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A mensuração da realidade

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A quantificação e a sociedade ocidental 1250 – 1600.
Alfred. W. Croshy
2 - O MODELO VENERÁVEL
Pantometria foi um dos neologismos que surgiram em número cada vez
maior nas línguas da Europa, na primeira metade do segundo milênio
cristão, como uma das palavras convocadas a existir pelas novas tendências,
instituições e descobertas. (CROSHY, 1999, p. 33).
Visão da realidade que a maioria dos europeus ocidentais medievais e
renascentistas aceitava como correta. (CROSHY, 1999, p. 33).
Modelo Venerável – “venerável” por ser realmente muito velho e digno de
respeito. (CROSHY, 1999, p. 34).
O Modelo Venerável proporcionava estruturas e processos com que era
possível conviver emocionalmente, além se poder compreendê-lo
intelectualmente – por exemplo, um tempo e um espaço de dimensões
humanas. (CROSHY, 1999, p. 34)
O tempo era assombro, mas não a ponto de ultrapassar a capacidade de
compreensão da mente. (CROSHY, 1999, p. 34)
Roger Bacon calculou que uma pessoa que andasse 20 milhas por dia
levaria 14 anos, 7 meses, 29 dias e mais uma fração para atingir a Lua.
Para alguns dos estudiosos mais bem informados do Ocidente, a
extensão do universo ainda podia ser descrita em termos de passadas.
(CROSHY, 1999, p. 35).
Realidade como algo desigual e heterogênea
A realidade não era, entretanto, absolutamente caótica – isso seria muito
angustiante - , mas previsibilidade não derivava dela em si, e sim do Deus
uno e único. (CROSHY, 1999, p. 35)
Modelo Venerável
Simbolismo x Descrição abstrata.
Os adeptos do Modelo Venerável tinham um fraco pelo simbolismo, do qual
é mais fácil fornecer amostras do que uma descrição abstrata. (CROSHY,
1999, p. 36).
Ex.: Os cristãos concordavam em que a crucificação de Jesus era o eixo de
todo o tempo – e, portanto, do mundo. Jerusalém, o palco dessa
crucificação, deveria ser o centro da superfície habitada da Terra.
Porventura não dissera Ezequiel, 5:5, prevendo a agonia de Cristo “Esta é
Jerusalém: instalei-a no meio das nações e terras que estão a seu redor”?
(CROSHY, 1999, p. 36).
O Modelo Venerável possui três facetas: o tempo, o espaço e a
matemática.

Tempo
[...] um certo conde Charles foi assassinado “ no ano de mil cento e
vinte e sete, no sexto dia antes da Nonas de Março, ou seja, no
segundo dia, a contar do início do mesmo mês, quando eram
decorridos dois dias da segunda semana da Quaresma, e o quarto dia
estava para alvorecer no quinto Concomitante e na sexta Epacta ”[...]
(CROSHY, 1999, p. 38).
O tempo, extensão da vida individual, era visto não como uma linha
reta, dividida em quantidades iguais, mas como um palco para a
encenação do maior de todos os dramas – a Salvação versus Maldição.
(CROSHY, 1999, p. 39).

O Concílio de Nicéia declarou, em 325, que Páscoa deveria cair no


primeiro domingo a pós a primeira lua cheia seguinte ao equinócio de
primavera. A Páscoa dispara de um lado para outro nas primeiras
semanas da primavera[no Hemisfério Norte], como um reflexo em água
corrente. (CROSHY, 1999, p. 39).
A maioria das pessoas, quando não avaliava o tempo simplesmente dando
uma espiada na posição do Sol no céu, pautava-se por um sistema temporal
proclamado pelos sinos das igrejas, o meio de informação mais eficiente da
época. (CROSHY, 1999, p. 44).
O conceito de tempo adotado pelos europeus era crucialmente semelhante
ao nosso em pelo menos um aspecto. A maioria dos seres humanos –
platônicos gregos, navajos, hindus, maias – acreditava que os padrões do
tempo, em suas dimensões maiores, assemelhavam-se aos padrões que
estavam bem à frente – o circuito das estações, giro dos céus e assim por
diante. Eles acreditavam num tempo cíclico, e não se preocupavam com a
ideia de que ele se desenrolasse até o fim. (CROSHY, 1999, p. 44).

Concepção de história cíclica herdeira da tradição antiga?


