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Os Maias
Episódios da vida romântica
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Arquitetura de Os Maias: o título

A estrutura d’Os Maias é, desde logo, anunciada, no título e no subtítulo da obra.

I - O Título - Os Maias - reporta-se à história da família Maia ao longo de


três gerações.

 Primeira geração: a de Afonso da Maia, nascido antes do


século XIX, vítima do Portugal miguelista.

 Segunda geração: a de Pedro da Maia, representante da fase de


instauração do Liberalismo.

 Terceirageração: a de Carlos da Maia, representante da


decadência dos ideais liberais.
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Arquitetura da obra | as intrigas
O romance Os Maias, título que remete para o estudo desta família fidalga, apresenta
duas intrigas:

A intriga secundária que, organizada em torno da relação amorosa de Pedro da Maia e


Maria Monforte, narra a história da segunda geração dos Maias.

Estrutura da intriga secundária:


 Pedro conhece Maria Monforte;
 Namoro e casamento, desaprovados por Afonso da Maia;
 Rutura na relação entre pai e filho;
 Lua-de-mel em Itália e Paris;
 Nascimento de Maria Eduarda e de Carlos Eduardo;
 Fuga de Maria Monforte com o napolitano Tancredo que Pedro ferira
involuntariamente e que recolhera em sua casa. Maria leva a filha consigo,
deixando Carlos com o marido;
 Suicídio de Pedro;
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Arquitetura da obra: a intriga principal

A intriga principal narra os amores incestuosos entre Carlos da


Maia e Maria Eduarda (terceira geração dos Maias).
Estrutura da intriga principal:
 Carlos vê Maria Eduarda no peristilo do Hotel Central;
 Carlos trata a filha de Maria Eduarda e, assim, estabelecem uma crescente
intimidade;
 Carlos declara a sua paixão a Maria Eduarda e percebe que esta é recíproca;
 Consumação do incesto;
 Guimarães revela a Ega a identidade de Maria Eduarda;
 Carlos comete incesto, conscientemente;
 Afonso morre;
 Maria Eduarda parte para Paris;
 Carlos viaja pelo mundo e instala-se em Paris;
 Regressa a Portugal, passados dez anos, defendendo uma teoria de existência, o
fatalismo muçulmano.
+Arquitetura da obra: o subtítulo “Episódios
da Vida Romântica”

Em alternância com a intriga principal, desenrolam-se múltiplos episódios a que se


costuma chamar Crónica de Costumes da vida de Lisboa, que retratam os costumes, gostos,
tradições, divertimentos, aspetos sociais, questões políticas e educativas da sociedade
portuguesa da Regeneração, criticada pela apatia (passividade) e ociosidade em que vive e
pela ausência de espírito crítico.

Episódios da crónica de costumes (independentes da intriga):


jantar no Hotel Central (capítulo VI);
corridas de cavalos no hipódromo (cap. X);
jantar dos Gouvarinhos (cap. XII);
o jornalismo português do século XIX [Jornais “A Corneta do Diabo” e “A tarde”] (cap.
XV);
o sarau literário no Teatro da Trindade (cap. XVI).

NOTA: Existe uma relação entre a intriga e a crónica de costumes. Por exemplo, é no
Hotel Central que Carlos vê Maria Eduarda. No entanto, a crónica de costumes, como tem
autonomia em relação à intriga, constitui uma ação aberta, ao passo que a intriga principal,
uma vez que pressupõe desenlace, constitui uma ação fechada.
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Arquitetura de Os Maias

Ação

Aberta: crónica
Fechada: intriga de costumes
“Os Maias” “Episódios da
vida Romântica”

Principal Secundária Jantar no Hotel Central; corridas no


(Carlos e Mª (Pedro e Mª hipódromo; (...); Sarau no Teatro da
Eduarda) Monforte) Trindade; Epílogo.
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A arquitetura d'Os Maias |esquema

1 - Introdução (5 pp.): marco inicial da


ação; o Ramalhete; Afonso.

2 - Preparação (cerca de 85 pp.):


* a) juventude de Afonso;
* b) infância de Pedro;
* c) juventude, amores e suicídio de Pedro;
* d) infância e educação de Carlos;
* e) Carlos estudante em Coimbra;
* f) primeira viagem de Carlos.

