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Disciplina:

Saúde mental e Envelhecimento

Prof. Dr. Cristian Paiva

Universidade Federal do Ceará


Programa:
Velhos, velhice e
mudança social
Por que os estudos sobre envelhecimento,
velhice e condição social dos idosos
têm despertado tanta atenção?
Os velhos voltaram à cena social…

Dados demográficos sobre envelhecimento da


população e aumento de longevidade

Políticas sociais e previdenciárias

Novos saberes, práticas e instituições encarregadas da


gestão da velhice.
A nova organização social
das idades
* Questionando o modelo universal, homogêneo e teleológico do
desenvolvimento humano;

* Questionando as metáforas biológicas do declínio;

* Compreendendo as formas culturais particulares de dar sentido à


velhice e ao envelhecimento.
Existe uma “política de idades” que organiza o conceito
de velhice e lhe designa um significado determinado.

A noção de política de idades refere-se ao “modo pelo


qual uma sociedade exerce controles sobre o
desenvolvimento dos indivíduos em relação ao
conceito de idade, de maneira análoga ao modo como
pauta e determina o conceito de gênero” (Iacub, 2007).
Deslocamentos na
representação do idoso na
sociedade
Questionando o trinômio: VELHICE, DOENÇA e MORTE.
Debert, 2004
A partir da segunda metade do século XIX, a velhice é tratada
como uma etapa da vida caracterizada pela decadência física e
ausência de papéis sociais.

O avanço da idade como um processo contínuo de perdas e de


dependência – que daria uma identidade de condições aos idosos
– é responsável por um conjunto de imagens negativas associadas
à velhice.

A tendência contemporânea é rever os estereótipos associados ao


envelhecimento. A ideia de um processo de perdas tem sido
substituída pela consideração de que os estágios mais avançados da
vida são momentos propícios para novas conquistas, guiadas pela
busca do prazer e da satisfação pessoal
As novas formas de gestão da
velhice
Duplo movimento que acompanha a transformação da velhice como
preocupação social:
socialização e reprivatização
1. Assistimos, por um lado, a uma socialização
progressiva da gestão da velhice;

2. Por outro, nesse movimento de socialização há


também o acionamento de processos de reprivatização
da velhice, que transformam a velhice numa
responsabilidade individual.
processo de ressignificação da
velhice
Deslocamentos e persistências de imagens e significados
atribuídos aos velhos/as e à velhice.

Tensões e conflitos entre linguagens públicas antagônicas


para gerir a velhice

Proliferação de denominações para designar a pessoa idosa:


velho, idoso, meia-idade, melhor idade, plena idade,
terceira idade… (Peixoto, 2003)

Proliferação de etapas intermediárias de envelhecimento.


atores da nova gestão da velhice
Os gerontólogos e outros experts como agentes
privilegiados na reprivatização da velhice;

Os velhos e velhas que ocupam e redefinem os novos


espaços, constituem novas trajetórias e experiências de
envelhecimento e aprendem modos de controle de
emoções, como estratégias para envelhecer bem;

A mídia, que abre campos para novas demandas políticas e


para a formação de novos mercados de consumo.

Debert, 2004, p. 16.


“descronologização da vida”
A juventude como valor e não como uma idade.

Estímulo a um “hedonismo controlado”, encorajando


a autovigilância da saúde corporal e da boa aparência.

Os indivíduos são convencidos a assumir a


responsabilidade pela sua própria aparência e pela sua
saúde.

