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A REVOLUÇÃO PRAIEIRA

SUMÁRIO
I – INTRODUÇÃO
 OBJETIVO DO TRABALHO
II – DESENVOLVIMENTO
 ANTECEDENTES HISTÓRICOS
 CENÁRIO DAS LUTAS
 INÍCIO DA REBELIÃO
 BATALHA DE MUSSUPINHO
 ATAQUE AO RECIFE
 FIM DOS COMBATES
 JULGAMENTO
III - CONCLUSÃO
INTRODUÇÃO
 Movimento político produto de disputas partidárias, ou
um acontecimento revolucionário de cunho social?

 Este trabalho não tem a intenção de apontar a verdadeira


motivação da Revolta Praieira, objetivo pretendido por
renomados historiadores, mas o de apresentar o ambiente
político e social na qual se originou, dando ênfase na
descrição dos principais conflitos que integraram a
rebelião.
ANTECEDENTES HISTÓRICOS

A exploração colonial
 No início, foi a luta contra a exploração portuguesa.

 Não só os portugueses no Brasil, mas também


holandeses, espanhóis, ingleses e franceses queriam os
produtos das colônias americanas. O interesse principal
das metrópoles européias era explorar as riquezas do
Novo Mundo.
ANTECEDENTES HISTÓRICOS

• A Independência do Brasil, em
1822, não se fez sem luta. Ela foi
o resultado de anos de confronto
entre colonizadores e colonizados,
foi o produto de uma resistência
que cresceu com o tempo. Os
vários movimentos de insurreição
- Emboabas, Mascates, Revolta de
Vila Rica, Inconfidência Mineira,
Revolta dos Alfaiates, entre outros
expressavam os rancores e os
descontentamentos da população.
Em todos eles estava presente a
luta contra a exploração e a
dominação.
ANTECEDENTES HISTÓRICOS
A participação de Pernambuco
 Pernambuco, capitania próspera dos primeiros séculos de
colonização, participou com destaque das lutas coloniais.
O açúcar, sua principal riqueza, alcançava altos preços na
Europa. Foram os lucros do açúcar que deram a Portugal
condições para levar adiante a ocupação das terras
brasileiras. Os engenhos, apoiados no trabalho escravo,
multiplicaram-se em solo pernambucano. Era um grande
negócio, que atraía as pessoas de posses do reino para o
Brasil.
ANTECEDENTES HISTÓRICOS

• Atraía também o interesse


estrangeiro. Entre 1630 e 1654,
Pernambuco foi ocupado pelos
holandeses. Sob o governo de
Maurício de Nassau (1637-
1644).

• Após a partida de Nassau, os


pernambucanos se revoltaram e
finalmente conseguiram
expulsar os estrangeiros. Os
invasores retiraram-se, mas
levaram consigo as técnicas de
produzir açúcar.

Maurício de Nassau
ANTECEDENTES HISTÓRICOS

• Tal fato fez crescer a


resistência pernambucana à
dominação colonial. Em 1710
ocorreu a Guerra dos Mascates,
causada pela rivalidade entre
recifenses e olindenses.

• Outros conflitos devem ser


lembrados. Em 1817, os
pernambucanos lutaram pela
independência da colônia e em
1824 rebelaram-se contra o
autoritarismo do imperador
D. Pedro I
português Dom Pedro I.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

 No começo do século XIX, o Recife já era uma cidade


importante, com cerca de 25000 habitantes e um porto
de grande movimento comercial.

 Boa parte da elite pernambucana tinha idéias liberais.


Membros do clero e da maçonaria, jornalistas,
advogados, proprietários de terra e comerciantes
defendiam o direito de voto, eleições, liberdade de
pensamento e expressão e também a autonomia
provincial.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

O PARTIDO DA PRAIA E O BARÃO DA BOA VISTA

 Em Pernambuco, as famílias Rego Barros e Cavalcanti


dominavam a política local. Ocupavam os principais
cargos no governo provincial e controlavam o PARTIDO
CONSERVADOR E O PARTIDO LIBERAL.

