Você está na página 1de 17

A Negra Forca da Princesa

Polícia, Pena de Morte e Correção em Pelotas


(1830-1857)

Caiuá Cardoso Al-Alam


Introdução

 Interesses no fazer
história;

 Jogo de interpretações /
escolhas, certas invenções;

 Modelos explicativos e
Experiência (Thompson);

 Micro-História e a curta
duração;
Cap 1: A cidade que me contaram, a cidade
que conheci e a cidade que passo a narrar
 Pelotas: uma ilha de costumes europeus cercada
de penitenciárias escravocratas;
 Populares quando aparecem, sempre relacionados
ao exótico x hierarquia das culturas;
 Mesmos textos, mesmas verdades;

 Fernando Osório ao falar de Roberto


Macacão, diz “era feio como uma indigestão
de charque”, ainda, ao referir-se a esposa
deste indivíduo, a dita Macacoa, ele disse,
“[...] era uma verdadeira cariátide, uma
espécie de megera de Macbeth, feia como
um caco de granada, elegante como uma
cama de vento, perfumosa como um murrão
apagado, clara como o fundo de uma
chaleira de chimarrão” (Osório: 1998, p.
316). Estes populares que perambulavam
pelas ruas, em situação de miséria, eram
vistos pelo autor como “trapos de gente”.
Cap 1: A cidade que me contaram, a cidade que conheci e a cidade que passo
a narrar

 Nicolau Dreys e os
estabelecimentos penitenciários:
Maestri e historiogafia da
escravidão;
 Espaço entre a norma e o vivido;
 Pelotas insubmissa: escravos e
peões de tropas como sujeitos do
caos;
 Encruzilhada!
Cap 2: Cidadãos industriosos não devem ser constantemente distraídos
de seus misteres: A organização do Policiamento em Pelotas

 A Guarda Nacional(1831) não


basta, eles “[...] não podem
arrostar-se, sem apoio, com
criminosos adestrados as armas, e
assassinato”

 Disse “[...] que não era escravo


para lhe gritar”: A formação da
Guarda Municipal Permanente em
Pelotas(1831)

Reforma do Código Criminal 1841


=
Centralização
Criação do cargo de Chefe de Polícia
Cap 2: Cidadãos industriosos [...]

Gastos Provinciais com o Corpo Policial


(1835/1845)

Ano financeiro Corpo Policial

1835 13:547$713

1837-40 Sem verbas


 Nasce o Corpo Policial da Província;
1840-41 3:716$117

1841-42 39:880$712

1842-43 51:032$081

1843-44 73:173$039

1844-45 135:289$063
Cap 2: Cidadãos industriosos [...]
 Origem dos Policiais internados na Santa Casa de
Misericórdia de Pelotas (1849/1855).

Nacionais No %

Desta Província Total 66 59,46


Outra Província Total 17 15,32

Estrangeiros 27 24,33

Ilegível 01 0,9

Cor Número
Branca 48
Caboclo 2
Cor dos Policiais internados na Santa Cabra 2
Casa de Misericórdia de Pelotas China 1
(1849/1855) Índia 11
Parda 44
Preta 3
Total 111
Fonte: Registro de entrada e saída de enfermos da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas 1847-57.
Policiamento no final do XIX

 Final do século XIX, polícias provinciais


adotaram modelo francês = híbrido,
civilista e militar.
 Polícias particulares = subvenções da
população, comerciantes, e também da
Câmara Municipal (moralização pelo
exemplo dos Voluntários).
 Conflito nas ruas com o Exército =
“Baianos safados”.
Cap 3 – Casa Amarela: teoria e realidade carcerária em Pelotas no século XIX

 O nascimento da Casa de
Correção de Pelotas (1832).
 Sociedade Defensora da Liberdade
e Independência Nacional =
Corte.
 A beira do Santa Bárbara: local de
escravos, vadios e Correção;
Capítulo 3 – Casa Amarela [...]

 Os presos padecem: a cadeia


carece de tudo quanto a
Constituição recomenda
 A prisão segrega: uma invenção
chamada crise prisional
Livro de entrada e saída de presos escravos
na cadeia pública de Pelotas (1862-78)

AL-ALAM, Caiuá Cardoso. O livro que sobrou: presos escravos em


Pelotas (1862-78). AEDOS, v. 2, p. 342-354, 2009.

AL-ALAM, Caiuá Cardoso; CORREA, Marcelo Farias. Livro de


entrada e saída de presos escravos na cadeia de Pelotas (1862-
1878). História em Revista (UFPel), v. 15, p. 141-150, 2009.
Delito Nº %
Contra a propriedade
40 10,8
Furtos
6 1,6
Entrar em casa alheia
3 0,8
Incêndio
49 13,2
Subtotal
Fuga
Subtotal
36 9,7 A pedido do senhor = 32,1%
36 9,7
Contra a ordem pública = 15,6
Contra a pessoa = 14,1%
Contra a ordem pública
14 3,8
Vagar alta noite pelas ruas fora de hora
21 5,7
Desordem
Embriaguez
4 1,1 Contra a propriedade = 13,2%
Fuga = 9,7%
2 0,5
Jogos proibidos
4 1,1
Resistência
12 3,2
Para segurança
1 0,3
Acoutado
Subtotal
58 15,6
A “desordem” e o
Contra a pessoa “vagar a noite” aparecem no
livro algumas vezes combinadas,
30 8,1
Homicídios
11 3,0
Tentativa de homicídio
Ofensa física
9
1
2,4
0,3 e também relacionadas à
Sedução por feitiço
Estupro
1
52
0,3
14,1
embriaguez, fuga e ao jogo.
Subtotal

