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Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus IV Jacobina

Componente Curricular: Cânones e Contextos na Literatura Brasileira


Feminismo e literatura no Brasil,
Constância Lima Duarte
O tabu do Feminismo
Desconsiderações em torno da palavra “feminismo”

Conquistas

Derrotas

Receios
Primeira onda: as primeiras letras

Levantamento das primeiras bandeiras

A primeira legislação autorizando a abertura de escolas


públicas feminina – 1827

[...] no século XIX, as mulheres que escreveram,


que desejaram viver da pena, que desejaram ter
uma profissão de escritoras eram feministas, pois
só o desejo de sair do fechamento doméstico já
indicava uma cabeça pensante e um desejo de
subversão. (DUARTE, 2003)
Nísia Floresta Brasileira Augusta era o
pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, nascida
em Papari, Rio Grande do Norte, em 12 de
outubro de 1810.
 Seu primeiro livro intitulado Direito das Mulheres e
Injustiça dos Homens, de 1832

 Inspiradoprincipalmente em Mary Wollstonecraft,


além de outras escritos

 Traduçao livre de Vindications of the Rights of


Woman)

 Em outros livros Nísia Floresta destaca o tema da


educação, como em Conselhos à mina filha (1842),
A mulher (1859) e Opúsculo humanitário (1853)
“E aqui está a marca diferenciadora deste momento
histórico: a nossa primeira onda, mais que todas as
outras, vem de fora, de além mar, não nasce entre
nós”. (DUARTE, 20013)
Se cada homem, em particular, fosse obrigado a
declarar o que sente a respeito de nosso sexo,
encontraríamos todos de acordo em dizer que nós
nascemos para seu uso, que não somos próprias
senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância,
reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos
nossos amos, isto é, a eles homens.
(BRASILEIRA, apud DUARTE, 2003)
Ana Cristina César
Atrás dos olhos das meninas sérias
Aviso que vou virando um avião.
Cigana do horário nobre do adultério.
Separatista protestante.
Melindrosa basca com fissura da verdade.
Me entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco,
o primeiro side-car anfíbio nos classificados de aluguel.
No flanco do motor vinha um anjo encouraçado,
Charlie’s Angel rumando a toda para o Lagos,
Seven Year Itch, mato sem cachorro.
Pulo para fora (mas meu salto engancha no pedaço de pedal?),
não me afogo mais, não abano o rabo nem rebolo sem gás de decolagem.
Não olho para trás.
Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê novela de verdade
e meu manto azul dourado mais pesado do que o ar.
Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e pernalta.
“Moça solteira é para esperar marido,
sabendo coser, tocar piano, dirigir a cozinha.”
“Mulher casada é para viver para no lar,
criar os filhos, cuidar do esposo e da família.”
“Mulher que se mete a doutora é mulher
descarada que quer se perder”
Provérbio português:
“uma moça está suficientemente bem educada
quando consegue ler seu livro de missa
e escrever receita de goiaba.”
Francisca Senhorinha e Josephina Alvares de Azevedo:
duas mulheres a frente do seu tempo
O que queremos:
Queremos a nossa emancipação – a regeneração dos costumes;
(...)
Queremos a instrução para conhecermos nossos direitos, e deles usarmos
em ocasião oportuna;
Queremos conhecer os negócios de nosso casal para bem administrá-los
quando a isso formos obrigadas;
Queremos enfim saber o que fazemos, o porquê, o pelo quê das coisas;
Queremos ser companheiras de nossos maridos, e não escravas;
Queremos saber o como se fazem os negócios fora de casa;
Só o que não queremos é continuar a viver enganadas.
O texto é de Francisca Senhorinha, Jornal O Sexo Feminino, 20 de dezembro de 1873.
O voto feminino
Visando sensibilizar a opinião
publica, Josefina escolhe o
caminho teatral para expor
racionalmente seus argumentos a
favor do voto feminino. O voto
feminino, a peça, põe em cena
uma querela domestica, que tem
como ponto de partida a
expectativa criada em torno da
posição do governo sobre a
procedência ou não do alistamento
eleitoral das mulheres.
Denunciando a resistência
masculina em aceitar a
participação feminina nas questões
políticas da nação.
TERCEIRA ONDA: RUMO À CIDADANIA
• O século XX já inicia com uma movimentação inédita de mulheres mais ou menos
organizadas;

