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FORMAS DE

DRAMATICIDADE

A TRAGÉDIA E COMÉDIA GREGA


Tragédia
 De tragos (“bode”) e oidé (“canto”), o termo
grego tragoedia significa literalmente “o canto
do bode”, com nítida referência às
festividades em honra de Dionísio (baco), o
criador da uva e produtor do vinho.
 Narra o mito que, na região grega da Ática, o
deus recebia homenagens rituais em que lhe
era sacrificado um bode, acusado de comer
as folhas da videiras.
O mito do nascimento de Baco
 Narra o mito que Júpiter (Zeus), pai dos
deuses e incorrigível sedutor, teve uma
aventura amorosa com a princesa Sêmele,
engravidando-a. Sua esposa Juno (Hera),
enciumada, armou uma cilada para causar a
morte da jovem: fez com que Júpiter
aparecesse em sua verdadeira identidade,
em todo o seu esplendor de sua majestade.
Sêmele não resistiu à visão dos raios
fulgurantes do ser divino e morreu.
 Júpiter, então, retirou-lhe o filho do ventre e
colocou-o em uma de suas coxas, onde
completou a gestação. A criança recebeu o
nome de Dionísio e o apelido de Ditirambo.
Fruto híbrido, pois nascido da cópula de um
ser divino com um ser mortal, Dionísio não foi
aceito no Olimpo e precisou conquistar com
suas próprias forças o direito à divindade.
Outra versão do mito
 Depois de gerar Dioniso na coxa, Júpiter
(Zeus) teria entregue a criança para Mercúrio
(Hermes) para que ele a deixasse sobre os
cuidados dos pais de Sêmele. Contudo,
Argos (o gigante de 100 olhos) e vigilante de
Juno (Hera) contou a deusa sobre o
paradeiro da criança, assim, a vingança de
Juno (Hera) foi enlouquecer Ino, que
cozinhou o próprio filho menor, Learco, e o
serviu para o jantar e Atamante, o marido, ao
confundir o filho mais velho com um veado,
Melicertes, o matou.
 Ambos, ao retornarem à consciência, se
lançaram ao mar. Atenas (Minerva) passa
pelo lugar, vê Dioniso sozinho e avisa Júpiter
(Zeus) sobre o acontecido, o deus decide,
então, entregar Dioniso as ninfas em Nisa.
Para despistar Juno (Hera), o menino foi
metamorfoseado em um bode, o qual se
alimentava das videiras.
 Argos novamente conta o paradeiro de
Dioniso à Juno (Hera) que informa aos Titãs
sobre onde encontrar o filho adorado de
Júpiter (Zeus), os quais como vingança por
terem sido destronados devoram o menino.
Desse, só lhe sobra o coração que é
resgatado por Atenas (Minerva) e entregue a
Júpiter (Zeus) que o engole.
 Mais uma vez apaixonado, Zeus (Júpiter),
agora pela cunhada Perséfone (filha da
deusa Deméter ou Ceres), casada com
Hades (Plutão) – o incorrigível conquistador
engravida a deusa e desta união, nasce o
segundo Dioniso. Agora, filho de deuses,
conquista o mérito de chegar ao Olimpo.
 - Dioniso: aquele que nasce de novo;
 - Baco: filho da vegetação (parreira)
 Dionísio andou por diversas regiões
ensinando os homens o cultivo da uva e a
fabricação do vinho. Era acompanhado pelo
cortejo de sátiros e bacantes, tocando flautas
e tamborins, propiciava aos homens e aos
deuses momentos de alegria e felicidade,
principalmente, durante o estado de
embriaguez que alcançava a todos.
 Conhecido como deus do vinho e dos
bacanais (ritos orgíacos), é também a
divindade protetora das belas-artes,
especialmente do teatro.
 “Ditirambo”,o apelido de Baco, significa
“aquele que nasceu duas vezes”, também foi
o nome dado ao hino religioso em que um
coro de doze pessoas selecionadas
(coradas) cantava as façanhas do deus.
Origem do teatro
 Aos poucos, esse canto lírico-narrativo foi
adquirindo aspectos dramáticos.
 Já na fase histórica da Grécia, em 534 a. C.,
Tepsis, o primeiro dramaturgo de que temos
notícia, acrescentou um ator, chamado
hipokrités (hipócrita = aquele que finge) que,
usando máscaras e vestimentas apropriadas
representava personagens mitológicas e
dialogava com o coro.
 Assim, das festividades e rituais das colheitas de uva
e das homenagens a Dionísio, a tragédia foi, aos
poucos, ampliando seu núcleo temático,
representando os principais mitos divinos e heróicos
do cabedal cultural do povo grego.
 Problemas fundamentais da existência humana, a
luta entre o livre arbítrio e a fatalidade do destino, o
sofrimento por uma culpa não cometida
voluntariamente, o castigo por faltas cometidas pelos
ancestrais, o sofrimento das violentas paixões
constituem os principais temas representados nos
palcos do teatro grego.
A famosa tríade de dramaturgos
 Ésquilo (524 – 456 a. C.): os valores morais do seu
teatro estão fundamentados sobre um misticismo
fatalístico: as ações humanas não são determinadas
pela razão mas pela força cega do destino;
 Sófocles (496-406 a. C.): suas mais importantes e
famosas tragédias estão centradas no mito de Édipo:
Édipo-Rei, Antígona e Édipo em Colona;
 Eurípedes (480 – 406 a. C.): apresenta influências
do pensamento sofista: o valor do homem mede-se
pelos seus dotes individuais e não pela nobreza do
nascimento, tem espírito cético em relação aos
deuses e ao destino.
Linhas gerais da tragédia primitiva
 Prólogo:parte inicial, precedia a entrada do
coro, da orquestra e dos atores, ocasião em
que se anunciavam o tema a ser
desenvolvido no palco;
 Párodo: é a parte lírica na qual o coro
declama ou canta enquanto executa
movimentos coreográficos;
 Episódios: geralmente em número de três,
eram conjuntos de ações ou núcleos
narrativos representados por atores.
 Estásimos: evoluções do coro após cada
episódio;
 Êxodo: a parte final, o desfecho, cantada
pelo coro.
 “É pois a tragédia imitação de ações de
caráter elevado, completa em si mesma, de
certa extensão, em linguagem ornamentada
e com várias espécies de ornamento
distribuídas pelas diversas partes do drama,
imitação que se efetua não por narrativa,
mas mediante atores, e que, suscitando o
terror e a piedade, tem por efeito a
purificação (catarse) desses sentimentos.”
(ARISTÓTELES - IN: D’ONOFRIO, 2007, p.
299)
.
Aprofundando o conceito
 “imitação de ações”: a arte como mimese,
imitação de uma realidade;
 “de caráter elevado”: seres superiores à
média dos mortais;
 “completa em si”: no trágico predomina o
princípio de subordinação entre episódios e
personagens;
 “[...] imitação [...] mediante atores”: a essência da
arte dramática reside na representação;
 “[...] suscitando o terror e a piedade”: finalidade da
tragédia – “o homem é um bicho pequeno, um mero
fantoche nas mãos do inelutável fado; de que o
sofrimento é a verdadeira dimensão do ser humano;
de que é necessário ter compaixão para com os
defeitos e os vícios do próximo” (D’ONOFRIO, 2007,
p. 299-300)
 “catarse”: vem do grego Katarsis, que significa a
expurgação das emoções por meio da ideia de
expelir as próprias dores e sofrimentos.
COMÉDIA
 Da palavra komoidía deriva Kómos
(procissão festiva) oidé (canto): trata-se de
um canto religioso com que os camponeses
gregos festejavam a chegada da primavera
e, com ela, o retorno do vigor sexual.
 A relação de Kómos com a vida sexual é
evidenciada pelo fato de que cantos
semelhantes eram retomados nos ritos
matrimoniais durante as festas de
casamento.
 Acrescenta-se ainda que, o mesmo nome de Kómos,
os gregos adoravam o deus da alegria que, junto
com outra divindade amiga, Momo, participava do
cortejo de Baco.
 Diferentemente da tragédia, a comédia necessitava
de um prólogo, em que se apresentava o assunto a
ser encenado, porque o público não o conhecia. A
comédia não imitava a ação dos deuses, nem dos
heróis ou das famílias nobres ou lendárias e, sim,
fatos corriqueiros, da atualidade, relacionados com a
vida cotidiana.
Surgimento da Comédia
 Dois elementos dessas festas religiosas
concorreram para o surgimento da comédia:
de um lado, o espírito satírico dos cantos
dionisíacos; de outro, os movimentos das
procissões com encenações dramáticas e
evoluções coreográficas.
 Nos festivais: homens gordos, momos,
sátiros, gigantes, todos mascarados,
simulavam disputas e brigas, segundo uma
sequência de ações chamada Kómos.
Representante da Comédia
 Aristófanes (445 – 386 a. C.): é o maior
expoente da “comédia velha”, a qual se
caracterizou por uma sátira ferina contra as
instituições políticas, sociais e culturais de
Atenas, apontando nominalmente as pessoas
importantes da época.
 Restaram apenas 11 peças das 43 que
escreveu: “As rãs” – sátira contra o
dramaturgo Eurípedes, acusado de ter
rebaixado o nível do teatro na Grécia, entre
outras...
Dois elementos concorrem para o
surgimento da comédia:
 De um lado, o espírito satírico dos cantos
dionisíacos;

