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Tipos de oralidade nos textos

(Oesterreicher, Wulf. Types of orality in texts. In:


Written voices, spoken signs; tradition, performance, and the epic text
Harvard University Press , Cambridge, MA; 1997, 190-214.)

Profa. Dra. Alessandra Castilho Ferreira da Costa


(PPgEL/UFRN/ PROFLETRAS/UFRN)
Introdução
• Objetivo: discutir tipos de oralidade nos textos
• Exemplos a partir de estudos da Linguística Românica e Filologia
• Tipologia da oralidade nos textos
• Oesterreicher não usa o termo “texto” no mesmo sentido que a Linguística de texto. Ele usa o termo
“texto” para os enunciados escritos.
• Para o autor, oralidade não é o meio de realização, mas o estilo, o modo de expressão, a concepção.
• A distinção entre meio e concepção tem sido feita por uma série de estudiosos: Ludwig Söll, M.A.K.
Halliday, Wallace Chafe, Elinor Ochs, Deborah Tannen, entre outros, mas há uma ambiguidade nos termos
“oral” e “escrito”.
• Necessidade de distinguir entre meio e concepção e, ainda, entre diferentes formas de oralidade na
escrita.
• Mesmo nas sociedades orais, isto é, sem escrita, do ponto de vista da concepção, há enunciados mais ou
menos elaborados.
• Para essa análise, é preciso levar em conta 10 parâmetros de comunicação. Tais parâmetros determinam as
estratégias de verbalização, como densidade informacional, integração sintática, concisão, explicitude,
complexidade, elaboração e planejamento do discurso.
• Papel das tradições discursivas: modelos históricos de produção e repecpção de textos, com um perfil
medial e concepcional.
• Lyons: transferenciabilidade de meio; meio e concepção são independentes. É preciso considerar o espaço
variacional nos estudos históricos e não só a variedade privilegiada.
8 Tipos de oralidade nos textos
• A tipologia, a seguir, não é uma tipologia de fenômenos linguísticos,
mas de motivações e intenções, isto é, de constelações comunicativas
que explicam a concepção do texto e o aparecimento de determinado
fenômeno.
• Um mesmo fenômeno pode ocorrer com motivos diferentes.
• É preciso considerar tais motivações.
Tipo 1: Escrita por semi-cultos
• Escritores inexperientes, que não dominam as normas das variedades
linguísticas e tradições da escrituralidade.
• Isto ocasiona a ocorrência da hipercorreção.
• Exemplos de Oesterreicher: inscrições de Pompéia e Peregrinatio
Egeriae ad Loca Sancta, que é o relato da viagem de uma freira à
Palestina.
• Realidade brasileira atual: exemplos de hipercorreção em produções
textuais de alunos do Fundamental e Médio.
Tipo 2: Escrita por pessoas bilingues em
situação de diglossia
• Quando o escritor não domina a variedade de prestígio da língua
dominante, ele tende a usar variedades da língua de menor prestígio.
• Exemplo de Oesterreicher: cartas pessoais de soldados romanos
• Exemplo do PB: testamentos norte-rio-grandenses do século XIX.
Tipo 3: Escrita informal
• O enunciador domina as variedades e tradições da linguagem mais
formal, mas a familiaridade com o interlocutor ou a espontaneidade
na comunicação ocasionam o aparecimento de fenômenos da
imediatez.
• Esse tipo de oralidade aparece com frequência em textos de caráter
pessoal.
• É um tipo de variação diafásica.
• Exemplos: cartas, notas pessoais, bilhetes, etc.
Tipo 4: Transcrição de conversações orais
• Alguns textos permitem o registro de fenômenos da imediatez de
forma fidedigna, tais como textos jurídicos, em que falas são
transcritas palavra por palavra, o que permite a identificação de
expressões de insulto, por exemplo.
• Esses textos são importantes para a variação diatópica e diafásica.
• Exemplo da realidade do PB: processos do Santo Ofício no Brasil,
estudados por Laura de Mello e Souza em “O diabo e a terra de Santa
Cruz”.
Tipo 5: Escrita ajustada ao nível mais baixo de
competência dos interlocutores
• O enunciador é um escritor competente, que domina as variedades
linguísticas e tradições da distância comunicativa, mas usa uma
linguagem simples para adequar seu discurso a um público menos
proficiente e torná-lo compreensível.
• É uma escolha individual.
• Exemplo: conversa com crianças, estrangeiros ou pessoas simples.
Tipo 6: Escrita influenciada por TD ou gêneros
da “simplicidade”
• Neste tipo de ajuste, a escolha não é individual, mas está ligada a
uma tradição discursiva.
• Por exemplo, textos de autores cristãos durante o Império Romano,
que buscavam atingir a base da pirâmide social e, por isso usavama
tradição sermo piscatorius.
• Agostinho: “It is better that the grammarians should find us at fault,
than that the masses should fail to understand us”.
• Outros exemplos: manuais de diversos tipos e livros de receitas
culinárias.
Tipo 7: Escrita segundo o padrão retórico
simples
• O estilo “humilde” na retórica aparece em alguns gêneros como
reação à linguagem exageradamente rebuscada.
• A intenção é criar a impressão de naturalidade e simplicidade. Por
