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A doutrina bíblica da

Santificação
1 Tessalonicenses 5.23
Sabemos que é muito comum em círculos
religiosos e mesmo da cristandade o
ensino da "doutrina" do perfeccionismo. Os
proponentes desse tipo de afirmação estão
convencidos que é possível alcançar a
perfeição religiosa nessa vida. Este ensino
pode ser ouvido em suas várias formas
entre os pelagianos, romanistas,
semipelianos, arminianos e em algumas
seitas místicas. Mas o que a bíblia ensina
sobre a santificação? É possível realmente
alcançarmos a perfeição religiosa nessa
existência?
Como o assunto em questão é de
suma importância para a igreja
não devemos apresentá-lo
superficialmente. Ao contrário, nos
remeteremos ao original hebraico
e grego para aprendermos o
verdadeiro significado do verbo
santificar e do substantivo
santificação.
Definição vocabular
O verbo hebraico que geralmente traduz
“santificar” é “ ‫(” קדש‬qadash). Este termo
ocorre em torno de 170 vezes no hebraico
bíblico e em todos os períodos do idioma.
No radical primário, o verbo significa um
ato por meio do qual- ou um estado no
qual- pessoas ou coisas são separadas
para o uso na adoração a Deus( ver Vine,
p.277-280).
Louis Berkhof em sua Teologia Sistemática
argumenta que realmente o verbo no Antigo
Testamento usado para “santificar” é “qadash”
e o substantivo correspondente seria
“qodesh”, ao passo que ainda segundo
Berkhof o adjetivo seria “qadosh”. O teólogo,
todavia, tem consciência que o significado
original dessas palavras é incerto. Mas lembra
que alguns estudiosos são da opinião que o
vocábulo qadash é relacionado com chadash,
significando “brilhar”.
O que segundo ele estaria em harmonia com o
aspecto qualitativo da ideia bíblica de
santidade, a saber, a de pureza. Berkhof
também observa que esses vocábulos podem
ter derivado da raiz “qad”, significando
“cortar”. O que segundo ele faria da ideia de
separação a ideia original. A palavra indicaria,
então, segundo Berkhof, isolamento,
separação, ou majestade. E ele conclui:
Embora esta significação das palavras
“santificação” e “santidade” possa parecer-nos
inusitada, é, com toda a probabilidade, a ideia
fundamental expressa por elas.
O primeiro uso de qadash neste
radical enfoca um ato (ver Êx.
29.21): ַ‫ ( וְקקדדש‬e será consagrado).
O uso do radical de qadash como
estado aparece em Êx. 29.37: “
‫( ”ְלדקְדשו‬para o consagrar dele).
O radical desse verbo hebraico também
é empregado para se referir a algo ou
alguém em estado reservado
exclusivamente para Deus (ver Êx
13.2):
‫ ( דקדדשֶּ־ׁלי י‬consagra para mim).
Assim podemos afirmar que o
sentido do verbo ‫ קדש‬é:
Algo ou alguém
consagrado ou separado
para Deus
No Novo Testamento o verbo grego
para “santificar” é “ἁγιαζω” que
tem o mesmo significado do verbo
hebraico: “dedicar ao serviço de
uma divindade e à fidelidade para
como ela” (Cf. Johannes Louw-
Eugene Nida. p.479).
O verbo grego enfatiza o fato de
algo ou alguém consagrado a
Deus( ver 1 Co 1.2 e Hb 12.14).
ἁγιαζω aponta para algo ou
alguém que foi separado de
coisas profanas e consagrado
para a possessão e uso divino(
Hb 10.10)
Segundo Berkhof esse verbo é derivado de
“hagios”, que, como a palavra hebraica
“qadosh”, expressa primariamente a ideia
de separação. Ele observa que tal
vocábulo é empregado em vários sentidos
diferentes no Novo Testamento: “Podemos
distinguir os seguintes:
(1) É empregado num sentido mental, com
referência a pessoas ou coisas, Mt 6.9; Lc
11.2; 1 Pe 3.15.
Em casos como esses, significa “considerar um
objeto como santo”; “atribuir santidade a”, ou
“reconhecer sua santidade por palavra ou
ato”.

