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O DEMOCRATISMO

FRANCÊS: JEAN-
JACQUES ROUSSEAU
• 1. Contexto histórico
• O iluminismo é a filosofia hegemônica da Europa
no século XVIII. Inserindo-se em tradições
diversas e não formando um sistema compacto
de doutrinas, o iluminismo se configura como um
articulado movimento filosófico, pedagógico e
político que captura progressivamente as classes
cultas e a burguesia em ascensão nos diversos
países europeus. A característica fundamental do
movimento iluminista consiste em uma decidida
confiança na razão humana, cujo
desenvolvimento é visto como o progresso da
humanidade
• Conhecido também como a “Época das Luzes”,
que com a contribuição dos filósofos e escritores
deste período promoveu-se uma revolução
cultural e intelectual na história do pensamento
moderno. É o movimento do Iluminismo que veio
preparar o clima revolucionário da época.
• Esse movimento visava fundamentalmente
estimular a luta da razão contra a
autoridade. Podemos destacar os pensadores
que mais influenciaram nesse período, o inglês
John Locke e os franceses Charles de
Montesquieu, Voltaire e principalmente o autor
em abordagem, Jean-Jacques Rousseau.
• Durante a ilustração, a razão, como capacidade
humana de entender o mundo, foi adquirindo
maior autonomia. Pretende, assim :
• a) a libertação em relação aos dogmas
metafísicos, aos preconceitos morais, as
superstições religiosas, as relações desumanas
entre os homens, as tiranias politicas;
• b) a defesa do conhecimento cientifico e técnico e
dos inalienáveis direitos naturais do homem e do
cidadão. Kant dira que o da Europa lema do
iluminismo é: "Sapere aude! Tem a coragem de
servir-te no século XVlll de tua própria
inteligência!"
O illuminismo é, no conjunto, um movimento leigo, no que
se refere aos "mitos" e as "superstições" das religiões
positivas, mas sua filosofia é substancialmente uma
filosofia do deísmo, isto é, da única religião natural
concebível pela Razão (lockianamente compreendida). E
a Razão dos deístas admite:
1) a existência de Deus;
2) a criação e o governo do mundo por parte de Deus;
3) a vida futura em que são pagos o bem e o mal.
Trata-se de uma religiosidade racional, natural, leiga, à
qual se une uma moralidade leiga, baseada sobre os
princípios morais comuns a todo o gênero humano.
• O iluminismo põe a Razão também como
fundamento na base das normas jurídicas, das
concepções do Estado e das teorias das normas
jurídicas. O direito natural significa direito racional
e, melhor ainda, das teorias não-sobrenatural, e
as leis jurídicas são entendidas como as relações
necessárias e imutáveis que derivam da natureza
das coisas. Sobre a base das ideias
jusnaturalistas dos iluministas foi elaborada a
doutrina dos direitos naturais e invioláveis do
homem e do cidadão: a liberdade, a igualdade, a
propriedade, a segurança e a resistência à
opressão.
O chamado “Século das Luzes”abriu caminho para
a Revolução Francesa (1789-1799), que em nome
da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”,
desencadeou o processo de ruptura com o passado.
Toda a contestação ao Antigo Regime foi uma
introdução às Revoluções Burguesas do final do
século XVIII, prolongando-se pelo século XIX.
Seus principais expoentes são: Voltaire, Diderot e
D’Alembert, Locke, Rousseau.
• Principais ideias do iluminismo
• Livre-arbítrio, liberdade do homem diante do
estado, racionalidade como forma de conhecer e