A pedido do senhor
119 32,1
Subtotal
119 32,1
Outros
Insanidade 1 0,3
Indagações policiais 6 1,6
Apresentação por maus tratos do senhor 1 0,3
Depósito para custas judiciais 1 0,3
Depositado por penhora 1 0,3
Recrutamento para Marinha de Guerra 1 0,3
Subtotal 11 3,0

Vazias
46 12,4
Subtotal 46 12,4

Total 371 100


Profissões Nº %
Alfaiate 8 2,4
Bolieiro 4 1,2
Calafate 1 0,3
Campeiro 52 15,6
Cargueiro 4 1,2
Carneador 8 2,4
Idade Nº % Carpinteiro 2 0,6
Carreteiro 9 2,7
Carroceiro 3 0,9
0-10 2 0,6
Chapeleiro 8 2,4
Charqueada 42 12,6
11-20 73 21,9 Charqueador 7 2,1
Charreteiro 1 0,3
Chimango 1 0,3
21-30 149 44,6 Copeiro 10 2,3
Cozinheiro 20 6,0
Ferreiro 4 1,2
31-40 63 18,9 Jornaleiro 12 3,6
Lavoura 1 0,3
Leiteiro 2 0,6
41-50 16 4,8
Marceneiro 5 1,5
Marinheiro 2 0,6
51-60 4 1,2 Marítimo 3 0,9
Nada 1 0,3
Não tem 2 0,6
Vazias 27 8,1 Oleiro 5 1,5
Panceiro ? 1 0,3
Pedreiro 8 2,4
Total 334 100 Pintor 2 0,6
Plantador 1 0,3
Polidor 1 0,3
Sapateiro 4 1,2
Tanoeiro 1 0,3
Todo serviço 57 17,1
Trabalhador 1 0,3
Vazias 41 12,3
Total 334 100
Naturalidade Nº %
4 º distrito 2 0,6
África 19 5,7
Alagoas 1 0,3
Angola 2 0,6
Ausá 1 0,3
Bagé 5 1,5
Bahia 10 3,0
Brazileiro 7 2,1
Cabinda 1 0,3
Camaquã 4 1,2
Candiota 1 0,3

Ladinos!
Canguçu 2 0,6
Cerrito 1 0,3
Congo 1 0,3
Desta Província 160 47,9
Encruzilhada
Jaguarão
1
5
0,3
1,5
Pessi
Loanda 1 0,3 =
Maceió 1 0,3
Maçambique 3 0,9 investimento dos senhores na
Maranhão
Mina
2
8
0,6
2,4 preservação da mão-de-obra
Mina Gége ?
Missão
1
1
0,3
0,3
(inventários 1846-74).
Passo dos goios 1 0,3
Pelotas 17 5,1
Pernambuco 9 2,7
Piauí 1 0,3
Piratini 2 0,6
Porto Alegre 4 1,2
Rio de Janeiro 3 0,9
Rio Grande 10 3,0
Santa Catarina 2 0,6
Santa Maria 1 0,3
Santana do Livramento 1 0,3
São Francisco 1 0,3
São Gabriel 1 0,3
Serra 1 0,3
Serra dos Tapes 1 0,3
Vacaria 1 0,3
Vazias 35 10,5
Ilegíveis 3 0,9
Total 334 100
Cap 4 – Pelotas enforca:
algumas provocações a respeito
da Pena de Morte

 Lei 10 de junho de 1835:


Carrancas (MG) e Malês (BA);

 Na Princesa do Sul, a forca tinha


cor, era negra!

 Recursos de Graça e o escritor


Victor Hugo;

 Forca em Pelotas: cartografia e


rito;
Cap 4 – Pelotas enforca [...]

 Enforcamentos com registro:

– João Pernambuco, Salvador e Bento


em 22 de julho de 1847;
– André Mina em 1º de julho de 1849;
– Belizário em 10 de maio de 1850.

 Armação da forca:

– Manoel em 1834;
– Ignácio em 1857.
“Eu falo, falo, mas quem me ouve retém somente as palavras que
deseja. Uma é a descrição do mundo a qual você empresta a sua
bondosa atenção, outra é a que correrá os campanários de
descarregadores e gondoleiros às margens do canal diante da
minha casa no dia do meu retorno, outra ainda a que poderia ditar
em idade avançada se fosse aprisionado por piratas genoveses e
colocado aos ferros na mesma cela de um escriba de romances de
aventuras. Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido.”
(Trecho da fala do personagem Marco Polo no livro de Ítalo
Calvino, chamado “As cidades invisíveis”).