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A arte de Ensinar – Aula 1

 Pra que ensinar?

 Antes de estudarmos os aspectos didáticos propriamente ditos, é muito importante


refletir um pouco sobre o sentido da atividade docente. E, para ter consciência do
sentido de sua atividade, o professor precisa perguntar: Para que ensino? Para que
serve o que estou fazendo?

 Sem a clara definição dos meus objetivos como docente não conseguirei escolher os
métodos e didática suficientes, ou corretos, para o exercício do trabalho letivo.

 Os aspectos didáticos estarão subordinados à definição dos meus propósitos


educativos.
 Compartilho uma reflexão de Rubem Alves: Ensinar a Alegria

 Muito se tem falado sobre o sofrimento dos professores. Eu, que ando sempre na
direção oposta, e acredito que a verdade se encontra no avesso das coisas, quero
falar sobre o contrário: a alegria de ser professor, pois o sofrimento de se ser um
professor é semelhante ao sofrimento das dores de parto: a mãe o aceita e logo dele
se esquece, pela alegria de dar à luz um filho. Reli, faz poucos dias, o livro de
Hermann Hesse, O Jogo das Contas de Vidro. Bem ao final, à guisa de conclusão e
resumo da estória, esta poeminha de Rückert:
 Nossos dias são preciosos mas com alegria os vemos passando se no seu lugar
encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma planta rara e exótica, deleite de
um coração jardineiro, uma criança que estamos ensinando, um livrinho que estamos
escrevendo.

 Este poema fala de uma estranha alegria, a alegria que se tem diante da coisa triste que
é ver os preciosos dias passando... A alegria está no jardim que se planta, na criança que
se ensina, no livrinho que se escreve. Senti que eu mesmo poderia ter escrito essas
palavras, pois sou jardineiro, sou professor e escrevo livrinhos. Imagino que o poeta
jamais pensaria em se aposentar. Pois quem deseja se aposentar daquilo que lhe traz
alegria? Da alegria não se aposenta... Algumas páginas antes o herói da estória havia
declarado que, ao final de sua longa caminhada pelas coisas mais altas do espírito,
dentre as quais se destacava a familiaridade com a sublime beleza da música e da
literatura, descobria que ensinar era algo que lhe dava prazer igual, e que o prazer era
tanto maior quanto mais jovens e mais livres das deformações da deseducação fossem os
estudantes.
 A felicidade começa na solidão: uma taça que se deixa encher com a alegria que
transborda do sol. Mas vem o tempo quando a taça se enche. Ela não mais pode
conter aquilo que recebe. Deseja transbordar. Acontece assim com a abelha que não
mais consegue segurar em si o mel que ajuntou; acontece com o seio, turgido de
leite, que precisa da boca da criança que o esvazie. A felicidade solitária é dolorosa.
Zaratustra percebe então que sua alma passa por uma metamorfose. Chegou a hora
de uma alegria maior: a de compartilhar com os homens a felicidade que nele mora.
Seus olhos procuram mãos estendidas que possam receber a sua riqueza. Zaratustra,
o sábio, se transforma em mestre. Pois ser mestre e isso: ensinar a felicidade.
 “Ah!”, retrucarão os professores, “a felicidade não é a disciplina que ensino. Ensino
ciências, ensino literatura, ensino história, ensino matemática...” Mas será que
vocês não percebem que essas coisas que se chamam “disciplinam’’, e que vocês
devem ensinar, nada mais são que taças multiformes coloridas, que devem estar
cheias de alegria?
 Pois o que vocês ensinam não é um deleite para a alma? Se não fosse, vocês não
deveriam ensinar. E se é, então é preciso que aqueles que recebem, os seus alunos,
sintam prazer igual ao que vocês sentem. Se isso não acontecer, vocês terão
fracassado na sua missão, como a cozinheira que queria oferecer prazer, mas a
comida saiu salgada e queimada... O mestre nasce da exuberância da felicidade. E,
por isso mesmo, quando perguntados sobre a sua profissão, os professores deveriam
ter coragem para dar a absurda resposta: “Sou um pastor da alegria...” Mas, e
claro, somente os seus alunos poderão atestar da verdade da sua declaração...
 Alguns pilares são importantes
para a formação pedagógica do
docente:
 Embora a Didática Geral se preocupe primordialmente com o como ensinar, ou seja,
com métodos e técnicas, julgamos importante, antes de estudá-los, refletir sobre o
fundamento, sobre as razões do seu emprego e sobre os fatores que intervêm em
sua aplicação. Caso contrário corremos o risco de nos convertermos em escravos dos
instrumentos (métodos e técnicas). Para evitarmos isso, convém refletirmos sobre
educação.
 Podemos começar a pensar sobre a educação analisando o seguinte fato histórico:
 Por ocasião do tratado de Lancaster, na Pensilvânia (Estados Unidos), no ano de
1744, entre o governo da Virgínia e as seis nações indígenas, os representante da
Virginia informaram aos índios que em Williamsburg havia um colégio dotado de
fundos para a educação de jovens índios e que, se os chefes das seis nações
quisessem enviar meia dúzia de seus meninos, o governo se responsabilizaria para
que eles fossem bem tratados e aprendessem todos os conhecimentos do homem
branco.
 A essa oferta, o representante dos índios respondeu:
 “Apreciamos enormemente o tipo de educação que é dada nesses colégios e nos
damos conta de que o cuidado de nossos jovens, durante sua permanência entre
vocês, será custoso. Estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem
para nós e agradecemos de todo coração.
 Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções
diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que
a vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa. Muitos dos nossos bravos
guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência.
Mas, quando voltaram para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da
floresta e incapazes de suportar o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado,
matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles
eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores
ou como conselheiros.
 Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos
aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores da Virgínia
que nos enviem alguns de seus jovens que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e
faremos, deles, homens” (Extraído de um texto escrito por Benjamin Franklin)
 Portanto, Não existe uma única forma, tampouco um único modelo de educação. Em
casa sociedade ou país a educação existe de maneira diferente.