3 - Ação (cerca de 590 pp.).

4 - Epílogo (cerca de 27 pp.):


* a) viagem de Carlos e do Ega (1877-78);
* b) cenas da estada de Carlos em Lisboa,
oito anos depois (1887).
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A estrutura trágica em Os Maias –
um sinal do afastamento das normas do romance naturalista

Uma das características fundamentais da intriga principal é a sua dimensão


trágica - a natureza e o percurso dos amores de Carlos e Maria Eduarda
constituem uma história bem à maneira das tragédias gregas:

1. O incesto (tema fulcral da tragédia grega Rei Édipo)

2. O destino (evocado variadas vezes)

3. Os presságios (presentes desde o início)

4. A evolução de uma fábula trágica:

Desafio (Hybris)  Peripécia  Reconhecimento (anagnórise)  Catástrofe


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A estrutura trágica em Os Maias (II)
um sinal do afastamento das normas do romance naturalista

 A feição de ação trágica fundamenta-se (segundo A. Machado da Rosa):


 nas características temáticas da intriga: tema clássico do incesto, de carácter de ocorrência
excecional;
 no papel do destino como força motriz: enquanto agente de destruição do protagonista, o
Fatum é a força motora que comanda os eventos conducentes à catástrofe final;
 na função dos presságios: numerosos ao longo da obra, representam esboços variavelmente
disfarçados da força do destino; apontam subtilmente para um desfecho que reúne a morte e a
angústia;
 no desenrolar da fabula trágica: presença de elementos fulcrais da tragédia clássica,
nomeadamente, da peripécia (revelações casuais de Guimarães a Ega), do reconhecimento
(Carlos é informado do seu laço familiar com Maria Eduarda) e da catástrofe (morte de
Afonso e irreversível separação de Carlos e Maria Eduarda).
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AS PERSONAGENS d’ “Os Maias”

 Os Maias apresentam um vastíssimo leque de personagens que poderão ser


analisadas de acordo com os seguintes critérios:
 Relevo (centralidade de Carlos);
 O modo de caracterização;
 A problemática da educação;
 A representatividade social.
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Personagens – síntese (I)
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Carlos da Maia (I)
“Era decerto um formoso e magnífico moço” (cap. IV, pág. 100)

 Privilegia-se uma CARACTERIZAÇÃO INDIRETA:


 Atrai a atenção do leitor a partir do capítulo III, desfrutando
de um lugar de relevo no universo dos Maias;
 Apresenta-se pelas suas ações, sendo os seus atributos
compreendidos gradualmente, de forma dinâmica (“os
caracteres só se podem manifestar pela ação”, [pág. 168]);
 É o resultado de três factores (perspetiva naturalista):
 Hereditariedade – “forte como os Maias”;
 Educação à inglesa (precetor Brown);
 Meio ambiente (apático e medíocre).
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Carlos da Maia (II)

 É o protagonista, rico, bem educado, culto, de gostos requintados,


que ilustra, em oposição à figura de Pedro, seu pai, o resultado da
educação à inglesa, transformando-se num gentleman; não teme o
esforço físico, é corajoso e frontal. Amigo do seu amigo, generoso,
mostra-se incapaz de uma canalhice. Sofre, no entanto, do grande
mal do diletantismo, ou seja, revela incapacidade de se fixar num
projeto sério.
 Os seus princípios morais toleram a sordidez do incesto, cuja ideia só
rejeita por via da repulsa física; nos amores foi sempre leviano.
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Carlos da Maia (III) – o falhanço
 Carlos falha não por causa da educação, mas apesar da educação

CARLOS DA MAIA
MEIO AMBIENTE - Lisboa
Força física dos Maias Regeneração
Educação Inglesa – força física e psicológica Marasmo
Ociosidade
Provincianismo
Mediocridade
MAS Agudização do dandismo e
FORTE
diletantismo de Carlos
VENCEDOR

VENCIDO
FALHADO
Carlos da Maia falha todos os projetos, pois é profundamente condicionado e
determinado pelo meio apático, medíocre e provinciano onde vive – a capital de
Portugal da metade do século XIX.
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Afonso da Maia | símbolo do velho Portugal
“quase um antepassado, mais idoso que o século” (cap. I, pág. 8)

