúncias
desconformes.
Lei nº11-A/2013, de 28 de janeiro


Artigo 1º
1 — A presente lei dá cumprimento à obrigação de reorganização
administrativa do território das freguesias constante da Lei n.º
22/2012, de 30 de maio.
2 — A reorganização administrativa das freguesias é estabelecida
através da criação de freguesias por agregação ou por alteração dos
limites territoriais de acordo com os princípios, critérios e parâmetros
definidos na Lei n.º 22/2012, de 30 de maio [...]

58
59
Com o desaparecimento e criação de várias novas freguesias, designadas
“Uniões de Freguesias”, a partir de 29 de setembro de 2013, data das
eleições gerais para os órgãos das autarquias locais, a organização
político-administrativa portuguesa manteve 308 municípios (apesar de a
Lei nº22/2012, de 30 de maio, ter incentivado a sua fusão, o número de
municípios manteve-se inalterado) e passou a contar apenas com 3091
freguesias (em vez das 4259).

60
Exceções

Lisboa:
Teve um regime excecional. Concretizou-se através de outra lei:
Lei nº56/2012, de 8 de novembro.
Passou de 53 para 24 freguesias.

Regiões autónomas:
A lei não teve aplicação.
A Região Autónoma dos Açores invocou impossibilidade devido à
realização de eleições regionais no período de execução da lei e a Região
Autónoma da Madeira deliberou ostensivamente não participar na
reforma.
61
Resultados:
antes e depois da reforma

62
Freguesias
Antes da reforma Depois da reforma

Nº de freguesias Nº de % de Nº de % de
municípios municípios municípios municípios

5 ou menos 83 26.9 122 39.6

De 6 a 10 81 26.3 75 24.4

De 11 a 15 38 12.3 56 18.2

De 16 a 20 50 16.2 23 7.5

De 21 a 25 16 5.2 15 4.9

De 26 a 30 11 3.6 7 2.3

De 31 a 35 11 3.6 2 0.6

De 36 a 40 7 2.3 5 1.6

41 e mais 11 3.6 3 0.9

TOTAL 308 100 308 100


63
Habitantes
Antes da reforma Depois da reforma

Nº de habitantes Nº de % de freguesias Nº de % de freguesias


freguesias freguesias

150 ou menos 289 6.8 6 0.2

De 151 a 1000 2004 47.1 1384 44.8

De 1001 a 5000 1497 35.1 1269 41.1

De 5001 a 10000 235 5.5 190 6.1

De 10001 a 20000 156 3.7 129 4.2

De 20001 a 30000 48 1.1 52 1.7

30001 e mais 30 0.7 61 1.9

TOTAL 4259 100 3091 100

64
Eleitores
Antes da reforma Depois da reforma

Nº de eleitores Nº de % de freguesias Nº de % de freguesias


freguesias freguesias

150 ou menos 177 4.1 6 0.2

De 151 a 1000 2137 50.2 1379 44.6

De 1001 a 5000 1525 35.8 1315 42.5

De 5001 a 10000 230 5.4 178 5.8

De 10001 a 20000 136 3.2 120 3.9

De 20001 a 30000 30 0.7 43 1.4

30001 e mais 24 0.6 50 1.6

TOTAL 4259 100 3091 100

65
Área
Antes da reforma Depois da reforma

Superfície (km²) Nº de freguesias % de freguesias Nº de % de freguesias


freguesias

1 ou menos 65 1.5 2 0.1

De 1,01 a 5 950 22.3 378 12.2

De 5,01 a 10 935 22 581 18.8

De 10,01 a 20 1067 25.1 825 26.7

De 20,01 a 50 862 20.2 894 28.9

De 50,01 a 100 227 5.3 247 8

De 100,01 a 200 121 2.8 118 3.8

200,1 e mais 32 0.8 46 1.5

TOTAL 4259 100 3091 100

66
Incoerências
A reforma acabou por levantar várias incoerências:
• O número de freguesias em 2011 não era excessivo;
• Problema de dimensão;
• Abandono das especificidades locais;
• Reforma parcial;
• Nova forma de criação de freguesias;
• Ausência de comissões instaladoras;
• Problema jurídico-constitucional.

67
Obrigada!

Questões?

68

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