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RECONSTRUÇÃO

HISTÓRICA ESPACIAL
DAS BIOTAS
BIOGEOGRAFIA

PROF. JORGE A. S. COSTA E FELIPE M. NUVOLONI


ENTENDENDO AS DISTRIBUIÇÕES ATUAIS E HISTÓRICAS

 Distribuição espacial: algumas espécies são mais restritas, com o status de relíquias
biogeográficas, enquanto que outras apresentam ampla distribuição, sendo quase
cosmopolitas.

 Isto indica maior ou menor grau de endemicidade. Mas, afirmar que esta ou aquela
espécie é endêmica não esclarece o fato dela estar onde está.

 Entender o padrão não necessariamente esclarece o processo


ENFOQUE ECOLÓGICO VS. BIOGEOGRÁFICO

 Há recursos e condições que permitem a essa espécie sobreviver neste


ambiente

 Quais os eventos temporais e espaciais para o desenvolvimento das


biotas?
PALEOBRIOGEOGRAFIA

 Ponto de partida: reconhecimento de centros de endemismo


(sobreposição de áreas de distribuição de taxa não relacionados)

Ou seja

 Busca de um padrão compartilhado possibilitando a realização de testes


e geração de hipóteses
PALEOBIOGEOGRAFIA

 Uma distribuição geográfica


congruente sugere causas
históricas.

 Ou o grupo de organismos
(populações, espécies, taxa
supra-específicos) surgiu ali ou
veio de outro lugar.
 No primeiro caso, se for uma
espécie, implica em dizer que a
especiação ocorreu lá.
 No segundo caso, houve
dispersão e conseqüente
colonização.
BIOGEOGRAFIA HISTÓRICA

 Reconstrução da história de áreas (centros de endemismo) com base na


congruência de informação filogenética gerada por taxa não relacionados mas
que ocorrem na mesma área

 Os processos considerados podem ser:


 biológicos: especiação, dispersão, vicariância, extinção)
 geológicos (tectônica de placas, eustasia)
BIOGEOGRAFIA HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA
HISTÓRICA
BIOGEOGRAFIA HISTÓRICA
ENTENDENDO A
DISTRIBUIÇÃO DOS TÁXONS

 Há uma relação histórica entre a


recuperação os centros de origem e áreas
de endemismo dos táxons

 Os limites de distribuição são


estabelecidos por barreiras físicas e/ou
ecológicas - depende da eficácia do tipo de
barreira.

 No caso da ineficiência dessa, o grupo de


organismos tende a se expandir. Caso
contrário, há retração da área de
distribuição
CENTRO DE ORIGEM E CENTRO DE ENDEMISMO

 Centro de origem, um local pontual na superfície terrestre no qual uma espécie ou taxon supra-específico
supostamente teria se originado e posteriormente dispersado.

 George Gaylord Simpson (1902-1984) reconheceu três tipos de rotas de dispersão para grupos de espécies com base
no grau de similaridade faunística

 a) corredor: onde as condições ecológicas de cada extremidade da área de distribuição seriam similares, de forma que
o livre fluxo seria favorecido ao longo dessa área, contribuindo para uma maior homogeneidade (alta similaridade);
b) filtro: onde a mescla de condições ecológicas favoráveis e desfavoráveis restringiria o livre fluxo e somente formas
bem adaptadas teriam condições de alcançar os extremos, contribuindo para uma baixa similaridade;
c) páreo (sweepstake route): onde a distância e as condições ecológicas nas regiões intermediárias seriam muito
restritivas, de modo que a chance de cruzar a(s) barreira(s) seria muito rara
DISPERSÃO

 a) dispersão organísmica (relativa aos mecanismos intrínsecos que permitem o espalhamento de


um indivíduo em dada área devido a adaptações particulares);

 b) dispersão específica (expansão da área de distribuição da espécie influenciada por eventos históricos de
grande escala espacial, particularmente flutuações eustáticas, mudanças climáticas globais ou tectônica de placas);

 c) dispersão da biota (ultrapassagem de extensas barreiras pré-existentes por elementos da biota). Com
relação a este último item, muitos pesquisadores (por exemplo, Darlington Jr., 1957; George, 1962; Simpson, 1965),
por não admitirem cientificamente e a deriva continental, adotaram a dispersão saltatória como o único modo de
explicar padrões biogeográficos de espécies e biotas a longa distância
TROCAS BIÓTICAS

 Quando duas biotas distintas e isoladas em contato;


 conseguem se dispersar através de barreiras, ou as próprias barreiras foram reduzidas ou banidas;
 Poucos informações sobre as consequências;

 Ocorreu várias vezes no registro da Terra


 deriva continental, formação de pontes, queda de barreiras, diminuição ou aumento dos nível dos
oceanos
BIOTA
NEOTROPICAL

 Quais os padrões atuais?


