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2.

A Filosofia na cidade
2.1. Espaço público e espaço privado

2. A Filosofia na cidade
2.1.1. O indivíduo e a sociedade
AGIR HUMANO

Dimensão pessoal Dimensão social

Cada ser humano é


Cada ser humano indissociável da relação
cumpre-se num projeto com os outros e com as
individual. instituições que integram
a sociedade.

Enquanto ser integrado na sociedade, o ser humano é, por natureza, um


animal político (Aristóteles).

Somos chamados a participar nos assuntos práticos da vida, enquanto


cidadãos. Mas o que significa ser cidadão?
CIDADÃO

A palavra «cidadão» quer, originariamente, designar aquele que habita a


cidade e que, como tal, goza de direitos civis e políticos dentro dela.

Democracia
ateniense antiga

O cidadão é o homem livre, capaz de se autogovernar,


de participar nas decisões públicas da cidade, para
além de cumprir as suas obrigações naturais ligadas à
sua subsistência e à da sua família.

Desde muito cedo os filósofos consideraram a existência de duas


esferas na vida do indivíduo: privada e pública.
INDIVÍDUO

Família e Cidade e
individualidade coletividade

Espaço privado Espaço público

– liberdade individual; – igualdade;


– dignidade; – justiça;
– intencionalidade. – normas/leis.

CIDADÃO

Para os gregos, o espaço público é mais importante que o espaço privado, pois ele
é condição da realização do ser humano enquanto animal político (Aristóteles).

A esfera da polis é a esfera da liberdade.


ATUALMENTE

As noções de «espaço público» e de «espaço privado»


assumem novos contornos.

SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS
(multiculturais)

Coexistem identidades sociais e culturais distintas e uma pluralidade de discursos .

O espaço público transforma-se numa rede em que participam


diferentes grupos capazes de se influenciar mutuamente.
Novas tecnologias da comunicação e da informação

Permitem uma nova forma de viver o espaço público, prometendo uma maior
participação dos cidadãos e trazendo a debate a questão da redefinição da
fronteira que separa o público do privado.

A afirmação da liberdade e a realização humana não se resumem ao espaço


público, mas também não dependem exclusivamente da esfera privada.

A individualidade e a privacidade são hoje discutidas em público, refletindo-se


sobre uma eventual noção distorcida do espaço privado.

Há desvantagens práticas na sobrevalorização da noção de «individualidade»:


obstáculo para criar e apostar em empreendimentos ou ideais comuns.
INDIVÍDUO

Ser livre e dotado de


consciência moral.

É capaz de decidir e deliberar


Mostra-se e interfere no seio da
responsavelmente na sua
coletividade.
individualidade.

Espaço privado Espaço público

Na esfera privada, o indivíduo procurará o melhor para si; na esfera pública procurará (à
partida) o melhor para todos.

A articulação entre as esferas privada e pública do ser humano remete-nos


necessariamente para a reflexão ético-política.
Tarefa da reflexão política: tentar
Assegurar as melhores Justifica a existência do
conciliar as exigências pessoais e
condições (de justiça) direito (das leis) e do
individuais com as exigências da
para todos. Estado.
coletividade.

Dimensões da cidadania

Civil Política Social

Direitos inerentes à
liberdade
Direitos relativos à Direitos relativos
individual, à
participação no ao bem-estar
liberdade de
exercício do poder económico e social
expressão e de
político, enquanto (segurança, nível
pensamento, à
eleito ou eleitor. de vida, etc.).
propriedade e à
justiça.

Um projeto (político) não pode ficar indiferente ao que eticamente os sujeitos


de uma sociedade reconhecem como o melhor, o bem ou o justo e ao que
estão dispostos a fazer por ela.
2.1.2. A filosofia na polis – a evolução
da filosofia política
Filosofia

Dimensão Dimensão
GREGOS
teórica prática

Razão prática
Razão teórica (praxis)
Nascimento da
democracia e
a valorização Ação comum,
da política – associada à
Contemplação e «gestão dos reflexão acerca
produção de assuntos ou dos problemas
conhecimentos negócios da práticos da vida
polis». pública da
cidade.
Democracia grega

Princípio de
isonomia

As mesmas leis valiam para todos.

Isso permite o reconhecimento da


igualdade de todos os cidadãos
perante a lei.

A cidadania constrói-se tendo por base o reconhecimento da


igualdade e da liberdade do cidadão.
NA POLIS

Trava-se uma batalha entre


filósofos e sofistas.

Os sofistas, ao ensinar a areté política, permitem que o cidadão


participe nas decisões da polis democrática e incentivam o
diálogo e a discussão de ideias.

A filosofia começa a ocupar-se do


problema antropológico:
O que é o Homem?

Mas os filósofos, combatendo a sofística, não podem


aceitar que a todos caiba o papel de gerir a polis.
Platão (A República) – «Quem deve governar?»

Aristóteles (Tratado da Política) – surge o conceito de


«filosofia política» como disciplina ou ramo do saber

Caracteriza o ser
humano como um
animal social e político

«Como se justifica a
«Quem deve governar?»
legitimidade do poder?»

