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A Jornada

do Herói
Carl Gustav Jung
Professor Dr. Jorge Miklos
“O mito universal do herói, por exemplo, refere- se sempre a um homem
ou um homem deus poderoso e possante que vence o mal, apresentado
na forma de dragões, serpentes, monstros, demônios, etc. e que sempre
livra seu povo da destruição e da morte. A narração ou recitação ritual
de cerimônias e de textos sagrados e o culto da figura do herói,
compreendendo danças, música, hinos, orações e sacrifícios, prendem a
audiência num clima de emoções numinosas (como se fora um
encantamento mágico), exaltando o indivíduo até sua identificação com
o herói” (C.G.Jung. O Homem e seus Símbolos, p. 75)
Os mitologemas –
temas comuns que permeiam as
narrativas míticas das mais
diversas culturas – foram vistos
por Jung como pistas dos
aspectos arcaicos da psique
Jung postulou que os
sonhos são os mitos
privados e os mitos são
os sonhos
compartilhados.
Uma dessas figuras
universalmente presentes
nas narrativas míticas -
independentemente da
cultura ou do período - , é
o herói
Para Jung interessava
conhecer a relevância
psicológica da figura do
herói presente no imaginário
cultural
Para Campbell: “o mito não é uma mentira. O
todo de uma mitologia é uma organização de
imagens e narrativas simbólicas, metáforas das
possibilidades da experiência humana e a
realização de uma dada cultura num
determinado tempo”. (CAMPBELL, 1994, p. 37).
Mono
mito
Em seu estudo, Campbell desvelou que todas
as histórias, basicamente, dizem o mesmo. As
narrativas recontam, em variações infinitas, a
mesma aventura. Campbell concebeu o
monomito, um padrão que integra as etapas
comuns, conhecida como a jornada do herói.
O monomito é um conceito de
narratologia. O termo aparece pela
primeira vez em 1949, no livro de
Campbell “The Hero with a Thousand
Faces”
A ideia de monomito em Campbell
explica sua ubiquidade nas narrativas
míticas por meio de uma mescla entre
o conceito junguiano de arquétipos,
forças inconscientes da
concepção freudiana e a estruturação
dos ritos de passagem por Arnold van
Gennep.
A tese de Campbell é de que
todos as narrativas heroicas
seguem um padrão .
As narrativas de Prometeu,
Osíris, Buda e Jesus Cristo
apresentam este paradigma
Partida,
Retorno
separação

Descida,
Iniciação,
Penetraçã
o
Partida, separação
• Mundo Cotidiano
• Chamado à aventura
• Recusa do Chamado
• Ajuda Sobrenatural
• Travessia do Primeiro Limiar
• Barriga da Baleia
Descida, Iniciação, Penetração
• Estrada de Provas
• Encontro com a Deusa
• A Mulher como Tentação
• Sintonia com o Pai
• Apoteose
• A Grande Conquista
Retorno
• Recusa do Retorno
• Voo Mágico
• Resgate Interior
• Travessia do Limiar
• Senhor de Dois Mundos
• Liberdade para Viver
Monomito
O herói moderno, o indivíduo moderno que
tem a coragem de atender ao chamado e
Sacrifício empreender a busca da morada dessa
presença, com a qual todo o nosso destino
deve ser sintonizado, não pode — e, na
verdade, não deve — esperar que sua
comunidade rejeite a degradação gerada
pelo orgulho, pelo medo, pela avareza
racionalizada e pela incompreensão
santificada. "Vive", diz Nietzsche, "como
se o dia tivesse chegado." Não é a
sociedade que deve orientar e salvar o
herói criativo; deve ocorrer precisamente o
contrário. Dessa maneira, todos
compartilhamos da suprema provação —
todos carregamos a cruz do redentor —,
não nos momentos brilhantes das grandes
vitórias da tribo, mas nos silêncios do
nosso próprio desespero. (CAMPBELL,
1994, p. 188)
Aquilo que ocorre na vida de Cristo ocorre em
todos os momentos e locais. No arquétipo
cristão, todas as vidas dessa espécie estão
prefiguradas
A vida humana é, na
sua singularidade, a
atualização da
jornada heroica
Em seu livro “História da Origem da Consciência”
Erich Neumann, a partir das narrativas míticas,
mostra que a consciência individual atravessa os
estágios de desenvolvimento que marcam a
história da consciência da humanidade.
A evolução da consciência
por estágios é ao mesmo
tempo um fenômeno
humano coletivo e um
fenômeno individual
particular.
Assim, deve-se considerar o
desenvolvimento ontogenético
(individual) recapitulando o filogenético
(espécie) que acaba se alterando
conforme transcorre o desenvolvimento
ontogenético
O herói pode se compreendido
como um arquétipo no interior
da psique coletiva.
Esse arquétipo é o que mais se
identifica com a CONSCIÊNCIA
DO EGO que lentamente emerge
na humanidade
A aparência histórica da
consciência humana tem um
toque de divino, um algo
vindo do nada, mágico de
grande efeito transformativo,
tudo se refletindo na
ascendência sobrenatural e
no nascimento incomum da
figura do herói
No capítulo 17 de seu livro “A busca do
símbolo” Whitmont relata que