• Muitos nomes se destacam, entre eles o de Bertha Luthz (1894 – 1976), formada em
Biologia na Sorbonne;

• Também Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945) estava iniciando sua luta pela
“libertação total da mulher”, com a publicação de Em torno da Educação, em 1918;
• Finalmente no ano de 1927, o governador do Rio Grande do Norte, Juvenal
Lamartine, antecipou – se à União e aprovou uma lei em seu Estado dando o direito
ao voto às mulheres;

• Apenas em 1932, Getúlio Vargas cede aos apelos e incorpora ao novo Código Eleitoral
o direito de voto à mulher;
Algumas expoentes das ondas do inicio do século XX

Rosalina Coelho Lisboa (1900-1975)


Gilka Machado (1893-1980)
Mariana Coelho (1857 ou 1872-1954)
Raquel de Queiroz (1910-2003)
Adalzira Bittencourt (1904-1976)
No campo literário, as escritoras feministas se destacavam. Em 1921, Rosalina Coelho Lisboa
(1900-1975) conquistava o primeiro prêmio no concurso literário da Academia Brasileira de
Letras, com o livro Rito pagão, e era saudada pela imprensa, principalmente a mais interessada,
como um “triunfo da intelectualidade feminina brasileira”, tal o ineditismo que representava [...]
Participou do Congresso Feminino Internacional, em 1930, em Porto Alegre, como representante
da Paraíba, e foi a primeira mulher a ser designada pelo governo brasileiro para uma missão
cultural no exterior, no caso, Montevidéu, em 1932. (DUARTE, C., p. 162-163).
Também Gilka Machado (1893-1980) publicou, em 1918, um livro de poemas eróticos, Meu
glorioso pecado, logo considerado um escândalo por afrontar à moral sexual patriarcal e cristã.
Como poucas escritoras de seu tempo, Gilka promoveu a ruptura dos paradigmas masculinos
dominantes e contribuiu para a emancipação da sexualidade feminina. Ao vencer um concurso
literário do jornal A imprensa, então dirigido por José do Patrocínio Filho, teve seu trabalho
estigmatizado e considerado “imoral” por críticos mais conservadores. Além de poetisa talentosa,
participou dos movimentos em defesa dos direitos das mulheres, principalmente ao lado de
Leolinda Daltro, com quem criou o utópico Partido Republicano Feminino, em 1910, quando
ainda era remota a idéia do voto (DUARTE, C., p. 163).
Mariana Coelho (1857 ou 1872 – 1954) se impõe como a “Beauvoir tupiniquim”, como a chamou
Zahidé Muzart, em seu estudo sobre a feminista paranaense. Mariana Coelho publicou A evolução
do feminismo: subsídios para a sua história, em 1933, que representa uma importantíssima e
lúcida contribuição à história intelectual da mulher brasileira. (id., ibid.).

A obra – e a vida – de Rachel de Queiroz figuram como índices precisos, espécie de marcos ou
emblemas do processo de emancipação social da mulher brasileira no século XX. Esta poderia ser
apenas mais uma surrada frase de efeito, caso o Brasil não fosse um país onde boa parte das
mulheres, dos negros, dos índios e dos pobres em geral convive com a ausência dos requisitos
mínimos para o exercício da cidadania, e onde se constata facilmente que esse processo de
emancipação ainda está longe de se concluir. O fato de a maioridade social da mulher – e de todos
os excluídos – ser entre os brasileiros pouco menos que uma utopia dá à obra de Rachel de Queiroz,
e também à sua vida, o preciso relevo de fenômeno cuja caminhada teve seus passos acertados com
o relógio da História. (DUARTE, E., apud (id., ibid.).
O quinze caiu de repente ali por meados de 1930 e fez nos espíritos estragos maiores
que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava
assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. Lido o volume e
visto o retrato no jornal, balancei a cabeça: Não há ninguém com esse nome. É pilhéria.
Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado. Depois,
conheci João Miguel e conheci Raquel de Queirós, mas ficou-me durante muito tempo a
idéia idiota de que ela era homem, tão forte estava em mim o preconceito que excluía as
mulheres da literatura. Se a moça fizesse discursos e sonetos, muito bem. Mas escrever
João Miguel e O quinze não me parecia natural (RAMOS, apud, id., ibid.)
Adalzira Bittencourt (1904-1976), advogada, escritora e feminista, que organizou no
Palace Hotel do Rio de Janeiro, em 1946, a Primeira Exposição do Livro Feminino,
obtendo muita repercussão na imprensa. No ano seguinte, ela repetiu o evento em São
Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, reunindo mais de mil livros de quinhentas e
sessenta escritoras. Os jornais registraram que pelo menos cem escritoras estiveram
presentes, e o enorme sucesso de público. Durante os quinze dias da Exposição, foram
realizadas palestras sobre a mulher na história e na música, sobre o divórcio, o papel da
imprensa, e a literatura de autoria feminina, entre outras. (id., ibid.)
Ditadura/censura
Sexualidade
“Direitos reconhecidos” Prazer
Aborto
Separação sexo e maternidade
Sexo e compromisso