entender o mundo, crítica ao estado absolutista e
ao poder real, crítica à igreja e ao dogmatismo;
igualdade de todos perante a lei; Defesa dos
direitos naturais do indivíduo (liberdade e livre
posse de bens, por exemplo); Defesa da
liberdade econômica (sem interferência do
Estado).
• 2. Rousseau, vida e obra
• Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi um filósofo
genebrino, escritor e compositor do século XVIII. Sua
filosofia política influenciou a Revolução Francesa,
bem como o desenvolvimento global do pensamento
político, sociológico e educacional moderno.
Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, em 28
de junho de 1712. Tendo perdido a mãe no momento
do parto, transcorreu sua infância com o pai Isaac,
relojoeiro e homem que amava boemias. Confiado
primeiro a um pastor calvinista e depois a um tio,
recebeu urna educação bastante desordenada.
Aprendiz de gravação, Rousseau deixou Genebra
em 1728 e, depois de urna breve experiência como
camareiro de urna família de Turim, encontrou
refugio em Les Charmettes, nas proximidades de
Chambèry, junto de madame de Warens, que lhe foi
mãe, amiga e amante.
Em 1741, o filosofo de Genebra deixa Chambèry e
se instala em Paris, onde estabelece amizade com
Diderot e, por seu intermédio, com os
enciclopedistas. Não acostumado com a vida nos
salões, não se sentia à vontade na Paris culta,
inquieto e insatisfeito por ser musico de segunda
classe e humilde preceptor e caixeiro na casa
Dupin.
Em 1750 publicou o Discurso sobre as ciências e
sobre as artes, em 1755 o Discurso sobre a
desigualdade, que lhe valeu um imprevisto e
inesperado sucesso.
A relativa tranquilidade familiar e o sucesso obtido
pelos primeiros ensaios permitiram-lhe estreitar
amizade com as personalidades mais conhecidas e
colaborar na Enciclopédia com uma série de artigos
de caráter musical, depois reunidos no Dictionnaire
de musique, e com o verbete "Economia politica"
(1758). Logo, porém, ele rompeu suas relações com
os enciclopedistas, por uma divergência substancial
de avaliação em relação à sociedade da época. A
ruptura oficial deu-se por aquele manifesto anti-
philosophes, que é a Lettre a d’Alembert sur les
spetacles, de 1758.
• Nesse meio tempo, Jean-Jacques se havia retirado para
o Ermitage de Montmorency, onde habitou em uma casa
de madame d’Epinay. Aqui ligou-se sentimentalmente
com a cunhada dela, madame d’Hondetot, e acreditou
poder realizar o sonho de por de acordo os philosophes
com os tradicionalistas. Contudo, por varias razões, o
resultado foi a ruptura com Diderot e d’Holbach.
• Retirando-se em Montmorency, viveu um período intenso
e fecundo: em 1761 publicou a Nova Heloisa, em 1762 O
contrato social e Emilio, mas as últimas duas obras foram
condenadas pelas autoridades civis e eclesiásticas de
Paris e de Genebra.
• Amargurado, rejeitou seus direitos de cidadão genebrino
e se transferiu para Mitiers Travers, no território de
Neuchatel.
• Em seguida, aceitou o convite do filósofo David Hume e
foi para a Inglaterra. Mas as relações com o filosofo inglês
foram breves e difíceis. Tomado de mania de
perseguição, alimentada pelas condenações genebrina e
parisiense, ele logo deixou a Inglaterra, voltando A
França, onde se dedicou a viajar para desafogar sua
inquietude. Voltando para a França e estabelecendo-se
novamente em Paris, completou as Confissões e o
Ensaio sobre a origem das línguas. Morreu em 1778.
3. Idéias centrais na obra de Rousseau

