Você está na página 1de 13

FIGURAS DE

SINTAXE
FIGURAS DE SINTAXE
O texto nem sempre é organizado conforme as normas de sintaxe. Às vezes, ocorrem alguns desvios
sintáticos que alteram a estrutura convencional de uma oração (SUJEITO+ VERBO + COMPLEMENTO),
promovendo uma sintaxe incomum. Observe a música:

Águas de março (Tom Jobim)

É pau, é pedra, é o fim do caminho


É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
Nota-se a repetição do verbo “ser” em negrito.
Observe outro texto:

Os cavalinhos correndo, (estão correndo)


E nós, cavalões, comendo... (estamos comendo)
O Brasil politicando, (está politicando)
Nossa! A poesia morrendo... (está morrendo)
O sol tão claro lá fora, (está)
O sol tão claro, Esmeralda, (está)
E minh’alma — anoitecendo! (está anoitecendo)

Manuel Bandeira
Nota-se, no poema, a omissão do verbo “estar” que fica subentendido.

Quando há uma inversão de termos, repetição ou até omissão deles, para


acrescentar mais vigor e expressividade à linguagem, temos as chamadas
figuras de sintaxe ou de construção.
Anacoluto
É a mudança da construção sintática no meio da frase, ficando alguns termos desligados do resto do
período.

EX:
Esses alunos da escola, não se pode duvidar deles.
O Alexandre, as coisas não lhe estão indo muito bem.

A expressão "esses alunos da escola" deveria exercer a função de sujeito. No entanto, há uma interrupção da frase, e essa expressão fica à parte, não exercendo nenhuma
função sintática. O anacoluto também é chamado de "frase quebrada", pois corresponde a uma interrupção na sequência lógica do pensamento.

Obs.: o anacoluto deve ser usado com finalidade expressiva em casos muito especiais. Em geral, deve-se evitá-lo.

Hipérbato / Inversão

É a inversão da estrutura frásica, isto é, a inversão da ordem direta dos termos da oração.
EX:
Ao ódio venceu o amor. (Na ordem direta seria: O amor venceu ao ódio.)
“De tudo, ao meu amor serei atento
Antes e com tal zelo, e sempre, e tanto” (Vinícius de Moraes) (Na ordem direta seria: Serei atento ao meu amor antes de
tudo, e com tal zelo, e sempre, e tanto)
Anáfora
É a repetição de uma ou mais palavras no início de várias frases, criando, assim, um
efeito de reforço e de coerência. Pela repetição, a palavra é colocada em destaque,
permitindo ao escritor valorizar determinado elemento textual.

EX:
"Se você gritasse
Se você gemesse,
Se você tocasse
a valsa vienense
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro José!" (Carlos Drummond de Andrade)
Polissíndeto
É uma figura caracterizada pela repetição dos conectivos ou síndetos.
EX:
"Falta-lhe o solo aos pés: recua e corre, vacila e grita, luta e ensanguenta, e
rola, e tomba, e se espedaça, e morre." (Olavo Bilac)
Deus criou o sol e a lua e as estrelas. E fez o homem, e deu-lhe inteligência,
e fê-lo chefe da natureza.

Assíndeto
É uma figura caracterizada pela ausência das conjunções, ou conectivos.
EX:
Tens casa, tens roupa, tens amor, tens família.
"Vim, vi, venci." (Júlio César)
Elipse
Consiste na omissão de um ou mais termos numa oração que podem ser facilmente
identificados, tanto por elementos gramaticais presentes na própria oração, quanto pelo
contexto.
EX:
A cada um o que é seu. (Deve se dar a cada um o que é seu.)
Tenho duas filhas, um filho e amo todos da mesma maneira. (omissão do pronome
pessoal “eu”)

Zeugma
Ocorre quando é feita a omissão de um termo já mencionado anteriormente.
EX:

Ele gosta de geografia; eu, de português. (Zeugma: gosto)


Na casa dela só havia móveis antigos; na minha, só móveis modernos.(Zeugma: havia)
Ela gosta de natação; eu, de vôlei. (Zeugma: gosto)
No céu há estrelas; na terra, você. (Zeugma: há)
Silepse
A silepse é a concordância que se faz com o termo que não está
expresso no texto, mas sim com a ideia que ele representa. É uma
concordância que se faz com um termo oculto, facilmente
subentendido. Há três tipos de silepse: de gênero, número e pessoa.

