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A Fenomenologia no enfoque da

personalidade

Textos-base:
DARTIGUES, André. O que é a Fenomenologia? 10ª ed. São Paulo: Centauro,
2008.
HOLANDA, Adriano Furtado. Fenomenologia e humanismo: reflexões
necessárias. Curitiba, PR: Juruá Editora, 2014.
FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia Fenomenológica: fundamentos,
método e pesquisas. São Paulo: Cengage Learning, 2011.
REHFELD, Ari. Fenomenologia e Gestalt-terapia. In: FRAZÃO, Lílian M.;
FUKUMITSU, Karina O. (org.) Gestalt-terapia: fundamentos epistemológicos e
influências filosóficas. São Paulo: Ed. Summus, 2013.
A Fenomenologia e sua oposição ao método científico

• Edmund Husserl, considerado o criador da


Fenomenologia, desencantado com os rumos da
ciência, partiu para uma tentativa de uma nova
fundamentação desta, colocando em questão seus
pressupostos, objetos de estudo e metodologias.
• “Nesse caminhar, apresentou uma nova concepção de
rigor, demonstrando [...] que não se podia pensar em
um método único, justamente pelo fato de não haver
uma, mas várias ciências, cada uma com sua
especificidade quanto ao seu objeto; ou seja, variando-
se o objeto, variam-se também sua apreensão, seu
método e sua metodologia” (Rehfeld, 2013, p. 25-26).
A Fenomenologia e sua oposição ao
método científico

Dizia Husserl (1965, p. 33):

“Os objetos são o que são, permanentes na sua


identidade: a Natureza é eterna (...). O que o Ser
psíquico “é”, a experiência não o pode ensinar no
mesmo sentido que se aplica ao físico. Pois o
psíquico não é aparência empírica, é vivência”.
A Fenomenologia e sua oposição ao
método científico

“O impacto maior dessa ideia será a demonstração de que as


ciências humanas não podem ser medidas pelo rigor das
ciências naturais” (Rehfeld, 2013, p. 28).

Para Husserl, o método das chamadas ciências naturais era


insuficiente para uma compreensão do homem, da vivência
humana.

Desse modo, a compreensão do homem e do seu


comportamento não poderia ser explicada de modo
científico. Isso simplesmente porque as vivências humanas
não “cabem” dentro de uma lei lógica, quantificável, medida
com precisão.
Fenomenologia e a Psicologia
Principalmente no que se referia à compreensão das vivências humanas,
Husserl acreditava que o método científico não era suficiente, dado o
dinamismo e a complexidade com que a experiência humana ocorre.

Para Husserl, o método científico é bastante apropriado para as coisas da


natureza, os objetos nela existentes etc. Mas tal método não se mostra
adequado para as “ciências do homem”, por não levar em conta a
especificidade do seu objeto de estudo.

Assim, psicólogos que viam nos métodos tradicionais da Psicologia sua


ineficácia para compreensão do homem e suas vivências, encontraram
na Fenomenologia uma outra forma para essa atuação. A
Fenomenologia se colocou, assim, como método central a orientar as
abordagens ditas existenciais e humanistas para investigar e
compreender o comportamento humano.
Fenomenologia: Conceitos fundamentais

1) O retorno às “coisas mesmas”

“Não é das Filosofias que deve partir o impulso da investigação,


mas sim das coisas e dos problemas” (Husserl, 1965, p. 72).

Husserl, com essa afirmativa, aponta que o ponto de partida do


conhecimento se encontra nas “coisas mesmas”, ou seja, nas
coisas que se apresentam e como se apresentam, o fenômeno.
Fenomenologia: Conceitos fundamentais
1) O retorno às “coisas mesmas”

Pela Fenomenologia, Husserl propõe que a investigação das coisas


deve ter como ponto de partida as “coisas mesmas”, ou seja, o
conhecimento das coisas deve ser sustentado na descrição do
fenômeno, na apreensão da realidade circundante, no modo
como as situações são vivenciadas pela pessoa.

Dessa forma, há um retorno, um voltar ao ponto de partida daquilo que


se mostra, ao seu sentido mais originário, e não uma interpretação do
que se mostra através de teorias ou concepções do senso comum.
Fenomenologia: Conceitos fundamentais

1) O retorno às “coisas mesmas”

Mas o que “se mostra”? O fenômeno.


O que é o fenômeno? Aquilo que se mostra e como se mostra, no
caso o comportamento humano. É um voltar-se à própria
experiência humana, para buscar o sentido que nela se dá.

A proposta da Fenomenologia, ao voltar-se às coisas mesmas, é,


partindo da experiência tal qual ela se apresenta, buscar o
sentido daquilo que se mostra, dentro do contexto em que se
mostra e da relação estabelecida entre o sujeito e a situação.
Fenomenologia: Conceitos fundamentais

1) O retorno às “coisas mesmas”

O logos da palavra Fenomenologia é tomado por Husserl como


sentido. Assim, retornar as coisas mesmas significa buscar o
sentido no fenômeno.
“Dito em outros termos, o logos, o sentido, não está nas teses
previamente formadas a respeito de determinado fenômeno,
mas está no próprio fenômeno” (Holanda, 2014, p. 52).
Fenomenologia: Conceitos fundamentais

2) A Intencionalidade da Consciência

O fenômeno integra a consciência e o objeto (a experiência, a situação),


unidos no próprio ato de significação.
A consciência é sempre intencional, está sempre voltada para uma
experiência, enquanto esta é sempre experiência para uma
consciência, ocorrendo uma correlação entre ambas.

A consciência [aqui] é definida como uma estrutura apta para tomar


conhecimento do que se apresenta na experiência. A consciência, por sua
vez, é permeada por uma história de vida, por crenças e convicções
remotas e atuais, e por projetos de maior ou menor clareza sobre o futuro.

