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EPISTEMOLOGIA MODERNA

PROF. DR. LUCIANO VORPAGEL DA SILVA


INTRODUÇÃO

 Na Idade Moderna, a epistemologia conta com duas


grandes correntes, das quais uma terceira surge como
tentativa de síntese das anteriores:
 Racionalismo
 Empirismo
 Criticismo
RACIONALISMO

O racionalismo prioriza a razão como fonte de conhecimento,


admitindo a existência de ideias inatas, as quais independem de toda
e qualquer experiência.
 De certa forma, o inatismo racionalista permite recordar a visão
platônica, segundo a qual conhecer significa recordar ideias
preexistentes na alma.

 Inatismo: concepção segundo a qual o conhecimento antecede a


experiência.
RACIONALISMO DE RENÉ DESCARTES
 O pai do racionalismo moderno foi René Descartes, quem buscou
incessantemente por um princípio sólido que possibilitasse o
conhecimento científico seguro. Este fundamento Descartes
encontra na razão humana, que continha ideias inatas claras e
distintas (tão evidentes que permitiam julgar sem erros a realidade).
 Descartes distingue três tipos de ideias:
 Adventícias: resultantes dos conhecimentos adquiridos por meio dos sentidos,
os quais, por sua vez, captariam somente objetos suscetíveis a constantes
mudanças.
 Fictícias: provenientes da imaginação e resultantes de combinações mentais
realizadas com base nos conteúdos da memória.
 Inatas: verdades eternas, imutáveis e universais, superiores às informações
obtidas com base na experiência ou na memória.
RACIONALISMO DE RENÉ DESCARTES
 A busca por um princípio sólido para a ciência levou Descartes à descoberta da
subjetividade humana (eu pensante).
 Partindo da crítica dos céticos, de que tudo é dubitável, Descartes considera que
a ciência necessita de um princípio indubitável (claro e distinto):
 Os sentidos podem me enganar?
 A realidade pode ser apenas um sonho?
 Existe um gênio maligno que me engana?
 Por fim: existe algo sobre o qual eu não posso me enganar?

 Descartes desenvolve um argumento ontológico para demonstrar a existência de


Deus: Os homens são imperfeitos e existe uma ideia perfeita (a ideia de Deus).
Ora, do imperfeito não é possível derivar nada perfeito. Logo, Deus tem que
existir, pois esta é a única explicação para a existência de uma ideia perfeita em
um ser imperfeito.
RACIONALISMO DE RENÉ DESCARTES

 Para avaliar racionalmente os conhecimentos, Descartes desenvolve


o método da dúvida, composto por quatro regras:
 1º regra: Não posso acolher como verdadeiro algo que eu não conheça
evidentemente como tal. Não posso incluir nada em mês juízos de que eu não
tenha certeza.
 2º regra: Devo dividir cada uma das dificuldades que eu examinar em tantas
parcelas quantas forem possíveis e necessárias para melhor resolvê-las.
 3º regra: Preciso ordenar meus pensamentos, começando pelos objetos mais
simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, até o
conhecimento mais composto.
 4º regra: Tenho de fazer enumerações complexas e revisões gerais que me
garantam a certeza de nada omitir.
O RACIONALISMO DE GOTTFRIED LEIBNIZ

 Foi um filósofo, político e matemático alemão, que


desenvolveu, ao mesmo tempo que Newton, o cálculo
diferencial, embora que seguindo um caminho diferente.
 Foi um grande defensor do racionalismo e do inatismo,
mas um crítico forte do empirismo, fundamentalmente o
de Locke.
 Afirmou que o empirismo comete um erro fundamental ao
afirmar que a experiência é a única fonte de
conhecimento, a saber: “reduzir a razão a mero fato”.
O RACIONALISMO DE GOTTFRIED LEIBNIZ

