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Patologia Especial Veterinária

Tanatologia: Alterações cadavéricas

Prof. Dr. Sérgio N. Vitaliano


Definições
Morte

• Pode ser definida pela cessação total e permanente das funções vitais
com ruptura do equilíbrio biológico e físico químico (homeostase
corporal).
Alguns autores afirmam que não é um momento, é um processo que se vai
desenrolar ao longo do tempo.
Alterações Cadavéricas

• São alterações que ocorrem no animal após a constatação de sua


morte clínica.

• Importância
É possível determinar o tempo de morte do animal, assim como identificar se
determinada alteração ocorreu antes da morte (ante-morten) ou depois da
morte (post-morten).
Tanatologia

• É o estudo científico da morte. Ele investiga os mecanismos e


aspectos forenses da morte, tais como mudanças corporais que
acompanham o período após a morte, bem como os aspectos sociais
e legais mais amplos. É, principalmente, um estudo interdisciplinar.
Cronomatogênese

• Estudo do tempo de morte

• KRONOS = Tempo

• THANATOS = Morte

• GNOSIS = Conhecimento
Alterações Cadavéricas
Classificação

• Alterações abióticas

• Alterações transformativas
Alterações abióticas

• São alterações que ocorrem logo após a constatação da morte clínica,


antes da proliferação bacteriana secundária.

• Anterior a alteração transformativa


Alterações abióticas
• Parada cardiorrespiratória
• Abolição da motilidade e tônus muscular
• Ausência de circulação
• Imobilidade do cadáver
• Dilatação pupilar
• Abertura das pálpebras e da boca
• Relaxamento esfincteriano (perda de fezes; urina e esperma)
• Perda de consciência, de sensibilidade (táctil, térmica e dolorosa)
Alterações abióticas
Fenômenos abióticos imediatos

I. Cessação das atividades cerebrais: É a falta de atividade no registro


eletro-encefálico.
1° - perda da consciência – é a falta de resposta do indivíduo frente ao meio
ambiente. Isolada não caracteriza a morte. Pode representar um estado catatônico.
2° - perda da sensibilidade – há perda das sensações táteis, térmicas e dolorosas.
3° - abolição da motilidade e do tono muscular. Cadáver imóvel; há apenas
presença de fibrilação muscular; dilatação dos esfíncteres em geral; pupilar
(midríase); ânus; meato urinário.
Fenômenos abióticos imediatos

II. Cessação das atividades do coração


• Circulação sanguínea – observada através da ascultação cardíaca (ausência de
batimentos) e pela falta de atividade acusada na eletrocardiografia.

III. Cessação da atividade do centro respiratória


• Respiração – observada pela ausência de murmúrios vesiculares à
auscultação pulmonar.
Fenômenos abióticos tardios

• Desidratação

• Resfriamento do corpo

• Livores cadavéricos (hipostases viscerais)

• Rigidez cadavérica (rigor mortis)

• Flacidez cadavérica
Alterações abióticas

• Desidratação (o cadáver perde água dos tecidos para o meio)


Há perda do peso corporal
apergaminhamento da pele (ressecada, encolhida, firme e mais fina)
dessecamento da mucosa labial
desidratação dos globos oculares
opacidade corneal
mancha negra na esclerótica
visualização da coróide
Alterações abióticas

• Algor Mortis
Resfriamento do cadáver.

Ocorre de 3 a 4 h após a morte.

Ausência da termorregulação e dissipação de calor por evaporação.

• Cronotanatognose: Queda de 1oC por hora.


Alterações abióticas

• Livor mortis (Hipóstase cadavérica)


Lividices ou manchas hipostáticas: São manchas em uma área em contato
com uma superfície por um grande período de tempo.

 Ocorre de 2 a 4 h após a morte.

 Desfazem-se 12 a 24 h após o rigor mortis.


Alterações abióticas
Alterações abióticas
Alterações abióticas

• Rigor mortis (Rigidez cadavérica)


Início em 2 a 4 h após a morte
Desfaz-se de 12 a 24 h após início.

• É dividido em três fases:


Fase de pré-rigor
Fase de Rigor
Fase pós-rigor
Rigor mortis

• Fase de pré-rigor
Período após a constatação da morte clínica em que ainda há tecidos e órgãos vivos.

