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USP | ECA | Editoração

História do Livro (CJE 0249)


Seminário: Por uma Geo-história da Europa (unidades territoriais, políticas e culturais)

A DIFUSÃO DA OBRA

O Cortesão
NA EUROPA (SÉCS. XVI-XVII)
Eduardo H. Peruzzo
O Cortesão (1528),
de Baldassare Castiglione

• Publicado em Veneza, em 1528, Il Libro del Cortegiano (mais


conhecido como “O Cortesão”), era uma espécie de manual de
etiqueta de corte, baseado sobretudo nos conceitos de
emulação, decoro e dissimulação (honesta), que marcariam
profundamente a cultura renascentista e barroca.
• Trazia na forma de diálogo (topos tradicional que remetia às
obras clássicas, ex: O Banquete, de Platão) os ensinamentos
necessários para um indivíduo portar-se na sociedade de corte.
• Embora tenha sido amplamente difundido ao longo dos séculos
XVI e XVII, durante um bom tempo foi menosprezado pela
maior parte dos estudiosos do período, como uma obra menor,
de conteúdo frívolo e pouca importância.
• Todavia, desde os estudos a propósito da racionalidade de corte —
sobretudo os do sociólogo Norbert Elias (O Processo Civilizador, 1939; A
Sociedade de Corte, 1983), mas não somente — viu-se que, em realidade, a
obra e sua recepção e reprodução por todo Ocidente letrado é um registro
importante para se compreender variados aspectos da vida cultural, política
e editorial daquele período.

• Surge, portanto, como um código de costumes da aristocracia renascentista


italiana, mas se expande por diversos contextos como manual de conduta,
literatura moral e edificante, norma laicizante de comportamento do
homem de corte, fixador e divulgador de normas e padrões de costume,
protocolos diplomáticos e comportamento político.

• Tudo isso em uma Europa Moderna que, num médio espaço de tempo, irá
abandonar a configuração política em torno de cidades e principados
independentes e autônomos, rumo a consolidação dos Estados nacionais. A
própria figura do Rei, ou do Príncipe, por usa vez, que deve ser sempre
emulada por seus súditos, cada vez mais distancia-se do “guerreiro” e
aproxima-se do “estadista”, do homem de corte, o cortesão. [ex: Carlos V
(1500-1558) – Felipe II (1527-1598) – Luís XIV (1638-1715)]
Segundo Alcir Pécora:

“A conhecida anedota de que Carlos V tinha como livros


de cabeceira Il Libro del Cortegiano, de Baldassare
Castiglione, O príncipe, de Nicolau Maquiavel, e à Bíblia
parece cada vez mais emblemática. Desde que os
estudos a propósito da racionalidade de corte, sobretudo
a partir da obra decisiva de Norbert Elias, têm promovido
uma completa releitura do interesse e do alcance
intelectual e social dos tratados de corte —, lidos então
geralmente como manuais frívolos de etiqueta e, no
melhor dos casos, como formulação idealista ou utópica,
com fins artificiosos e compensatórios —, o cortesão de
Castiglione não cessa de aumentar a projeção de sua
sombra refinada sobre o período clássico das letras nos
Estados europeus modernos [...]”
“[...] Trata-se sem dúvida do mais importante livro do gênero: o modelo de todos os
demais tratados, que se multiplicaram nas diferentes línguas, com o mesmo propósito
de instituição de um novo código da razão, sinalizado por um sistema complexo de
maneiras, cujo decoro previa a aplicação adequada delas segundo as diferentes
circunstâncias. Nesse sentido, não há mesmo que estranhar que Il libro del cortegiano
forme com O príncipe o que se poderia (aristotelicamente) descrever como uma relação
antistrófica, em que os domínios intelectuais definidos por um e outro guardam, ao
mesmo tempo, relações de similitude e de oposição. Para indicar os elementos comuns,
referidos por Salvatore Battaglia, nota-se que ambos os livros atentam fortemente para
o mundo efetivo das práticas, e, nesse âmbito, atribuem grande importância à ação
individual movida por emulação. Já os elementos distintos fundamentais destacados
por Battaglia dizem respeito ao fato de que Castiglione pretende construir um modelo
exemplar do homem social, em que predomina a ideia de solidariedade dos espíritos
eleitos, enquanto Maquiavel constrói o modelo de exceção de um homem
extraordinário, porém definitivamente só, em que a sociabilidade dos melhores
substitui-se pela fatalidade da crua prática política. Seja como for, dada a laicização
evidente nos dois casos, a Bíblia faz aí o papel lato de cabeceira, que se restringe, no
Príncipe, à exterioridade do cálculo político, e que, no Cortesão, trata de adequar-se às
práticas do convívio elegante.”