Silepse de Gênero
Os gêneros são masculino e feminino. Ocorre a silepse de gênero
quando a concordância se faz com a ideia que o termo comporta.
EX:
A bonita Porto Velho sofreu mais uma vez com o calor intenso. (Nesse
caso, o adjetivo bonita não está concordando com o termo Porto Velho, que
gramaticalmente pertence ao gênero masculino, mas com a ideia contida no termo (a
cidade de Porto Velho).
Vossa Excelência está preocupado. (Nesse exemplo, o adjetivo preocupado
concorda com o sexo da pessoa, que nesse caso é masculino, e não com o termo Vossa
Excelência).
Silepse de Número
Os números são singular e plural. A silepse de número
ocorre quando o verbo da oração não concorda
gramaticalmente com o sujeito da oração, mas com a
ideia que nele está contida.
EX:
A procissão saiu. Andaram por todas as ruas da cidade
de Salvador.
O povo corria por todos os lados e gritavam muito alto.
(Note que, nos exemplos acima, as formas verbais andaram e gritavam não concordam
gramaticalmente com os sujeitos das orações -que se encontram no singular: procissão e povo,
respectivamente. Eles concordam com a ideia de pluralidade que neles está contida. Procissão e
povo dão a ideia de muita gente, por isso que os verbos estão no plural.
Silepse de Pessoa
Três são as pessoas gramaticais: a primeira, a segunda e a terceira.
A silepse de pessoa ocorre quando o verbo não concorda com o
sujeito da oração, mas sim com a pessoa que está inscrita no
sujeito.
EX:
O que não compreendo é como os brasileiros persistimos em
aceitar essa situação.
Os agricultores temos orgulho de nosso trabalho.
"Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos."
(Machado de Assis)

Observe que as formas verbais persistimos, temos e somos concordam com a ideia
contida nos seus sujeitos brasileiros, agricultores e cariocas, que estão na terceira
pessoa, incluindo o enunciador, respectivamente, aos brasileiros, aos agricultores e aos
cariocas.
CURIOSIDADES
•ANACOLUTO vem do latim anacoluthon, que tem origem no grego anakoluthos. A
palavra grega, por sua vez, deriva do termo também grego koluthos, que significa
“caminho”. Assim, originalmente, anacoluto quer dizer “que não segue o mesmo
caminho”.

•HIPÉRBATO vem do grego “hyperbatón,oû”, significando “inversão”.


•ANÁFORA vem do grego, sendo formada pela união do prefixo ana, que quer
dizer “repetição”, e pelo verbo pheró, que significa “transportar”, “suportar”,
“manter”.

•POLISSÍNDETO vem do grego polysýndeton, formado por polýs, que significa


“muito”, e pelo verbo syndéo, que quer dizer “unir”, “ligar”. Assim, o
significado original da palavra é algo como “muitas ligações”.
ASSÍNDETO vem do grego asýndetos, formado pelo prefixo “a”, que indica negação,
e pelo verbosyndéo, que significa “unir”, “ligar”. O significado original é a ausência
de ligação, a desunião.
ELIPSE Vem do latim “ellípsis,is” e do grego “élleipsis,eós”, significam “supressão”.
ZEUGMA O termo zeugma vem do grego zeygma, que quer dizer “ligação”,
“vínculo”, “conexão.
SILEPSE vem do grego sýllepsis, que significa “ato de compreender” ou “abranger”,
“tomar em conjunto”.

Você também pode gostar