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O CONSELHO DE SEGURANÇA

DAS NAÇÕES UNIDAS


E SUA EFICÁCIA NA
PREVENÇÃO E
SOLUÇÃO DE CONFLITOS

Cons. Christiano Sávio Figueirôa


Outubro de 2016
• Funções do Conselho de Segurança
conforme a Carta das Nações Unidas;
• A prática do Conselho;
• Principais desafios.
Funções do Conselho de Segurança
conforme a Carta das Nações Unidas
O Conselho de Segurança
• Pedra fundamental do sistema de segurança coletiva
inaugurado pelas Nações Unidas;
• Ao renunciarem ao uso da força como meio de solução
de suas controvérsias (jus ad bellum), exceto em
legítima defesa, os Estados Membros da ONU confiaram
ao Conselho a responsabilidade primária pela
manutenção da paz e da segurança internacionais.
“Artigo 24. 1. A fim de assegurar pronta e eficaz ação por
parte das Nações Unidas, seus Membros conferem ao
Conselho de Segurança a principal responsabilidade na
manutenção da paz e da segurança internacionais e
concordam em que no cumprimento dos deveres impostos
por essa responsabilidade o Conselho de Segurança aja em
nome deles.”
O Conselho de Segurança
Solução pacífica de controvérsias (Capítulo VI)
• Responsabilidade primária das partes;
“Artigo 33. 1. As partes em uma controvérsia, que possa vir a
constituir uma ameaça à paz e à segurança internacionais,
procurarão, antes de tudo, chegar a uma solução por
negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem,
solução judicial, recurso a entidades ou acordos regionais,
ou a qualquer outro meio pacífico à sua escolha.”
• O CSNU também pode atuar, p. ex:
- convite as partes a solucionarem suas diferenças,
- investigação ;
- recomendações.
O Conselho de Segurança
Ação relativa a ameaças à paz, ruptura da paz e
atos de agressão (Capítulo VII)
• Recomendações e medidas provisórias;
• Sanções;
“Artigo 41. O Conselho de Segurança decidirá sobre as
medidas que, sem envolver o emprego de forças armadas,
deverão ser tomadas para tornar efetivas suas decisões e
poderá convidar os Membros das Nações Unidas a aplicarem
tais medidas. Estas poderão incluir a interrupção completa
ou parcial das relações econômicas, dos meios de
comunicação ferroviários, marítimos, aéreos , postais,
telegráficos, radiofônicos, ou de outra qualquer espécie e o
rompimento das relações diplomáticas.”
O Conselho de Segurança
Ação relativa a ameaças à paz, ruptura da paz e
atos de agressão (Capítulo VII)
• Uso da força.
“Artigo 42. No caso de o Conselho de Segurança considerar
que as medidas previstas no Artigo 41 seriam ou
demonstraram que são inadequadas, poderá levar a efeito,
por meio de forças aéreas, navais ou terrestres, a ação que
julgar necessária para manter ou restabelecer a paz e a
segurança internacionais. Tal ação poderá compreender
demonstrações, bloqueios e outras operações, por parte das
forças aéreas, navais ou terrestres dos Membros das Nações
Unidas.”
O Conselho de Segurança
Ação relativa a ameaças à paz, ruptura da paz e
atos de agressão (Capítulo VII)
• A Carta contemplava um Comitê de Estado Maior
integrado pelos P-5.
• O Comitê de Estado Maior teria a direção
estratégica do uso força pelo Conselho;
• Os Estados Membros deveriam manter
contingentes aéreos imediatamente utilizáveis para
emprego a serviço do CSNU;
• Ademais, deveriam por outras forças à disposição a
pedido do Conselho ou mediante acordos
especiais.
A prática do CSNU
A prática do CSNU

