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Implicações e diagnóstico diferencial

entre experiências anômalas e


transtornos mentais
EAs & Transtornos Mentais
(TM) 99

 Estudos têm demonstrado a alta prevalência de


EAs (Ex. alucinações e inserções de pensamento),
dissociativas na população geral, sendo que a
maioria das pessoas que vivenciam tais
experiências não sofre de transtornos psicóticos ou
dissociativos
 Tais experiências são relatadas ao longo da
história e interpretadas como tendo valor pessoal e
social, e ainda como fontes de inspiração nas artes,
religião e outras áreas
EAs & TM
 Maior parte do “conhecimento
recebido” sobre tais experiências
baseia-se em amostras clínicas =
pouco se sabe das implicações em
populações não clínicas
 Muitos clínicos não possuem
diretrizes para auxiliá-los na
compreensão de indivíduos que
relatam experiências
pseudopsicóticas ou outros eventos
incomuns = risco de diagnósticos
errôneos e iatrogenia (complicações
causadas por ou resultantes
do tratamento médico, ou
intervenção de outros profissionais
relacionados)
EAs & TM
 Certas experiências
espirituais/anômalas podem ser
confundidas em função de
características visionárias ou
transcendentais com episódios
psicóticos (ex. sintomas de
esquizofrenia)
 Por outro lado, pacientes psicóticos
podem apresentar sintomas de
conteúdo religioso/espiritual
Prevalência das EAs relacionadas
à psi
 Segunda a APA99 estudos de levantamentos
realizados na América do Norte, Grã-
Bretanha, outros países da Europa, oriente
médio, America do Sul (Brasil) e Ásia
observaram que as EAs relacionadas a Psi
são relatadas por mais de 50% das amostras
consideradas
 Machado (2009)* - 306 82,7%
 indicaram que suas experiências psi afetaram
suas atitudes, crenças e tomadas de decisão
 projeto de replicação colaborativa deste estudo
está sendo elaborado (considerando a região
sul)
EAs & TM
Experiências psicóticas em populações não clínicas
 OMS levantamento recente com mais de 250.000
pessoas de 52 países = 12,5% prevalência (12 meses
prévios ao levantamento) de experiências psicóticas (s/
uso de drogas, sonolência ou sono)
 Alta variação entre os países (de 1% Vietnã até 46%
Nepal)
 Nos países latino-americanos incluídos, a prevalência
variou entre 5,5% no Uruguai e 32% no Brasil (9% no
Paraguai, México e Equador, 15% na Guatemala e 21%
na República Dominicana)
 10% dos casos houve associação com diagnóstico de
esquizofrenia e o número de experiências psicóticas
correlacionou-se moderadamente com pior estado de
saúde
EAs & TM
Experiências psicóticas em populações não clínicas
 Amostra nacionalmente representativa de latinos
vivendo nos EUA = 9,5%, prevalência ao longo da
vida
 93% nunca haviam sido diagnosticados com
transtornos psiquiátricos
EAs & TM
 Tais experiências podem ser compreendidas como
problemas religiosos ou espirituais que não
necessariamente constituem transtornos mentais,
podendo apenas refletir o modo da pessoa de
adaptar-se a uma nova fase da vida ou a uma
experiência com efeitos potencialmente positivo
 Existe de longa data a ideia de que determinadas
experiências psicóticas, (ex. alucinações), possam
ser parte de estágios do “desenvolvimento
espiritual” (ex. “Livro Tibetano dos Mortos”), e não
apenas sintomas de um transtorno psiquiátrico
EAs & TM
Práticas e experiências espirituais
 Experiências espirituais tem sido
consideradas ( por psicólogos e
psiquiatras) como transtornos
mentais desde o século XIX
 Também o envolvimento religioso
como característica de patologia
ou imaturidade psicológica
 Com poucas exceções: ex.
Pragmatismo (ou Psicologia da
Experiência Religiosa) de William
James (1842-1910)
EAs & TM
Práticas e experiências espirituais
 Caso de experiências espirituais semelhantes a
transtornos psicóticos e dissociativos (ex. tradições
espíritas e afro-americanas), bastante populares
em países latino-americanos
 A abordagem psiquiátrica inadequada fomentou o
preconceito, segregação e internações psiquiátricas
involuntárias
 Necessário buscar outros marcadores de
transtornos mentais para avaliar o significado
clínico dos relatos de tais experiências
EAs & TM
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais-4ª Edição

 Por isto o DSM-IV incluiu a categoria “Problemas


Religiosos ou Espirituais” > estimulando uma avaliação
destas experiências na investigação psiquiátrica sem
necessariamente julgá-las como psicopatológicas.
 Problemas religiosos = conflitos relacionados à fé e à
doutrina (como perda ou questionamento da fé e
conversões religiosas)
 Problemas espirituais = conflitos envolvendo a relação
com questões transcendentais ou derivados de práticas
espirituais
 ex. experiências místicas, EQMs e emergências
espirituais (desconforto e incapacidade associados ao
surgimento de experiências espirituais)
EAs & TM
Práticas e experiências espirituais
 Lovatt et al. (2010) compararam uma amostra clínica
de pacientes com transtornos psicóticos e uma
população não clínica de pessoas com histórico de
experiências psicóticas (indivíduos pertenciam a grupos
espiritualistas ou paranormais) no Reino Unido
 2 grupos mesmos escores totais em uma medida de
percepções anormais/psicóticas;
 Mas a amostra clínica teve ↑ ↑ índices de
problemas cognitivos/de atenção (bloqueio do
pensamento, déficits de atenção) e de sintomas
depressivos e ansiosos.
EAs & TM
Práticas e experiências espirituais
 Experiências anômalas/psicóticas: grupo clínico >
propensão para atribuí-las a outras pessoas (causadas
por terceiros) e de considerar estas experiências como
perigosas, negativas e ansiogênicas
 A amostra não clínica, tendia a compreender tais
experiências como normais e positivas.
 Ex. pessoas que relataram ouvir vozes (amostra não
clínica), diferem daquelas da amostra clínica: ↑ ↑
controle sobre a experiência e conteúdo ↑ ↑
benevolente das vozes
 Resumo: = escores totais de experiências
anômalas/psicóticas, ≠ tipo específico, interpretação e
resposta as experiências
EAs & TM
Práticas e experiências espirituais
 Estudos com praticantes espíritas ou espiritualistas
(Brasil, Argentina e Peru) encontram alta prevalência
de experiências anômalas/psicóticas (visões, vozes,
experiências de influência, “telepatia”, etc.),
 Mas tais experiências são associadas a níveis mais altos
de espiritualidade e saúde mental, ajustamento social e
bem estar
 Em geral tais experiências são assustadores no início,
mas mais tarde passam a interpretadas como tendo
consequências positivas profundas (promovendo bem-
estar, significado para a vida, esperança, crenças
espirituais etc.)
EAs & TM
Conclusões