 AFONSO DA MAIA
 Personagem simpática bastante valorizada por Eça de Queirós;
 Não se lhe conhecem defeitos, sendo um homem de caráter, culto e requintado nos
gostos, partidário das ideias liberais, que ama o progresso, que para ele não é uma
utopia romântica mas o fruto de um esforço sério;
 Não abdica de firmes princípios morais; é um modelo de autodomínio em todas as
circunstâncias; morre quando tem conhecimento dos amores incestuosos de seus
netos Carlos e Maria Eduarda;
 Representa o sonho de um Portugal impossível por falta de homens capazes. Vítima de
um ambiente social corrupto que não o compreende, passa a sua velhice em conversa
com os amigos e expendendo os seus juízos sobre a necessidade de renovação do país:
“Aos políticos menos liberalismo e mais carácter; aos homens de letras menos eloquência e mais
ideias; aos cidadãos em geral menos progresso e mais moral” (cap. XV, p. 574)
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Pedro da Maia
“tendo pouco da raça, da força dos Maias” (cap. I, pág. 22)

 PERSONAGEM NATURALISTA
 Reflete uma enorme instabilidade emocional que deixa antever uma psique pouco
equilibrada, fruto da hereditariedade e que a educação não corrigiu. Alia a valentia física à
cobardia moral (a reação do suicídio face à fuga da mulher).
 Era instável, boémio, dado a crises de devoção;
 “O Pedrinho (...) ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, (...); aparece como um
prolongamento físico e temperamental da mãe;
 “a sua linda face oval de um trigueiro cálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos
sempre a humedecer-se, faziam-no assemelhar a um belo árabe (...)”;
 “Era em tudo um fraco; e esse abatimento contínuo de todo o seu ser resolvia-se a espaços
em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarelo, com as
olheiras fundas e já velho. O seu único sentimento vivo, intenso, até aí, fora a paixão pela
mãe” (cap. I, pág. 22)
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Maria Eduarda Maia
“um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita” (cap. VI, pág. 161)

 PERSONAGEM HÍBRIDA
 Apresentada pela própria personagem em discurso indireto livre:
 “A casa da mamã, no Parque Monceaux, era na realidade uma casa de jogo – mas recoberta de um
luxo sério e fino. (...) A casa descaiu rapidamente numa boémia mal dourada e ruidosa. Quando ela
madrugava, com os seus hábitos saudáveis do convento, encontrava paletós de homens por cima dos
sofás;“ (cap. XV, pág. 516)
 O teor da confissão de Mª Eduarda prende-se, fundamentalmente, a dois factores de natureza
naturalista:
1. À referência de uma juventude desordenada e passada em ambientes algo duvidosos;
2. À explícita responsabilização desses ambientes e da companhia da mãe para explicar a sua vida
dispersiva e vivida ao sabor de amizades de circunstância.
 Por outro lado, o facto de se tratar de uma “confissão”, apresentando as premissas que justificam o
comportamento da personagem após a sua manifestação, colide com os princípios naturalistas, uma vez
que todo o rigor e cientifismo procurados pelos naturalistas está posto em causa pelo processo de
autocaracterização aqui evidenciado.
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Personagens – síntese (II)

 De um modo geral, as personagens da crónica de costumes são


planas ou desenhadas, isto é, personagens-tipo que representam
grupos, classes ou mentalidades e se movimentam em
determinados ambientes. São personagens estáticas, porquanto a
sua intervenção não sofre alterações, mesmo os gestos e a própria
linguagem (Dâmaso – “chic a valer”).

 As personagens da intriga, sobretudo CARLOS, Afonso e Ega,


devido à sua complexidade, densidade e conflito interior, são
personagens modeladas ou redondas. São, pois, dinâmicas, uma
vez que evoluem no decurso da ação.
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A problemática da educação

 De acordo com Alexandre Albuquerque, “em Os Maias existem quatro


tipos de educação:
 A de Pedro da Maia, sob a asa excessivamente carinhosa e sufocante da
mãe;
 A de Carlos da Maia, sob a disciplina férrea do avô, que se quer redimir de
lamentável transigência com a educação do filho;
 A de João da Ega, com todo o desleixo vulgar da nossa terra;
 A de Eusebiozinho, educação esprimidinha e molenga, debaixo das saias
das tias.