Os homens eram originariamente livres e iguais, vivendo


com extrema simplicidade pelos bosques e seguindo
apenas os ditames da natureza (no assim chamado
«estado de natureza»). Nesta primeira época, o homem
desconhecia ainda a corrupção provocada pela
degenerescência a que a civilização sempre conduz.
• Como se perdeu semelhante estado feliz? Alguns
homens mais fortes impuseram-se aos restantes; e o
primeiro que, pondo o pé num campo, exclamou:
isto é meu! foi a causa primeira da infelicidade
humana. A propriedade privada juntou-se a
propriedade política; e assim, pelo fato de certas
paixões terem prevalecido, um regime artificial de
desigualdades colocou os homens em uma
relação de mútua dependência contrária aos
princípios naturais do seu modo de ser. Em
suma, surgiu uma antinomia profunda entre a
constituição nativa do homem e a sua condição
social.
• Precursor do romantismo, Rousseau valoriza
demasiadamente o sentimento,em um ambiente
sobremaneira racionalista. Nostálgico de um modelo
de relações sociais voltado para a recuperação dos
sentimentos mais profundos do espirito humano, ele
levantou a hipótese do homem natural, originalmente
integro, biologicamente sadio e moralmente reto e,
portanto. O homem não era, mas tornou-se mau e
injusto. Seu desequilíbrio, porém, não é originário, e
sim um desequilíbrio derivado e de ordem social.
• Rousseau reconhece que um regresso puro e simples
ao estado de natureza, depois de se ter chegado ao
estado de civilização, é impossível, como «não é
possível a um velho regressar à mocidade». A
sociedade política deve aceitar-se como facto
irrevogável.
• Em substância —observa— aquilo que constituía a
felicidade primitiva era o gozo da liberdade e da
igualdade. Importa agora achar o meio de restituir ao
homem civilizado o gozo destes direitos naturais, e forjar
com base neles a constituição política.
• Estado de natureza
• No discurso sobre a origem e a desigualdade entre os
homens, cria a hipótese dos homens em estado de
natureza, vivendo sadios, bons e felizes enquanto cuidam de
sua própria sobrevivência, até o momento em que é criada a
propriedade e uns passam a trabalhar para outros, gerando
escravidão e miséria. Para tanto, recorre ele à ideia do
contrato social.Procura, assim,
• “Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja
a pessoa e os bens de cada associado com toda a força
comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedece
contudo a si mesmo, permanecendo assim tão livre quanto
antes.”
• Rousseau é contracultura, assim como ela se
configurou historicamente, porque ela deturpou a
natureza. Originariamente sadio, o homem vê- se
agora desfigurado; outrora semelhante a um
deus, tornou-se agora pior do que um animal
feroz. Nascidas dos vícios da arrogância e da
soberba, as ciências, as artes e as letras não
fizeram progredir a felicidade humana, mas
consolidaram os vícios que as provocaram, como
podemos ler no Discurso sobre as ciências e as
artes.
• Podemos dizer que Rousseau é contra os
iluministas, não é contra o Iluminismo, do qual é
interprete e fautor inteligente; ele é contra os
jusnaturalistas, não contra o jusnaturalismo.
Rousseau é um iluminista, porque considera a
razão como o instrumento privilegiado para a
superação dos males em que séculos de desvio
haviam lançado o homem, e para a vitória sobre
eles. Rousseau é um jusnaturalista porque repõe
na natureza humana a garantia e os recursos
para a salvação do homem.
• O caminho da salvação é outro: é o caminho do
retorno a natureza e, portanto, o caminho da
"renaturalização do homem" através de uma
reimpostação da vida social em condições de
bloquear o mal e favorecer o bem. O mal nasceu
com a sociedade e é com a sociedade, desde
que devidamente renovada, que ele pode ser
expulso e debelado.
• Em suma, é preciso recuperar o sentido da
virtude, entendida como constante transparência
e inter-relação entre interior e exterior.
• Ponto de partida e base da construção política de
Rousseau é o direito natural da liberdade e da
igualdade. Só quando actua este princípio, é que
o Estado tem razão de ser. Só quando o seu
ordenamento se conformar com o referido princípio é
que o Estado é um verdadeiro Estado — um Estado
natural e racionalmente legítimo. Que a liberdade e a
igualdade devem ser reconhecidas no Estado, já não
resulta do fato de o Estado nascer de um contrato;
pelo contrário deverá considerar-se o Estado como
se tivesse sido originado por um contrato, a fim de os
direitos fundamentais serem reconhecidos.
O contrato social