Historia magistra vitae (Koselleck)?
Espaço
- Finito
- Marcado pelo simbolismo
O espaço da Idade Média e do Renascimento era tão assertivamente finito
quanto um aquário de peixinhos, esférico e de estrutura qualitativa. Dentro
de sua esfera mais externa havia diversas outras, inseridas com precisão
umas nas outras. [...] As esferas, perfeitamente transparentes, sustentavam
os corpos celestes. A mais externa das que tinham uma carga visível
carregava as estrelas fixas, cujas posições em relação uma às outras não se
alteravam [...] Apenas ela seriam definidas, em termos exclusivos, como
estrelas. Dentro de sua esfera ficavam as que carregavam os planetas, o Sol e
a Lua. (CROSHY, 1999, p. 45, grifo nosso).
A geografia era qualitativa. As pessoas das Índias eram vagarosas “ porque se
encontram no primeiro clima, o de Saturno; e Saturno é vagaroso e pouco se
move; já os europeus, um povo ativo, eram de uma região do sétimo clima, o
da Lua, que “circunda a Terra com mais rapidez do que qualquer outro
planeta”. (CROSHY, 1999, p. 47).
Matemática
- Deficiente
[...] os europeus ocidentais, especialmente os que viveram no que
chamamos Idade Média, sofriam de uma falta de meios claros e
simples de expressão matemática. Não dispunham de sinais de soma,
subtração ou divisão, nem dos sinas de igual ou raiz quadrada. Quando
precisavam da clareza das equações algébricas, produziam, tal como os
antigos, frases longas e embrulhadas, quase proustianas. Sistema de
expressão numérica, herdado do Império Romano, era suficiente para
a feira semanal ou a coleta local de impostos, mas não para coisas mais
grandiosas. (CROSHY, 1999, p. 50).
Calculadores usando algarismos indo-arábicos e uma tábua de calcular.

Os europeus recorriam ao
ábaco.(CROSHY, 1999, p. 51).
Fonte: Google imagens, 2019.
11 – O NOVO MODELO
Novo modelo
- Visual
- Quantitativo
A contar das miraculosas décadas que cercaram a passagem para o século XIV [...] e
prosseguindo por gerações, ora com rapidez, ora morosamente, ora neste, ora naquele
terreno da mentalité, os europeus ocidentais desenvolveram um novo modo, mais
puramente visual e quantitativo do que o antigo, de perceber o tempo, o espaço e o
ambiente material. (CROSHY, 1999, p. 211).
A visão facultou ver o espaço e refletir sobre ele geometricamente. (CROSHY, 1999, p. 212).

Em termos práticos, anova abordagem foi simplesmente esta: reduza aquilo em que você
está tentando pensar ao mínimo exigido por sua definição; visualize-o no papel, ou , pelo
menos, em sua mente, quer se trate de oscilação dos preços da lã nos mercados da região
de Champagne ou da trajetória de Marte pelos céus; e depois divida-o, de fato ou na
imaginação , em unidades quantitativas iguais. A partir daí, você poderá medi-lo, isto é,
contar as unidades. (CROSHY, 1999, p. 212).
Visualização e quantificação; juntas, elas fecharam o cadeado – a
realidade foi posta a ferros (pelo menos com firmeza suficiente e por
tempo suficiente para se arrancar dela algum trabalho e,
possivelmente, uma ou duas leis da natureza). (CROSHY, 1999, p. 213).

Eles [os ocidentais] estavam cultivando o que Eviatar Zerubavel chamou


de caráter racionalista da cultura moderna: “precisa, pontual, calculável
, padronizada, burocrática, rígida, invariável, meticulosamente
coordenada e rotineira. Tudo isso, acrescentaríamos, pertinente ou,
pelo menos, cheira ao visual e ao quantitativo”. (CROSHY, 1999, p. 214).
Não é fácil imaginar a revolução científica do fim do século XVI e do
século XVII, na qual tantas coisas eram visualizadas, na preparação e na
execução do processo de análise, sem a ilustração impressa.
A perspectiva renascentista possibilidade de representar
em superfície plana a realidade de maneira mais fiel.
.
Uma página do De varietate figurarum, de Albrecht Dürer, 1537

Fonte: Google imagens, 2019.


Galileu:
A filosofia está escrita nesse grande livro, o universo, que se abre
perfeitamente diante de nossos olhos, mas o livro só pode ser
compreendido se primeiro aprendermos a compreender a linguagem e
a ler as letras de que se compõe. Ele está escrito na língua da
matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras
geométricas, sem os quais é humanamente impossível entender uma só
de suas palavras, sem eles, fica-se vagando por um labirinto tenebroso.
(CROSHY, 1999, p. 222).

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