 E educação de pequenas sociedades tribais e de caçadores é diferente de


sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados, para países não
industrializados.

 Cada país, cada sociedade tem realidades e valores diferentes e, por isso, tem uma
concepção diferente de educação. Foi para esse aspecto que o representante das
nações indígenas chamou a atenção: “Aqueles que são sábios reconhecem que
diferentes nações tem concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores
não ficarão ofendidos ao saber que a vossa ideia de educação não é a mesma que a
nossa”.
 A ideia de educação de cada povo depende, portanto, da sua realidade concreta e
de seus valores. A educação dada pelas escolas do Norte aos jovens indígenas não
correspondia nem aos valores nem à realidade das nações indígenas.

 Existem indicativos de formatos de ensino desde os primórdios da humanidade. Um


exemplo, nas comunidades primitivas os jovens eram sujeitos a rituais de iniciação
como forma de ingresso nas atividades da vida adulta. Mesmo que não estivesse
presente uma estrutura de didática com configuração intencional de ensino, pode-se
considerar esse ritual uma ação pedagógica. Ao longo dos tempos, as formas de en-
sino e aprendizagem foram evoluindo e levantaram-se discussões sobre como con-
ceituar a Didática.
 O professor que tem entusiasmo, que é otimista, que acredita nas possibilidades do
aluno, é capaz de exercer uma influência benéfica na classe como um todo e em
cada aluno individualmente, pois sua atitude é estimulante e provocadora de
comportamentos ajustados. O clima da classe torna-se saudável, a imaginação
criadora emerge espontaneamente e atitudes construtivas tornam-se a tônica do
comportamento da aula como grupo.
 Segundo o Frances Rummell, as principais características de um bom professor –
apresentadas por Juraci C. Marques são:
 A) Os melhores professores estão profissionalmente alerta. Não vivem suas vidas
confinados ou isolados do meio social. Tentam fazer da comunidade e
particularmente da escola o melhor ambiente para os discentes.
 B) Estão convencidos do valor de seu trabalho. Seu desejo é exercer cada vez
melhor a profissão a que se dedicam.
 C) São humildes, sentem necessidade de crescimento e desenvolvimentos pessoais,
porque compreendem a grande responsabilidade da função que exercem.
 O professor, portanto, em sua atividade docente, poderá estar trabalhando para
mudar a sociedade ou para conservá-la na forma em que ela se encontra. Nesse
sentido, Maria Teresa Nidelcoff apresenta três tipos de postura possíveis:

 A) Existem mestres para quem tudo esta muito bem do jeito que está e para quem
os valores e as características da sociedade atual não devem mudar e devem mesmo
ser difundidos. Eles atuam conscientemente como representantes do atual regime
social, assumindo a responsabilidade de incorporar os alunos a tal regime, e de
adaptá-los ao sistema de vida e valores que a sociedade propõe.
 B) Outros, que são a maioria, definem-se a si mesmos como ‘professores’ e nada mais,
professore-professores. Afirmam que a escola é a escola e a política é politica. Em
outras palavras: eles não percebem ou não querem perceber as implicações ideológicas
e sociais de muitas das tarefas e dos ‘ritos’ escolares. Com sua atitude aparentemente
apolítica e sua postura acrítica, eles se convertem de fato em policiais - guardiães do
regime social – sem sabe-lo e, muitas vezes, sem querê-lo. Na medida em que não
trabalham para mudar, ajudam os que querem conservar.
 C) A terceira opção pode ser definida como o professor-povo. Ele não acredita que sua
missão seja difundir entre o povo os valores do opressor; ao contrário, acredita que o
sentido de seu trabalho é ajudar o povo a se descobrir, a se expressar, a se liberar. Quer
construir a escola do povo, a partir do povo. Ou seja: professor-povo é aquele que quer
contribuir através de seu trabalho para a criação de homens novos e para a edificação
da sociedade também nova, onde se dê primazia aos despossuídos e onde o povo se
torne protagonista. Ele será um professor para modificar, não conservar.
 O professor deve aprender a lidar com a subjetividade humana, sua linguagem,
percepções e prática de vida. Sem esta noção, torna-se inábil para desenvolver
didáticas articuladas e contextualizadas com os problemas, desafios, questões
relacionadas aos conteúdos e condições para se conseguir uma aprendizagem
significativa. A metodologia do ensino é uma questão metodológica e também com a
inserção do professor na prática escolar, mediante a pesquisa-ação.