BIOTA
NEOTROPICAL

Padrões:
 Marsupiais e uma diversidade
de mamíferos placentários
edentados (preguiças, tatus,
tamanduás)

 Incluem também membros de


outras ordens similares à fauna
de mamíferos de outros
continentes.
BIOTA NEOTROPICAL

 Quais os padrões atuais?


 Centros de endemismos? Áreas de distribuição restritas/amplas? Elevada/baixa diversidade?

 Quais os processos biogeográficos mais importantes?


 Avanço/retração dos mares? Expansão/retração áreas florestais e de savanas?

 Processos geológicos/climáticos:
 Pangea, Gondwana e ilha isolada
 Soerguimento do Istmo do Panamá (Vários contatos com América Central até ponte efetiva)
 Soerguimento dos Andes e lago amazônico Alterações climáticas do Pleistoceno
BIOTA NEOTROPICAL
SOERGUIMENTO DO ISTMO DO PANAMÁ
SOERGUIMENTO DO ISTMO DO PANAMÁ

 Antilhas se originaram em uma cadeia de vulcões na borda da Placa Caribe que derivou para leste no final do
Cretáceo (pode ter servido de ponte).

 Formaram Cadeias de montanhas da Venezuela. Pequenos fragmentos podem ter formado as Pequenas
Antilhas. Atingiu a posição atual a 58 maa (Eoceno)

 Contato muito recente - Am. Central + Parte do México Neotropical

 Pelo menos duas pontes com Am. Sul (11,5 e 3,5 maa) e proximidade dos continentes (Am.Central emergiu 80-65
maa como grupo de ilhas)
SOERGUIMENTO DO ISTMO DO PANAMÁ

 Uma barreira para determinado grupo de


organismos pode funcionar como uma “ponte”
natural
 Até cerca de 3,5MA. os oceanos Atlântico e
Pacífico tiveram livre fluxo.
 O soerguimento do Istmo do Panamá na transição
Plio-Pleistoceno, foi um evento vicariante que levou
à interrupção do fluxo marinho.
 Por outro lado, o istmo funcionou como uma ponte
ligando as Américas do Norte e do Sul,
GRANDE INTERCÂMBIO AMERICANO

 220-160 M.A. Am. Do Sul permaneceu conectada à Gondwana e à Am. Do Norte

 140-75 M.A. – A Am. Do Sul se torna isolada, e sua biota evolui em isolamento total;

 10-5 M.A. – Arquipélago da Am. Central serve como rota de passagem transitória;

 3,5 M.A. – Emergência da ponte continental da Am. Central. Rota de dispersão de filtro para espécies terrestres

 2 M.A. – Abaixamento do mar e extensão da savana durante a glaciação abrem um corredor para o filtro biótico.
Invasões subsequentes;
GRANDE TROCA
INTERAMERICANA

 A biota da Am. do Sul


permaneceu isolada por
milhões de anos (desde a
separação da Pangeia)

 Diferente do que se propôs


inicialmente, as migrações
ocorreram ao longo de
milhões de anos
BIOTA NEOTROPICAL

 América do Sul foi Parte da Gondwana até 160 M.A. atrás;

 Isolamento total: um monotremado, vários grupos de marsupiais e pelo menos uma linhagem de mamíferos
placentários sofreram especiação e se diferenciaram.

 Fauna diversificada com grandes carnívoros (tigre dente de sabre marsupial), e herbívoros gigantes;

 Colonizações esporádicas: através das proto-antilhas (120 M.A) e Am. Central (10-5 M.A.) – recebeu o ancestral
dos primatas, e dos edentados.

 Isolamento terminou drasticamente há 3,5 M.A.


QUEM VEIO
DE ONDE?
Atravessaram o Filtro
Parados pelo filtro Camundongos do campo
Musaranhos Coelho
Camundongos do campo Raposas
Geomídeos Ursos
Castores Racoons
Antílopes Doninhas
Bisão Gatos
Mastodontes
Cavalos Primatas
Tapires Octodontídeos
Pecaris Ratos espinho
Camelos Cutias
Veados’ Capivaras
Porcos-espinhos
Gliptodontes Cavídeos
Tatus Preguiças 2 dedos
Preguiças-gigantes Tamanduás
Gambás Gambá musaranho
Cruzaram o Filtro Parados no Filtro
CONSEQUÊNCIAS

 Antes do Grande Intercâmbio Americano: 26 famílias de


mamíferos terrestres em cada continente, e em torno de 16
famílias de cada continente dispersaram-se para o outro.