• Com a Guerra Fria, a prática das Nações Unidas


se desenvolveu em sentido bem diferente;
• As rivalidades da lógica bipolar levaram o
Conselho a ter atuação bastante modesta na
prevenção de conflitos ;
• Apego excessivo à responsabilidade primária das
partes fez que o CSNU se tornasse bem mais
ativo apenas após o conflito eclodisse e fosse
minimamente estabilizado.
A prática do CSNU
• Surgimento e fortalecimento das Operações de
Manutenção da Paz (“Capítulo 6 e ½”);
- Forças de interposição e supervisão, cujo envio
ao terreno dependeria da prévia existência de uma
paz a ser mantida e da observância de alguns
princípios básicos;
a) Consentimento das partes;
b) Imparcialidade; e
c) Uso da força apenas em autodefesa ou em
defesa do mandato.
A prática do CSNU
• O sistema de sanções e de imposição da força
previsto na Carta tampouco foi implementado
durante a Guerra Fria;
• A imposição de sanções só se tornou possível a
partir da década de 1960, nos poucos casos em
que os membros permanentes coincidiam, p.ex.,
contra regimes aparteístas na África;
• Ideia de que o CSNU empregaria de maneira
rápida força militar considerável para usar a força
prejudicada pelo desacordo entre os P-5 e a
relutância de todos os Estados Membros e porem
forças militares à disposição da ONU.
A prática do CSNU
• Na década de 1990, o fim da Guerra Fria possibilitou
ao Conselho de Segurança reunir consenso para agir
diante de diversos conflitos antes dominados pela
lógica Leste-Oeste;
• CSNU autoriza os Estados Membros a “usarem todos
os meios necessários” para fazer o Iraque cumprir
suas decisões anteriores e desocupar o Kuaite
(Resolução 678), bem como intensifica a imposição
de sanções;
• Surgimento de grande número de OMPs, que
passaram a receber tarefas mais complexas, como
assistência eleitoral, ajuda humanitária,
fortalecimento institucional e apoio ao
desenvolvimento (OMPs multidimensionais);
A prática do CSNU
• O Conselho também procurou reforçar suas
atividades preventivas:
- missões ao terreno;
- reuniões de “horizon scanning”;
- fortalecimento de escritórios regionais;
- diplomacia discreta;
- “operação de manutenção da paz preventiva”
(único exemplo - Macedônia) .
• Comissão de Consolidação da Paz (2005) – órgão
assessor de toda a ONU para evitar a recaída em
conflito
A prática do CSNU
• Problemas de sanções abrangentes:
a) impactos humanitários sobre a população
civil;
b) efeitos sobre terceiros Estados;
• Desenvolvimento das “sanções dirigidas”
(targeted sanctions, smart sanctions):
a) proibições de viagens;
b) congelamento de ativos.
A prática do CSNU
• Sobre uso da força o CSNU evoluiu em duas direções:
a) autorizações para uso da força – por organizações
regionais, forças multinacionais ou “coalizões dos dispostos”
uso da força, no nível estratégico, sem requisito de
consentimento;
Ex: Somália (UNITAF), BiH (OTAN, SFOR), Ruanda (Op.
Turquesa); Haiti (MNF, 1994/MIF, 2004); Afeganistão (ISAF).
b) operações de manutenção da paz robustas –
autorizadas com base no Capítulo VII da Carta a usar a força
no nível tático para a defesa de seu mandato em tarefas
como a dissuasão de “spoilers” de processos de paz,
proteção de civis e o apoio a esforços de estabilização, com
o consentimento da nação anfitriã ou principais partes do
conflito;
Ex: UNAMSIL (pós 2000), MONUC/MONUSCO, MINUSTAH.
Desafios
Contexto atual
• Número de guerras civis triplicou nos últimos 10 anos;
• Massacres com grande repercussão internacional e
demanda por maior atuação das Nações Unidas;
• Escalada do número de ataques fatais de grupos
terroristas;
• Pior crise de refugiados e migrantes desde a Segunda
Guerra Mundial;
• Crescentes necessidades de assistência humanitária (cerca
de US$ 20 bilhões);
• Operações de manutenção da paz da ONU esgarçadas, com
poucos recursos e enviadas a ambientes altamente voláteis;
• Por outro lado, algumas OMPs recebem mandatos cada vez
mais robustos do Conselho de Segurança;
• Recrudescimento da divergência entre os membros
permanentes;
Desafios da inação - o veto
“Artigo 27. 1. Cada membro do Conselho de Segurança
terá um voto.

2. As decisões do conselho de Segurança, em questões


processuais, serão tomadas pelo voto afirmativo de
nove Membros.

3. As decisões do Conselho de Segurança, em todos os


outros assuntos, serão tomadas pelo voto afirmativo de
nove membros, inclusive os votos afirmativos de todos
os membros permanentes, ficando estabelecido que,
nas decisões previstas no Capítulo VI e no parágrafo 3
do Artigo 52, aquele que for parte em uma controvérsia
se absterá de votar.”
O veto
O veto
• Paralisia do Conselho de Segurança em
questões que envolvem interesses
diretos dos P-5;
• 195 vetos desde 1945;
• Ex: 45 Oriente Médio e questão
palestina/ 6 guerra civil na Síria
• Iniciativas para restringir ou abolir o
veto dependem dos P-5 para prosperar.
Desafios da ação
• Atividade “legiferante” do CSNU na área de
prevenção – intrusão na competência de outros
órgãos e foros (encroachment);
• Questões de devido processo legal a respeito da
imposição de sanções a indivíduos e entidades;
• Unilateralismo (sanções e uso da força);
• Falta de supervisão de forças individuais e
coalizões que usam a força com autorização do
Conselho;
• Flexibilização das distinções entre manutenção e
imposição da paz.
Considerações Finais
• O CSNU ainda reflete estrutura de poder do
final da II Guerra Mundial;
• O instituto do veto condiciona a eficácia do
Conselho na prevenção e solução de conflitos
à formação de um consenso mínimo entre os
membros permanentes;
• Mudanças concretas só serão possíveis com o
concurso da vontade dos P-5;
• Por outro lado, uma ONU capaz de agir contra
a vontade de um membro permanente em
temas de paz e segurança poderia agravar os
riscos de unilateralismo ou mesmo de
confronto entre um deles e a Organização.
Muito obrigado!

dpaz@itamaraty.gov.br