 No período de 1837 a 1842, os Rego Barros e os


Cavalcanti governaram Pernambuco como aliados
políticos, sob a chefia do conservador Francisco do Rego
Barros, o famoso Barão da Boa Vista.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS
O PARTIDO DA PRAIA E O BARÃO DA BOA VISTA
 O fim do pacto entre conservadores e liberais acabou sendo
rompido em 1842. Aproveitando esse rompimento, uma facção
do Partido Liberal formou o Partido Nacional de Pernambuco.
Esse novo partido ficaria conhecido depois como Partido da
Praia ou Partido Praieiro, pois seu jornal, o Diário Novo,
funcionava na Rua da Praia, no centro do Recife.

 Os praieiros passaram a fazer oposição cerrada ao Barão da


Boa Vista.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

O GOVERNO DO BARÃO E AS DENÚNCIAS DOS PRAIEIROS

• O Barão da Boa Vista (CONSERVADOR) governou a província de


Pernambuco no período de 1837 a 1844.
• Foram feitas estradas ligando o Recife ao interior, construiu-se o Teatro
Santa Isabel, transformou-se o prédio do Erário Público no palácio
presidencial, atualmente conhecido como Palácio do Campo das Princesas.

Palácio do Campo das Princesas/2008 Teatro Santa Isabel/2008


O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

O GOVERNO DO BARÃO E AS DENÚNCIAS DOS PRAIEIROS


 Mas os opositores do Barão não aceitavam as reformas
modernizadoras. Condenavam a vinda de técnicos estrangeiros,
dizendo que eles custavam caro e ocupavam o lugar de
brasileiros.

 Além disso, responsabilizavam o governo do Barão pelo fato


de os comerciantes portugueses só darem emprego a
balconistas portugueses, deixando os brasileiros sem trabalho.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

AS CONQUISTAS POLÍTICAS DA PRAIA

 Em 1844, caiu o ministério conservador no Rio de Janeiro, sendo substituído


por um ministério liberal.

 O Partido Liberal em Pernambuco era liderado por Holanda Cavalcanti, de


tendência moderada. Era um grupo ativo, de muita influência, que tinha
também suas ambições políticas. Procurando atender aos dois grupos, o dos
Cavalcanti e o dos praieiros, em maio de 1844 o governo imperial nomeou
Joaquim Marcelino de Brito presidente da província de Pernambuco.

 Os praieiros não perderam tempo, trataram de se aproximar do novo


ministério no governo imperial, destacando as origens liberais que os uniam.

 Os praieiros sabiam que só havia um modo de se fortalecerem e participarem


verdadeiramente do novo governo provincial.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS
A DIFÍCIL CONCILIAÇÃO

• Os partidários do Barão da Boa Vista


(CONSERVADORES) respondiam aos
ataques dos praieiros por meio de artigos de
jornal e procuravam ampliar sua atuação
dentro do novo governo. Mas os praieiros
não se intimidaram e continuaram a exigir
de Marcelino a demissão de todos os
funcionários baronistas. Na verdade, não
havia limites nessa luta entre rivais.

• Um verdadeiro clima de guerra se instalou


na província. Os conservadores, sentindo-se
ameaçados pelo avanço dos adversários,
fizeram chegar ao governo imperial notícias
de que Pernambuco estava tomado pela
desordem. Joaquim Marcelino de Brito, que
discretamente apoiava os praieiros, foi então
substituído por Tomás Xavier Garcia de
Almeida. Em 7 de outubro de 1844, o novo
presidente provincial tomou posse no
Recife.
Microfilmagem do Diário de Pernambuco 1844
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

OS PRAIEIROS AVANÇAM

• Em 1845, novas eleições para uma


vaga no Senado. No entanto, o
resultado divulgado pela imprensa
ligada ao Partido da Praia colocava
Antônio Carlos (LIBERAL) em
primeiro lugar.
• Para grande frustração dos
conservadores, em fevereiro de 1845
Antônio Carlos foi confirmado no Rio
de janeiro como Senador de
Pernambuco. Ao mesmo tempo, Tomás
Xavier era substituído por um novo
presidente provincial, Antônio Pinto
Chichorro da Gama, claramente ligado
aos liberais praieiros. As coisas não
andavam bem para os conservadores.