 A falhada educação do filho é apresentada para justificar a dura


educação do neto. Também para valorizar tal orientação se apresenta
a educação lamecha de Eusebiozinho. A própria educação de João da
Ega, ao acaso, toda abandono e desleixo, tem o fim de ressaltar a
seriedade da educação de Carlos da Maia.”
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A problemática da educação (II)

 A crítica à educação é feita através do paralelismo entre três


personagens:

 PEDRO DA MAIA, recetor de uma educação à portuguesa, retrógrada e com uma


imposição rígida de devoção religiosa, aprendizagem do latim com práticas
pedagógicas fossilizadas. Fuga ao contacto direto com a natureza e o mundo prático.

 CARLOS DA MAIA, fruto de uma educação à inglesa, onde se privilegiava o


contacto com a natureza, o exercício físico, a aprendizagem de línguas vivas, o
desprezo pelos valores pessimistas e por um conhecimento meramente teórico.

 EUSEBIOZINHO, com uma educação retrógrada e ultrarromântica, muito religiosa,


que o tornou fisicamente débil, apático e corrupto.

 Note-se: as três personagens falharam na vida!


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A problemática da educação (III)
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Espaço Físico (I) – o Ramalhete
“Pois fatais foram!” (cap. XVII, pág. 689)

 “A casa que os Maias vieram


habitar em Lisboa, no Outono de
1875, era conhecida na
vizinhança da rua de S. Francisco
de Paula, e em todo o bairro das
Janelas Verdes, pela casa do
Ramalhete ou simplesmente o
Ramalhete.” (cap. I, p. 7)

 "eram sempre fatais aos Maias


as paredes do Ramalhete” (cap. I,
p. 9)
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O Espaço – físico (II)

 São variados e relacionam-se, sobretudo, com o percurso do


protagonista.

 Espaços geográficos privilegiados:


 SANTA OLÁVIA – infância e educação;
 COIMBRA – formação académica, juventude e primeiras aventuras
amorosas, documentando a feição ainda romântica da sua mentalidade;
 LISBOA – desenvolvimento da ação após a formatura e regresso da sua
“longa viagem pela Europa”;
 Sintra (apesar de não relevante para a intriga principal).
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Espaço físico (III)

 Eça, enquanto escritor realista, valoriza o meio urbano e os


espaços interiores, já que, segundo esta escola literária, há uma
interação entre o homem e o ambiente que o rodeia:

 Principais espaços interiores, onde sobressai a análise dos


comportamentos:
 Ramalhete – escritório de Afonso, quarto de Carlos e jardim;
 Toca – quarto;
 Vila Balzac – excentricidade de Ega;
 Consultório de Carlos, cujos pormenores de luxo requintado revelam o
“dandy”.
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Espaço físico (IV)

 A descrição de micro-espaços físicos revela um significado


metonímico quando associados às personagens mais relevantes:

CARLOS
Ramalhete

Micro-espaços:
Mª EDUARDA acentuam as suas características
H. Central; psicológicas, culturais e sociais, EGA
Rua S. Francisco; bem como o seu envolvimento Vila Balzac
Toca numa intriga trágica
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Espaço físico (V)

 Segundo Carlos Reis, “Os grandes espaços geográficos d’ Os Maias


constituem sobretudo motivo para a representação de atributos
(mentalidades, vícios, esquemas culturais, etc.) inerentes ao espaço
social.”

OBJETIVO: LISBOA:
representar criticamente • Espaço de centralidade da
a sociedade portuguesa nação portuguesa;
da 2.ª metade do século • Polariza a vida política e
XIX económica do país, a
literatura, a diplomacia e o
jornalismo;
• Uma vida de corrupção,
decadência e mediocridade
mental.
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TEMPO
“Chegara esse Outono de 1875:” (cap. IV, 100)
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TEMPO
“Chegara esse Outono de 1875:” (cap. IV, 100)
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O Narrador

 PRESENÇA:
 O narrador é predominantemente heterodiegético, tratando-se de uma
entidade exterior à história; relata os acontecimentos sem os viver.