Metabolização do glicogênio para produzir ATP.

Sem O2 há o aumento da produção de ácido lático, o que diminui o pH ( 5.0 – 5.5 ).

A interação da actina com a miosina ainda com ATP mantém o músculo relaxado.
Rigor mortis

Rigor Mortis
Rigor mortis
Rigor mortis
Rigor mortis
Rigor mortis

• Fase pós-rigor
Período onde predominam os fenômenos líticos

Destruição do complexo actina/miosina

Relaxamento muscular.
Rigor mortis

• Cronomatogênese
1a hora – Músculo cardíaco.

1 a 2 h – Músculos respiratórios (diafragma e intercostais).

2 a 3 h – Musculatura da cabeça, da mastigação e periocular.

3 1⁄2 a 4 1⁄2 h - Região cervical, tórax e membros anteriores.

6 a 9 h – Restante da musculatura.
Alterações abióticas

• Coagulação sanguínea
Ativação e depleção dos fatores de coagulação

• Tipos de coágulos
Cruóricos ou sanguíneas: Coágulos vermelhos (são os mais encontrados).

Lardáceos: Amarelos, brancos ou cinzas (linhagem branca).

Mistos: Geralmente são casos patológicos.


Coagulação sanguínea
Coagulação sanguínea
Coagulação sanguínea
Coagulação sanguínea

• Localização
Câmaras cardíacas e vasos.

Formam-se aproximadamente 2 h após a morte

Desfazem-se 8 h após - HEMÓLISE.

• OBS: Coágulos no Ventrículo esquerdo sugerem debilidade do


miocárdio.
Alterações abióticas

• Embebição biliar
É caracterizada pelo aparecimento de uma região esverdeada ou amarelo-
esverdeada, típica de pigmentos biliares, que vai atingir órgãos próximos a
vesícula biliar.
Autólise da parede da vesícula
(corrosão pelos próprios componentes da bile)
Aumento da permeabilidade da parede da vesícula biliar e extravasamento da
bile.
Embebição biliar
Embebição biliar

• Diagnóstico Diferencial: Putrefação

• O período de constatação dessa alteração é muito variável


Alterações abióticas

• Embebição hemolítica ou sanguínea


Tecidos manchados de vermelho (característico da presença de
hemoglobina).

++ Paredes do endotélio dos vasos e na parede cardíaca.


Embebição hemolítica
Embebição hemolítica
Embebição hemolítica

• Ocorre 8 h após a coagulação sanguínea (causada pela hemólise)

• Diagnóstico Diferencial: Hemorragia


A embebição hemolítica é superficial e a medida que nos aprofundamos no corte
do tecido a tendência é essa mancha avermelhada desaparecer .

Na hemorragia observa-se uma coloração muito viva e muito profunda.


Alterações abióticas

• Meteorismo post-mortem
Produção de gás - proliferação bacteriana intestinal (o abdome se distende
devido o descontrole da proliferação bacteriana da flora intestinal).

Uma consequência das alterações transformativas

• Diagnóstico Diferencial: Meteorísmo ante-mortem


Alteração circulatória
Meteorismo ante-mortem
Alterações abióticas

• Deslocamento, torção e ruptura de vísceras


Meteorismo post-mortem

A pressão exercida pelo intestino cheio de gás sobre as outras vísceras faz
com que estas sofram atrito com a cavidade abdominal e podem chegar a
romper-se.

Intestino - deslocamento da posição normal (distocias).

Uma consequência das alterações transformativas


Alterações abióticas

• Pseudoprolapso retal
Ocorre devido o relaxamento muscular após a morte do animal associado ao
meteorismo, causando a projeção da ampola retal.

• No ante-mortem
Prolapso retal - mudança no peristaltismo normal do animal (hiperparasitose, deficiência
de cálcio ou presença de corpo estranho)

Erosões na área prolapsada, hemorragias, ruptura da área e coloração escura devido a


compressão do esfíncter anal.
Prolapso retal
Alterações transformativas

• Destrutivas

• Autólise - por acidificação dos tecidos

• Heterólise: Putrefação por microorganismos


Aeróbios
Aeróbios facultativos
Anaeróbios
Alterações transformativas - Fases

• Alteração de coloração (mancha verde de putrefação)

• Processo de produção de gás (enfisema putrefativo)

• Processo de liquefação ou de coliquação

• Processo de esqueletização
Alterações transformativas

• São alterações que decorrem de um estado de grande proliferação


bacteriana (putrefação).

