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Contribuições de Descartes à Educação

Vivemos uma época em que ainda aparecem os questionamentos a


respeito da diversidade cultural, dos direitos humanos, da
necessidade de superação dos preconceitos e das relações de
exploração e de dominação. A educação neste contexto é chamada a
contribuir na construção de uma nova mentalidade social, cultivando
espíritos mais humanos.
Nesta perspectiva são submetidos à crítica a razão
instrumental, tida como uma das causas do processo de
afirmação da formação técnica. Contra a razão instrumental
se colocam os educadores que trabalham com a concepção
de uma educação emancipadora, reflexiva, crítica e
autônoma. Todas essas perspectivas de educação envolvem
a ação do sujeito autônomo e que está numa postura de
busca. Se tomarmos a educação nessas perspectivas,
Descartes tem muito a nos dizer.
Descartes não escreveu sobre a educação, mas ao pensar sobre
as possibilidades do conhecimento, abordou muitas questões
que ainda são desafios para os educadores. O compromisso com
a verdade, o sentido do saber, o passado como ponto de partida
para pensar a realidade, a reflexão sobre si mesmo como parte
do processo do conhecimento, a reflexão sobre os valores e os
costumes, a relação entre o desejo, a vontade, as emoções e a
razão são questões fundamentais para a educação e foram
abordadas por Descartes. Como superar o senso comum e
alcançar o pensamento cientifico, como superar o que é apenas
verossímil, ou acaso e conduzir a razão como um ato de vontade
foi o desígnio a que ele se propôs.
Na construção do seu pensamento, em especial nas obras
Discurso do Método e Meditações metafísica, Descartes
apresenta várias condições que devem ser observadas para se
chegar à verdade, distinguindo o verdadeiro do falso. Dentre elas
estão a necessidade de evitar a precipitação, os preconceitos e a
prevenção; sobre a importância da ousadia e da dúvida como
constituintes do processo de aproximação da verdade; e sobre a
imprescindível relação de busca e de consciência em que deve
se colocar o sujeito na ação de aprender e de construir algo de
novo.
A primeira orientação de Descartes a nós educadores do século XXI
talvez seja a leitura da vida. Sempre se guiando pela razão, Descartes
fez viagens a vários países com a finalidade de aprender sobre os
diversos modos de vida dos homens, e agir sem preconceito em
relação a estes. “É bom saber algo dos costumes de diversos povos, a
fim de que julguemos os nossos mais sãnamente e não pensemos que
tudo quanto é contra os nossos modos é ridículo e contrário à razão,
como fazem proceder os que nada viram.” (Descartes, 1994, p. 44)
Devemos evitar sempre o preconceito e a precipitação, advertia
Descartes. Assim ele fazia tratando com muito cuidado todas as
coisas, sem se deixar levar pelos costumes ou pela tradição,
constituídos sem o uso da razão, mas ao mesmo tempo tendo por
estes muito respeito.
No caminho da busca pela verdade o preconceito e a precipitação são
barreiras que devem ser superadas, pois “não posso dar meu juízo
senão a coisas que me são conhecidas”.(Idem, p.129). E porque a
verdade não se encontra no plano do imediato, do aparente e do
sensível, mas no plano da essência, do universal e do inteligível.
Como, por exemplo, encontro em meu espírito duas idéias do sol
inteiramente diversas: uma, toma sua origem nos sentidos, (...), e pela
qual o sol me parece extremamente pequeno; a outra é tomada nas
razões da astronomia, (...) e pela qual o sol me parece muitas vezes
maior do que a terra inteira. Por certo, essas duas idéias que concebo
do sol não podem ser ambas semelhantes ao mesmo sol; e a razão
me faz crer que aquela que vem imediatamente de sua aparência é a
que lhe é mais dessemelhante. (Idem, p.142).
Portanto, conhecer implica numa postura radical em face
da ordem estabelecida “de modo que era necessário tentar
seriamente uma vez em minha vida, desfazer-me de todas
as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo
novamente desde os fundamentos, se quisesse
estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”.
Em vários momentos dos textos a questão do preconceito
sempre retorna. Numa época, como a nossa em que virou moda
falar que é preciso aprender a conviver com a diversidade,
Descartes já apresentava esta questão e de modo bastante
radical. “De sorte que a luz natural nos mostre claramente que a
conservação e a criação não diferem senão com respeito à nossa
maneira de pensar, e não em efeito”.(Idem, p. 154) Para ele a
superação do antigo se dá pelo profundo conhecimento deste,
pela crítica e pela construção de novos fundamentos para a
compreensão da realidade. E ainda com esta citação pode-se
entender que o novo não se constitui numa realidade superior,
pois, não difere da anterior em efeito, mas apenas no nosso
modo de pensar.
