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1933

Casa Grande & Senzala


Manuel Bandeira

Casa Grande & Senzala


Grande livro que fala
Desta nossa leseira
Brasileira
Mas com aquele forte cheiro e sabor do Norte
Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fulôs com sinhôs.
A mania ariana
Do Oliveira Viana,
Leva aqui sua lambada
Bem puxada.
Se nos brasis abunda,
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns Octoruns
Que importa? É lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
– Diz o Boas –
É coisa que passou
Com o franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço
Não está nisso
Está em causas sociais,
De higiene e outras coisas que tais
Assim pensa, assim fala
Casa Grande & Senzala
Livro que à ciência alia
A profunda poesia
Que o passado evoca
E nos toca
A alma do brasileiro,
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
Infeliz!
A mestiçagem como questão nacional e distintiva de nossa singularidade.

“ Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma quando


não na alma e no corpo, a sombra ou pelo menos a pinta, do indígena e ou
do negro”, afirmava Freyre (1933, p. 307)
“Foi o estudo de antropologia do professor Boas
que primeiro me relevou o negro e o mulato em
seu justo valor – separados dos traços de raça os
efeitos do ambiente ou da experiência cultural.
Apreendi a considerar fundamental a diferença
entre raça e cultura; a discriminar entre os
efeitos e relações puramente genéticas e os de
influencias sociais, de herança cultural e de
meio. Nesse critério de diferença fundamental
de raça e cultura assenta todo o plano deste
ensaio. Também na diferença entre
hereditariedade de raça e hereditariedade de
família.” P 32.

O Contexto
Freyre é o último pensador de um período e o primeiro de uma nova
safra, dado pelo abandono do discurso jurídico e adoção do
discurso sociológico.

Semana da arte moderna de 1922, uma revolução estética que


denuncia a ingenuidade do ufanismo e busca a valorização das
coisas do país.
 As mobilizações sociais dos trabalhadores e a fundação do Partido
Comunista Brasileiro.
 As ideias católicas em larga circulação que representa uma reação
tradicionalista.
 Plano de imigração brasileiro e tentativa de definição de um povo.

Estes processos marcam o desgaste do pacto oligárquico e a chegada


do industrialismo no Brasil com a chegada do Estado Novo. 1937
Formação econômica e
civilização tropical
 Formou-se no Brasil uma sociedade
condicionada pelo sistema de produção
monocultor latifundiário.
 Sistema “Semi-feudal”.
 A civilização do açúcar não é europeia é “mais-
que-europeia”, da junção do oriente com o
ocidente em Portugal, transplantou-se para cá
uma nova civilização e um desafio de se
construir uma civilização nos trópicos.
CASA GRANDE E
PATRIARCALISMO
 Casa Grande mantém a coesão patriarcal e religiosa:
base da coesão nacional.
 Um patriarcalismo absorvente, e uma família extensa.
 visão conservadora: o patriarcalismo amparava os
escravos. (p.51)
 A ruptura com a tradição ocorre quando o indivíduo
não reconhece mais o seu lugar.
 Família e propriedade se unem. A moderna
propriedade capitalista e o impessoalismo advindo
com a modernidade é desequilibradora da ordem
social, pois é destruidora da autoridade que lhe é
constitutiva. A autoridade mantém a coesão social, a
lealdade pessoais e as obrigações entre as pessoas.
(BASTOS, 2006 p.186)
A vida sexual da família
brasileira.
Sadismo, masoquismo, sifilização, prostituição e
onanismo.
 A vida sexual aparece em seu cotidiano, com os
simbolismos sexuais nos nomes de doces: papo de
anjo, barriga de freira, suspiros-de freira.
 A Sifilização e a Civilização (p.115)
 Aparece a predileção do branco pelas mulatas, e as
relações promiscuas do senhor com suas escravas.
(p.456)
 Um comportamento sádico dos senhores que se
perpetua em nossas classes dominantes. (p. 114)
A miscigenação
 Inspirado em Franz Boas, Freyre se afasta das
ideias de determinação racial. Considera
“fundamental a diferença entre raça e cultura”.
 Junção racial foi interpretada como melhora
das espécies.
 Influencia lamarckiana. 1 o meio determina as
raças. 2 as características adquiridas são
passadas para as futuras gerações.
 Miscigenação afeta toda a sociedade brasileira,
não é apenas sexual.
O PORTUGUÊS E O
NEGRO
-Passado étnico português, entre a Europa e a África
lhe confere uma plasticidade.