 Dos mamíferos norte-americanos, 29 gêneros dispersaram-se


para o sul, principalmente no Plioceno Superior/Pleistoceno
Inferior,
 No mesmo período, 12 gêneros de mamíferos sul-americanos
dispersaram-se na direção norte
CONSEQUÊNCIAS

 A fauna trocada entre os dois continentes era adaptada à savana e a ambientes de campo
aberto,

 Embora proporções semelhantes das duas faunas (9 a l 0% de gêneros) tenham emigado, os


emigrantes norte-americanos foram muito mais bem-sucedidos do que aqueles da América
do Sul.

 Na América do Sul, 85 (50%) dos gêneros de mamíferos terrestres vivos são descendentes
de imigrantes sul-americanos, enquanto o número correspondente para a América do Norte
é de apenas 29 (21%).
CONSEQUÊNCIAS

 Os canídeos, zebróides, lhamas e pecari contribuíram


para o sucesso das famílias norte-americanas.

 A mais notável extinção, na América do Sul, foi a de


todos os 13 gêneros de ungulados endêmicos que
foram incapazes de competir com os novos carnívoros
ou com os ungulados imigrantes norte-americanos

 Os tipos que se tornaram extintos foram os de maior


porte (os sul-americanos eram em geral maiores do
que os nortistas)
CONSEQUÊNCIAS

 Pleistoceno – última grane mudança climática

 Era do Gelo no Hemisfério Norte e suas mudanças bióticas associadas também ocasionou extinções na
América do Sul.

 Estas incluíram a última preguiça gigante, o gliptodonte, semelhante a um tatu gigante, e o Toxodon.

 Elefantes mastodontes e zebróides, que haviam imigrado a partir da América do Norte, morreram tanto lá
quanto na América do Sul - embora tenham sobrevivido no Velho Mundo

 No entanto, os tapires e as lhamas que se dispersaram originalmente da América do Norte tornaram-se


extintos lá, mas sobreviveram na América do Sul.
MEGAFAUNA HERBÍVORA DA AM. DO NORTE
MEGAFAUNA DE PREDADORES E ROEDORES AM. DO NORTE
MEGAFAUNA DA AM.
DO SUL
EDENTADOS SUL-AMERICANOS
HIPÓTESES

 Vantagens das formas do norte:


1. Melhores migrantes: muitas formas do norte cruzaram a ponte, e invadiram
profundamente a Am. Do Sul; apenas 3 spp. colonizaram e persistiram até o
presente na Am. Do Norte temperada; outros grupos não ultrapassaram as
florestas tropicais ao sul do México (primatas, preguiças, tamanduás entre outros)
HIPÓTESES

2. Sobreviventes se especiaram: muitas spp. invadiram a am. do sul e sofreram


especiação – quatis, juparás, lontras-gigantes, cervos do pantanal, guanaco, vicunha.
Roedores saltadores hoje são o grupo mais diverso no continente.

Na Am. Do Norte a diversidade dos “sulista” apenas decresceu, visto que a especiação
não acompanhou a extinção.
HIPÓTESES

3. Grandes competidores: diante da colonização diferencial, sobrevivência e especiação,


supõe-se que levaram vantagem competitiva quando em contato com os sulistas.

Atualmente todos os grandes carnívoros e herbívoros, e maioria dos roedores semelhantes a


camundongos são descendentes de invasões do norte.

• Hipótese ambiental. Clima mudou as paisagens. Extinção dos bichos florestais do S.


Colonização dos de área aberta do N (continuum).
HIPÓTESES

 Além da competição, a predação, parasitismo, e transmissão de doenças também


podem ter influenciado nas extinções;

 Fauna da Am. Do Norte era mais diversa, evoluiu em massa territorial maior, e possuía
intercâmbio frequente com a Ásia e Europa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS E EMERGÊNCIA DOS PADRÕES

 A diversidade na Am. Do Norte permaneceu quase que inalterada, apesar da invasão


de algumas espécies sul-americanas
 tatus, gambás, porcos-espinho, gliptodontes† e preguiças gigantes†

 A diversidade total da Am. Do Sul aumentou devido à invasão e estabelecimento de


linhagens da Am. Do Norte.
 Musaranhos, coelhos, esquilos, cães, ursos, racoons, doninhas, gatos, veados, pacas,
tapir, camelos, mastodontes e cavalos
CONSIDERAÇÕES FINAIS E EMERGÊNCIA DOS PADRÕES

 Maiores consequências na Am. Do Sul:


 Extinção de várias formas (carnívoros marsupiais e herbívoros maiores)
 50% da fauna sul-americana é derivada de ancestrais norte americanos,
 10% das espécies norte americanas são derivadas de ancestrais sul americanos