Há em Descartes um grande compromisso com a verdade. No
momento histórico em que vivemos em que tudo está sendo
relativizado, particularizado e banalizado em que predomina o
desencanto e a indiferença, é importante escutar Descartes, se
deixar envolver por seu otimismo, radicalidade e coragem, ele
que, em plena inquisição, foi capaz de construir e estabelecer
uma nova concepção sobre Deus e o mundo e, com cuidado e
critério, pensar todas coisas. Nutrindo um grande respeito às
tradições e aos valores estabelecidos, mas ao mesmo tempo
com um forte sentido critico, ele desfaz e reconstrói o edifício
social.
Para Descartes, os estudos devem servir à felicidade do individuo, à
saúde e ao cultivo do espírito, para isso deve orientar-se pela busca
da verdade. O aprender faz-se necessário ao homem para que este
possa agir na sociedade, sem preconceitos e sem cometer injustiças.
“A finalidade dos estudos deve ser a orientação do espírito para emitir
juízos sólidos e verdadeiros sobre o que se lhe depara”. A perspectiva
de Descartes coloca para nós professores uma reflexão sobre o
sentido do saber. O saber para ele deve orientar-se para a vida, pelo
desejo e a busca da verdade. Não se trata de uma utilidade para o
mercado, ou para uma obter uma profissão. O controle é somente do
sujeito que se coloca na busca, não é externo nem é comandado por
outro, mas unicamente pela razão, pelo entendimento da mente pura e
atenta, não devendo ser regido por ninguém externo ao próprio sujeito.
Aos educadores de hoje, tão afeitos a oferecer meios de solução
de problemas e a dar modelos de como ensinar, Descartes
sugere outro caminho pois, seu desígnio é apenas mostrar de
que maneira se esforçou por conduzir sua razão e não ensinar o
método que cada um deve seguir. Outra grande contribuição do
autor é a relação que estabelece entre senso comum e saber
científico. Ele situa o trabalho intelectual como a atividade que
institui o saber científico. E o trabalho intelectual exige rigor,
dedicação e coragem para superar o que é apenas aparência e
chegar a essência do objeto. É constituído pela negação do que
está posto e pela criação de algo ainda não existente. O trabalho
intelectual é, portanto, por natureza uma ação contestadora e
criativa, e requer para sua realização liberdade e autonomia.
Aqui Descartes assina a necessidade de romper com o
comodismo e com as ilusões para enfrentar o laborioso trabalho
que é a busca da verdade, a compreensão da realidade na sua
concreticidade, contraditória, complexa e de múltiplas
determinações. Desta forma, podemos afirmar que o trabalho
intelectual encontra-se no plano do mais alto grau de dificuldade
e, para realizá-lo, é preciso possuir o desejo de aprender, a
autonomia de pensamento e assumir uma perspectiva de busca
e criação. Pensar a educação a partir dessa perspectiva aponta
para a necessidade de recuperar o que é constitutivo do trabalho
do professor que é a dimensão intelectual, inseparável também,
da dimensão contestatória.
Ao pensarmos a educação hoje, encontramos inúmeros exemplos,
dentre nós professores, do quanto nos conduzimos levados pela
ilusão, presos ao fetichismo do mercado, à autoridade (Capes, SAEB,
ENEM) e aos conceitos de quantidade, de gestão e de controle do
processo. Na crença de desenvolver uma práxis, muitas vezes
estamos no mais completo engano. Reproduzindo esquemas pré-
concebidos, ditando regras e modos de agir, acreditamos transformar a
realidade, com uma práxis emancipadora, mas o que ocorre é a
afirmação da perspectiva que consiste justamente na confirmação da
ordem estabelecida.
O trabalho do professor só se encontra no plano da práxis se se
desenvolver como um trabalho autônomo. Pois, é inerente ao
trabalho intelectual a autonomia. E a escola, em qualquer etapa
do processo, tem que ter um sentido nela mesma. A escola não
pode estar submetida a nenhum controle externo sem perder
sua característica essencial, que é a criação e que se constitui
na ação e não no resultado. Aqui, vale lembrar que em Descarte
a crítica à tradição é a recusa da autoridade do saber passado.
Uma última contribuição de Descarte é a fidelidade que ele
mantém aos seus princípios. Mantém-se fiel ao que ele acredita.
Afirma a existência de Deus sem submeter a verdade científica e
filosófica à autoridade teológica.