 FOCALIZAÇÃO:

 Focalização omnisciente – dominando um conhecimento absoluto


da ação, o narrador adota a focalização omnisciente nos primeiros
capítulos: renovação do Ramalhete; juventude de Afonso; educação
de Pedro; suicídio de Pedro; formação de Carlos em Coimbra.

 Focalização interna – sendo privilegiada a partir do capítulo IV, o


narrador utiliza esta perspetiva para observar a realidade e contar os
acontecimentos de acordo com o olhar da personagem que mais lhe
convém.
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O Narrador (II) - síntese

Modalidade de Quem O que é perspetivado... Capítulo de


perspetiva narrativa perspetiva referência
Focalização NARRADOR • A reconstrução do Ramalhete;
• A figura de Afonso da Maia;
omnisciente • A infância e a juventude de Carlos I
• O comportamento diletante de Carlos II
• Retrato de Ega;
IV
• O retrato de Eusebiozinho
• O retrato de Dâmaso

Focalização interna VILAÇA A educação de Carlos em oposição à de


(PAI) Eusebiozinho
III

Focalização interna CARLOS Maria Eduarda:


• no peristilo do Hotel Central A partir do cap.
• no Aterro IV até ao final (à
Episódios integrados na crónica de exceção do cap. XVI)
costumes

Focalização interna EGA Episódios nos jornais: XV


• A Corneta do Diabo;
• A Tarde.
Ramalhete fechado XVI
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A linguagem e estilo queirosianos

• Eça de Queirós recorre à descrição minuciosa e detalhada não só de personagens, mas


também de espaços;
• A captação da realidade é realizada através de traços impressionistas, ou seja, valorizando a
impressão pura, a percepção imediata, rápida e pouco exata;
• A cor e a luminosidade, bem como os contornos esfumados são privilegiados na descrição
impressionista.

• EXEMPLOS:
• a anteposição das características do objeto a ele próprio para lhe dar cor:“Uma alvura de saia
moveu-se no escuro”;
• as percepções inesperadas, diferentes, traduzindo, por vezes, ironia:“Majestosa e obesa”;
• a frequência da hipálage - transposição de um atributo do agente para a ação:“sempre um
vago martelar preguiçoso”.
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A linguagem e estilo queirosianos (I)

Recurso à adjetivação expressiva, ao serviço da ironia, dupla, tripla,


superlativada:
 EXEMPLOS:
• “Dâmaso era interminável, torrencial, inundante a falar das suas
conquistas,”
• “A noite estava tépida, estrelada e sereníssima”

Funciona como elemento caracterizador das personagens, sendo, ainda,


uma forma de criticar e satirizar.
 EXEMPLOS:
• “o Eusebiozinho, (...) com o craniozinho calvo de sábio (...) de perninhas
bambas”
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A linguagem e estilo queirosianos (III)

Atua de uma maneira dupla tal como o adjetivo. Toma


funções de atributo e a sua ação alcança o sujeito ou o
objeto.

 EXEMPLOS:

• “ora na Europa o homem não ri – sorri regaladamente, lividamente”

• “amo-te, adoro-te, doidamente, absurdamente até à morte”

• “falou de ti constantemente, irresistivelmente e moderadamente”


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A linguagem e estilo queirosianos (IV)

Este não oferece a mesma maleabilidade do adjetivo e do advérbio mas, tal


como o nome, permite o uso alternativo de dois sentidos: o normal
(denotativo) e o figurado (conotativo).

É usado com valor hiperbólico, com valor caricatural, no gerúndio, servindo o


efeito da crítica.
 EXEMPLOS:
• “mordia um sorriso”;
• “gouvarinhar” (neologismo);
• “O Dâmaso (...) de flor ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com
o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto e feliz.”
• “rosnar”
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A linguagem e estilo queirosianos (V)

Recurso privilegiado de fazer ouvir falar as personagens e pensar as


personagens.

Além de tornar os monólogos interiores mais ligeiros e amenos, alivia e afasta a


monotonia do paralelismo do diálogo.