O contrato social, para ser legítimo, deve se originar do


consentimento necessariamente unânime. Cada
associado se aliena totalmente, ou seja, abdica sem
reserva de todos os seus direitos em favor da
comunidade. Pelo pacto, o homem abdica de sua
liberdade, mas sendo ele próprio parte integrante e ativa
do todo social, ao obedecer à lei, obedece a a si mesmo,
e portanto é livre: “ a obediência à lei que se estatuiu a si
mesma é liberdade.”O contrato não faz o povo perder a
soberania, pois não é criado um Estado separado dele
mesmo.
• Para Rousseau o contrato social deve
conceber-se do seguinte modo: é necessário
que os indivíduos por um instante confiram ao
Estado os seus direitos, o qual, depois, os
devolverá a todos mas com o nome
substituído (não serão já direitos naturais mas
direitos civis). Desta sorte, uma vez que o ato
de devolução é realizado por todos, nenhum
ficará privilegiado ou prejudicado.
• O resultado é precisamente que todos os homens
permanecem livres e iguais como no estado de
natureza, mas os seus direitos adquirem uma
garantia tutelar, antes inexistente. Os indivíduos
são apenas súbditos da vontade geral, para cuja
formação concorrem. A lei, para Rousseau, não
passa a expressão da vontade geral. Nenhuma
ordem possui legitimidade se não se basear na lei
— isto é, na vontade geral. Nesta vontade geral
consiste a verdadeira soberania que não pertence a
um indivíduo, ou a uma corporação particular, mas
sempre, e necessariamente, ao povo, enquanto
este constitui um Estado.
• Soberano e governo
• Soberano é o corpo coletivo que expressa, através da
lei, a vontade geral. A soberania do povo, manifesta
pelo legislativo, é inalienável, ou seja, não pode ser
representada. A democracia rousseauniana considera
que toda lei não-ratificada pelo povo em pessoa é nula.
O ato pelo qual o governo é instituído pelo povo não
submete este àquele. Ao contrário, não há um superior,
já que os depositários do poder não são senhores do
povo, mas seus oficiais, podendo ser eleitos ou
destituídos conforme a conveniência.
• O mesmo homem, enquanto faz a lei, é um cidadão, e
enquanto a ela obedece e se submete é um súdito. Além
de inalienável, a soberania é também indivisível, pois não
se pode tomar os poderes separadamente.
• O Governo é instituído para promover o bem comum, e só
é suportável enquanto justo. Não correspondendo ele com
os anseios populares que determinaram a sua
organização, o povo tem o direito de substituí-lo, refazendo
o contrato. Dessa forma, Rousseau sustenta assim, o
direito de revolução.
• O soberano, sendo o povo incorporado, dita a vontade
geral, cuja expressão é a lei. A pessoa privada tem uma
vontade individual que visa o interesse egoísta. Se
somarmos as decisões baseadas nos benefícios
individuais teremos a vontade de todos. Mas cada homem
também pertence a um espaço público, é parte de um
corpo coletivo com interesses comuns. Nem sempre os
interesses coincidem. Por isso, não se pode confundir a
vontade de todos com a vontade geral, pois a somatória
dos interesses privados pode ter natureza que o interesse
comum.
• 4. Opinião pública em Rousseau
• A expressão opinion publique surgiu pela primeira vez
em 1744 ao escrever uma carta a Amelot, quando
empregou o conceito no sentido de um “tribunal cuja
desaprovação haveria que se proteger”.
• A preocupação de Rousseau pela opinião pública de
dá devido ao “acosso” que sofreu por parte dos
formadores de opinião pública de seu tempo face ao
teor de suas obras, dentre estes, Voltaire. Rousseau
imediatamente foi censurado pelo clero, desaprovado
pela aristocracia e desprestigiado por alguns colegas
enciclopedistas.
• Rousseau, assaz paradoxal, tratou a opinião
pública ora como guardiã da moralidade, ora
como um preconceito vazio inimigo da reflexão
consciente.
• O autor não especifica quando se trata de um
preconceito vazio e quando é protetora dos
principios morais, pelo que não distingue entre a
opinião pública historicamente dominante, que o
perseguiu pelas críticas à cultura de sua época e
a opinião pública necessária para sua teoria do
contrato social.
• A opinião pública se desenvolveu com maior
intensidade na segunda metade do século XVIII,
a qual tem suas origens no processo de
fortalecimento da burguesia em seu período
mercantil que começou séculos atrás e que o
nascente liberalismo apoiou incondicionalmente.
• A formação da opinião pública historicamente
dominante obedece, pois, ao desenvolvimento da
burguesia e a seus interesses de expansão. A
burguesia ditava a agenda dos temas públicos e
políticos com base em interesses particulares.
Assim, a opinião pública em geral não era em si
mesma autônoma.

• A evolução do conceito de opinião pública em
Rousseau acompanha a formação do conceito
moderno de legitimidade. Pensador do
iluminismo, Rousseau não deixou e apontar os
diversos aspectos obscuros que ofuscam a
presunção iluminista. A razão metafísica,
orgulhosa, incapaz de reconhecer seus limites,
não passa de um preconceito, uma fraude, uma
opinião. Parece o que diz ser, mas não é.
• No Discurso sobre as ciências e as artes, Rousseau
acomete uma crítica feroz contra a Ilustração, que,
ante à aparência de liberdade e progresso, incidiu em
um estado de hipocrisia e corrupção absolutas. A
cultura, consoante Rousseau é o mundo da aparência,
da alienação, é o signo por meio do qual se mostra a
realidade em sua estrutura dual: por um lado, o ser,
âmbito das relações imediatas, da comunicação
diáfana, da verdade em suma; por outro, o parecer,
marco dos laços mediados pelo egoísmo, da
opacidade, da falsidade e do engano.
• A arte e a ciência, que nascem de uma primeira
divisão entre os homens, geram desigualdades e
perpetuam este estado de coisas: para seguir os
ditados da opinião pública, os indivíduos valorizam as
seus semelhantes não por critérios morais, e sim por
prestígio, uniformizam seus costumes até faze-los
socialmente aceitos e inclusive sacrificam sua
originalidade artística para fazer-se dignos de tão
implacável como determinante juiz.
• “as ciências, as letras e as artes, menos despóticas e
talvez mais poderosas, estendem guirlandas de
flores sobre cadeias de ferro.”
• No Discurso sobre a origem e os fundamentos da
desigualdade entre os homens, trata-se de uma
reconstrução hipotética de um processo, o passo do
homem como ser natural e independente ao indivíduo
civilizado, ansioso, inseguro e progressivamente
dependente.
• No estado de natureza os homens, originariamente
autônomos, vivem de forma individual, isolada. A
colaboração entre indivíduos é ocasional, a linguagem
muito rudimentar; os contratos são efêmeros e dependem
das necessidades do momento, não há relações estáveis
nem abordagens futuras.


