Você está na página 1de 29

PERSPECTIVA HISTÓRICA DO Katia Voigt

CRP
CONCEITO DE SINCRONICIDADE Eduardo Sautchuk
Gabriel Santiago
1º Encontro - Curso de Sincronicidade Gustavo Staidel
1
O QUE LEVOU JUNG À SINCRONICIDADE?
Grande hesitação antes de escrever sobre o tema
Jung afirma que são dois os principais motivos que o fizeram
escrever:
A frequência de suas experiências clínicas e pessoais com fenômenos
do tipo
As várias referências que ele tinha feito em sua obra à essa ideia
Não é uma tentativa de explanar definitivamente o assunto

2
O QUE LEVOU JUNG À SINCRONICIDADE?
Relativização da ideia de causalidade, encarava-a como
um ponto de vista condicionado historicamente
Descobertas da física na época
Preocupação em estudar os fenômenos extraordinários
que fogem à normalidade estatística

3
BREVE DEFINIÇÃO DE JUNG
Os eventos sincronísticos estão além da noção de acaso ou
de manifestações de probabilidade
A sincronicidade é colocada por Jung como uma
coincidência significativa, uma conexão acausal, que na
experiência subjetiva apresenta um caráter numinoso
(JUNG, 1952/2014)

4
A PRODUÇÃO DE JUNG SOBRE SINCRONICIDADE
Segundo Cambray (2013), a primeira referência de Jung
a esse conceito é feita em 1928
Ano em que recebe o exemplar de “O segredo da flor de
ouro”, enviado por Richard Wilhelm
Jung cita o I Ching em um seminário de sonhos
Começa uma aproximação de Jung e o pensamento chinês

5
A PRODUÇÃO DE JUNG SOBRE SINCRONICIDADE
Aproximação inicial baseada em experiências clínicas,
principalmente sonhos e eventos relacionados
Apoio no pensamento oriental, ciência ocidental
insuficiente
No fim de 1929, Jung está usando o termo sincronicidade
abertamente no seminário
Nada específico veio a público até 1951
Palestra em Eranos “Sobre a sincronicidade”
6
A PRODUÇÃO DE JUNG SOBRE SINCRONICIDADE
Ensaio “Sincronicidade: um princípio de conexões
acausais” publicado em 1952
Hoje está incluído nas Obras Completas, vol. 8/3
Originalmente publicado em coautoria com Wolfgang
Pauli, fator importante para a publicação
“The Interpretation of Nature and Psyche”, traduzido para
o inglês em 1955

7
(WOLFGANG PAULI)
Pauli foi um dos pioneiros da Física Quântica, juntamente
com Niels Bohr e Werner Heisenberg
Ganhador do Nobel em 1945, indicado por Einstein
O princípio de exclusão ou princípio de Pauli (spin do
elétron)
Colaborou intensamente no desenvolvimento do conceito
da sincronicidade com Jung

8
(PAULI & JUNG)
Pauli enfrentou uma crise no fim da década de 30
Consultou-se com um colega de Jung supervisionado pelo
mestre durante 8 meses
Passou a estudar a teoria de Jung e criticar suas bases,
colaborando para o esclarecimento da sincronicidade
+400 sonhos de e imaginações ativas Pauli são a base da
Parte II de Psicologia e Alquimia
As cartas entre eles de 1932-1958 foram publicadas (MEIER,
2001)
9
CONTEXTO HISTÓRICO
Sincronicidade é resultado do impacto do pensamento
oriental
Críticas epistemológicas do pensamento ocidental feitas
por Hume e Kant
Avanços da Física quebrando paradigmas clássicos
Incorporação da sabedoria da antiguidade no
pensamento do Ocidente