Nesse sentido, “velhice” passa a ser associada não à


idade, mas à perda da autonomia e à perda da lucidez.
ambivalências na representação do
modelo de velhice ativa:
“A nova imagem do idoso não oferece instrumentos capazes de
enfrentar a decadência de habilidades cognitivas e controles
físicos e emocionais que são fundamentais, na nossa sociedade,
para que um indivíduo seja reconhecido como um ser
autônomo, capaz de um exercício pleno dos direitos de
cidadania. A dissolução desses problemas nas representações
gratificantes da terceira idade é um elemento ativo na
reprivatização do envelhecimento, na medida em que a
visibilidade conquistada pelas experiências inovadoras e bem-
sucedidas fecha o espaço para as situações de abandono e
dependência. Essas situações passam, então, a ser vistas como
consequência da falta de envolvimento em atividades
motivadoras ou da adoção de formas de consumo e estilos de
vida inadequados”(Debert, 2004, p. 15).
Birman (1997)
Visibilidade social, reconhecimento simbólico e
transformação progressiva do lugar social da terceira
idade;

Formas paradigmáticas de ordenação psíquica do idoso


– ESTILOS PSÍQUICOS

Memória: entre informação e evocação


Elias (2001)
Mudanças e adaptações nas relações interpessoais
experimentadas pelos idosos: dependência e regressão,
isolamento emocional, ruptura dos laços afetivos e depressão.

Examinar o que as pessoas que envelhecem e as moribundas


experiementam “subjetivamente”: complementar o
DIAGNÓSTICO MÉDICO tradicional com um
DIAGNÓSTICO SOCIOLÓGICO.

Racionalização x explicações emotivas / (auto)controle x


descontrole

Conflito não-resolvido na institucionalização ostensivamente


racional da morte (p. 98)
Envelhecimento e subjetividade
Aspectos psíquicos do envelhecimento
A relação com o corpo
Contra as reduções biológicas do corpo dos idosos:
metáforas do corpo enrugado, deteriorado, etc.

David le Breton (2011) afirma que “a pessoa idosa resvala


lentamente para fora do campo simbólico, transgride os
valores centrais da modernidade: a juventude, a sedução, a
vitalidade, o trabalho. Ela é a encarnação do recalcado” (p.
224).

O que fazer desse “corpo desfeito”?

O lento trabalho de luto do corpo deflagrado pelo


envelhecimento.
imagem do corpo
Eixos cujo entrelaçamento estrutura existencialmente
a imagem do corpo (Gisela Pankow e D. le Breton):
* A forma (sentimento da unidade das diferentes partes do
corpo, de sua apreensão como um todo, de seus limites no espaço)
* O conteúdo (imagem de seu corpo como um universo
coerente e familiar no qual se inscrevem sensações previsíveis e
reconhecíveis)
* O saber (o conhecimento, pelo sujeito, ainda que
rudimentar, da ideia que a sociedade se faz da espessura invisível do
corpo, saber de que ele é constituído, como funcionam os órgãos e
as funções)
* O valor ( a interiorização do juízo social que cerca os
atributos físicos que o caracterizam, segundo sua história pessoal e
classe social. Representa o ponto de vista do Outro)
A imagem do corpo, estruturada pela articulação desses eixos, é uma
medida familiar da relação do sujeito com o mundo.

Esses eixos acompanham o homem ao longo de sua existência e


remodelam-se segundo a medida dos eventos.

Relacionam-se aos contextos: social, cultural, relacional e pessoal.

No que concerne à pessoa idosa, sendo afetada por um sinal


negativo, o último componente tem importância destacada.

O corpo dos velhos é o corpo ‘diferente’(Britto da Motta, 2002).

Na imagem que o sujeito tem de seu corpo, infiltra-se pouco a


pouco o sentimento de depreciação pessoal.