• Os órgãos irão se apresentar como uma massa semi-sólida, odor


muito forte e mudanças de coloração.
Autólise

• Digestão tecidual por enzimas próprias da célula. Desnaturação


protéica, abaixamento do ph e formação de ácido láctico. Há
predominância dos íons H+ sobre os íons OH-. No músculo, as
enzimas catepsinas (lisossômicas), em ph baixo, iniciam a degradação
protéica
Autólise

• Pode-se observar o fenômeno de desnudamento das mucosas, como


a do trato digestivo, no rim e na próstata, também com
desprendimento epitelial (maceração).
Heterólise/Putrefação

• É o fenômeno que ocorre consecutivo à autólise, provocada por


germes aeróbios, anaeróbios e facultativos, geralmente saprófitos.
Com exceção dos fetos e recém-nascidos, o intestino é o ponto de
partida do processo putrefativo devido à grande concentração de
microorganismos. Por isso, o primeiro sinal de putrefação, geralmente
é o surgimento de uma mancha verde abdominal.
Heterólise/Putrefação

• O processo putrefativo apresenta uma determinada sequência,


caracterizada por quatro períodos:
1. Período de coloração (cromático)

2. Período gasoso

3. Período coliquativo

4. Período de esqueletização
Período de coloração (cromático)
• Pseudomelanose
• Ocorre o aparecimento de manchas verdes, inicialmente na região abdominal,
preferencialmente na fossa ilíaca (região próxima ao ceco), donde se espalha
para todo o corpo.
• A cor progride para tons mais escuros até tornar-se verde enegrecida.
• Essa coloração é consequente à produção de hidrogênio sulfurado pelas
bactérias com a hemoglobina do sangue, formando o pigmento
sulfametahemoglobina.
Período de coloração (cromático)
Período gasoso
• As bactérias produzem gases.

• O cadáver passa a apresentar um aspecto gigantesco, principalmente a face e


do abdomen, notando-se bolhas de gás e conteúdo hemoglobínico.

• Os gases pressionam os vasos fazendo com que os sangue escape para a


periferia, com destacamento epidérmico, formando um desenho vascular na
derme, bastante característico, conhecido como circulação póstuma de
brouardel, melhor observado em indivíduos de pele clara e pouco pilosa.
Período gasoso
• Enfisema cadavérico
Crepitação

Pele, musculatura e demais órgãos internamente irão apresentar ( bolhas de ar ).

Acido sulfídrico

Carbúnculo sintomático (clostridium)*


Período gasoso
Período coliquativo

• Liquefação

• Fase caracterizada pela dissolução do cadáver devido à ação


bacteriana, onde as partes moles reduzem de volume pela
desintegração progressiva dos tecidos.

• Estágios mais tardios da alteração cadavérica transformativa.


Período coliquativo

• As vísceras totalmente amorfas (há destruição completa da forma do


órgão).

• O odor é muito forte.

• HETEROLISE!!!!

• Exceção:
A adrenal sofre o processo de coliquação precocemente e não indica processo de
alteração cadavérica transformativa.
Período de esqueletização

• Nesta fase, o cadáver apresenta-se quase livre de suas partes moles,


restando os ossos presos apenas pelos ligamentos articulares. A
ossatura resiste por longo tempo mas, assim mesmo, vai perdendo a
sua estrutura normal, tornando-se cada vez mais leve e quebradiça.
Período de esqueletização