10
CONTEXTO HISTÓRICO
Jung entendeu que a causalidade não é absoluta
Voltou-se ao estudo das formas de pensamento não-
causais
Mergulhou na Astrologia, oráculos orientais, Tarô e
processos medievais de adivinhação
Estes métodos não são respeitados na cultura científica
ocidental
Foi alvo de crítica e chacota
11
CONTEXTO HISTÓRICO
Jung acreditava que era esse o caminho para entender os
mecanismos do inconsciente
Persistiu apesar do desprezo do meio acadêmico
Jung trabalhou experimentalmente com sua ideia,
observando-a na prática
Foi assim durante mais de 20 anos antes de escrever seu
ensaio

12
CONTEXTO HISTÓRICO
A teoria da relatividade de Einstein revolucionou a noção
de origem do Universo
Ascensão das teorias da relatividade e quântica
Física como principal área do saber do séc. XX
Influenciou muitos pensadores da época
Jung queria articular essas novas ideias com sua teoria

13
CONTEXTO HISTÓRICO
Jung tentava se utilizar da linguagem da física, bem como
encaixar a linguagem da psicologia
Jung se modificou pelo contato com Pauli e outros físicos,
como Einstein
Tentava lidar com cosmogonia e modelos evolutivos
A teoria da sincronicidade procura oferecer um conceito
universal
Uma noção compensatória da causalidade
14
CONTEXTO HISTÓRICO
Jung foi muito influenciado pela relatividade geral e
especial de Einstein
Essa teoria configura ao tempo e espaço um aspecto
relativo
Dá espaço à ideia de que uma condição psíquica possa
transcender essas duas grandezas fundamentais

15
CONTEXTO HISTÓRICO
Para Cambray (2013, p. 39):
“[Jung] estava tentando criar uma teoria do mundo,
baseando-se no conceito de arquétipo psicoide como o
ponto originário do qual os domínios subjetivo e objetivo
emanam”

16
(STEPHEN HAWKING)
“Einstein estava errado quando ele disse ‘Deus não joga
dados’. As considerações acerca de buracos negros
sugerem que Deus não apenas joga dados, mas que às
vezes ele nos confunde jogando os dados onde não podem
ser vistos”
HAWKING, Stephen. The Nature of Space and Time, 1996.
Hawking morreu hoje, dia 14/03, no aniversário de Einstein

17
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
Jung discorre sobre o pensamento chinês, impregnado
pela ideia do Tao
A tradução preferida de Jung para o termo Tao é
“sentido”
Tao – pensamento oriental x Causalidade – pensamento
ocidental
Lao-Tsé define a natureza do Tao como “nada” para
indicar sua oposição ao mundo da realidade
18
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
“Trinta raios envolvem um meão:
Mas é do nada que decorre o efeito do carro
[literalmente: utilidade]
Transformamos pratos e panelas em vasilhas:
Mas é do nada que decorre o efeito da vasilha.
Lavramos portas e janelas para uma sala,
Mas é do nada que decorre o efeito da sala.
Por isto: se alguma coisa produz a realidade,
É o nada que produz o efeito” (Tao Te King, cap. 11)
19
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
Jung diz que Tao é “nada” porque não pode ser
percebido no mundo dos sentidos
É um aspecto de organização desse mundo, que não pode
ser percebido concretamente
Jung também cita o pensamento de Hipócrates (conhecido
como pai da medicina)

20
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
“Um só confluir, um só conspirar (conflatio), tendo todas as
coisas um só sentimento. Tudo considerado sob o aspecto
da totalidade, mas as partes existentes em cada parte
consideradas com vistas à ação. O grande princípio se
estende até à parte mais remota e da parte mais remota
se alcança o grande princípio: uma só natureza, o ser e o
não ser” (De alimento. Um tratado atribuído a Hipócrates,
p.79s. Em JUNG, 1952/2014, p. 80)

21
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
Alguns pensadores que Jung (1954/2014) cita:
Paracelso – alquimista (séc. XVI);
Kepler – matemático, astrônomo e astrólogo (séc. XVI-
XVII);
Schopenhauer – filósofo alemão (séc. XIX);
Leibniz – matemático e filósofo (séc. XVII).