Inúmeras outras escritoras poderiam ser lembradas pela reflexão


que seus textos e personagens suscitam nas leitoras, como Lygia
Fagundes Telles, Clarice Lispector, Sônia Coutinho, Hilda Hilst,
Helena Parente Cunha, Marina Colasanti, Lya Luft, entre outras,
muitas outras. (DUARTE, 2003)
SONETO MOCIDADE INDEPENDENTE
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer Pela primeira vez infringi a regra
Pergunto mais, se sou sã de ouro e voei pra cima sem
E ainda mais, se sou eu medir mais as conseqüências. Por
Que uso o viés pra amar que recusamos ser proféticas? E
que dialeto é esse para a pequena
E finjo fingir que finjo audiência de serão? Voei pra
Adorar o fingimento cima: é agora, coração, no carro
Fingindo que sou fingida em fogo pelos ares, sem uma
Pergunto aqui meus senhores graça atravessando o Estado de
quem é a loura donzela São Paulo, de madrugada, por
que se chama Ana Cristina você, e furiosa: é agora, nesta
E que se diz ser alguém contramão.
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
Há lá por fora
um luar
que é um divino pecado...
se viesses, meu amado,
se surgisses agora
ao meu olhar,
se me apertasses, trêmula de susto,
ao teu formoso busto...
Paira lá fora o luar
a tentar a paisagem,
as almas a tentar;
se viesses, meu selvagem,
com teu querer imperativo e rude,
com teus modos brutais,
a esta lua macia,
eu tudo
te daria
e mais
e muito mais!...

(Meu glorioso pecado, Gilka Machado, 1918)


“É claro que não estou falando
sério, só queria ilustrar como a
palavra “feminista” tem um peso
negativo: a feminista odeia os
homens, odeia sutiã, odeia a
cultura africana, acha que as
mulheres devem mandar nos
homens; ela não se pinta, não se
depila, está sempre zangada,
não tem senso de humor, não usa
desodorante (p.4)”.
“Algumas pessoas me questão de gênero tem como
perguntam: “Por que usar a alvo as mulheres. Que o
palavra ‘feminista’? Por que problema não é ser humano,
não dizer que você acredita nos mas
direitos humanos, ou algo especificamente um ser humano
parecido?” Porque seria do sexo feminino. Por séculos,
desonesto. O feminismo faz, os seres humanos eram
obviamente, parte dos direitos divididos em
humanos de uma forma geral — dois grupos, um dos quais
mas escolher uma expressão excluía e oprimia o outro. É no
vaga como “direitos humanos” mínimo justo que a solução
é negar a especificidade e para esse
particularidade do problema de problema esteja no
gênero. Seria uma maneira de reconhecimento desse fato”
fingir que as mulheres não (p.10)
foram excluídas ao longo dos
séculos. Seria negar que a
Referências bibliográficas:
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. Trad. Cristina
Baum. São Paulo, Companhia das Letras, 2013.

DUARTE, Constância Lima. Feminismo e literatura no Brasil. Estudos


Avançados, São Paulo, v. 17, n. 49, p. 151-172, set. 2003.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. São


Paulo: Editora Cortez, 1989.

Folha Online. Direito de voto feminino completo 76 anos no Brasil; saiba mais
sobre essa conquista. Folha de São Paulo, São Paulo, fev. 2008. Disponível
em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2008/02/367001-direito-de-voto-
feminino-completa-76-anos-no-brasil-saiba-mais-sobre-essa-conquista.shtml>.
Acesso em: 05 jan. 2015.

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