- Enquanto os anglo-saxões preocupavam-se com a


raça, o português esquecia a raça e preocupava-se
com a religião do indivíduo.
- A influência africana “amolece as institiuições”
Um Proust nos trópicos
 A história social da casa-grande é a história
íntima de quase todo brasileiro: da sua vida
doméstica, conjugal sob o patriarcalismo
escravocrata e polígamo; da sua vida de
menino; de seu cristianismo reduzido à religião
de família e influenciado pelas crendices da
senzala... P.44
O método e o discurso

político
Equilíbrio de antagonismos p. 116

 Um amolecimento da língua e dos costumes nos trópicos,


dado pelo caráter plástico do português em contato com
índios e negros. P. 414

O “&” que liga Casa Grande e Senzala significa


interpenetração de tipos. A interpenetração
dominação/submissão concorre para a estabilidade da
sociedade brasileira. (BASTOS, 2006 p179)

 Discurso sociológico torna-se discurso político dentro do


pacto de 1930.
Patriarcalismo: Uma sociedade sem classes?

 A centralidade da família como espaço da


manutenção da tradição contra a degradação
da modernidade burguesa será central para a
recuperação das forças oligárquicas familistas.
 Para Edward Thompson o termo
“patriarcalismo” é genérico e não capta as
relações antagônicas entre cultura e política.
 O termo também oferece uma visão idílica e
pessoalista de passado.
Para Elide Rugai Bastos....
 É no quadro do patriarcalismo que Freyre encontra o fundamento
à afirmação da não existência dos antagonismos de classe. Os
elementos que poderiam apresentar-se como antagonismos
irreconciliáveis são vistos como constitutivos de um conjunto: a
cultura patriarcal. Este pano de fundo servira reiteradamente na
historia do pensamento brasileiro para dar conta da “ordem
social”. Todavia, ao afirmar a unidade cultural básica da formação
brasileira, carrega a contrabando a reafirmação da
indissolubilidade das relações sociais. Afirmar a unidade cultural
é não admitir que cada grupo possa elaborar modos próprios de
expressão dos antagonismos. Implica negar que as formas
culturais existentes no escravo, no agregado, possam ser
expressões não organizadas de protesto sobre sua condição de
vida e trabalho. E, ainda, negligenciar a rejeição por parte dos
subordinados, de certos símbolos e ritos constitutivos da cultura
dos que detém o domínio social como uma forma de expressão
do conflito social.( BASTOS 189)
 O pensamento conservador nega a
possibilidade do escravo ter sido agente de sua
liberdade.
 as revoltas do século XIX não são pensadas
como formas embrionárias da luta de classes.
Gilberto vê nessas rebeliões e erupções de
violência psicológica, que logo apagariam num
quadro de ordem e equilíbrios sociais.
O discurso da democracia racial

 O Brasil é um país tolerante.


 Os preconceitos de cor estão mais vinculados à
questão de diferença de renda do que a um
racismo étnico.
 Contexto de 1930/40: Brasil torna-se exemplo
para o mundo de uma nação que soube
equacionar seus problemas raciais.
 Contexto de 1960/70: Ideologia oficial do
Estado ditatorial
Bibliografia
 BASTOS, Elide Rugai. As criaturas de Prometeu: Gilberto Freyre e
a formação da sociedade brasileira. São Paulo, Global, 2006.

 Freyre, Gilberto. Casa Grande & Senzala: Formação da família


Brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª edição. São
Paulo, Global, 2006.

 ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira & Identidade Nacional. 5ª


edição, São Paulo, Brasiliense, 2003.