 De outro, os movimentos histriônicos dos


participantes das procissões, que
propiciavam evoluções coreográficas
próximas de encenações dramáticas.
 Por um longo tempo, o teatro foi a maior forma de
cultura e lazer do povo grego. Durante as festas
dionisíacas, que duravam uma semana, eram
representadas várias peças, assistidas por um
grande número de público que passava o dia inteiro
no teatro.
 Os concursos teatrais, instituídos por Psístrato, o
arconte de Atenas, delimitava que cada autor deveria
apresentar sua teatrologia: um conjunto de três
tragédias e uma comédia. Imaginem o tanto de
peças que ficaram perdidas ou foram destruídas...
Na Idade Média
 Nesse período, o gênero cômico, como
outras formas dramáticas, não teve vida
própria, estando submetido às “moralidades”,
peças de fundo didático, visando apontar os
caminhos da salvação da alma. Os
espetáculos profanos, decerto, não
desapareceram por completo, mas ficaram
confinados ao interior dos feudos, nos
castelos senhoriais, feiras livres e praças
públicas.
BIBLIOGRAFIA
 D’ONOFRIO, SALVATORE. Literatura
Ocidental: Autores e obras fundamentais.
São Paulo: Ática, 2004.

 ____________________. Forma e sentido


do texto literário. São Paulo: Ática, 2007.
 LESKY, A. A Tragédia grega. Tradução de
J. Guinsburg, Geraldo Gerson de Souza e
Alberto Guzik. São Paulo: Perspectiva, 2001.