“A evolução do ego é a evolução


daquele aspecto do Self que se
manifesta no tempo e no espaço.”
O herói é um motivo arquetípico
baseado na superação de obstáculos e
no alcance de determinadas metas –
encontrar o tesouro, matar o dragão,
trazer a princesa de volta – metáforas
de nossos sentimentos e potencial em
relação ao processo de individuação.
O trabalho do herói consiste em se
confrontar com os conteúdos
inconscientes sem ser por eles
sobrepujado; isto traz como resultado
potencial o restabelecimento do fluxo
da energia psíquica – libera a energia
aprisionada nos complexos
inconscientes.
Estágios do percurso do HERÓI:
• Saída do mundo conhecido e descida às trevas do inconsciente em
busca do poder da vida;
• No 1º estágio dessa jornada, o HERÓI precisa abandonar o ambiente
familiar para constituir a própria identidade – nascimento (estágio
urobórico), dependência (fase matriarcal), luta(fase patriarcal), união
dos opostos (fase interativa);
• A personalidade entra em contato com uma carga de energia
inconsciente que não é capaz de controlar - provações e revelações
de uma jornada de terror no “mar noturno” enquanto aprende a lidar
com esse poder sombrio.
Estágios do percurso do HERÓI:
• os inimigos a serem confrontados, aquilo que
precisa ser morto para nos ensinar, abrir espaço
para o novo;
• a incorporação das forças do “inimigo”.
• o retorno, o compartilhar, a renovação e
transformação a nível pessoal que ressoa em
toda a coletividade;
“é importante reconhecermos que em cada fase
deste ciclo a história do herói toma formas
particulares, que se aplicam a determinado ponto
alcançado pelo indivíduo no desenvolvimento da sua
consciência do ego e também aos problemas
específicos com que se defronta a um dado
momento. Isto é, a imagem do herói evolui de
maneira a refletir cada estágio de evolução da
personalidade humana.” (C. G. Jung. O Homem e
seus Símbolos, p. 311)
Por mais importante que é a
consciência do eu e por mais bem
simbolizado que ela seja pelo herói
arquetípico, Jung tinha noção do
efeito letal de qualquer
identificação que ocorre quando
o eu encontra o arquétipo: a
inflação psíquica da consciência
Jung suspeitava da
supervalorização da consciência
do eu heroico, enxergando a
capacidade humana e sua luta
pela autoconsciência como
apenas uma etapa na evolução
da consciência coletiva
Para Jung, os conceitos clássicos
gregos de húbris e de orgulho
presunçoso se aplicam tanto à
nossa fé contemporânea em
nossa habilidade de produzir, agir
e conquistar.
“Identificar-se com o herói é flertar com o desastre”
A batalha entre o herói e
o dragão é a forma
mais atuante deste mito e
mostra claramente o
tema arquetípico do
triunfo do ego sobre as
tendências regressivas.
Para a maioria das pessoas
o lado escuro ou negativo
de sua personalidade
permanece inconsciente. O
herói, ao contrário, precisa
convencer-se de que a
sombra existe e que dela
pode retirar sua força.
Deve entrar em acordo com o
seu poder destrutivo se
quiser estar suficientemente
preparado para vencer o
dragão — isto é, para que o
ego triunfe precisa antes
subjugar e assimilar a sombra
E assim podemos nos voltar para ele, tal como o
fez Ariadne. A matéria-prima para o seu fio de linho
foi colhida nos campos da imaginação humana.
Séculos de agricultura, décadas de diligente
seleção e o trabalho de numerosos corações e
mãos entraram na colheita, na separação e na
fiação desse fio resistente. Além disso, nem sequer
teremos que correr os riscos da aventura sozinhos;
pois os heróis de todos os tempos nos precederam;
o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas
que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde
pensávamos encontrar uma abominação,
encontraremos uma divindade; onde pensávamos
matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde
pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o
centro da nossa própria existência; e onde
pensávamos estar sozinhos, estaremos com o
mundo inteiro. (Joseph Campbell – O Herói das Mil
Faces.)
Referências
• CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
• _____. O Herói de Mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1994.
• JUNG, Carl G. Símbolos da Transformação. Petrópolis: Vozes, 2012.
• _____. O Homem e seus Símbolos. Editora Nova Fronteira. 2ª Edição:
Rio de Janeiro, 1985.
• NEUMANN, Erich. História da Origem da Consciência. São Paulo:
Cultrix, 2014

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