Você está na página 1de 19

Poesia, discurso e psicanálise:

Convergências no cenário brasileiro


contemporâneo

Apresentação da disciplina
Balizas
Alguns poemas
Autumn Rhythm
Pollock - 1954
• Descarregar tensões x realidade objetiva; subjetiva.
• Artista intelectual x artista técnico.
• Mal-estar e revolta x bem-estar e ordem.
• Ativismo em sinal contrário.
• Ritmo – pintura impõe-se ao artista
• Dripping; Experessionismo Abstrato; Surrealismo
(anti/pro)
• Cultura de massa, guerras, consumo.
Pinturas cegas
Tomie Othake
Muirapinema – 1961
Flavio shiró
Abstrato (1964)
Antonio Bandeira
Teoria das Cores
• “Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe
encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada,
quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era
um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora,
alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia
surpreendido à chegada do novo peixe.

• O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde
estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta
que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na
própria observação dos fatos e punham-se por uma ordem, a saber: 1o) peixe, cor
vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o
quadro, através do pintor; 2o) peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a
insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

• Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora
em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá dentro do aquário, o
peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia
apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa
lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou
na sua tela um peixe amarelo”. Herberto Helder apud SILVA, 1995, [s.p.]
Ovidio
Eco e Narciso
versos 341-355
A mãe de Narciso consulta Tirésias (Início do Mito de
Narciso)
versos 356-369
A ninfa Eco
versos 370-406
Eco e Narciso
versos 407-493
Narciso vai à fonte
versos 494-512
As últimas palavras entre Narciso e Eco
Metaformose
leminski -1994
cai a noite
das noites 
a noite de dentro
da noite de dentro
da noite
a noite que só se transforma em si mesma
(a voz do eco me chama
mas já não tenho nome)
e anoitece

mas que deuses me tomam como matéria prima? Em que fábula matersmofo?
Em que fábula mesamorfeto? Em que fábula maemortosem? Em que fábula
matermofeso?
O Grito
edward Munch 1893
Voz do Eco
Erik Porge
• Silêncio, voz e grito formam um nó.
• Grito se faz abismo onde silêncio se
precipita (Lacan).
• O grito é o limite da voz, ele rasga a
garganta.
• Grito se faz apelo no circuito da paixão
invocante.
• Dizer o silêncio é também perdê-lo.
Poema – silêncio e grito
Resistência, insistência
Jean-Luc-Nancy

• Qual é o lugar da poesia e do artista?

• Como re-agir (a) o contexto?

• Como aceder ao sentido?

• Poesia não tem sentido, é um acesso de sentido (não


um caminho, uma presença, uma invasão).

• Poesia não coincide consigo mesma – falta, desejo.

• O difícil é o que não se deixa fazer (Eco, Narciso) e é


isso o que a poesia faz – resiste, insiste.
• O sentido é um acréscimo, um excesso, o excesso do
ser sobre o próprio ser.

• Quando o acesso tem lugar, sabemos que ele esteve


sempre presente.

• Não é possível não contar com a poesia; é preciso estar


com a poesia; ela está lá, mesmo quando a recusamos,
suspeitamos dela, quando a detestamos.

• A poesia resiste e insiste porque vai até as formas mais


humildes.
• Resistência da poesia, resistência da linguagem à sua
própria finitude; resistência à desmedida que a
linguagem é por si mesma.

• Resistência é mais difícil numa época de tagarelice


como a nossa.
O Que é a poesia?
A Lenta volúpia de cair
(Pedro Eiras)
• O homem está por fazer e está a ser feito no aqui agora
do poema.
• Se a prosa estende o novelo a uma velocidade
alucinante, a poesia deixa as palavras em ilhas e pede
que nademos de praia para praia. Os pulmões do
nadador trabalham contra as ondas.
• A poesia ouve-se porque entre as palavras há o silêncio
da água e a queda nas areias.
• Um poema só se torna imprescindível sove um fundo
de infinitos poemas possíveis e não escritos.
• O atrito do poema tem a ver com o corpo, com a
distância, com a lentidão.

• O poema se torna impuro por graça da poesia, pois a


poesia não pode senão contaminar.

• O mundo dos homens cria a poesia, para que ela


carregue a impureza, o insuportável, a contaminação
(o oposto de Eco e Narciso?)

• O poema não quer o céu como medida, quer o atrito


terrestre, quer tocar no solo, quer cair na terra