ANTÔNIO PINTO CHICHORRO DA GAMA


O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

A PRAIA E O PODER

 Chichorro da Gama assumiu seu cargo em 11 de junho de 1845, ficando no governo provincial até
19 de abril de 1847.

 O jornal defendia o Barão da Boa Vista, afirmando que em sete anos de administração ele havia
demitido apenas 32 funcionários. Revertia-se a situação: os acusadores transformavam-se em
acusados. Agora, eram os conservadores que estavam na oposição.

 Antes eram os partidários do Barão da Boa Vista que se aproveitavam do governo. Agora eram seus
antigos adversários que usavam os privilégios e as facilidades do poder público. Foram instaurados
vários processos contra os baronistas, para provar sua participação em atos ilegais e mostrar o mau
uso que haviam feito do serviço público. Tais processos eram muito explorados pela imprensa
praieira, sobretudo pelo Diário Novo, agora órgão oficial do governo provincial. Com isso, os
praieiros conseguiam intimidar a oposição e desacreditá-la diante da população. Conseguiam
aumentar a própria influência política e diminuir a força de muitos líderes conservadores,
considerados inatacáveis e temidos por seus atos de violência.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS
O ACIRRAMENTO DAS DISPUTAS E A APROXIMAÇÃO DA REVOLTA

 A administração de Chichorro da Gama realizou a vingança desejada pelos praieiros.


Demitiu grande número de funcionários públicos, para facilitar o uso da administração
pelos partidários da Praia. Não há dúvida de que as medidas de Chichorro aumentaram
o prestígio e o poder dos praieiros. O afastamento dos baronistas da administração
pública permitiu ao Partido da Praia colocar seus aliados nos cargos mais importantes.

 Em 1846, surgiu uma excelente oportunidade para o Partido da Praia aumentar ainda
mais seu poder. Anunciavam-se novas eleições para o Senado, com a disputa de duas
vagas.

 Realizadas em setembro de 1847, as eleições deram a vitória aos praieiros.

 Além dessas disputas entre os conservadores e o Partido da Praia, o Recife estava


sendo agitado pelos tumultos do mata-marinheiro1.

1. Mata Marinheiro: Eram violentos conflitos de rua, em que a população mais pobre
protestava contra os comerciantes portugueses e muitas vezes os agredia. O ódio aos
portugueses, que vinha desde os tempos coloniais, tinha profundas raízes nas classes
populares.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

A REVOLTA SE APROXIMA

• Em junho de 1848, os choques tornaram-se ainda mais violentos.

• Na verdade, o que impulsionava essas hostilidades era a questão econômica. A


população culpava os portugueses pelos preços altos, pela fome e pelo desemprego.

• Os políticos da Praia incentivavam essa lusofobia.


O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS
OS PRAIEIROS NA DEFENSIVA

 Dois fatos ocorridos no Rio de janeiro colocaram os praieiros em


desvantagem. O primeiro: em abril de 1848, o Senado pôs em dúvida
a validade das eleições do ano anterior.
 O vice de Chichorro da Gama, Manuel de Souza
Teixeira(CONSERVADOR), ocupou o cargo por seis dias.

 Essa rápida passagem de Souza Teixeira (SEIS DIAS) pelo governo


foi um desastre para o Partido da Praia. Ele demitiu quinhentas
pessoas, incluindo delegados, chefes da Guarda Nacional,
funcionários de cargos de confiança na Tesouraria, no Liceu, na Obra
Pública. O novo presidente nomeado, Vicente Pires da Mota, deu
continuidade às demissões, piorando a situação dos praieiros.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS
OS PRAIEIROS NA DEFENSIVA

 O Partido da Praia estava cada vez mais isolado e desprestigiado no


novo governo provincial.

 O governo central tentou superar a instabilidade política em


Pernambuco trocando novamente o presidente da província. Foi
nomeado Herculano Ferreira Pena, que tomou posse em outubro de
1848.