Na experiência está o mundo com a vivacidade dos seus muitos objetos,


pois sem o mundo não há consciência.
Fonte: Gomes e Castro, 2010. Grifos nossos
Fenomenologia: Conceitos fundamentais

2) A Intencionalidade da Consciência

“A intencionalidade é, essencialmente, o ato de atribuir um


sentido; é ela que unifica a consciência e a experiência, o
sujeito e o mundo. Com a intencionalidade há o
reconhecimento de que o mundo não é pura exterioridade e
o sujeito não é pura interioridade, mas a saída de si para um
mundo que tem uma significação para ele” (Forghieri, 2011,
p. 15. Grifos nossos).

A essa relação de sentidos entre sujeito e experiência, Husserl


denominou de intencionalidade da consciência.
Fenomenologia: Conceitos fundamentais
2) A Intencionalidade da Consciência
“A contribuição que Husserl traz à filosofia e à ciência é enorme. Ele
redefine a consciência, que deixa de ser entendida como substância ou
conteúdo, passando a ser descrita como fluxo, tensão, agente, abertura
ao mundo” (Gomes e Castro, 2010, p. 85).

Desse modo, a compreensão do sujeito sobre as coisas que lhe


acontecem é sempre um processo de interrelação com o mundo, com o
outro, com ele mesmo. Desfaz-se, assim, a dicotomia sujeito-objeto, a
qual presume que o homem deve ser compreendido fora do mundo e
vice-versa.

A fenomenologia volta-se, assim, para uma compreensão em que homem


e mundo estão imbricados em um mesmo processo.
Fenomenologia: Conceitos fundamentais
3) A redução fenomenológica (suspensão
fenomenológica)

A redução é o método utilizado pela Fenomenologia “para chegar ao fenômeno


como tal, à sua “essência’” (Forghieri, 2011, p. 15).

Trata-se de adotar uma atitude anti-natural diante do fenômeno. Como é isso?


Vamos compreender primeiro como seria uma atitude natural. Uma atitude
natural manifesta-se pela concepção de que as coisas já têm uma explicação
prévia, consolidada pelo mundo (científico ou do senso comum),
independente do sentido que o sujeito possa dar a ela. Trata-se de ver as
coisas de forma naturalizada, como se elas existissem por si mesmas, sem
uma sentido que é dado a elas pela consciência.
Ao adotarmos uma atitude anti-natural, fenomenológica, estaremos lançando-nos
à compreensão do fenômeno tal qual ele se apresenta, com os sentidos que o
sujeito lhe concede. Esses sentidos podem se apresentar sob várias formas e
possibilidades.
Fenomenologia: Conceitos fundamentais

3) A redução fenomenológica (suspensão fenomenológica)

O método fenomenológico, portanto, não trabalhará buscando explicar ou


interpretar o fenômeno (no caso, o comportamento humano) por meio
de teses previamente dadas. Mas, simplesmente descrever o
fenômeno tal como este se apresenta, levando a pessoa que descreve
a suspender as ideias pré-concebidas que possam interferir na análise
do fenômeno e chegar à sua essência.

Ocorre uma redução ao nível do fenômeno, em que as ideias pré-


concebidas são colocadas “entre parênteses” para permitir o
desvelamento do que se apresenta, atitude esta também denominada
por Husserl de “suspensão” fenomenológica”.
A reflexão fenomenológica, o mundo da vida e a intersubjetividade

“A reflexão fenomenológica vai em direção ao “mundo da vida”, ao


mundo da vivência cotidiana imediata, no qual todos nós vivemos,
temos aspirações e agimos, sentindo-nos ora satisfeitos e ora
contrariados” (Forghieri, 2011, p. 18).
A própria ciência não inicia suas investigações partindo de uma teoria,
mas da intenção do cientista em pesquisar algo, o qual lhe chamou
a atenção em seu cotidiano.

Nossos pensamentos, representações etc “têm origem nessa vivência


pré-reflexiva [...], que é anterior a toda a elaboração de conceitos
e de juízos” (Forghieri, 2011, p. 18). É a existência, a relação que
estabelecemos com as coisas, que fala em primeiro lugar.
“Quando de manhã cedo, um físico sai de casa para ir pesquisar no

laboratório o efeito de Compton e sente brilhar nos olhos os raios de sol,

a luz não lhe fala, em primeiro lugar, como fenômeno de uma mecânica

quântica ondulatória. Fala como fenômeno de um mundo carregado de

sentido para o homem, como integrante de um cosmos, na acepção grega

da palavra, isto é de um universo cheio de coisas a perceber, de caminhos

a percorrer, de trabalhos a cumprir, de obras a realizar. A luz fala,

sobretudo, de um mundo em que ele nasce e cresce, ama e odeia, vive e

morre a todo instante. Sem este mundo originário, o físico não poderia

empreender suas pesquisas, pois não lhe seria possível nem mesmo

existir” (LEÃO, Emanuel Carneiro, Posfácio em HEIDEGGER, 2012, p. 557).


A reflexão fenomenológica, o mundo da vida e a
intersubjetividade

“Em sua vivência cotidiana, os seres humanos, embora tenham


suas próprias peculiaridades, existem todos no mundo,
constituindo-o e constituindo-se, simultaneamente”
(Forghieri, 2011, p. 19).
“Assim sendo, o mundo recebe o seu sentido, não apenas a
partir das constituições de um sujeito solitário, mas do
intercâmbio entre a pluralidade de constituições dos vários
sujeitos existentes no mundo, realizado através do encontro
que se estabelece entre eles” (Forghieri, 2011, p. 19).
É a partir da intersubjetividade que constitui o meu eu e
constitui um mundo comum a todos nós.

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