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funções

divinatórias
no culto gaulês

IX EBDRC
Rio de Janeiro
31/05 – 03/06/2018
Strábōn de Amáseia (64/63 aEC – c. 24 EC),
Geōgraphikā, “Geografia”, IV, §4:

Παρὰ πᾶσι δ᾽ ὡς ἐπίπαν τρία φῦλα τῶν τιμωμένων


διαφερόντως ἐστί, βάρδοι τε καὶ ὀυάτεις καὶ
δρυΐδαι: βάρδοι μὲν ὑμνηταὶ καὶ ποιηταί, ὀυάτεις δὲ
ἱεροποιοὶ καὶ φυσιολόγοι, δρυΐδαι δὲ πρὸς τῇ
φυσιολογίᾳ καὶ τὴν ἠθικὴν φιλοσοφίαν ἀσκοῦσι:
δικαιότατοι δὲ νομίζονται καὶ διὰ τοῦτο πιστεύονται
τάς τε ἰδιωτικὰς κρίσεις καὶ τὰς κοινάς, ὥστε καὶ
πολέμους διῄτων πρότερον καὶ παρατάττεσθαι
μέλλοντας ἔπαυον, τὰς δὲ φονικὰς δίκας μάλιστα
τούτοις ἐπετέτραπτο δικάζειν. ... ὅταν τε φορὰ
τούτων ᾖ, φορὰν καὶ τῆς χώρας νομίζουσιν ὑπάρχειν.
ἀφθάρτους δὲ λέγουσι καὶ οὗτοι καὶ οἱ ἄλλοι τὰς
ψυχὰς καὶ τὸν κόσμον, ἐπικρατήσειν δέ ποτε καὶ πῦρ
καὶ ὕδωρ.
Strábōn de Amáseia (64/63 aEC – c. 24 EC),
Geōgraphikā, “Geografia”, IV, §4:
Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três
grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os
Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores
sagrados e poetas, Vates, os que se ocupam das coisas do culto e
estudam a natureza, Druidas, que, além do estudo da natureza,
ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são
considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-
se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou
privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram
submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir
as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que
especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de
homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as
condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de
abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a
imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de
acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o
resto.
Strábōn de Amáseia (64/63 aEC – c. 24 EC),
Geōgraphikā, “Geografia”, IV, §4:

Em um único parágrafo, Strábōn nomeia os grandes blocos


que compunham o conjunto de conhecimentos cuja posse
era o privilégio da elite céltica:

I Humnōidia (poesia sacra): bardoi


II Poíēsis (outros gêneros literários): bardoi
III Hieropoia (administração/supervisão dos elementos do
culto): ouáteis
IIII Phusiología (estudo amplo da natureza): ouáteis kaì
druídai
V Ēthikē philosophiá (filosofia moral): druídai
Marcus Tullius Cicero (03/01/106 – 07/12/43 aEC): De
Diuinatione, “Da Divinação”, I, XLI, 90:
Eaque diuinationum ratio ne in barbaris quidem
gentibus neglecta est, siquidem et in Gallia Druidae
sunt, e quibus ipse Diuitiacum Haeduum hospitem
tuum laudatoremque cognoui, qui et naturae
rationem, quam fisiologian Graeci appellant, notam
esse sibi profitebatur, et partim auguriis, partim
coniectura, quae essent futura dicebat, [...]