 Herculano Pena foi bem recebido por ambos os lados, que


acreditavam em sua moderação. Mas ele logo mostrou que tinha por
tarefa enfraquecer mais ainda os praieiros. Demitiu várias autoridades
policiais, substituindo-as por outras ligadas aos conservadores
baronistas. Retornavam a seus antigos postos as mesmas pessoas que
haviam sido demitidas pelos praieiros, até mesmo as que tinham sido
acusadas de cumplicidade com crimes e corrupção.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

APOIO POPULAR, IMPORTANTE CAUSA DA REVOLUÇÃO

 Não faltaram protestos populares contra essas demissões, em apoio


ao Partido da Praia.
 Seu nacionalismo satisfazia aos que se revoltavam contra a presença
de estrangeiros no comércio.
 Não era à toa que os conservadores acusavam os praieiros de estarem
comprometidos com as massas. Diziam até que eles eram apoiados
por grupos armados populares.
O CENÁRIO DAS NOVAS LUTAS

O FRACASSO DA CONCILIAÇÃO

 Em novembro de 1848, os deputados da Praia tiveram um encontro


infrutífero com o presidente da província, Herculano Pena. Também as
eleições desse ano para a Assembléia Provincial (CÂMARA LEGISLATIVA)
foram adiadas com o objetivo de acalmar os ânimos. A política de Herculano
Pena estava empurrando os praieiros, até os mais moderados, para a
insurreição armada.

 Os proprietários de terra e os senhores de engenho envolvidos com a causa


praieira já se preparavam para a rebelião.

 Era hora de passar do discurso à ação, recrutando e armando suas milícias


particulares. Os tempos definitivamente eram outros. O choque armado
parecia inevitável.
INÍCIO DA REBELIÃO

 EM 7 DE NOVEMBRO DE 1848, INICIA-SE A REVOLTA.

 À frente de um batalhão, o delegado de Olinda, Coronel Almeida


Guedes, e o Tenente-Coronel João Paulo Ferreira, comandante da
Guarda Nacional, partiram de Olinda rumo a Igaraçu. Foram
recebendo pelo caminho reforços de simpatizantes, obtendo provisões
e armas, conseguindo adesões. Chegara a hora de os senhores de
engenho mostrarem a força de seus homens e se comportarem como
comandantes militares. Velhas disputas pessoais também seriam
reavivadas e resolvidas violentamente.
INÍCIO DA REBELIÃO

O primeiro confronto direto entre


as tropas rebeldes e as do governo
aconteceu na Vila Maricota, perto
de Igaraçu, sem grandes perdas de
ambos os lados. Os praieiros
50 Km
procuravam utilizar a tática de
guerrilha, pois tinham menos
recursos que os governistas. Ao
mesmo tempo, desenvolviam
intensa propaganda para conseguir
mais adeptos e obter a simpatia do
povo. Os rebeldes exploravam o
sentimento nacionalista dos
pernambucanos, acusando o
governo de Herculano Pena de
pretender entregar a província aos
portugueses.
INÍCIO DA REBELIÃO
A ORGANIZAÇÃO DAS FORÇAS

• A notícia da rebelião chegou logo ao Rio de


janeiro, provocando impacto e preocupação
na corte. O governo imperial resolveu tomar
medidas imediatas, reforçando as tropas de
Pernambuco. Além disso nomeu Manuel
Vieira Tosta para sunstituir Herculano Pena
como presidente da província.

• As forças praieiras tinham conseguido a


importante adesão de Borges da Fonseca.
Também o Capitão reformado João Roma,
velho participante da Confederação do
Equador2, aderiu à causa praieira com cerca
de setenta homens armados. As matas do
Catucá, próximas ao Recife, tornaram-se seu
quartel-general na luta contra as tropas do
governo.
Escudo do Marquês de Muriti

2- Confederação do Equador - Movimento revolucionário que


se iniciou em Pernambuco em 1829, tinha como objetivo
reunir a maioria das províncias do norte e nordeste do Brasil,
instaurando um regime federativo e um governo republicano.
INÍCIO DA REBELIÃO

 Os primeiros combates não foram muito significativos, apenas demonstraram


que agora as armas eram a essência do conflito.

