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SISTEMATIZAÇÃO DO

CONCEITO DE RELAÇÃO
WELLINGTON HERMANN
Problematização/Justificativa

 O conceito de relação presente na ideia de Relação com o Saber


precisa ser aprofundado em busca da compreensão de seus
sentidos.
 Charlot afirma que a Relação com o Saber é relação consigo
mesmo, relação com o outro e relação com o mundo.
 De um ponto de vista metodológico, essa definição de Relação
com o Saber abre possibilidades para analisarmos as relações com
o saber de um sujeito. Porém, do ponto de vista lógico, Charlot
apenas posterga a discussão sobre o que é a Relação com o
Saber, devido à característica cíclica de sua definição, pois utiliza
relação para definir relação.
Relação
 HOUAISS (2009) :  9. Rubrica: termo jurídico - antiga
denominação comum aos tribunais
 1. ato de relatar; relato, informação,
de justiça de segunda instância
descrição
 10. Rubrica: linguística -
 2. consideração que resulta da
interdependência entre dois ou mais
comparação de dois ou mais objetos
elementos linguísticos
 3. lista, listagem, rol
 11. Rubrica: lógica - condição que
 4. semelhança, parecença liga dois ou mais objetos lógicos
 5. vinculação de alguma ordem entre  12. Rubrica: matemática - condição
pessoas, fatos ou coisas; ligação, que liga os valores de duas ou mais
conexão, vínculo grandezas
 6. cotejo entre duas quantidades  13. Rubrica: música - intervalo entre
mensuráveis dois sons; ligação harmônica entre
duas notas executadas uma após a
 7. Rubrica: anatomia geral - situação de
outra (HOUAISS, 2009).
um órgão comparativamente aos que lhe
são adjacentes
 8. Rubrica: filosofia - caráter de dois ou  Latim: relatìo ónis - ação de dar em
mais objetos de pensamento retorno
compreendidos num só ato intelectual
Relação
 Martin Buber, autor que desenvolveu uma filosofia baseada no
conceito de relação, define relação como “reciprocidade”. Para
Buber (2015) o homem é um ser de relação.
 Para Buber (2015, p. 53), “o mundo da relação se realiza em três
esferas”:
 Na esfera da vida com a natureza;
 Na esfera da vida com os homens; e
 Na esfera da vida com os seres espirituais.
 O fenômeno da relação para Buber parece estar no limiar da
linguagem e, embora sua filosofia fundamente-se no diálogo, a
relação parece algo que não pode ser descrito. A relação, para
Buber, pertence ao mundo do “entre”.
Relação

 Embora interessantes, as ideias de Buber sobre relação não são


compatíveis com a Relação com o Saber de Charlot.
 Enquanto Charlot afirma que o saber é relação, Buber diz que o
fenômeno cognitivo não pertence ao mundo da relação, mas da
experiência. Para Buber experiência não é relação.
Teoria Antropológica do Didático

 Yves Chevallard desenvolveu uma teoria baseada no conceito de relação,


que ele denominou de Teoria Antropológica do Didático (TAD), para estudar o
homem frente ao saber matemático.
 Essa teoria é estruturada de maneira axiomática (da mesma forma que a
Matemática) e tem como elementos primitivos Instituição (I), Pessoa (X) e o
Objeto (O). A partir desses elementos, Chevallard apresenta um conjunto de
axiomas e teoremas que visam estabelecer as leis relacionais entre os
elementos primitivos.
 Nessa teoria, “todas as coisas são objetos” (CHEVALLARD, 1996, p. 127) .
 “Um objeto existe a partir do momento que uma pessoa X ou uma instituição I
o reconhece como existente (para ela). Mais precisamente, podemos dizer
que o objeto O existe para X (respectivamente, para I) se existir um objeto, que
denotarei por R(X, O) (resp. RI(O)), a que chamarei de relação pessoal de X
com O (resp. relação institucional de I com O)” (CHEVALLARD, 1996, p. 127).
Propriedades das relações

 Inspirado nas ideias de Chevallard que estabeleceu uma teoria axiomática,


pensei que as relações com o saber (de Charlot) podem ser analisadas a partir
de propriedades que apresentam, a exemplo do que acontece com o
conceito de relação na matemática. A ideia não é axiomatizar a relação com
o saber, mas utilizar propriedades para organizar o processo de análise.
 São três as propriedades que utilizei:
 Reflexiva:
 Se 𝑥 ∈ 𝐶, 𝑒𝑛𝑡ã𝑜 𝑥𝑅𝑥 (𝑥𝑅𝑥 indica que 𝑥 relaciona-se com 𝑥);
 Simétrica:
 Se 𝑥, 𝑦 ∈ 𝐶, 𝑒 𝑥𝑅𝑦, 𝑒𝑛𝑡ã𝑜 𝑦𝑅𝑥;
 Transitiva:
 Se 𝑥, 𝑦, 𝑧 ∈ 𝐶, 𝑒 𝑥𝑅𝑦 𝑒 𝑦𝑅𝑧, 𝑒𝑛𝑡ã𝑜 𝑥𝑅𝑧.
Propriedades das relações