E esse tipo de divinação não tem sido negligenciado


sequer pelas nações bárbaras, pois mesmo na Gália
há Druidas, dentre os quais eu próprio conheci
Divitiacus dos éduos, teu hóspede e que te louva em
suas palavras, o qual afirma possuir o conhecimento
da natureza que os gregos chamam fisiologia,
declarando prever o futuro parcialmente por meio de
augúrios e parcialmente pela conjetura [...]
“Filosofia natural” é uma tradução do latim philosophia naturalis,
que por sua vez traduz o grego phusiología < phusis (natureza,
origem) + lógos (palavra, ciência), “estudo das origens, ciência da
natureza”. “Filosofia natural”, expressão atualmente obsoleta, era o
estudo objetivo da natureza e do universo físico, designando a
reunião de astronomia, física, química e biologia e estreitamente
ligada à “teologia natural”, que sustenta o conhecimento do Divino
por meio da razão e da experiência ordinária do mundo e opõe-se à
“teologia revelada” (fundada em uma escritura).
Diódôros Sikeliôtes (séc. I aEC), Bibliothḗkē historikḗ,
“Biblioteca Histórica”, V, 31:
[1] αὐτοὶ δ᾽ εἰσὶ τὴν πρόσοψιν καταπληκτικοὶ καὶ ταῖς
φωναῖς βαρυηχεῖς καὶ παντελῶς τραχύφωνοι, κατὰ δὲ τὰς
ὁμιλίας βραχυλόγοι καὶ αἰνιγματίαι καὶ τὰ πολλὰ
αἰνιττόμενοι συνεκδοχικῶς: πολλὰ δὲ λέγοντες ἐν
ὑπερβολαῖς ἐπ᾽ αὐξήσει μὲν ἑαυτῶν, μειώσει δὲ τῶν
ἄλλων, ἀπειληταί τε καὶ ἀνατατικοὶ καὶ τετραγῳδημένοι
ὑπάρχουσι, ταῖς δὲ διανοίαις ὀξεῖς καὶ πρὸς μάθησιν οὐκ
ἀφυεῖς.

[1] Esses povos são de aspecto muito terrível e têm voz


espantosa e alta. Na sua conversação, mostram-se
lacônicos nas suas palavras e dizem muitas coisas de modo
obscuro e metafórico. São intensos e hiperbólicos em
trombetear os seus próprios elogios, mas falam dos outros
superficialmente e com desdém. São capazes de ameaçar
os outros, obstinados, gravemente provocativos, de
inteligência penetrante e não inaptos a prender as ciências.
Diódôros Sikeliôtes (séc. I aEC), Bibliothḗkē historikḗ,
“Biblioteca Histórica”, V, 31:

[2] εἰσὶ δὲ παρ᾽ αὐτοῖς καὶ ποιηταὶ μελῶν, οὓς βάρδους


ὀνομάζουσιν. οὗτοι δὲ μετ᾽ ὀργάνων ταῖς λύραις ὁμοίων
ᾄδοντες οὓς μὲν ὑμνοῦσιν, οὓς δὲ βλασφημοῦσι.
φιλόσοφοί τέ τινές εἰσι καὶ θεολόγοι περιττῶς τιμώμενοι,
οὓς δρουίδας ὀνομάζουσι.

[2] Entre eles há poetas que cantam canções melodiosas,


aos quais chamam bardos, que, acompanhados por seus
instrumentos musicais semelhantes à lira, entoam o louvor
de alguns, enquanto a outros censuram. Há igualmente
entre eles filósofos e teólogos, que chamam sarônidas, e
que são tidos em grande veneração e estima.
Diódôros Sikeliôtes (séc. I aEC), Bibliothḗkē historikḗ,
“Biblioteca Histórica”, V, 31:

[3] χρῶνται δὲ καὶ μάντεσιν, ἀποδοχῆς μεγάλης ἀξιοῦντες


αὐτούς: οὗτοι δὲ διά τε τῆς οἰωνοσκοπίας καὶ διὰ τῆς τῶν
ἱερείων θυσίας τὰ μέλλοντα προλέγουσι, καὶ πᾶν τὸ
πλῆθος ἔχουσιν ὑπήκοον. μάλιστα δ᾽ ὅταν περί τινων
μεγάλων ἐπισκέπτωνται, παράδοξον καὶ ἄπιστον ἔχουσι
νόμιμον:

[3] Profetas do mesmo modo possuem, considerando-os


merecedores do maior acatamento e esses homens
predizem o futuro por meio dos gritos e voo das aves
sagradas e do exame das entranhas dos animais sacrificiais
e todos lhes são subservientes. Observam também um
costume estranhíssimo e inacreditável quando desejam
saber algo a respeito de questões de grande importância:
Diódôros Sikeliôtes (séc. I aEC), Bibliothḗkē historikḗ,
“Biblioteca Histórica”, V, 31:

[4] ἄνθρωπον γὰρ κατασπείσαντες τύπτουσι μαχαίρᾳ κατὰ


τὸν ὑπὲρ τὸ διάφραγμα τόπον, καὶ πεσόντος τοῦ πληγέντος
ἐκ τῆς πτώσεως καὶ τοῦ σπαραγμοῦ τῶν μελῶν, ἔτι δὲ τῆς
τοῦ αἵματος ῥύσεως τὸ μέλλον νοοῦσι, παλαιᾷ τινι καὶ
πολυχρονίῳ παρατηρήσει περὶ τούτων πεπιστευκότες.