A velhice marca desigualmente, no juízo social, a mulher e o


homem.
acreditar no estigma ou
desarmá-lo?
A equipe encarregada de uma pessoa idosa em um
serviço de longa ou média estadia pode acreditar o
estigma ou, ao contrário, desarmá-lo a partir de sua
atitude calorosa.
Le Breton (2011) fala que a equipe pode empreender
uma restauração da imagem do corpo por uma ação
direta sobre o corpo, que culmina em uma restauração
do sentido.
Diferentes ações são possíveis. Ver Le Breton, 2011, p. 234-
235).
Britto da Motta (2002)
Os idosos como segmento social heterogêneo.
Aproximação desmesurada que se faz do velho com a natureza.
Separação do corpo que envelhece e da mente que permanece jovem;
Relatos sobre o processo de envelhecimento do corpo (dores, limites,
perdas) e sobre a reação social a ele associada; a sexualidade e a participação
em grupos (sociabilidades e ação política).
Dificuldades na elaboração da identidade de velho: indesejada, ambígua –
aparência desgastada, funcionamento não totalmente sincronizado e a
mente – ou a essência dos sentimentos – ‘jovem’.
Imagem física (rumo a um “desajeitado disciplinamento”) x imagem social
dos velhos.
“Na realidade, ainda coexistem as duas imagens: a tradicional,
‘naturalizada’, do velho inativo, respeitável, mas ínútil’; e a nova imagem,
mais dinâmica e participante, embora apenas em determinadas situações
sociais.” (p. 48).
Envelhecimento, saúde e
atenção psicossocial
Pensar o envelhecimento como híbrido biológico-social
dimensões do processo social
complexo
Saúde mental e Atenção psocossocial (Amarante, 2007)

Teórico-conceitual Técnico-assistencial

Jurídico-política Sócio-cultural
doença mental e atenção
psicossocial
Pensar em termos de complexidade, de simultaneidade,
de transversalidade de saberes, de construcionismo, de
reflexidade. (Amarante, 2007, p. 18)

Saúde mental não é apenas psicopatologia,


semiologia… (Idem, p. 16).

Promoção da saúde // tratamento das doenças

A promoção da saúde possibilita ações voltadas para a


análise global do contexto biológico, psicológico, social
e cultural da população (Pinheiro; Freitas, 2004).
E sobre as patologias associadas à velhice, o que
podemos dizer?

Ir além dos modelos/teorias estritamente biológicos do


envelhecimento.

O processo de envelhecimento do sujeito idoso deve


ser compreendido a partir do enfoque biopsicossocial.
Ou seja, a partir da interação da dimensão biológica,
psicológica e social do envelhecimento (Scharlstein,
2004)
“os 5 Is”: os grandes desafios
da geriatria
As “i’njúrias geriátricas” (síndromes clínicas):
I’NSTABILIDADE POSTURAL
I’NCONTINÊNCIA
I’NSUFICIÊNCIA CEREBRAL
I’MOBILIDADE
I’ATROGENIA
Essas síndromes têm etiologias múltiplas, comprometendo a
independência funcional, a autonomia e a saúde dos idosos,
causando-lhes danos físicos, sociais e psicológicos.
Efeito dominó.
níveis de prevenção:
Prevenção primária – impedir o aparecimento das
doenças.
Engloba:
* promoção da saúde e
* promoção específica.
Prevenção secundária – detecção precoce e prevenção das
complicações;

Prevenção terciária – reabilitação ou alentecimento da


progressão de uma doença.
promoção da saúde e
envelhecimento
Deve ter abrangência biopsicossocial, promovendo,
além de saúde física, a mental e a integração social.

A prevenção, nos indivíduos de 60-74 anos, tem por


objetivo aumentar o período de atividade
biopsicossocial, reduzir as incapacidades e os
transtornos consequentes às doenças crônicas, além de
preparar, de forma gradativa, para a aposentadoria,
diminuindo a prevalência de depressão. (Pinheiro;
Freitas, 2004)
qualidade de vida
Definição de qualidade de vida segundo a OMS:

“A percepção do indivíduo de sua posição na vida no


contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive
e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrõers e
preocupações”.

Modelos de qualidade de vida – envolvem aspectos


multidimensionais.
memória,identidade e
envelhecimento
O papel da memória no processo de envelhecimento como
locus privilegiado de construção da identidade do ser velho
e as estratégias de afirmação nos espaços sociais.
Nexo entre o indivíduo e seu mundo, âncora a ligar o
sujeito ao mundo social.
Evocação do passado, reconstrução.
Relação com a família, a casa, o mundo da vida cotidiana.
Redes de reciprocidade e sociabilidade
O trabalho e a trajetória profissional.