 EXEMPLOS:
• “- Estás típico, Alencar! Estás a preceito para a gravura e para a estátua!
O poeta sorria, passando os dedos com complacência pelos longos bigodes românticos,
que a idade embranquecera e o cigarro amarelara. Que diabo, algumas compensações
havia de ter a velhice!... E em todo o caso o estômago não era mau e conservava-se,
caramba, filhos, um bocado de coração.”
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A linguagem e estilo queirosianos (VI)

 Aliteração:“...passos lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete”

 Comparação:“...dois braços ameaçadores como duas trancas”

 Assíndeto:“tinha asma, tinha pedra, tinha gota”

 Ironia:“os dois amigos beberam o champagne que Jacob arranjou ao Ega,


para Ega se regalar com a Raquel”

 Personificação:“...os repuxos cantavam alto no silêncio da morte”

 Hipálage:“fumava um pensativo cigarro”

 Sinestesia:“... transparentes de um escarlate estridente”


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Episódios da vida romântica (I)

Ambiente
Classe social
caracterizado Crítica
visada
por...

Hotel Central • Ociosidade • À literatura Alta sociedade


(cap. VI) • Futilidade • À crítica lisboeta
• Valorização literária
do • Às finanças
estrangeiro • à mentalidade
retrógrada
 Exageros do ultrarromantismo – Alencar;
 Distorção das teses naturalistas – Ega;
 Crítica literária – Ega/ Alencar (Craveira)
 Irresponsabilidade e incompetência do diretor do Banco Nacional -
Cohen
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Episódios da vida romântica (II)

Ambiente
Classe social
caracterizado Crítica
visada
por...
Corridas de • Inadequação do • À imitação do Alta sociedade
espaço estrangeiro; lisboeta
Belém
• Feição provinciana • Ao provincianismo;
(cap. X) • Falta de motivação • Ao mau gosto;
• Contraste entre o • Ao “postiço”
ser e o parecer
• Inadequação dos
comportamentos
 Representam, na Lisboa quase finissecular, um esforço desesperado de
cosmopolitismo, concretizado, no entanto, à custa de uma imitação do
estrangeiro;
 Permite lançar uma visão panorâmica sobre a alta sociedade lisboeta
(incluindo o próprio rei), estando esta dominada pela monotonia e
improvisação durante o evento.
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Episódios da vida romântica (III)

Ambiente
Classe social
caracterizado Crítica
visada
Sarau no por...
Teatro da • Superficialidade • Aos Alta sociedade
dos temas e das comportamentos lisboeta
Trindade conversas; “postiços”;
(cap. XVI) • Valores do • À permanência dos
ultrarromantismo; valores do
• Ignorância da ultrarromantismo.
classe dirigente.
 Superficialidade do pensamento da classe política (oratória oca, vazia de
Rufino);
 Alheamento perante a música tocada por Cruges;
 Crítica à poesia ultrarromântica mascarada de lirismo piegas e de
conotações sociais (Alencar)
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Episódios da vida romântica (IV)
Ambiente Classe social
Passeio caracterizado por...
Crítica
visada
final de
• Subdesenvolvimento; • À estagnação de Alta sociedade
Carlos e Portugal; lisboeta
• Ociosidade;
Ega em • À falta de
• Ridículo.
Lisboa originalidade
• À incapacidade
(cap. XVIII)
de evoluir
 Funciona como epílogo do romance, dez anos depois de encerrada a
intriga, e quando Carlos visita Lisboa, vindo de Paris, imbuído de grande
pessimismo;
 Assume um carácter simbólico: os espaços que atravessam têm profundas
conotações históricas e ideológicas (a desilusão com o presente liberal,
com um Portugal que cristalizou na mera contemplação passiva de um
passado glorioso);
 O diálogo final, enquanto epílogo ideológico, abarca o nível da intriga e o
da crónica de costumes: desiludidas com uma existência marcada pela
tragédia e pelo falhanço social, às duas personagens resta apenas a opção
do fatalismo que é, ao mesmo tempo, a da descrença nas suas próprias
possibilidades. (note-se aqui a negação radical do Naturalismo determinista)
+
“Os Maias”:
“E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:

- Ainda o apanhamos!

- Ainda o apanhamos!”