A questão do
A questão da fundamento da
soberania. soberania, ou do
direito natural.
Pensadores que contribuíram para o
desenvolvimento da filosofia política

Nicolau Jean-Jacques John Locke


Thomas Hobbes
Maquiavel Rousseau (1632 -1704)
(1588-1679)
(1469 -1527) (1712-1778) Carta sobre a
Leviatã
O Príncipe O Contrato Social Tolerância

Uma questão determinante: a da natureza humana.

É o ser humano naturalmente bom e justo ou, pelo contrário, a sua


natureza tende para o mal, para o egoísmo?

Se tende para o mal, deverá existir uma autoridade a impor-lhe regras; se


é naturalmente bom, por si mesmo desejará o bem de todos e será capaz
de, por sua livre vontade, respeitar os outros.

Aparecimento de diferentes regimes (ditatoriais ou democráticos)


ao longo de toda a história.
Filosofia política

Tende a afirmar-se cada vez mais crítica,


consciente e interventiva.

Reivindicação da importância da praxis, da


ação comum,

Hannah Arendt

Valorizava a liberdade política, a Quis revitalizar a política, afirmando


liberdade de intervir no espaço que ela se situa na própria ação, no
público. agir em comum.
FILOSOFIA POLÍTICA ATUAL

Procura responder ao problema do confronto entre o universalismo dos direitos


humanos e a inalienável diversidade/identidade cultural.

Perante uma sociedade onde coexistem diferentes religiões, culturas, raças, etnias,
como podemos respeitar a identidade de cada um sem que fiquem ameaçados os
direitos fundamentais de todos?

Dois núcleos diferentes de reflexão:

Filosofia política de raiz anglófona


Filosofia política de raiz europeia.
ou norte-americana.

Interesse pela afirmação da pessoa Considera as comunidades e os


como princípio e pelo grupos culturais como eventuais
reconhecimento das suas sujeitos também portadores de
liberdades como valores. direitos.
Filósofos ou politólogos
(ocidentais):

Reconhecimento de três
princípios fundamentais:

O diálogo como a via


A liberdade e a
A democracia como o razoável de resolução dos
igualdade como
regime preferível. problemas comuns dos
direitos fundamentais.
cidadãos.

A atual reflexão filosófico-política (seja ela americana ou europeia) faz-se no


sentido de encontrar a melhor forma de coexistência do direito de igualdade com
o direito à diferença.

Importância da tolerância e do diálogo na construção da cidadania.


2.2. Convicção, tolerância e diálogo –
a construção da cidadania

2. A Filosofia na cidade
2.2.1. Tolerância e intolerância
Fenómenos de globalização e de imigração

Crescente intercâmbio de Contacto de diferentes


produtos e ideias. culturas e religiões.

Necessidade de repensar a situação do cidadão enquanto ser


humano, enquanto cidadão no mundo.

Necessidade de repensar o quadro das condições de vida do ser


humano, de forma a garantir os seus direitos fundamentais.

Pertinência da reflexão acerca de alguns problemas atuais: fome,


pobreza, terrorismo, problemas ambientais, etc.
Algumas questões ético-políticas que
atualmente se colocam:

•Haverá alguma forma de resolver os conflitos atuais?


•Será possível estabelecer um conjunto de modos de comportamento
universais de forma a evitar estes problemas?
•Será possível “globalizar” valores?
•Será que as diferentes culturas podem ultrapassar a sua própria
forma de estar, pensar e agir?
•E isso não corresponderá à aniquilação da sua identidade?

Implicam repensar a tolerância no seio do pluralismo de convicções.


TOLERÂNCIA

«[Ser tolerante é] abstermo-nos de agir contra o que


reprovamos, contra o que nos é politicamente
contrário ou contra o que é diferente de nós.»
(Simon Blackburn)

Permitir comportamentos e atitudes que não


aceitamos como corretos ou que não estão de
acordo com as nossas convicções.

Já no século XVII John Locke refletia sobre o problema da


tolerância. Essa tolerância impunha-se no contexto das
diferentes convicções religiosas.

Locke defendia a separação entre os poderes político e


religioso e reivindicava a tolerância entre as pessoas de fé.
Atualmente

Tolerância

Domínio Domínio
religioso político

Direito de Direito à
culto diferença

•reconhecimento da igual dignidade dos outros;


•respeito pelo multiculturalismo.

A tolerância constitui, assim, um princípio


regulador do pluralismo cultural e é também
harmonia na diferença.
Atitudes face à diversidade e à
necessidade de resolver
conflitos nas sociedades
democráticas atuais:

TOLERÂNCIA INTOLERÂNCIA

•manifestar posições ou
•manifestar posições convicções dogmáticas e
abertas e razoáveis; fechadas;
•aceitar as diferenças; •não aceitar as diferenças;
•promover o diálogo; •recusar o diálogo e o
•negociar e estabelecer consenso;
consensos; •impor uma estratégia
•garantir a igualdade de unilateral de negociação;
direitos civis e humanos. •garantir a autoridade de
uma posição.