 Na última década, tornou-se claro que


experiências psicóticas/anômalas são
bastante prevalentes na população
geral, e que em aproximadamente 90%
dos casos elas não têm conexão com
transtornos psicóticos.
 90% não são sintomas psicóticos!
EAs & TM
Conclusões
 Avaliações equivocadas podem ser feitas
em ambas as direções, tanto por
profissionais da saúde como líderes
espirituais
 > necessidade de diretivas mais
sofisticadas, menos tendenciosas e
baseadas em evidências para auxiliar no
diagnóstico diferencial
EAs & TM
Recomendação de Moreira-Almeida, & Cardeña, (2011)
 Que a CID-11 inclua um texto dentro dos parâmetros
propostos abaixo.
 Considerando-se que crenças e experiências religiosas e
espirituais podem afetar a saúde mental e a forma com que os
pacientes lidam com problemas e transtornos mentais, e que
experiências espirituais saudáveis podem apresentar
características que se assemelham a sintomas dissociativos e
psicóticos, é recomendável investigar o contexto e as crenças,
práticas e experiências espirituais e religiosas do paciente.
 É fundamental desenvolver a competência cultural e o
raciocínio clínico para compreender o sistema de referência
cultural do indivíduo e analisar a relevância clínica de
experiências que podem se assemelhar a sintomas dissociativos
e psicóticos.
EAs & TM
Recomendação de Moreira-Almeida, & Cardeña, (2011)
 Profissionais clínicos devem estar cientes de que a maioria
das pessoas que relatam experiências anômalas, psicóticas ou
dissociativas na realidade não sofre de transtornos psicóticos
ou dissociativos. Alguns elementos (Tabela 1), embora não
necessariamente presentes ou suficientes em si, são indicativos
da natureza não patológica de tais experiências.
 Embora contra-exemplos patológicos possam ser encontrados
para cada um destes parâmetros as variáveis descritas na
Tabela 1 geralmente falam contra a presença de
psicopatologia. Quanto mais destes elementos estiverem
presentes, de modo geral, menor é a possibilidade de que a
experiência em questão esteja relacionada a um transtorno
mental.
EAs & TM
Diretrizes de Moreira-Almeida, & Cardeña, (2011)
* Fátima Machado (2009)
 agraciada com a Menção Honrosa no Prêmio da
Academia Paulista de Psicologia pela sua tese
"Experiências Anômalas na Vida Cotidiana:
Experiências extra-sensório-motoras e sua
associação com crenças, atitudes e bem-estar
subjetivo", IPUSP
 O Prêmio é importante porque é outorgado por
uma das mais prestigiosas instituições
psicológicas do país, que têm entre seus quadros
os precursores da Psicologia do Brasil.
 Importante no sentido de indicar a
"normalização" ou reconhecimento desta linha
teórica/pesquisa no Brasil!
Referências
• 99 - Moreira-Almeida, A., & Cardeña, E. (2011). Diagnóstico diferencial entre experiências
espirituais e psicóticas não patológicas e transtornos mentais: uma contribuição de
estudos latino-americanos para o CID-11. Revista Brasileira de Psiquiatria, 33, 21-28.
• Targ, E., Schlitz, M., Irvin, H. J. (2000). Psi related experiences. In Cardenã, E.; Lynn, S. J.;
Krippner, S. (Ed.). (2000). Varieties of anomalous experience: examining the scientific
evidence (pp. 219-251). Washington: APA.
• Cardenã, E.; Lynn, S. J.; Krippner, S. (2000). Varieties of anomalous experience: examining
the scientific evidence. Washington: APA.
• Machado, F. R. (2009). Experiências Anômalas na Vida Cotidiana: Experiências extra-
sensório-motoras e sua associação com crenças, atitudes e bem-estar subjetivo. São Paulo.
344p. Tese (Doutorado). Instituto de Psicologia. Universidade de São Paulo
• Moreira-Almeida, A. (2004). Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e
psicopatologia de médiuns espíritas [dissertação]. São Paulo: Faculdade de Medicina,
Universidade de São Paulo. Available from:http:// www.hoje.org.br/bves
• Silva, F.E.: Pilato, S.; Hiraoka, R. (2003). Ganzfeld Vs. No Ganzfeld: An Exploratory Study Of
The Effects Of Ganzfeld Conditions On ESP. Proceedings Of Presented Papers: The
Parapsychological Association 46th Annual Convention, 31-48.
• Radin, D. (2008). Mentes interligadas: evidências científicas da telepatia, da clarividência e
de outros fenômenos psíquicos. São Paulo: Aleph.