(2) Também é empregado, ocasionalmente,


num sentido ritual, isto é, no sentido de
“separar do ordinário para propósitos
sagrados”, ou de “por de lado para certo
ofício”, Mt 23.17, 19; Jo 10.36; 2 Tm 2.21.
(3) É empregado ainda para denotar
a operação de Deus pela qual Ele,
especialmente por intermédio do
Seu Espírito, produz no homem a
qualidade subjetiva da santidade,
Jo 17.17; At 20.32; 26.18; 1 Co
1.2; 1 Ts 5.23.
Santificação é uma mudança progressiva em
nosso caráter
A santificação é uma transformação
progressiva dentro de uma consagração
que se mantém, e que produz uma justiça
real emoldurada pela santidade relacional.
A santidade relacional, o estado de estar
permanentemente separado para Deus,
emana da cruz, onde Deus por meio de
Cristo nos comprou e reivindicou para si
mesmo.
A renovação moral, pela qual estamos
mudando de modo crescente em relação
àquilo que fomos, decorre da agência do
Espírito Santo em Nossos corações ( Rm
8.13; 12.1,2; 1 Co 6.11, 19,20; 2 Co 3.18;
Ef. 4.22-24; 1 Ts 5.23; 2 Ts 2.13; Hb
13.20,21). Deus chama seus filhos para a
santidade e dá-lhes graciosamente o que
Ele ordena (1 Ts 4.4; 5.23)”. ( J. I.
Packer).
Regeneração e santificação
É importante não confundirmos Regeneração com
Santificação. A primeira, como observa J. I.
Packer é nascimento; a segunda, crescimento.
Na regeneração “Deus implanta desejos onde antes
não havia: desejo de Deus, de santidade e
glorificação do nome de Deus neste mundo;
desejo de orar, adorar, amar, servir, honrar e
agradar a Deus; desejo de demonstrar amor e
prestar benefício aos outros. Na santificação, o
Espírito Santo "efetua em vós tanto o querer
como o realizar", de acordo com o propósito de
Deus; o que Ele faz é inspirar a "desenvolver a
vossa salvação" (isto é, expressá-la em ações)
pela realização desses novos desejos (Fp
2.12,13)”.
Afirmamos, portanto, que a Regeneração foi
um ato exclusivamente divino para
despertar os espirituais mortos. A
santificação, contudo, é, um processo
cooperativo em progressão, no qual as
pessoas regeneradas, vivas para Deus e
libertas do domínio do pecado (Rm
6.11,14-18), são solicitadas a manifestar
sólida obediência a Deus.
A Santificação não deve ser confundida com uma
mera reforma moral
Charles Hodge argumenta que ao expormos, em
conformidade com as Escrituras, a santificação como uma
obra sobrenatural, ou como uma obra da graça, a igreja
busca negar a doutrina pelagiana ou racionalista que a
confunde com mera reforma moral. Hodge ainda observa:
“Tampouco se deve confundir a santificação com os
efeitos da cultura ou disciplina moral. É possível como
demonstra a experiência, que mediante uma cuidadosa
instrução moral afastar os jovens de toda influência
contaminadora e criá-los de baixo das influências
formadoras de princípios retos e de boas companhias,
preservando-os de muitos males do mundo, tornando-os
semelhantes ao jovem no evangelho a quem Jesus amou.
Esta instrução não deve ser menosprezada. É ordenada na
Palavra de Deus. Porém não pode mudar a natureza” .
Santificação é a obra progressiva de Deus que
torna o homem mais e mais livre do pecado

Wayne Gruden fala da Santificação como uma


obra progressiva de Deus e do homem que
nos torna mais e mais livres do pecado e
iguais a Cristo.
Grudem ainda apresenta um gráfico onde
destaca a diferença que há entre
justificação e santificação:
Justificação: Santificação:

(a) Posição legal (a) Condição interna


(b) Ocorre uma só vez (b) Continua pela vida
afora
(c) Inteiramente obra de Deus (c) Nós cooperamos
(d) Perfeita nesta vida (d) Não perfeita nesta
vida
(e) A mesma em todos os cristãos (e) Maior em uns que em
outros
Vicent Cheung dá a seguinte definição de
santificação: “A palavra santificação pode
ser usada em dois sentidos. Santificação
Definida refere-se à quebra instantânea e
decisiva do domínio do pecado quando o
novo crente chega à fé em Cristo.
Deus o consagrou e o separou do mundo. O
outro sentido é Santificação Progressiva,
que se refere ao crescimento gradual do
crente em conhecimento e santidade, de
forma que tendo recebido a justiça legal
na justificação, ele pode agora
desenvolver uma justiça pessoal em seu
pensamento e comportamento”.
Cheung ainda faz um alerta: “Algumas
pessoas cometem o engano de pensar que
a santificação toda é como a justificação,
no sentido de ser um ato imediato de Deus
pelo qual ele nos faz alcançar a perfeita
santidade em pensamento e conduta e,
assim, inferindo que os verdadeiros
cristãos não mais cometem pecados de
forma alguma.
Entretanto, embora ela tenha um ponto
definido de começo na regeneração, a
bíblia descreve a santificação como um
processo de crescimento, de modo que
alguém pense e se comporte cada vez
mais de uma forma que seja agradável a
Deus, e se conforme à semelhança de
Cristo”.
Os três estágios da santificação
Wayne Gruden fala de três estágios para a santificação.
1- A salvação tem um começo definido na regeneração.
Uma mudança moral ocorre em nossa vida no tempo
da regeneração, pois Paulo fala do "lavar
regenerador e renovador do Espírito Santo"(Tt3.5).
Uma vez que nascemos de novo, não podemos
continuar a pecar como o hábito ou como padrão de
vida (1Jo 3.9), porque o poder da nova vida espiritual
interior nos livra de fazer concessões à vida de
pecado. Essa mudança moral inicial é o primeiro
estágio na santificação.
2- A santificação aumenta durante nossa existência.
Muito embora o NT fale a respeito do começo da
santificação, ele também a vê como processo que
continua ao longo de toda a vida cristã. Esse é o
sentido primário no qual a santificação é usada na
teologia sistemática e no diálogo em geral entre
os cristãos hoje. Embora Paulo diga que seus
leitores tinham sido "libertados do pecado" (Rm
6.18) e que estavam "mortos para o pecado, mas
vivos para Deus em Cristo Jesus"(Rm 6.11), ele
reconhece que o pecado permanece em suas
vidas, de forma que lhes diz que não deixem o
pecador reinar nem ofereçam os membros do seu
corpo ao pecado(Rm 6.12,13).
A tarefa deles, portanto, como cristãos, é
crescer mais e mais em santificação,
exatamente como antes eles haviam
crescido mais e mais em pecado: “Assim
como vocês ofereceram os membros do
seu corpo em escravidão à impureza e à
maldade, ofereçam-nos agora em
escravidão à justiça que leva à
santidade(Rm 6.19).
3- A Santificação é completa na morte (em nossa
alma) e quando o Senhor voltar (em nosso corpo).
Porque há pecado que ainda permanece em nosso
coração, mesmo depois de termos nos tornado
cristãos (Rm 6.12,13; 1jo 1.8), a santificação
nunca será completa nesta vida. Mas uma vez que
morramos e vamos para o Senhor, então nossa
santificação é completada em um sentido, pois
nossa alma é liberta do pecado que habita em nós
e nos tornamos perfeitos. O autor de Hebreus diz
que, quando chegamos à presença de Deus para
adorar, nos achegamos “aos espíritos dos justos
aperfeiçoados" (Hb 12.23). Essa expressão é
apropriada porque ela é antecipação do fato de
que "jamais entrará algo impuro" na presença de
Deus, a cidade celestial (Ap 21.27).
Santificação difere de justificação
É importante ainda observarmos que a
Justificação difere da Santificação. A primeira
como argumenta Charles Hodge, é um ato
transitório e a segunda, uma obra progressiva.
A justificação modifica a relação do pecador com
a justiça de Deus; a santificação envolve
mudança de caráter. A primeira, portanto, é
objetiva, e a segunda, subjetiva.
Conclusão:
Quando percebemos, obeserva Gruden, que a santificação
envolve a pessoa toda, incluindo o corpo (V. 2Co 7.1; 1Ts
5.23), percebemos também que a santificação não será
inteiramente completada até que o Senhor retorne, quando,
então, receberemos novos corpos ressuscitados. Esse é o
sentido primário no qual a santificação é usada na teologia
sistemática e no diálogo em geral entre os cristãos hoje.
Embora Paulo diga que seus leitores tinham sido "libertados
do pecado" (Rm 6.18) e que estavam "mortos para o pecado,
mas vivos para Deus em Cristo Jesus"(Rm 6.11), ele
reconhece que o pecado permanece em suas vidas, de forma
que lhes diz que não deixem o pecador reinar nem ofereçam
os membros do seu corpo ao pecado(Rm 6.12,13). A tarefa
deles, portanto, como cristãos, é crescer mais e mais em
santificação, exatamente como antes eles haviam crescido
mais e mais em pecado: Assim como vocês ofereceram os
membros do seu corpo em escravidão à impureza e à
maldade, ofereçam-no agora em escravidão à justiça que leva
à santidade (Rm 6.19).