isso, esse estilo não é idêntico à linguagem da imediatez.
• Exemplos: ideal na Renascença de escrever como se fala.
• Outros exemplo do Português: secretários de cartas, como o Novo
secretario portuguez; ou, Codigo epistolar contendo regras e
advertencias para escrever com elegancia toda a sorte de cartas
acompanhadas de modelos sobre todos os assumptos (1877), de José
Ignácio Roquete.
Tipo 8: Mímesis da imediatez ou oralidade
fingida.
• Trata-se da recriação literária da oralidade.
• Uma marca distintiva desse tipo de oralidade é que ela incorpora material
linguístico diretamente da oralidade concepcional, da fala casual, dado que
o autor de um romance ou de uma peça teatral se utiliza da fala como
dispositivo literário para caracterizar personagens e situações dramáticas e
reforçar a verossimilhança.
• Exemplos: as comédias de Plauto e o Satirium de Petrônio, em que novos-
ricos incultos são parodiados por meio da evocação do bilinguismo latim-
grego em voga no sul da Itália nessa época.
• O diálogo literário é sempre uma simulação, mas o autor do texto literário
sempre selecionará elementos linguísticos específicos, formas e
construções do nível universal ou idiomático que são considerados
particularmente característicos da oralidade concepcional.
Algumas observações sobre esse 8 tipos
• Os 8 tipo de oralidade dizem respeito a qualquer sociedade;
• Uma análise adequada da oralidade depende uma descrição do contexto histórico
específico da situação de comunicação;
• A pesquisa linguística diacrônica deve levar em conta essa tipologia e faze o cotejo dos
fenômenos com a literatura metalinguística;
• É preciso distinguir entre oralidade universal e idiomática; alguns fenômenos estão num
nível; outros, noutro;
• A identificação dos fenômenos de variedades não prestigiadas depende uma
classificação anterior do texto segundo o perfil sociolinguístico do enunciador;
• na perspectiva variacional, é preciso considerar tanto as condições de comunicação
quanto as tradições discursivas;
• A análise da oralidade em textos literários deve levar em conta que tais textos não
refletem a espontaneidade da imediatez; é uma oralidade estilizada a partir de
determinados fenômenos.
Status da poesia oral
• O que exatamente é oral na poesia oral?
• Para responder isso, é necessário analisar o perfil concepcional da poesia
épica.
• 5 aspectos precisam ser considerados nessa análise:
• A produção ou composição do poema épico (o poema épico é encenado diante de
um grande público; maior formalidade; mas há a presença de mímica, gestos,
entonação, etc.);
• A estrutura textual e linguística do poema épico (tópico fixo);
• As modalidades de comunicação do discurso épico;
• Aspectos da recepção e da interação com o público (monológico);
• Condições de conservação e transmissão do poema épico
• Movência dos textos
Traços em geral considerados como típicos da
oralidade na poesia épica
• uso de fórmulas e repetições de elementos narrativos;
• uso de cenários deicticos hic-et-nunc para os episódios narrados
(demonstratio ad oculos: aqui, ali, agora, etc.);
• introdução de relações dêiticas baseadas no ego na narrativa (eu / meu,
nós nosso; pronomes pessoais e possessivos);
• uso do Presente do Indicativo e formas relacionais;
• Interpelação do público e exclamações do cantor;
• uso de discurso direto;
• Expressão de emocionalidade (metáforas e figuras de linguagem);
• Segmentação por meio de parataxe e ocorrência de anacolutos e elipses.
• Mas esses traços não significam que a poesia épica seja um simplesmente um decalque da
imediatez comunicativa.
• Há uma série de fatores que refutam a hipótese de decalque:
• nem o autor nem o cantor de poemas épicos mostra o tipo de deficiências que encontramos
em indivíduos semicultos;
• O poeta épico também não é o tipo de pessoa bilíngue em situação de diglossia;
• As condições comunicativas dos épicos como poesia e reencenação de um discurso
orientado para a performance não permitem
• Um tipo de discurso relaxado;
• O discurso direto no poema épico não é idêntico à fala autêntica encontrada registros e
transcrições de falas espontâneas (personagens épicos falam normalmente com
solenidade);
• o discurso épico é um gênero da alta literatura e não corresponde ao nosso esboço de tais
tradições discursivas que têm como destinatário as camadas inferiores analfabetas da
sociedade;
• quaisquer que sejam os tipos de simplicidade estilística que encontramos nas epopéias orais
não são determinados por postulados de estilo anti-retórico, anti-rebuscado;
• o único tipo que pode ter alguma influência sobre o problema é o último tipo, mas mesmo
este tipo de simulação ou mimesis de oralidade deve ser considerado com cuidado.
• Quer dizer, é preciso investigar se aquilo que estamos considerando como fenômenos de
oralidade nesses textos é realmente fenômeno de oralidade. Para tanto, é preciso
considerar as motivações socio-culturais e estéticas do poema épico.