 temos um conjunto constituído por três elementos: o sujeito (s), o


outro (o) e o mundo (m), e uma relação binária que se estabelece
naturalmente entre esses elementos, enquanto o sujeito é educado
para tornar-se um exemplar único de homem e tornar-se membro
de uma comunidade, partilhando seus valores e ocupando um
lugar nela.
O arco indica a
propriedade
m reflexiva.

s As setas de pontas o
duplas indicam a
propriedade simétrica.
Propriedades das relações
R é uma relação binária no conjunto que tem como elementos
o sujeito, o outro e o mundo

Propriedade Reflexiva
𝑠𝑅𝑠 R[1]
𝑜𝑅𝑜 R[2]
𝑚𝑅𝑚 R[3]

Propriedade Simétrica
𝑠𝑅𝑜 ⇒ 𝑜𝑅𝑠 S[1]
𝑠𝑅𝑚 ⇒ 𝑚𝑅𝑠 S[2]
𝑜𝑅𝑚 ⇒ 𝑚𝑅𝑜 S[3]

Propriedade Transitiva
Se 𝑠𝑅𝑜 e 𝑜𝑅𝑚, então 𝑠𝑅𝑚 T[1]
Se 𝑠𝑅𝑚 e 𝑚𝑅𝑜, então 𝑠𝑅𝑜 T[2]
Se 𝑜𝑅𝑠 e 𝑠𝑅𝑚, então 𝑜𝑅𝑚 T[3]
Se 𝑜𝑅𝑚 e 𝑚𝑅𝑠, então 𝑜𝑅𝑠 T[4]
Se 𝑚𝑅𝑜 e 𝑜𝑅𝑠, então 𝑚𝑅𝑠 T[5]
Se 𝑚𝑅𝑠 e 𝑠𝑅𝑜, então 𝑚𝑅𝑜 T[6]
Propriedade reflexiva
R[1] é a relação do sujeito consigo mesmo. Nessa categoria estão os trechos do depoimento em que o sujeito expressa o
que é tocante a si, a externalização de suas vozes subjetivas, aquilo que gosta, o que julga ter aprendido, enfim, aquilo o
que diz respeito a si.
R[2] é uma propriedade de reflexividade do outro com o outro. Não aparece no depoimento de Marcelo e talvez não
seja detectada em outros depoimentos, mas pode ser assumida como uma propriedade apriorística, já que o homem é
um ser social e se inter-relaciona com outros indivíduos. Ou seja, o outro relacionam-se com o outro no meio social.
R[3] também não aparece no depoimento de Marcelo, mas essa propriedade deve ser tomada como pressuposto, já
que o sentido que o sujeito atribui a suas experiências pode ser entendido como percepção da inter-relação de coisas
do mundo.

Propriedade simétrica
S[1] é a propriedade em que se enquadram os trechos do depoimento que expressam a relação do sujeito com o outro
e a consequente relação do outro com o sujeito. Nessa inter-relação, o outro pode ser virtual: “o fantasma do outro” que
habita o sujeito.
S[2] agrupa as partes do depoimento que expressam a relação do sujeito com o Mundo e a consequente relação do
Mundo com o sujeito. Nessa propriedade, deve-se ter em mente que o Mundo é dado ao sujeito e o precede. A
apropriação desse Mundo é o que Charlot chama de educação.
S[3] representa a propriedade simétrica da relação entre o outro e o Mundo, percebida pelo sujeito. Logo, tem forte
influência subjetiva, pois é algo atribuído pelo sujeito ao outro e ao Mundo.