 Após deflagrada a rebelião seguiram-se diversos conflitos descentralizados


pelas cidades e vilas ao redor da cidade do Recife. Igaraçu, Mussupinho,
Goiana, Nazaré, Cruangí, Maricota, Serinhaém, Una, Água Preta, Ipojuca,
Escada, Santo Antão, Jaboatão, Muribeca, Bonito, Barreiros e Camaragibe
são localidades que serviram de palco aos conflitos entre revoltosos e forças
legalistas.

 Tais cidades faziam parte de duas áreas de ação, a da Coluna do Sul e a da


Coluna do Norte.

 Dentre estes embates se destacam os de MUSSUPINHO e o da cidade do


RECIFE.
BATALHA DE MUSSUPINHO
Nas proximidades da cidade de Nazaré havia o Engenho Mussupinho
ladeado de alturas onde os revoltosos haviam se entrincheirado,
dominando os acidentes capitais do terreno e ficando em situação
vantajosa.

Engº Mussupinho
DESCRIÇÃO DA BATALHA

O Cmt Coronel Amorim Bezerra mais o


Coronel Cavalcanti d’ Albuquerque e o
piqueti da cavalaria cercaram a casa do
3 engenho, onde estavam os chefes da força
inimiga.(1)

3 A comando do Major Joaquim de Ponte


Marinho, estava o corpo da direita, o Major
partiu ignorando as posições inimigas, e sem
dúvida julgando por informações, que tivera,
que ali não estivessem todas as forças
reunidas, avançou antes de estar toda a
Engº Mussupinho
coluna reunida, engajando-se em combate, o
que encontravam as forças inimigas
entrincheirada, que levaram as forças legais
a um grande número de baixas.(2)

Pela esquerda seguiu o Cap Isidoro José


Rocha Brasil e pela linha do centro seguiu o
comandante, que perdeu o cavalo passado
2 por duas balas. O fogo durou três horas e
apesar da oposição vantajosa do inimigo, as
forças legais saíram vitoriosas.(3)
VITÓRIA EM MUSUPINHO – COMUNICADO
DO CEL. AMORIM BEZERRA

Diário de Pernambuco – 16 Nov 1848.


ATAQUE AO RECIFE
• Eram cinco horas da madrugada, do dia 02 de fevereiro de 1849 quando
rompeu o fogo, e foram simultaneamente atacados os pontos da Cabanga, e
do Olho de Boi. A coluna do Sul que atacou o primeiro ponto era comandada
pelo Capitão desertor Pedro Ivo, e nelas vinham como Chefes imediatos os
caudilhos Lucena, Leandro, Borges da Fonseca, Feitoza e outros;
• A coluna que atacou o outro ponto era comandada pelo facínora João Roma e
a ela vinham adidos os Deputados refratários Antonio Afonso, Peixoto de
Brito, Nunes Machado, Villela Tavares e como Chefes imediatos, João Paulo,
Mello de Vertentes, Moraes de Inhaman e outros.

Recife Antigo

Mapa do Recife 1844


ATAQUE AO RECIFE

 A inconveniência da localidade, a desvantagem de se


haver desmontado a peça logo ao primeiro tiro, unidas ao
ferimento grave, que sofreu o Tenente-Coronel Francisco
Carneiro, e à superioridade incontestável da força do
inimigo, foram parte para que os rebeldes transpusessem
o ponto da Cabanga, entrassem no bairro de S. Antonio, e
tomassem as ruas do Colégio, Queimado, Largo do
Rosário, Crespo, União, Cabugá, Nova, Roda, e Mundo
Novo, únicas até onde puderam chegar, ameaçando o
Palácio do Governo, das quais foram desalojados pela
Cavalaria, Voluntários, Imperiais Marinheiros e Soldados
da Polícia, depois de renhido combate, e não obstante o
fogo que partia de algumas casas praieiras.
ATAQUE AO RECIFE