[4] em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e


cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair
a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos
de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu
sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma
antiga e de há muito praticada observância de tais
matérias.
Diódôros Sikeliôtes (séc. I aEC), Bibliothḗkē historikḗ,
“Biblioteca Histórica”, V, 31:

[5] ἔθος δ᾽ αὐτοῖς ἐστι μηδένα θυσίαν ποιεῖν ἄνευ


φιλοσόφου: διὰ γὰρ τῶν ἐμπείρων τῆς θείας φύσεως
ὡσπερεί τινων ὁμοφώνων τὰ χαριστήρια τοῖς θεοῖς φασι
δεῖν προσφέρειν, καὶ διὰ τούτων οἴονται δεῖν τἀγαθὰ
αἰτεῖσθαι.

[5] Não é lícito que ninguém realize um sacrifício sem um


filósofo, pois ações de graças devem ser oferecidas aos
deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam
experientes na natureza do divino e que falam, por assim
dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais
homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos
devem ser buscadas.
Diódôros Sikeliôtes (séc. I aEC), Bibliothḗkē historikḗ,
“Biblioteca Histórica”, V, 31:

[6] οὐ μόνον δ᾽ ἐν ταῖς εἰρηνικαῖς χρείαις, ἀλλὰ καὶ κατὰ


τοὺς πολέμους τούτοις μάλιστα πείθονται καὶ τοῖς
μελῳδοῦσι ποιηταῖς, οὐ μόνον οἱ φίλοι, ἀλλὰ καὶ οἱ
πολέμιοι:

[6] Não é somente nas necessidades da paz, porém


também nas suas guerras, que obedecem, acima de todos
os outros, a esses homens e a seus poetas cantores e tal
obediência é observada não apenas por seus amigos, mas
igualmente por seus inimigos;
Diódôros Sikeliôtes (séc. I aEC), Bibliothḗkē historikḗ,
“Biblioteca Histórica”, V, 31:
[7] πολλάκις δ᾽ ἐν ταῖς παρατάξεσι πλησιαζόντων ἀλλήλοις
τῶν στρατοπέδων καὶ τοῖς ξίφεσιν ἀνατεταμένοις καὶ ταῖς
λόγχαις προβεβλημέναις, εἰς τὸ μέσον οὗτοι προελθόντες
παύουσιν αὐτούς, ὥσπερ τινὰ θηρία κατεπᾴσαντες. οὕτω
καὶ παρὰ τοῖς ἀγριωτάτοις βαρβάροις ὁ θυμὸς εἴκει τῇ
σοφίᾳ καὶ ὁ Ἄρης αἰδεῖται τὰς Μούσας.

[7] frequentemente, por exemplo, quando dois batalhões


armados aproximam-se um do outro com espadas
desembainhadas e lanças apontadas, esses homens
colocam-se entre eles e obrigam-nos a parar como se
tivessem lançado um encantamento sobre algum tipo de
animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais
ferozes bárbaros, a fúria dá lugar à sabedoria e Ares
reverencia as Musas.
Dion Chrysostomos (c. 40 – c. 115 EC), Lógoi,
“Discursos”, 49 (“Uma Recusa ao Ofício de Arconte”),
7-8:

[1] Καὶ κοινῇ δὲ τὰ ἰσχυρότατα τῶν ἐθνῶν, ἐπειδὴ οὐ


δύνανται ἀεὶ βασιλεύεσθαι ὑπὸ τῶν φιλοσόφων,
ἐπιστάτας τοῖς βασιλεῦσι καὶ ἄρχοντας τούτους ἀπέδειξαν:
Πέρσαι μὲν οἶμαι τοὺς καλουμένους παῤ αὐτοῖς μάγους, οἳ
τῆς φύσεως ἦσαν ἔμπειροι καὶ τοὺς θεοὺς ᾔδεσαν ὡς δεῖ
θεραπεύειν: Αἰγύπτιοι δὲ τοὺς ἱερέας, οἳ τὴν αὐτὴν
ἐπιστήμην εἶχον τοῖς μάγοις, τῶν θεῶν ἐπιμελούμενοι καὶ
τὰ ξύμπαντα γιγνώσκοντες ὅπῃ τε καὶ ὅπως ἔχοι: Ἰνδοὶ δὲ
βραχμᾶνας, ἐγκρατείᾳ καὶ δικαιοσύνῃ διαφέροντας καὶ τῇ
πρὸς τὸ θεῖον φιλίᾳ, ὅθεν μᾶλλον ἴσασι τὰ μέλλοντα ἢ οἱ
ἄλλοι ἄνθρωποι τὰ παρόντα αὐτοῖς:
Dion Chrysostomos (c. 40 – c. 115 EC), Lógoi,
“Discursos”, 49 (“Uma Recusa ao Ofício de Arconte”),
7-8:

[1] Além disso, uma vez que não podem ser sempre
governadas por reis que sejam filósofos, as nações mais
poderosas publicamente apontaram filósofos como
superintendentes e oficiais dos seus reis. Assim, os persas,
acredito, apontaram aqueles a que chamam magos, porque
estão familiarizados com a natureza e compreendem como
os deuses devem ser adorados; os egípcios apontaram os
sacerdotes, que possuem o mesmo conhecimento dos
magos, devotando-se ao serviço dos deuses e conhecedores
do como e do porquê de tudo; os indianos apontaram os
brâmanes porque estes notabilizam-se em autocontrole e
justiça e na sua devoção ao divino, tendo como resultado
disso que saibam o futuro melhor do que todos os outros
sabem o seu presente imediato;
Dion Chrysostomos (c. 40 – c. 115 EC), Lógoi,
“Discursos”, 49 (“Uma Recusa ao Ofício de Arconte”),
7-8:

[2] Κελτοὶ δὲ οὓς ὀνομάζουσι Δρυΐδας, καὶ τούτους περὶ


μαντικὴν ὄντας καὶ τὴν ἄλλην σοφίαν: ὧν ἄνευ τοῖς
βασιλεῦσιν οὐδὲν ἐξῆν πράττειν οὐδὲ βουλεύεσθαι, ὥστε
τὸ μὲν ἀληθὲς ἐκείνους ἄρχειν, τοὺς δὲ βασιλέας αὐτῶν
ὑπηρέτας καὶ διακόνους γίγνεσθαι τῆς γνώμης ἐν θρόνοις
χρυσοῖς καθημένους καὶ οἰκίας μεγάλας οἰκοῦντας καὶ
πολυτελῶς εὐωχουμένους. καὶ γὰρ δὴ τοῦτον εἰκός ἐστι
πᾶσαν ἀρχὴν ἱκανώτατα διοικῆσαι, ὃς τὴν χαλεπωτάτην
ἀρχὴν διηνεκῶς ἄρχων δύναται παρέχειν ἀναμάρτητον
αὑτόν.
Dion Chrysostomos (c. 40 – c. 115 EC), Lógoi,
“Discursos”, 49 (“Uma Recusa ao Ofício de Arconte”),
7-8:

[2] os celtas apontaram aqueles a que chamam druidas,


sendo estes também devotados à arte profética e à
sabedoria em geral. Em todos esses casos, os reis não
possuíam permissão para fazer ou planejar nada sem a
assistência desses homens sábios, de modo que, na
verdade, eram eles que governavam, enquanto que os reis
tornavam-se servos e ministros da sua vontade, embora se
assentassem em tronos de ouro, morassem em casas
grandes e fizessem celebrações suntuosas.
Marcus Annaeus Lucanus (03/11/39 – 30/04/65 EC), De
Bello Ciuile siue Pharsalia, “Sobre a Guerra Civil ou
Farsália”, I, 441-458:

[1] […] tu quoque laetatus conuerti proelia, Treuir,


et nunc tonse Ligur, quondam per colla decore
crinibus effusis toti praelate Comatae,
et quibus inmitis placatur sanguine diro
Teutates horrensque feris altaribus Esus
et Taranis Scythicae non mitior ara Dianae.
uos quoque, qui fortes animas belloque peremptas
laudibus in longum uates dimittitis aeuum,
plurima securi fudistis carmina, Bardi.
Marcus Annaeus Lucanus (03/11/39 – 30/04/65 EC), De
Bello Ciuile siue Pharsalia, “Sobre a Guerra Civil ou
Farsália”, I, 441-458:

[1] […] também tu, ó Treves,


regozijas-te de que te haja a guerra deixado oportunidades.
Tribos lígures, agora tosqueadas, em dias idos
entre nações de longos cabelos a primeira, em cujos
pescoços
abundavam outrora madeixas ruivas com orgulho supremo
e aqueles que com sangue maldito pacificam
o selvagem Teutates, de Esus os santuários hórridos,
e os altares de Taranis, cruéis como aqueles
amados pela Diana dos Citas.
Todos esses agora descansam em paz. E vós, ó Bardos,
cujos marciais poemas enviam a tempos distantes
a fama dos feitos valorosos em batalha realizados,
verteis em segurança canção mais abundante.
Marcus Annaeus Lucanus (03/11/39 – 30/04/65 EC), De
Bello Ciuile siue Pharsalia, “Sobre a Guerra Civil ou
Farsália”, I, 441-458:

[2] Et uos barbaricos ritus moremque sinistrum


sacrorum, Dryadae, positis repetistis ab armis.
Solis nosse deos et caeli numina uobis
aut solis nescire datum; nemora alta remotis
incolitis lucis; uobis auctoribus umbrae
non tacitas Erebi sedes Ditisque profundi
pallida regna petunt: regit idem spiritus artus
orbe alio; longae, canitis si cognita, uitae
mors media est.
Marcus Annaeus Lucanus (03/11/39 – 30/04/65 EC), De
Bello Ciuile siue Pharsalia, “Sobre a Guerra Civil ou
Farsália”, I, 441-458:

[2] E vós, ó Druidas, depostas as armas,


a ritos bárbaros e a costumes retornais sinistros.
A vós somente os deuses e numes celestes
é dado conhecerdes ou não os conhecerdes; bosques
retirados
vossas moradas e florestas longínquas;
se veraz quanto cantais, dos homens as sombras
não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis
os reinos pálidos buscam: dirige-os o sopro da vida
a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais
conheceis,
a morte é o meio.
Publius (ou Gaius) Cornelius Tacitus (c. 56 – c. 120 EC).
Historiae, “Histórias”, I, §54:

Audita interim per Gallias Germaniasque mors Vitellii


duplicauerat bellum. Nam Ciuilis omissa dissimulatione in
populum Romanum ruere, Vitellianae legiones uel
externum seruitium quam imperatorem Vespasianum
malle. Galli sustulerant animos, eandem ubique exercituum
nostrorum fortunam rati, uulgato rumore a Sarmatis
Dacisque Moesica ac Pannonica hiberna circumsederi;
paria de Britannia fingebantur. sed nihil aeque quam
incendium Capitolii, ut finem imperio adesse crederent,
impulerat. Captam olim a Gallis urbem, sed integra Iouis
sede mansisse imperium: fatali nunc igne signum caelestis
irae datum et possessionem rerum humanarum
Transalpinis gentibus portendi superstitione uana Druidae
canebant. Incesseratque fama primores Galliarum ab
Othone aduersus Vitellium missos, antequam
digrederentur, pepigisse ne deessent libertati, si populum
Romanum continua ciuilium bellorum series et interna
mala fregissent.
Publius (ou Gaius) Cornelius Tacitus (c. 56 – c. 120 EC).
Historiae, “Histórias”, I, §54:
Enquanto isso, as notícias sobre a morte de Vitellius, espalhando-se
pela Gallia e pela Germania, deram causa a uma segunda guerra.
Ciuilis deixara de lado todo o disfarce e agora assaltava abertamente o
poder romano, ao passo que as legiões de Vitellius até mesmo
preferiam um jugo estrangeiro ao governo de Vespasianus. A Gallia
obtivera nova coragem da crença de que a sorte dos nossos exércitos
fora desastrosa em todas as frentes pois estava muito espalhado um
relato de que os nossos acampamentos de inverno na Moesia e na
Pannonia tinham sido cercados pelos sármatas e dácios. Circulavam
boatos, igualmente falsos, a respeito da Britannia. Acima de tudo, o
incêndio do Capitolium levara-os a crer que o fim do Império Romano
estava próximo. Os gauleses, recordavam-se eles, tinham capturado a
Cidade em dias passados, porém, como a morada de Iuppiter não fora
vulnerada, o Império sobrevivera, enquanto agora, declaravam os
druidas com as palavras proféticas de uma superstição inútil, esse
incêndio fatal era um sinal da fúria celeste e prenunciava o domínio
universal para as nações transalpinas. Espalhava-se também um
rumor de que os chefes da Gallia, que Otho enviara contra Vitellius,
tinham, antes da sua partida, feito um pacto de não sofrer derrota na
luta pela liberdade, devendo o poder de Roma ser quebrado por uma
sucessão contínua de guerras civis e calamidades internas.

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