• Redução esquelética
Completa destruição da pele e musculatura

Algumas horas após a morte o corpo já apresenta diminuição de tamanho


pela destruição de células

Ossos
Período gasoso
PERÍODO DE ESQUELETIZAÇÃO
Período de
esqueletização-
Período de esqueletização-
Período de esqueletização-
Heterólise/Putrefação
• Alguns aspectos macroscópicos caracterizam bem a putrefação, tais como:
a) Desaparecimento da rigidez cadavérica.
b) Manchas de embebição hemoglobínica em vários tecidos, tais como a mucosa
do estômago e o endocárdio.
c) Embebição (sorver pelos poros) biliar (manchas amarelo esverdeadas), em
tecidos próximos à vesícula biliar; fígado, pâncreas, epiploo (omento),
duodeno.
d) Presença de sulfametahemoglobina.
e) Eliminação de sangue pelas cavidades naturais, hemólise
Heterólise/Putrefação
g) Amolecimento da polpa do baço.
h) Timpanismo cadavérico no aparelho digestório, principalmente de ruminantes.
i) Enfisema cadavérico. São bolhas de gás acumulado sob a cápsula de órgãos, fígado
e baço.
j) Expulsão de parte da ampola retal pelo ânus.
k) Odor forte, ofensivo, que supõe-se ser formado por certas aminas (cadaverina),
produzidas pelas bactérias.
l) Infestação do cadáver por insetos.
Maceração
• Fenômeno de especial transformação que sofrem os cadáveres de fetos ainda
dentro do útero ou nos casos de indivíduos mantidos submersos. Tal processo
pode ser ou não acompanhado pela atuação de microorganismos (séptico ou
asséptico).

• Desprendimento da mucosa dos órgãos

• Exceção:
A mucosa do rumem sofre o processo de maceração precocemente, não sendo sinal de
alteração cadavérica transformativa.
Alterações transformativas conservadoras

• Saponificação

• Mumificação

• Calcificação
Saponificação

• Formação untuosa (gordurosa)de consistência mole e quebradiça, de


tonalidade amarelo escura, com semelhança à cera ou ao sabão. É
processo que se forma nos estágios avançados da putrefação, em
pequenas áreas corporais.
Mumificação

• Fenômeno transformativo de conservação do cadáver, decorrente de


meios naturais ou artificiais. Ocorre no feto ainda dentro do útero,
por desidratação e reabsorção de líquido corporal, enrugamento da
pele, sem contaminação bacteriana. Há desmembramento e perda
tecidual.
Calcificação

• É um fenômeno transformativo conservador caracterizado pela deposição de


sais de cálcio no corpo. É observado mais frequentemente em fetos mortos e
mantidos no interior do útero, sendo chamados litopédios.

• Em pequenos cadáveres e adultos é raro notar este processo, que só ocorre


quando as partes moles desintegram-se em processo de rápida putrefação e o
esqueleto absorve grande quantidade de sais de cálcio, tomando as áreas
afetadas e de aspecto pétreo.
Fatores que interferem na instalação das
alterações cadavéricas
• Temperatura

• Se a temperatura ambiente for alta a tendência é a instalação precoce


das alterações cadavéricas.

• Temperaturas mais baixas inibem a ação das enzimas proteolíticas,


além de inibir o crescimento bacteriano.
Tanatologia forense
Tanatologia forense
• A Tanatologia Forense é o ramo das ciências forenses que partindo do
exame do local, da informação acerca das circunstâncias da morte, e
atendendo aos dados do exame necroscópico, procura estabelecer:
A identificação do cadáver

O mecanismo da morte

A causa da morte

O diagnóstico diferencial médico-legal (acidente, suicídio, homicídio ou morte de causa natural).


Identificação do cadáver

• Em Veterinária, como na Medicina Humana, nem sempre é possível


estabelecer a identificação. Nos casos em que os cadáveres são
encontrados em avançado estado de decomposição e em que não há
qualquer informação sobre o caso, pode não se chegar à sua
identificação.
Diagnóstico da Causa mortis
• Nem sempre é possível chegar a um diagnóstico sobre a causa da
morte.
• Há mortes cuja causa permanece indeterminada mesmo depois da
autópsia médico-legal e apesar da experiência dos médicos que
fazem a autópsia.

• Mesmo com os recursos de todos os meios auxiliares de diagnóstico


adequados ao caso em estudo, haverá sempre mortes em que não é
possível esclarecer a sua causa, tendo que se concluir, por morte de
causa indeterminada.
Aplicações

• Disputas legais por:


Suspeita de envenenamento intencional

Seguro de vida para animais de alto valor agregado

• Investigação de crimes

• Investigação de crimes ambientais


OBRIGADO!