 Para corrigir o erro dos empiristas, Leibniz distingue dois


tipos de conhecimentos:
 Verdades de razão: enunciam que uma coisa é, não podendo de
modo algum ser diferente do que é e de como é. São verdades
necessárias. Ex.: as verdades matemáticas (um triângulo possui
três lados e assoma de seus ângulos é igual à soma de dois
ângulos retos). Essas verdades são inatas, isto é, existem
previamente a toda e qualquer experiência.
O RACIONALISMO DE GOTTFRIED LEIBNIZ

 Verdades de fato: são empíricas, porque se referem a coisas


que poderiam ser diferentes do que são. São verdades
contingentes, que sempre dependem de experiência. Ex.:
quando observamos uma rosa vermelha, a cor vermelha não
paz parte da definição da flor, a qual poderia ser branca ou
amarela, entre outras.
EMPIRISMO

 Os empiristas tomam a experiência como fonte do


conhecimento e não admitem a existência de ideias
inatas.
 Dois grandes pensadores se destacam dentro do
empirismo: John Locke e David Hume.
JOHN LOCKE
 Sustentava que a mente humana é como uma tábula rasa
(folha em branco), em que não há ideias inatas, mas todas as
ideias são adquiridas pela experiência.
 Tábula rasa: designação latina para as tábuas cobertas de
cerra utilizadas para se escrever na Roma Antiga. Se a
camada de cera fosse fina (rasa), isso indicava que a tábula
ainda não havia recebido inscrições, pois a reutilização era
feita aplicando-se uma nova camada de cera que cobria a
anterior, apagando a escrita.
 O sentido possibilitam a percepção das qualidades dos
objetos e a transmissão das mesmas para a mente.
JOHN LOCKE

 Assim, o conhecimento é elaborado em duas etapas:


 Experiência externa (sensação) – o modo como a mente é afetada pelos
objetos externos.
 Percepção – o modo como a mente representa os objetos internamente.

 A mente também é capaz de perceber suas próprias operações, que


é a capacidade de reflexão.
 Desse modo, Locke distingue dois tipos de experiência:
 Experiência externa (sensação e percepção) – pela qual a mente é passiva e
recebe os objetos externos.
 Experiência interna (reflexão e autopercepção) – pela qual a mente é ativa e
percebe suas próprias operações. Produz pensamento abstrato.
JOHN LOCKE

 Locke também distingue duas qualidades das ideias:


 Qualidades primárias: aquelas que estão presentes nos próprios
objetos externos. Ex.: figura.
 Qualidades secundárias: aquelas que não estão nos objetos, mas
na percepção do sujeito. Ex.: frio e calor, sabor.
 Locke distingue entre ideias simples e ideias complexas
(compostas);
DAVID HUME

 Hume também é defensor do empirismo, sustentando que a


fonte do conhecimento é a experiência e de que não
existem ideias inatas.
 Hume é considerado um filósofo cético, por duvidar da
possibilidade de se adquirir conhecimento seguro.
 Cético: adepto do ceticismo, que surgiu na Antiguidade, com
Pirro, e teve continuadores na Academia platônica. Os
céticos da Antiguidade colocavam em dúvida a possibilidade
de se alcançar um conhecimento seguro da realidade, assim
como Hume veio a fazer vários séculos mais tarde.
DAVID HUME

 Hume distingue entre:


 Impressão: o imediatamente dado pelos sentidos, que é atual e dotado de vivacidade.
 Ideias: são as representações das impressões, isto é, as imagens.

 Para Hume, a realidade é determinada pela impressão, de modo que uma ideia é
real se possui uma impressão correspondente.
 Mas, o conhecimento é estruturado na mente humana por meio de três
categorias:
 Associação
 Tempo-espaço
 Causalidade

 Todas as ideias que não possuem impressão correspondente são fictícias e


decorrem do hábito. Ex.: a ideia da relação de causa e efeito.
CRITICISMO
 Immanuel Kant busca sintetizar o empirismo e o racionalismo, dando origem ao
criticismo e à filosofia transcendental.
 Criticismo: é a tentativa de submeter as faculdades da razão a um tribunal crítico,
em que a razão mesma tem que demonstrar para si própria os limites e alcances
de suas capacidades.
 Mas, a razão possui dois grandes usos:
 Teórico: pelo qual a razão busca conhecer os fenômenos do mundo. A questão é: o que
posso conhecer?
 Prático: pelo qual a razão busca determinar como o homem deve agir no mundo. A
questão é: o que devo fazer?
 Quanto ao uso teórico da razão, a Crítica da razão pura visa determinar os limites
e alcances das capacidades cognitivas da razão humana, isto é, da experiência
possível.
CRITICISMO