• O começo da socialização corresponde ao nascimento da
comparação de si e dos outros, da imitação, da
competição, do desejo de aparecer. Aí surge a opinião
pública.
• “A verdadeira causa de todas estas diferenças é que o
selvagem vive em si mesmo e o homem sociável, sempre
fora de si, só vive na opinião dos outros e é, por assim
dizer, só do julgamento dos outros que ele tira o
sentimento de sua própria existência.”
• A linguagem é o campo no qual se estrutura a opinião, e
a cada forma de linguagem por assim dizer equivalerá
uma forma de opinião.
• “A essas três espécies de leis,junta-se uma quarta, a
mais importante de todas, que não se grava nem no
mármore, nem no bronze, mas no coração dos
cidadão; que faz a verdadeira constituição do Estado;
que todos os dias ganha novas forças; que, quando
as outras leis envelhecem ou se extinguem, as
reanima ou as supre, conserva um povo no espírito
de sua instituição e insensivelmente substitui a força
da autoridade pela do hábito. Refiro-me aos usos e
costumes e, sobretudo, à opinião, essa parte
desconhecida por nossos políticos, mas da qual
depende o sucesso de todas as outras.”
• No contrato social, Rousseau inventa um tribunal
especial, o censor, cujo único objetivo é fornecer
a opinião pública como guardiã da moralidade
pública. Explica, assim, a função do censor: “A
censura mantém os costumes, impedindo as
opiniões de se corromperem, conservando a sua
retidão por meio de aplicações sábias e, até,
algumas vezes, fixando-os quando ainda se
mostram incertos.” O censor fortalece o melhor
das convicções coletivas do povo.
• A causa dos males morais e políticos é portanto a
opinião pública não esclarecida. Uma certa divergência
no julgamento dos particulares compromete o
julgamento público da vontade geral. O legislador então
esclarece a opinião pública não apenas para que as
disparidades inevitáveis não comprometam a vontade
geral, mas também para que a mesma não se dissolva.
• Quanto mais esclarecida a opinião pública, mais ela se
aproxima da vontade geral. Daí todo o jogo e todo
segredo da política: agir sobre a opinião, segundo as
regras pelas quais ela se forma.
Em Carta sobre D’Alembert sobre os espetáculos,
D’Alembert sugere a autorização de espetáculos teatrais
e assinala que a má conduta dos comediantes pode ser
evitada por meio de leis severas e bem executadas.
Inconformado,Rousseau rejeita tal proposta, aduzindo a
incapacidade das leis de alterar os costumes
estabelecidos, as leis podem provir dos costumes.
Assim, ao inverter a relação, o problema é reformulado:
“Como pode o governo agir sobre os costumes?
Respondo que através da opinião pública.”

“Façam o que fizerem, nem a razão, nem a virtude, nem


as leis vencerão a opinião pública, enquanto não se
descobrir a arte de mudá-la”.
• Em Rousseau há uma condenação frequente da opinião
pública e nossa sujeição a ela. A opinião é entendida no
sentido de aguda preocupação pelo julgamento do outro,
motivada pela necessidade de consideração e pelo
desejo de se distinguir, enraizado na auto estima. Toda a
pedagogia de Emílio visa formar um indivíduo capaz de
libertar-se do pesado fardo da opinião pública, em
particular, mantendo a criança alheia a opiniões comuns
até que ele saiba ainda julgá-los, a saber, romper com os
grilhões da opinião.
• “A opinião, rainha do mundo, não está submetida ao
poder dos reis, eles mesmos são seus primeiros
escravos.”