 Durante esta porfiada luta, um forte troço de rebeldes tentou


atravessar a ponte da Boa Vista, mas o passo lhe foi embargado com
valor e denodo por alguns paisanos, à frente dos quais se achava o
Delegado do 2º distrito Antonio Carneiro Machado Rios, e o
Comandante da Companhia de Voluntários de Recife João Pinto de
Lemos, e sucessivamente pelos Imperiais Marinheiros, Soldados do
4º Corpo de Artilharia e 5º de Fuzileiros. Entrincheirados então nos
dois pequenos muros, que guarnecem a entrada da Ponte da Boa Vista
pelos lados do nascente e poente, bem como nos dois sobrados que
lhe ficam em frente, e em algumas casas baixas da rua do Sol, os
rebeldes despediam contra a força da Boa Vista um fogo mortífero;
mas depois de porfiado combate, os nossos bravos avançaram,
desalojaram-nos dessa vantajosa posição, sendo seguidos pelo 3º e 4º
Corpo de Artilharia, e 5º de Fuzileiros, e levando à sua frente o
benemérito Coronel Bezerra transpuseram a ponte, cuja passagem se
lhes disputava, ao som de entusiásticos vivas a SM o Imperador.
Ação da tropa governista

Rua do Sol
ATAQUE AO RECIFE

 Ao mesmo passo que esta força avançou pela frente, foi o inimigo
acometido pelo flanco da rua do Sol, e pela retaguarda pela
Cavalaria, Imperiais Marinheiros, Voluntários e Policia, que já o
haviam repelido das ruas próximas ao Palácio, como dissemos.

 Batidos e desalojados destes pontos, os rebeldes fizeram-se fortes na


rua da Penha, Igreja do Livramento, rua do Rosário estreita, beco do
Rosário e pátio do Carmo; ai durou muito mais o combate; aí
provaram os nossos, valor esforçado, pelejando a peito descoberto
contra os inimigos fortemente entrincheirados nos edifícios; daí
conseguiram afugentá-los, encantoando-os no pátio da Penha, B
beira, pátio de S. Pedro, ruas da Praia, Concórdia, Augusta e
adjacentes e combatendo-os sem descanso, com entusiasmo sem
igual com valor nunca desmentido.
ATAQUE AO RECIFE
 Então já não era duvidoso, que os rebeldes seriam obrigados
deixar a Capital; mas todos se preocupavam das vicissitudes da
guerra, e dos perigos da noite, se por acaso o combate tivesse de
prosseguir durante ela. Eram duas horas da tarde; e eis que o
General Coelho, de improviso com a coluna ao seu mando entra
pela cidade.

 É indizível o entusiasmo que inspirou a todos a presença do


General, e da sua forte coluna. No meio das ardentes saudações
do povo, e da tropa, foi o General a Palácio, onde ecoou vivas a
SM o Imperador, à Constituição política do Império, aos
defensores da legalidade e ao Presidente da Província,
entusiasticamente repetidos pelos circunstantes, e correspondidos
pelo mesmo Presidente, e dai voltando no mesmo instante, tomou
o Comando em Chefe de toda a força armada.
ATAQUE AO RECIFE
FIM DOS COMBATES
• Ajudados os nossos bravos pelos novos
companheiros, cansados uns do combate,
outros da viagem, mas todos cada vez mais
esforçados, dentro em três horas
debandaram e destruíram completamente os
rebeldes, que como dissemos se achavam na
rua da Penha, Arribei pátio de S. Pedro e
ruas da Concórdia, Augusta e adjacentes. Foi
nestes pontos mais do que em todos os
outros, renhido e sanguinolento o combate, e
foi aí completa, a destruição da coluna, que
teve o arrojo de invadir a Cidade pelo lado
do Sul.

• Nos dias seguintes ao frustrado ataque à


capital, os praieiros tentaram reorganizar
suas tropas. Mas o desânimo tomou conta de
todos.

