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Argumentação e lógica

informal
Capítulo 4

50 LIÇÕES DE FILOSOFIA 11.º ANO 1


2

Seis falácias
informais

50 LIÇÕES DE FILOSOFIA 11.º ANO


3

O conceito de falácia
informal
 Uma falácia é informal quando o erro do
argumento não está na forma lógica.

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Falácia do falso dilema


 Forma lógica:
P ou Q.
Não P.
Logo, Q.

 Quando a disjunção parece verdadeira, apesar


de ser falsa, o argumento é falacioso.

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Exemplos de falso dilema


 O filme 2001 Odisseia no Espaço ou é genial ou
uma completa tolice. Dado que não é genial, é
uma completa tolice.
 O filme pode ser mediano, nem genial nem uma
completa tolice.

 As verdades são absolutas ou relativas. Dado


que é evidente que não são absolutas, são
relativas.
 Talvez algumas verdades sejam relativas e outras
não.

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Dilema que não é falso


 Quando as únicas alternativas relevantes são as
apresentadas, o argumento não é falacioso:
 O Pedro disse que ia à praia ou ao cinema. Como
não está na praia, está no cinema.

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Falácia da derrapagem
 Forma lógica:
Se P, então Q.
Se Q, então R.
Se R, então S.
Logo, se P, então S.

 Quando algumas das condicionais são falsas


mas parecem verdadeiras, é falacioso.

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Exemplo de derrapagem
 Se vamos ao cinema, vemos filmes violentos. Se
vemos filmes violentos, habituamo-nos à
violência. Se nos habituarmos à violência,
tornamo-nos violentos. Se nos tornarmos
violentos, tornamo-nos assassinos. Logo, se
vamos ao cinema, tornamo-nos assassinos.
 As condicionais são todas ligeiramente improváveis
e por isso parecem verdadeiras.
 Mas a improbabilidade acumula-se e revela-se na
conclusão.

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Exemplo de derrapagem
filosófica
 Se permitirmos a eutanásia, estaremos a permitir
que os médicos matem pessoas. Se permitirmos
isso, os médicos acabam por matar qualquer
pessoa que queiram. Logo, se permitirmos a
eutanásia, os médicos acabarão por matar
qualquer pessoa que queiram.
 As duas premissas são de facto falsas, ainda que
pareçam verdadeiras.

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O conceito de argumento
sólido
 Não basta que um argumento seja válido para
ser bom.

 Tem também de ter premissas realmente


verdadeiras.

 Um argumento válido com premissas


verdadeiras é um argumento sólido.

 As falácias que acabámos de ver são


argumentos válidos, mas não são sólidos.

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Falácia do boneco de
palha
 Não tem uma forma lógica caraterística.

 Ocorre sempre que distorcemos a posição de


alguém para que a sua posição pareça mais
implausível ou obviamente falsa.

 Exemplo:
 A ética utilitarista é inaceitável porque vê os seres
humanos como animais exclusivamente em busca
do prazer sensual.

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Falácia do apelo à
ignorância
 Forma lógica:
Não se sabe (provou, demonstrou, etc.) que P.
Logo, é falso que P.

Não se sabe (provou, demonstrou, etc.) que é falso


que P.
Logo, é verdadeiro P.

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Exemplos de apelo à
ignorância
 Nenhum filósofo conseguiu provar que Deus
existe. Logo, Deus não existe.

 Nenhum cientista conseguiu provar que não


existem extraterrestres. Logo, existem
extraterrestres.

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Falacioso ou não
 É falacioso apelar à ignorância sempre que a
inexistência de prova não torna mais provável a
conclusão.

 Quando o apelo à ignorância torna realmente


mais provável a conclusão, não é falacioso.
 Exemplo: Não há extraterrestres no meu quarto
porque nunca os vi.

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Apelo falacioso à
ignorância
 Enquanto não me provares o contrário, vou
concluir que copiaste no teste.

 Os filósofos nunca provaram que a ética de Kant


é verdadeira; por isso, é falsa.

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Petição de princípio
 Também conhecida como falácia da
circularidade.

 Ocorre quando pressupomos nas premissas de


um argumento que a sua conclusão é
verdadeira, sem parecer que o fazemos.

 Exemplo:
 Temos de admitir que não há verdades morais
absolutas, pois são todas relativas.

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O conceito de cogência
 Não basta que um argumento seja sólido para
ser bom: muitas petições de princípio são
argumentos sólidos.

 É preciso também que as premissas sejam mais


plausíveis para o nosso auditório do que a
conclusão.

 Um argumento é cogente quando, além de


sólido, tem premissas mais plausíveis para o
auditório do que a conclusão.

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Falácia ad hominem
 Esta falácia é um ataque ao homem.
 Forma lógica:
A pessoa b afirmou P.
Mas b não é credível.
Logo, P é falso.
 Exemplo:
 As ideias políticas do Pedro são falsas porque ele
é um bêbado.

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Ataques falaciosos
 Os ataques ad hominem nem sempre são
falaciosos.

 São falaciosos quando não há qualquer relação


relevante entre o ataque e a verdade ou
falsidade da conclusão.

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Ataques não falaciosos


 Um ataque ad hominem não é falacioso
quando
 Atacar a credibilidade do interlocutor torna mais
improvável que o que ele afirma seja falso.

 Atacar a credibilidade científica de um cientista


é razoável porque é com base nisso mesmo que
aceitamos o que nos afirma.

 Mas atacar o cientista por outras razões é


falacioso porque é irrelevante com respeito à
conclusão.