22
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
Leibniz é muito importante na história da matemática e da
filosofia, tem trabalhos em diversas áreas
Participou da invenção da 1ª calculadora produzida em massa
Inventor do cálculo integral e diferencial independentemente de
Newton
Contribuiu ao sistema binário
Um dos grandes racionalistas, junto com Spinoza e Descartes
Importantes trabalhos em metafísica
Considerado um pioneiro da psicologia
23
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
Leibniz afirma que a causalidade não é um ponto de vista
único e sequer dominante
“A natureza própria de cada substância implica que o
que acontece a uma corresponda ao que acontece a
todas as outras, sem que ajam imediatamente umas sobre
as outras” (Discurso de Metafísica, cap. XIV)
Causalidade se torna dominante no séc. XVIII, no séc. XIX
a magia do mundo antigo parece ter se perdido
24
PRECURSORES DA SINCRONICIDADE
Leibniz apresenta a ideia de harmonia preestabelecida, um
sincronismo entre eventos psíquicos e físicos que ficou
conhecido como paralelismo psicofísico
Jung admite a possibilidade de sincronicidade ser uma forma
de interação que permeia toda a existência, não apenas um
fenômeno raro extraordinário
Mônadas de Leibniz:
 Um microcosmo que contém, em si, a totalidade da existência
 Um espelho vivo e eterno do universo
 As almas dos organismos vivos
25
APÓS JUNG
Vários autores citam ou comentam a sincronicidade
Poucos continuam o desenvolvimento do tema e se debruçam
sobre ele
Ira Progoff – Jung, Sincronicidade e Destino Humano (1989)
Aniela Jaffé – Ensaios sobre a psicologia de Jung (1988)
Marie-Louise von Franz – Adivinhação e Sincronicidade (1980);
Número e Tempo (1974); Reflexos da Alma (1992); Psyche and
Matter (2001); Algumas reflexões sobre a sincronicidade, em: A
Sincronicidade, a alma e a ciência (1994).
26
APÓS JUNG
Atualmente a produção é escassa, principalmente no Brasil
Há notáveis trabalhos com viés transdisciplinar
Cambray é a referência atual no assunto, com seu livro
“Sincronicidade: natureza e psique num universo
interconectado” (2013)
Outro autor é Main, com seu livro “The Rupture of Time”
(2004), discutindo a relevância da sincronicidade para
Jung e para nós, ocidentais
27
APÓS JUNG
A sincronicidade e o pensamento do significado parecem
ser assuntos evitados
Considera-se ultrapassado e não-científico
A psicologia de Jung é que vem questionar o paradigma
da causalidade, evidenciar que não é suficiente
Para entender o extraordinário, é necessária uma nova
perspectiva: a sincronicidade

28
BIBLIOGRAFIA RELEVANTE
CAMBRAY, Joseph. Sincronicidade: Natureza e psique num universo interconectado. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2013.
FRANZ, Marie-Louise von. Number and Time. Studies in Jungian Thought. U.S.: Northwestern University
Press, 1974.
FRANZ, Marie-Louise von. Algumas reflexões sobre a sincronicidade. In: A Sincronicidade, a alma e a
ciência. Lisboa: Instituto Piaget, 2008. p. 177-200.
______. Adivinhação e Sincronicidade. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1991.
JAFFÉ, Aniela. “Fenômenos Sincronísticos”. Em: Ensaios sobre a psicologia de C. G. Jung, p. 24-47. São
Paulo: Cultrix, 1988.
JUNG, Carl G. Sincronicidade. OC 8/3. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 1952/2014.
MAIN, Roderick. The Rupture of Time: Synchronicity and Jung’s critique of modern Western culture.
New York: Brunner-Routledge, 2004.
MEIER C. A. (org.). Atom and Archetype: The Pauli/Jung Letters, 1932-1958. Princeton, N. J.: Princeton
University Press, 2001.
PROGOFF, Ira. Jung, Sincronicidade e Destino Humano. São Paulo: Cultrix, 1989.
29