• Os governistas usaram de violência sem


limites. Saquearam e incendiaram casas,
perseguiram e assassinaram pessoas. O
Recife tornou-se um inferno para todos os
que tinham alguma simpatia pelo Partido da Diário de Pernambuco 11 Abr 1849
Praia.
FIM DOS COMBATES
TENTATIVAS DE REORGANIZAÇÃO

 A única coisa que os praieiros podiam fazer agora era voltar para o
interior e organizar novo plano de luta. Os principais alvos da
repressão eram Borges da Fonseca, Morais, Pedro Ivo, Peixoto de
Brito, João Roma. A prisão dos chefes significaria, na prática, o fim
da rebelião da Praia.

 Apesar do cerco governista comandado pelo general Coelho, os


praieiros tentaram reorganizar-se. Havia também um plano de
conseguir recursos na Paraíba para obter novos equipamentos para as
tropas e renovar suas energias. Mas nada de muito animador foi
alcançado. O isolamento dos rebeldes era cada vez maior.
FIM DOS COMBATES

A DIFÍCIL UNIDADE

 Além da articulação militar, também era difícil manter a unidade


política das forças da Praia, principalmente depois da retirada do
Recife.

 A dificuldade de organização das tropas aparece com clareza


comparando a composição dos dois grandes blocos militares: a
coluna do norte, formada por soldados profissionais e mercenários,
enquanto a coluna do sul, na maior parte, homens livres pobres,
caboclos e índios. Pessoa de Melo e Ivo eram grandes proprietários
de terra que protegiam esses homens e tinham sua ajuda na hora dos
confrontos militares.
FIM DOS COMBATES
OS ÚLTIMOS CONFRONTOS

 No dia 14 de fevereiro de 1849, depois de passarem por Goiana sem dificuldades, as forças
praieiras do norte sofreram um sério abalo: num violento combate no engenho Pau-Amarelo, caiu
ferido João Roma. As tropas do governo tomaram ainda grande quantidade de munição e parte do
arquivo dos rebeldes.

 A captura dessa documentação iria favorecer imensamente o processo policial comandado por
Figueira de Melo. Nela estavam as provas escritas da participação ou do envolvimento de muitas
pessoas na rebelião. João Roma morreu dias depois, em conseqüência dos ferimentos. Isso fez
aumentar as deserções, abatendo mais ainda o ânimo dos praieiros.

 O exército rebelde estava se destroçando. Pequenos êxitos eram logo anulados pela presença e pelo
assédio constante das forças do governo. A perseguição às tropas praieiras do norte era sem trégua.

 Em busca de auxílio, os praieiros seguiram para Areias, na Paraíba, sob o comando de Peixoto de
Brito. Chegaram lá no dia 18 de fevereiro, com aproximadamente 740 homens, sempre acossados
por soldados governistas. Em rápidos confrontos, morreram cinco governistas e seis praieiros.
Além de apreender mais documentos, as forças do governo conseguiram fazer trinta prisioneiros e
obrigar os praieiros a se retirarem de Areias. Nova derrota dos rebeldes: a coluna do norte estava
cada vez mais encurralada.
R
E
T
I
R
A
D
A
O FIM DOS COMBATES

 As tropas governistas ampliaram o cerco. No dia 4 de abril, Caetano Alves, um dos


chefes das tropas do sul, depôs armas com seus 324 homens, incluindo índios e
caboclos. Outros combatentes, ligados a Pedro Ivo, seguiram o mesmo caminho.

 Restava Pedro Ivo, que continuaria a resistir até dezembro de 1850, mas sem ameaçar
diretamente o governo.

 No dia 10 de abril de 1849, Vieira Tosta declarou à Assembléia Provincial que o


conflito estava encerrado, que o governo era vitorioso. Desencadeou-se então um
processo rigoroso e violento de punição aos rebeldes: prisões em massa, tortura e
perseguição indiscriminada a todos os que tinham alguma relação com a Praia.