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Síntese
Seis falácias informais

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Designação Exemplo
O filme é genial ou uma tolice; como não é
1 Falso dilema
genial, é uma tolice.
Petição de
2 princípio
A ética é relativa porque não é absoluta.

Se vamos ao cinema, vemos filmes violentos;


se virmos filmes violentos, ficamos violentos; se
3 Derrapagem
ficarmos violentos, cometemos crimes. Logo,
se vamos ao cinema, cometemos crimes.
A ética utilitarista é inaceitável porque vê os
4 Boneco de palha seres humanos como porcos exclusivamente
em busca de prazer sensual.
As ideias políticas do Pedro são absurdas
5 Ad hominem
porque ele é um bêbado.
Não há extraterrestres porque até hoje nunca
6 Apelo à ignorância
conseguimos provar que há.

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Argumentos não
dedutivos

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Dedução e indução
 Na validade dedutiva, é impossível que as
premissas sejam V e a conclusão F.

 Na validade indutiva, não é impossível, mas é


improvável.

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Contraste
Validade dedutiva Validade indutiva
Todos os corvos
Alguns corvos são animais
observados até hoje são
bonitos.
pretos.
Logo, alguns animais
Logo, todos os corvos são
bonitos são corvos.
pretos.

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Generalizações e previsões
 Generalização indutiva
 Todos os corvos observados até hoje são pretos;
logo, todos os corvos são pretos.

 Previsão indutiva
 Todos os corvos observados até hoje são pretos;
logo, o próximo corvo que observarmos será preto.

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Critérios de
avaliação
Generalizações e previsões indutivas

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Critérios Exemplos
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O número de coisas
Uma pessoa que, depois de ver cinco
1 observadas tem de ser
representativo da
totalidade.
indianos com barba, conclui que todos os
indianos usam barba viola este critério.

Uma pessoa que conclui que o seu cão irá


Não pode haver
viver para sempre porque até agora sempre
2 informação de fundo que
ponha em causa a
validade do argumento.
viveu está a desconsiderar o conhecimento
de fundo de que os organismos biológicos
morrem.

Uma pessoa que conclui que só em Portugal


Não pode haver
se fala português depois de ter visitado todos
3 contraexemplos, depois de
os termos procurado
ativamente.
os países da Europa viola este critério: se
procurar países fora da Europa, irá encontrar
vários onde se fala português.

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Argumentos de autoridade
 Forma lógica:
 Uma autoridade, testemunha ou especialista
afirmou que P. Logo, P.

 Exemplo:
 Platão afirmou que só as sociedades governadas
por filósofos são justas. Logo, só as sociedades
governadas por filósofos são justas.

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Critérios de
avaliação
Argumentos de autoridade

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Critérios Exemplos
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É preciso que a Invocar Einstein para defender ideias políticas
autoridade invocada seja viola este critério porque ele era uma
1 realmente uma autoridade em física, mas não em filosofia
autoridade na área. política.

É preciso especificar em Uma pessoa que atribui a Einstein a ideia de


2 que livro ou outro texto tal tudo é relativo, mas depois é incapaz de dizer
autoridade disse tal coisa. onde ele o escreveu, viola este critério.

Uma pessoa que defende não haver livre-


É preciso que a afirmação
arbítrio porque Espinosa o sustentou não
3 seja consensual entre as
obedece a este critério porque outros filósofos
autoridades da área.
discordam de Espinosa.

É preciso que as Um argumento baseado na opinião dos


autoridades invocadas mecânicos de automóveis e cuja conclusão
4 não tenham fortes seja que nenhum carro é seguro se não for
interesses pessoais ou de obrigatoriamente à oficina uma vez por
classe no tema em causa. trimestre viola este critério.

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O conceito de sofisma
 Uma falácia pode ser apenas um erro
involuntário de argumentação.

 Mas um sofisma é um argumento falacioso


usado para enganar o interlocutor.

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Argumentos por analogia


 Forma lógica:
Tanto a como b são F , G , H , etc.
Ora, b é K.
Logo, a é K .

 Exemplo:
As mulheres são como os homens: são autónomas,
têm capacidade de decisão como os homens e são
racionais.
Ora, os homens têm direito de voto.
Logo, as mulheres também devem ter direito de voto.

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Critérios de
avaliação
Argumentos por analogia

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Critérios Exemplos
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Uma pessoa que conclui que um livro
É preciso que as é excelente porque tem uma capa

1 semelhanças sejam
relevantes com respeito à
da mesma cor de outro que era
excelente que tem o mesmo número
conclusão. de páginas e que é também feito de
papel viola este critério.

Uma pessoa que conclui que um livro


É preciso que o número de
é excelente porque é do mesmo
2 semelhanças relevantes
com respeito à conclusão
autor viola este critério. Esta
semelhança é relevante, mas é
seja adequado.
preciso mais de uma.

Uma pessoa que conclui que os


É preciso que não existam
3 diferenças relevantes com
respeito à conclusão.
homens têm útero porque são como
as mulheres e estas têm útero viola
este critério.

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Síntese
Quatro argumentos não dedutivos

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Designação Exemplo
Todos os corvos observados até hoje são
1 Generalização indutiva
pretos; logo, todos os corvos são pretos.
Todos os corvos observados até hoje são
2 Previsão indutiva pretos; logo, o próximo corvo que
observarmos será preto.
Einstein afirmou que nada viaja mais
Argumentos de
3 autoridade
depressa do que a luz; logo, nada viaja
mais depressa do que a luz.
As mulheres são como os homens; os
homens têm direito de voto; logo, mas
4 Argumentos por analogia
mulheres também devem ter direito de
voto.

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