[Alcir Pécora, no “Prefácio à Edição Brasileira”. In: CASTIGLIONE, Baldassare. O cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997. pp. VII-VIII]
Retrato do Conde Baldassare Castiglione (1478-
1529),
por Rafael Sanzio

[c. 1515, óleo sobre tela, Museu do Louvre]


Primeira edição de O Cortesão, Veneza (1528), vernáculo
[in Venetia, nelle case d'Aldo Romano e d'Andrea d'Asola suo suocero, nell' anno 1528,
del mese d'aprile]

[Frontispício e última página, fonte: BNF | Gallica, ark:/12148/bpt6k315634m]


[páginas 19 e 20, fonte: BNF | Gallica, ark:/12148/bpt6k315634m ]
Número de edições da obra ao longo do século XVI

Edições de "O Cortesão” (1530-1610)

28

22

19

14
13
12

6 6

1530 1540 1550 1560 1570 1580 1590 1600 1610

[Fonte: BURKE, Peter. As fortunas d’O cortesão: a recepção europeia a O cortesão de Castiglione. São Paulo: UNESP, 1997. pp. 159. ]
MAPAS
[Mapas idealizados na plataforma My Maps (Googlemaps) a partir dos dados recolhidos pelo
historiador Peter Burke, contido no “Apêndice I” do livro: BURKE, Peter. As fortunas d’O cortesão:
a recepção europeia a O cortesão de Castiglione. São Paulo: UNESP, 1997. pp. 179-184.]

MAPA INTERATIVO:
https://www.google.com/maps/d/u/0/viewer?mid=1m-yPWqL5EghSnplEk5qCW-
Z7B5yzKwi_&hl=pt-BR&ll=47.316217867880894%2C3.8764016000000083&z=5
Edições de O Cortesão pela Europa, sécs. XVI –XVII

1528 – 1550 1551 – 1600

1601 – 1650 1651 – 1700


Edições de O Cortesão pela Europa, sécs. XVIII – XIX (primeira metade)
Locais/números de edições de O Cortesão, 1528 – 1550

[Fonte: Mapa feito a partir dos dados contidos em: BURKE, Peter. As fortunas d’O cortesão: a recepção europeia a O cortesão de Castiglione. São Paulo: UNESP, 1997. pp. 179-184.]
Locais/números de edições de O Cortesão, 1551 – 1600

[Fonte: Mapa feito a partir dos dados contidos em: BURKE, Peter. As fortunas d’O cortesão: a recepção europeia a O cortesão de Castiglione. São Paulo: UNESP, 1997. pp. 179-184.]
Locais/números de edições de O Cortesão, 1601 – 1650

[Fonte: Mapa feito a partir dos dados contidos em: BURKE, Peter. As fortunas d’O cortesão: a recepção europeia a O cortesão de Castiglione. São Paulo: UNESP, 1997. pp. 179-184.]
Locais/números de edições de O Cortesão, 1651 – 1700

[Fonte: Mapa feito a partir dos dados contidos em: BURKE, Peter. As fortunas d’O cortesão: a recepção europeia a O cortesão de Castiglione. São Paulo: UNESP, 1997. pp. 179-184.]
Locais/números de edições de O Cortesão, 1700 – 1850*
*maior intervalo de
tempo do que os
quadros anteriores.

[Fonte: Mapa feito a partir dos dados contidos em: BURKE, Peter. As fortunas d’O cortesão: a recepção europeia a O cortesão de Castiglione. São Paulo: UNESP, 1997. pp. 179-184.]
Observações importantes

• Idiomas: o original é impresso em vernáculo (italiano). Surgem edições


seguintes nos principais idiomas “cultos” europeus: francês, castelhano,
latim, alemão, inglês, etc. [Obs: nem sempre o local de impressão coincide
com idioma, por exemplo, em locais de fala anglo-saxã a maioria das
edições eram latinas, e na Antuérpia a maior parte eram em castelhano.
• A lista original, compilada por Peter Burke a partir de outros estudos não
salienta se as edições eram todas impressas ou manuscritas, acredita tratar-
se sobretudo do primeiro caso pelos exemplares relatados, por isso mesmo
é de se cogitar que existiam também várias cópias manuscritas em
circulação.
• Além disso, circulavam muito versões adaptadas, inspiradas (emuladas) na
obra original, como a de Baltasar Gracian e de Luís de Milan (para ficar em
casos mais conhecidos
• Podemos acompanhar a difusão das edições ao longo dos séculos XVI –XIX
em conjunto ao desenvolvimento da dinâmica capitalista das principais
capitais europeias. Com um nítido deslocamento dos centros comerciantes
e produtores do mundo mediterrânico das cidades-estados italianas, e dos
países baixos (segunda Itália, para Braudel) — marcos do “renascimento
urbano” e eixo das liberdades e da economia (vida burguesa) do “primeiro
capitalismo” — rumo as capitais do norte, que intensificarão o processo
produtivo dando origem ao capitalismo de tipo industrial.
Bibliografia:

CASTIGLIONE, Baldassare. O cortesão. Tradução de Carlos Nilson Moulin Louzada. São


Paulo: Martins Fontes, 1997.

PÉCORA, Alcir. Prefácio à edição brasileira. A cena da perfeição. In: CASTIGLIONE,


Baldassare, conte. O cortesão. Tradução de Carlos Nilson Moulin Louzada. São Paulo:
Martins Fontes, 1997.

BURKE, Peter. As fortunas d'o cortesão. UNESP, 1997

HANSEN, João Adolfo. O discreto. In: Libertinos e libertários. São Paulo: Companhia das
Letras, 1996. pp. 77-102.