 O governo procurou eliminar todos os vestígios da revolta. A punição deveria ser


exemplar, para que ficasse evidente que não se tolerariam atos de rebelião nas
províncias ou qualquer movimento de autonomia. O Império confirmava sua política
de centralização. Dentro dela não cabiam os projetos praieiros
O JULGAMENTO

 Os rebeldes deveriam ser julgados no dia 11 de agosto de 1849, mas essa


data foi alterada várias vezes devido à ausência de jurados. Apesar de
derrotados, os praieiros contavam com a simpatia de muitos, que se
recusavam a colaborar com o governo.
 O julgamento acabou sendo realizado no dia 17 de agosto. Foram
pronunciados por crime de rebelião 54 participantes da Praieira, incluindo os
principais líderes. Os trabalhos foram presididos pelo juiz conservador José
Nabuco de Araújo.
 É importante esclarecer o que era o crime de rebelião e ver até que ponto
esse processo foi uma farsa jurídica.
 De acordo com o Código Criminal da época, a rebelião se caracterizaria
quando ocorresse uma reunião de 20 000 pessoas ou mais, com a finalidade
de: destruir a independência ou a integridade do Império; ir contra a
Constituição ou a forma de governo ou mesmo algum artigo constitucional;
destronar o imperador privá-lo de seus poderes constitucionais ou tentar
alterar a ordem legítima de sucessão do trono.
O JULGAMENTO
• Em nenhum momento da Praieira esses artigos
foram desrespeitados. Algumas reformas
exigidas iam contra artigos da Constituição, mas
não eram tão graves quanto o processo indicava.
E quanto às 20 000 pessoas reunidas pelos
rebeldes, é certo que nunca chegaram a isso.
Não havia, portanto, base jurídica para a
condenação dos praieiros por crime de rebelião.
• O resultado do julgamento concretizou a farsa
bem articulada pelos conservadores. As penas
dadas aos principais líderes foram severas:
prisão perpétua para Abreu e Lima, Borges da
Fonseca, Vilela Tavares, Feliciano dos Santos,
Nascimento Feitosa, Leandro César, Antônio
Pessoa de Melo, Henrique Lucena e Lopes Neto.
Apesar de algumas penas terem sido revistas -
em junho de 1850 um novo julgamento absolveu
Abreu e Lima do crime de rebelião, o Partido da
Praia não sobreviveu ao desfecho do processo
judicial. Com a morte, a prisão ou o exílio de
seus principais chefes, o movimento praieiro se
extinguiu. Realizava-se o sonho dos
conservadores

Abreu e Lima
CONCLUSÃO

 Com a derrota da Praieira, consolidou-se a centralização do Império, tão


ameaçada no período regencial. O desejo de autonomia das províncias
naufragou. O governo imperial mostrou sua força no combate aos rebeldes,
colaborando claramente com os conservadores.

 O julgamento dos rebeldes praieiros foi duríssimo, para servir de lição a


quem desconfiasse da firmeza do governo. Era evidente a intenção de evitar
novos movimentos que ameaçassem a unidade do Império.

 A Praieira foi o último movimento de resistência ao centralismo com grande


repercussão no Império. A partir de então, a província de Pernambuco foi
perdendo sua influência. As províncias do Sudeste, em especial São Paulo,
conseguiram ampliar cada vez mais sua força política. O café tornou-se o
grande produto de exportação nacional. E com a riqueza e o poder do café, o
Império brasileiro pôde consolidar sua unidade.
BIBLIOGRAFIA
 História do Exército Brasileiro: perfil militar de um povo. Vol 2.
IBGE. 1972. Brasil. EME, Brasília – DF
 Figueira de Melo, Jerônimo Martiniano. Crônica da Rebelião
Praieira. Senado/UNB. 1978
 Rezende, Antônio Paulo. Recife: que História é essa? Recife.
Fundação da Cultura da cidade do Recife. 1987
 Quintas, Amaro. O sentido social da Revolução Praieira,
Massangana. 1982
 Marson, Isabel A . A Rebelião Praieira. São Paulo, Brasiliense.
1980

 Instituições visitadas durante a pesquisa:


 Fundação Joaquim Nabuco, Recife – Arquivo de
Microfilmagens
 Biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco
 Instituto Ricardo Brennand

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