Propriedade transitiva
A propriedade transitiva não aparece no depoimento de Marcelo, porém isso não impede que a relação com o saber
seja uma relação de equivalência. Essa propriedade foi identificada em um segundo nível de análise, ou seja, a
propriedade transitiva pode surgir da análise das propriedades anteriores, e foi o que aconteceu.
Exemplos de fragmentos obtidos
referentes à propriedade R1
 – Talvez, por preguiça, também, eu não escolhi outra área. Eu
nunca gostei muito de redigir texto... ficar relendo... [R1]
 – Sempre gostei (de matemática). Desde o começo, lá das
primeiras séries: – Ô! Aulinha de matemática! Que legal! Era
sempre a (disciplina) que eu ia melhor, assim. Sempre gostei
[R1].
 – Aí você chega e percebe que você vai ter que estudar em
casa... que se chegar na hora da prova você não vai conseguir
fazer... se você não chegar tarde da noite... está cansado, mas
ir lá dar uma estudadinha... dar uma relembrada no que você
viu na aula [R1].
 – Eu continuo gostando. Eu tô sentindo que eu tô crescendo,
pelo que eu sabia quando eu saí do Ensino Médio, e pelo que
eu já sei até agora [R1].
 – Sempre gostei de ver o professor na sala de aula transmitindo
aquele conhecimento. Aquele herói lá, assim. Aquela utopia que a
gente tem. Ensinando, falando. Mestre (professor) então, em sala
de aula era um cara incrível! Eu tive um professor que era muito
bom em matemática. [...] (o professor) falava: - Isso aqui você vai
usar em Biologia... [S1]
 Segundo Marcelo, a admiração que tinha por esse professor foi
determinante na sua escolha pelo curso de Matemática: “–
Influenciou bastante na minha escolha, sim”.
 Marcelo afirma: “– Desde a oitava série eu disse: – Ah! Eu quero
fazer matemática!” (R[1])
Exemplo de análise
 Em sua relação consigo, conforme explicitado pela propriedade reflexiva,
Marcelo gostava de matemática porque sempre “foi bem” na disciplina e
porque não gostava de redigir textos, ou porque não compreendia bem
outras disciplinas. Até esse ponto, isso pode não ter influência muito forte em
sua escolha pelo curso de matemática. Já em sua relação com o outro, um
de seus professores de matemática, sua admiração o fez querer cursar
matemática. Aqui também pode-se perceber o desejo em ação. “[...] não há
desejo sem objeto de desejo. Esse objeto, em última análise, sempre é o outro”
(CHARLOT, 2000, p. 47). Nesse caso, o desejo completa a simetria: o sujeito
relaciona-se com o outro e o outro relaciona-se com o sujeito na condição de
um objeto de desejo. E essa simetria induz uma nova reflexividade no sujeito:
outro, como objeto de desejo, leva Marcelo a uma reflexividade de também
querer ser professor de matemática. Esquematicamente, podemos representar
essas propriedades da seguinte forma: 𝑠𝑅𝑜 ∧ 𝑜𝑅𝑠 ⇒ 𝑠𝑅𝑠 (se o sujeito se
relaciona com o outro e o outro se relaciona com o sujeito, então o sujeito se
relaciona com o sujeito).
Outras ideias
 NÍVEIS DE RELAÇÃO???
 Consciente; inconsciente...
 MANIFESTAÇÕES DA RELAÇÃO:
 Relação enquanto “desejo de”;
 Relação enquanto dialética (no sentido marxista do termo);
 Embate de contradições;
 Relação enquanto escolha???
 O sujeito faz escolhas. Ele escolhe fazer o cursos de matemática e isso é a
manifestação de uma relação.
 Relação enquanto causalidade????
 Ao escolher fazer o curso de matemática o sujeito é levado a manter
relação com a matemática.
 Relação enquanto determinismo???
 ...
 Relação enquanto negação???
 O sujeito escolhe fazer o curso de matemática, mas se nega a ter relação
com a matemática.
Revisão bibliográfica
 BUBER, M. Eu e Tu. 10 ed. São Pauo: Centauro, 2015.

 CHARLOT, B. Da Relação com o Saber: Elementos para uma teoria. Porto


Alegre: Artmed, 2000.

 CHARLOT, B. Relação com o Saber, Formação de Professores e Globalização:


Questões para a educação hoje. Porto Alegre: Artmed, 2005.

 CHEVALLARD, Y. Conceitos fundamentais da didática: as perspectivas trazidas


por uma abordagem antropológica. In: BRUN, J. (org.). Didáctica das
Matemáticas. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.

 FLECK. L. Scientific Observation and Perception in General [1935]. In: COHEN, R.


S.; SCHNELLE, T. (orgs.) Cognition and fact - Materials on Ludwik Fleck.
Dordrecht: Reidel Publishing Company, 1986a. p. 59-78.

 FLECK, L. Genesis and development of a scientific fact. Chicago: University of


Chicago Press, 1979.
Revisão bibliográfica
 FLICK, U. Introdução à pesquisa qualitativa. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

 HEGEL. G. W. F. Fenomenologia do Espírito. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1992.

 HOUAISS. Dicionário eletrônico da língua portuguesa 3.0. Rio de Janeiro:


Objetiva, 2009.

 MARX, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

 PLATÃO. Teeteto. 3. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa – Pt., 2010.