 Racionalistas e empiristas mantinham o objeto conhecido no centro da


reflexão sobre o conhecimento, como algo pronto a ser apreendido pelo
sujeito.
 Mas, Kant inverte esta visão: coloca o sujeito no centro, mostrando que
são as capacidade cognitivas que determinam o conhecimento do
objeto (revolução copernicana de Kant).
 Desse modo, filosofia transcendental significa: o conhecimento não
tanto dos objetos externos, mas do modo como o sujeito é capaz de
conhecer esses objetos.
 Trata-se de uma filosofia sobre as condições de possibilidade do
conhecimento (experiência possível, ou conhecimento possível).
CRITICISMO

 Ao determinar os limites do conhecimento possível, Kant distingue entre:


 Coisa em si: as coisas tal como são em si mesmas, as quais não podem ser conhecidas,
pois transcendem os limites da experiência, isto é, não podem ser dadas na
sensibilidade.
 Fenômeno: as coisas tal como aparecem para nós, que podem ser conhecidas, pois
obedecem os limites da experiência, isto é, podem ser dadas na sensibilidade.
 A “coisa em si” pode ser pensada, mas não pode ser conhecida. Logo, há que
distinguir entre pensar e conhecer.
 Conhecer implica pensar algo que é dado pela sensibilidade, enquanto fenômeno,
isto é, tudo o que pode ser percebido no espaço e no tempo (considerando que
espaço e tempo são intuições puras, ou seja, não são propriedades das coisas,
mas apenas o modo como as coisas podem ser percebidas).
CRITICISMO
A experiência depende, basicamente, de duas
capacidades:
 da sensibilidade, pela qual os objetos são dados enquanto
fenômenos. Espaço e tempo são as condições pelas quais os
objetos são dados para nós; e
 do entendimento, pelo qual os objetos são pensados mediante
categorias de pensamento. A causalidade é uma categoria do
entendimento.
 A razão é capaz de produzir ideias que só podem ser
pensadas e jamais podem ser conhecidas. Ex.: Deus,
liberdade e imortalidade da alma.
CRITICISMO

 Portanto, a filosofia de Kant busca identificar as condições de


possibilidade do conhecimento humano (filosofia transcendental):
 Sensibilidade: espaço e tempo (são as condições de possibilidade dos
fenômenos).
 Entendimento: as categorias (ex.: causalidade) (são as condições de
possibilidade para se pensar os fenômenos).
 Razão: as ideias são conceitos puros que não possuem fenômenos
correspondentes (são vazios ou negativos).
CRITICISMO

 Kant distingue os conhecimentos em:


 a priori (aqueles que são anteriores à experiência e dotados de validade
universal);
 a posteriori (aqueles que decorrem da experiência e são contingentes);
 Também distingue os juízos em:
 sintéticos (aqueles em que o predicado está fora do sujeito e precisa ser
conectado ao mesmo). São os juízos de expansão (que acrescentam
conhecimento);
 analíticos (aqueles em que o predicado está contido no sujeito e apenas
precisa ser desmembrado do mesmo). São os juízos de explicação (que não
acrescentam conhecimento). Ex.: Todos os corpos são extensos.
CRITICISMO

 Todos os juízos analíticos são a priori.


 Os juízos sintéticos podem ser:
 a priori (neste caso trata-se de juízos em que o predicado
acrescenta algo de novo ao sujeito e de forma necessária). Ex.: a
distância mais curta entre dois pontos é a linha reta; 7 + 5 = 12;
 a posteriori (neste caso trata-se de juízos em que o predicado
acrescenta algo de novo ao sujeito, mas de forma contingente).
Ex.: a porta está aberta; a mesa é de madeira.