Pergunta-chave: o que é Pergunta-chave: qual a


razoável tolerar? melhor forma de impor?
Reflexão política atual sobre a realidade multicultural

Três posições
(segundo Daniel
Weinstock):

Regressar ao
abstencionismo liberal
Exigir que grupos de
tradicional: recusar O Estado liberal deve
natureza muito diferente
qualquer implicação do adotar medidas
possam dispor dos
Estado no domínio da suscetíveis de criar um
recursos políticos de
gestão da diferença sentimento de pertença
que têm necessidade
cultural. Cabe aos nacional entre todos os
para viver plenamente a
próprios grupos definir cidadãos.
sua diferença.
práticas de tolerância
cultural.
2.2.2. O diálogo como via de construção
da cidadania
Reconhecer os direitos humanos

Reafirmar a igual dignidade de todos os indivíduos, independentemente


das suas diferenças de cor, raça, etnia ou religião.

Ter a convicção x ou y ou defender este ou aquele ideal político não pode


significar ser-se intolerante perante outras convicções e outros ideais.

Mas é ainda muito difícil resolver determinadas questões socioculturais.

Necessidade de reafirmar o diálogo.

O diálogo é o garante do bom


funcionamento das democracias, a
condição de razoabilidade.
Conceções filosófico-políticas
atuais acerca do diálogo e do
consenso

O «consenso de
A «ética do discurso» sobreposição de
doutrinas abrangentes
razoáveis»

Karl-Otto Apel e Jürgen


John Rawls
Habermas
ÉTICA DO DISCURSO

De inspiração kantiana, pretende ser universal mas centrada na


intersubjetividade própria da comunicação.

Parte-se da ideia de uma situação ideal de comunicação cujos intervenientes partilham de


iguais condições de diálogo e, dessa forma, conseguem entender-se.

Possibilidade (teórica) de estabelecer a validade de normas morais (comuns).

Mas uma «comunidade ideal de fala» não é o mesmo que uma comunidade real: há
opiniões divergentes e a capacidade argumentativa é discrepante.

A maior parte das vezes só será possível atingir consensos provisórios ou


estabelecer compromissos negociados.

Apel e Habermas defendem a necessária participação dos indivíduos no espaço


público, mas alertam para o papel indispensável de um Estado de direito
democrático para garantir os direitos fundamentais dos cidadãos.
CONSENSO DE SOBREPOSIÇÃO DE DOUTRINAS ABRANGENTES RAZOÁVEIS

Numa sociedade verdadeiramente democrática todos os intervenientes estão


interessados em cooperar, porque todos se reconhecem como iguais.

Mas em sociedades democráticas plurais, há objetivos pessoais


diferentes e diferentes ideias e convicções.

Segundo Rawls, uma sociedade justa só será estável se conseguir reunir um


conjunto de doutrinas razoáveis (mesmo se diferentes), tendo em vista um
consenso duradouro.

Se dada doutrina não for razoável (se puser em causa os interesses e direitos
fundamentais dos indivíduos), não poderá ser admitida numa sociedade (justa).
SER CIDADÃO

AUTODETERMINAR-SE

Pôr em ação a sua liberdade e igualdade e empenhar-


se na defesa dos interesses comuns.

Mas atualmente a participação dos cidadãos na vida política


é, por vezes, muito reduzida, evidenciando-se um notório
desinteresse da população jovem pelos assuntos políticos.

Esta situação leva-nos necessariamente a questionar


o estado das democracias atuais e o papel do
cidadão na nossa era.
Liberdades públicas: implicam responsabilidade

Ser responsável é ser-se capaz de responder pelo


que se faz, assumindo-o como um ato próprio.

Responder «fui eu» quando Sermos capazes de dar as


os outros querem saber nossas razões para estas ou
quem levou a cabo as ações. aquelas ações.

Numa democracia, a verdade das ações está ligada ao debate, à


discussão e à participação.
CIDADANIA

Não é fechamento nos interesses individuais nem


alheamento em relação aos outros.

A cidadania constrói-se na participação que conduz à


própria decisão coletiva.

Os grandes problemas das nações


tornaram-se transnacionais,
continentais ou mesmo planetários.

A palavra cidadão inscreve-se nas


singularidades, mas ultrapassa os
particularismos.
Cidadãos

Seres humanos com


direitos e deveres

Cidadão universal ou cidadão do mundo

Cidadania que é desejável construir e que se deve


manter como uma espécie de ideal a prosseguir no
mundo contemporâneo.

Cidadão
contemporâneo

•Como cidadão do mundo é, antes de mais, sujeito de direitos fundamentais, tais como a liberdade e a igualdade.
•É portador de identidade e dignidade próprias.
•Tem o poder de deliberar e o dever de participar democraticamente nos assuntos da esfera pública.
•Como cidadão no mundo, tem o dever de ser solidário e responsável à escala planetária.
•Tem o dever de construir a paz, tendo por instrumento privilegiado o diálogo para alcançar o consenso.
•Tem o dever de participar na construção de uma sociedade melhor e mais justa.