Você está na página 1de 14

10.

Da venda a contento e da
sujeita a prova
• A venda a contento do comprador constitui pacto adjeto a contratos
de compra e venda relativos, em geral, a gêneros alimentícios,
bebidas finas e roupas sob medida.
• A cláusula que a institui é denominada ad gustum.
• Entende-se realizada “sob condição suspensiva, ainda que a coisa
tenha sido entregue” ao comprador.
• E “não se reputará perfeita, enquanto o adquirente não manifestar
seu agrado” (CC, art. 509).
• O Código de 1916 dizia, no art. 1.144, que a venda a contento
“reputar-se-á feita sob condição suspensiva, se no contrato não se lhe
tiver dado expressamente o caráter de condição resolutiva”.
• O Código de 2002, inovando, não admite possa ela ter este caráter,
proclamando que a venda não se reputará perfeita, enquanto o
adquirente não manifestar seu agrado (art. 509, segunda parte).
• Desse modo, a tradição da coisa não transfere o domínio, limitando-
se a transmitir a posse direta, visto que efetuada a venda sob
condição suspensiva.
• A compra e venda não se aperfeiçoa enquanto não houver a
manifestação de agrado do potencial comprador.
• Se se admitisse que as partes lhe atribuíssem caráter resolutivo, o
contrato seria considerado desde logo perfeito e concluído, suscetível
de resolver-se se o comprador manifestasse seu desagrado87.
87 Maria Helena Diniz, Tratado teórico e prático dos contratos, v. 1, p.
408; Jones Figueirêdo Alves, Novo Código, cit., p. 451.
• A inovação aproxima o novo diploma de outros códigos civis
contemporâneos, como o francês (art. 1.588), o italiano (art. 1.521), o
português (art. 925º), o argentino (art. 1.377) e o de Quebec (art.
1.744)88.
88 Paulo Luiz Netto Lôbo, Comentários, cit., p. 159.
• Preceitua o art. 511 do Código Civil que “as obrigações do comprador, que
recebeu, sob condição suspensiva, a coisa comprada, são as de mero
comodatário, enquanto não manifeste aceitá-la”.
• O aperfeiçoamento do negócio depende exclusivamente do arbítrio, isto é,
do gosto do comprador, não podendo o vendedor alegar que a recusa é
fruto de capricho.
• Não pode este pretender discutir a manifestação de desagrado, nem
requerer a realização de exame pericial ou postular em juízo, visto que a
venda a contento é uma estipulação que favorece o comprador,
subordinando o aperfeiçoamento do negócio à sua opinião pessoal e gosto.
• Não está em jogo a qualidade ou utilidade objetiva da coisa.
• Trata-se de exceção à regra geral do art. 122 do mesmo diploma, que
proíbe as condições puramente potestativas.
• Na realidade, a cláusula ad gustum não é condição potestativa pura,
como a que o art. 123 do Código Civil considera ilícita, mas, sim,
condição simplesmente potestativa, como entende a doutrina, tendo
em vista que se não apresenta o ato dependente do arbítrio exclusivo
do comprador (si voluero), porém do fato de agradar-lhe a coisa, o
que é bem diferente89.
89 Caio Mário da Silva Pereira, Instituições, cit., v. III, p. 213; Carlos
Alberto Dabus Maluf, As condições no direito civil, p. 42.
• Art. 122. São lícitas, em geral, todas as condições não contrárias à lei,
à ordem pública ou aos bons costumes; entre as condições defesas se
incluem as que privarem de todo efeito o negócio jurídico, ou o
sujeitarem ao puro arbítrio de uma das partes
Art. 123. Invalidam os negócios jurídicos que lhes são subordinados:
• I - as condições física ou juridicamente impossíveis, quando
suspensivas;
• II - as condições ilícitas, ou de fazer coisa ilícita;
• III - as condições incompreensíveis ou contraditórias.
• O contrato somente se perfaz se houver manifestação expressa do
comprador, aceitando a oferta.
• Não havendo prazo estipulado, “o vendedor terá direito de intimá-lo,
judicial ou extrajudicialmente, para que o faça em prazo
improrrogável” (art. 512).
• O Código de 1916 dizia que a intimação podia ser feita com a
cominação de considerar-se perfeita a venda caso não houvesse
manifestação alguma do comprador (art. 1.147).
• Neste caso, o silêncio era interpretado como consentimento.
• Pelo sistema do Código de 2002, no entanto, a manifestação de
vontade do comprador não pode ser tácita, pois o art. 509 proclama
que a venda não se reputará perfeita, “enquanto o adquirente não
manifestar seu agrado”.
• Além disso, o art. 512 não repete a possibilidade, prevista no art.
1.147 do Código de 1916, de a intimação ser realizada para que o
comprador se manifeste dentro do prazo assinado, “sob pena de
considerar-se perfeita a venda”, como foi dito.
• O direito resultante da venda a contento (pactum displicentiae) é
simplesmente pessoal, não se transferindo a outras pessoas, quer por
ato inter vivos, quer por ato causa mortis.
• Extinguese, se o comprador morrer antes de exercê-lo.
• Mas subsiste, e será manifestado perante os herdeiros do vendedor,
se este for o que falecer.
• “Também a venda sujeita a prova presume-se feita sob a condição
suspensiva de que a coisa tenha as qualidades asseguradas pelo
vendedor e seja idônea para o fim a que se destina” (CC, art. 510).
• Recebida sob essa condição a coisa comprada, as obrigações do
comprador também “são as de mero comodatário, enquanto não
manifeste aceitá-la” (art. 511).
• O Código de 1916 referia-se (art. 1.144, parágrafo único), como objeto da venda a contento, a
gêneros que se costumam provar, medir, pesar ou experimentar antes de aceitos.
• O Código de 2002 deu novo tratamento à venda sujeita a prova ou experimentação,
disciplinando-a em dispositivo próprio e também presumindo realizar-se sob condição suspensiva.
• Observa-se que o novel legislador inseriu uma condição não ligada à satisfação ou gosto do
comprador, mas sim à circunstância de a coisa ter ou não as qualidades asseguradas pelo
vendedor e ser ou não idônea para o fim a que se destina.
• Por conseguinte, se a coisa tiver as qualidades apregoadas e for adequada às suas finalidades,
não poderá o adquirente, depois de prová-la ou experimentá-la, recusá-la por puro arbítrio, sem a
devida justificação.
• A redação do art. 510 revela a exigência, para tanto, de comprovação de que o objeto do contrato
não é idôneo90.
90 Caio Mário da Silva Pereira, Instituições, cit., v. III, p. 215; Jones Figueirêdo Alves, Novo Código,
cit., p. 452-453.
• As qualidades da coisa podem ser asseguradas pelo vendedor por
qualquer meio de informação, inclusive publicitária.
• O Código de Defesa do Consumidor admite (arts. 18 e 20) a existência
de vício de qualidade assim no fornecimento de produtos como no de
serviços91.
• 91 Paulo Luiz Netto Lôbo, Comentários, cit., v. 6, p. 164.