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Breves reflexões sobre a política brasileira contemporânea

à luz do conceito habermasiano de esfera pública


Vitor Vieira Ferreira

Engajamento em foco: língua, discursos históricos e representações sociais


V Jornada de Debates do Programa de Mestrado em Letras (PROMEL/UFSJ) em parceria com o Grupo de Pesquisa Linguagem e Discursos da História (LIEDH/UFRJ)
Sobre o conceito de esfera pública 1

• Mudança estrutural da esfera pública (1962) (MEEP) de Jürgen Habermas (Düsseldorf, 1929).
- Primeira grande obra (Habilitationsschrift) do autor.
- Uma das obras mais importantes para se compreender a distinção entre público e privado.
- Objeto de análise: conceito de esfera pública (Öffentlichkeit), sua realização histórica (Alemanha,
Inglaterra e França, entre os séculos XVIII e XIX) enquanto uma categoria da sociedade burguesa e sua
transformação estrutural desde então até o presente momento da produção da obra.
- Esfera pública se apresenta tanto como A) uma realização histórica específica observável quanto B)
como um ideal normativo válido para a contemporaneidade.

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Sobre o conceito de esfera pública 2

• Algumas definições:
“Uma parcela da esfera pública surge em toda conversa na qual indivíduos privados se reúnem para formar um
corpo público. Eles então se comportam não como pessoas de negócios ou profissionais tratando de assuntos
privados, nem como membros de uma ordem institucional sujeita a coação da burocracia de um Estado. Cidadãos
se comportam como um corpo público quando deliberam sobre assuntos de interesse geral de modo irrestrito – isto
é, com a garantia de possuírem liberdade para se reunirem, associarem, expressarem e tornarem públicas suas
opiniões” [tradução própria] (HABERMAS, 1974, p. 49).

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Sobre o conceito de esfera pública 3

• Algumas definições:
“A esfera pública constitui um espaço de interação comunicativa racional - meio principal de se chegar a um
entendimento coletivo. Sob condições modernas, a esfera pública política na comunidade democrática desempenha
papel central na integração social. Debates públicos formam a base de legitimação das decisões políticas. De
acordo com Habermas, tais espaços servem de medida normativa para a crítica da realidade social e, ao mesmo
tempo, representam um meio de aprendizagem coletiva” [tradução própria] (NANZ, 2009, p. 605).

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Sobre o conceito de esfera pública 4

• Alguns traços característicos:


- Acessibilidade.
- Visibilidade.
- Coletividade.
- Distinção frente ao privado\íntimo.
- Zona de mediação entre indivíduos e forças privadas ou estatais.
- Espaço de interação comunicativa racional.

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Esfera pública e a situação política brasileira atual 5

• Penetração das computer mediated communication (doravante CMC) (cf. THURLOW et al, 2004, p.14 et seq.) na
vida social e o potencial da internet.
• A grande mídia “superada”.
• O véu da pretensa racionalidade.

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CMC e Internet 6

• Pressuposto: ubiquidade da CMC.


• Atributos para análise da CMC (cf. POE, 2011):
- Acessibilidade.
- Volume.
- Velocidade.
- Alcance.
• Potencial para que se constitua como um espaço de esfera pública.

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CMC e Internet 7

• Argumento: de fato, a liberdade dos produtores individuais de conteúdo (cidadãos comuns) não é colocada em
xeque, a priori, pelos interesses privados específicos das empresas que concebem, desenvolvem e disponibilizam
as ferramentas de CMC (redes sociais, comunicadores, blogs etc.). Tais conteúdos também não são por estas
determinadas em função de seus interesses. Contrapõe-se a isto, contudo, a formação da filter bubble, que tão
somente reafirma as inclinações privadas destes produtores individuais. Resulta daí o evidente fenômeno da
polarização política; com destaque para o papel central destas formas de CMC em processos eleitorais recentes.

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Habermas sobre a mídia de massa 8

• A crítica habermasiana quanto à mídia de massa.


- Grande imprensa passa a ser regulada por uma lógica de mercado, dedicando-se a expandir seu raio de
atuação com o objetivo de promover a venda de produtos e serviços por meio da propaganda.
- O debate racional e político cede espaço para o consumo de cultura de massa.
- Meios de comunicação em massa constituem-se como esfera pública apenas na aparência.

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A narrativa de “superação” da grande mídia 9

“[...] vivíamos na era da grande mídia, onde os grandes veículos de comunicação desenhavam a visão que o brasileiro tinha da realidade. [...] O
controle da mídia ocupado por essa classe ideologicamente homogênea levava inevitavelmente a opinião popular a viverem (sic) em um mundo
falso e a rejeitar como loucura qualquer informação que não combinasse com aquele estreito padrão de verossimilhança imputados (sic) por ela. É
justamente por isso que o que se transmite nos jornais, o que se mostra nas novelas, e o que reverbera das bocas dos formadores de opinião
sempre esteve totalmente distante da realidade popular. Essa dinâmica só passou a mudar quando a internet deu voz a um sem número de
brasileiros que rejeitavam a narrativa imposta pela grande mídia. Os veículos de imprensa alternativos, os blogs e os cidadãos comuns que passaram
a se manifestar nas redes sociais começaram a desmistificar aquilo que era propagado pela mídia tradicional. O que causou uma verdadeira
revolução. Uma mudança de paradigma na sociedade que possibilitou, pela primeira vez, que um representante da direita ocupasse o cargo máximo
dessa república. Bolsonaro é fruto dessa revolução”.

O Antagonista, Felipe M. Brasil, e a formação da “ISENTOSFERA”


112.156 visualizações / 16 de out. de 2019
https://www.youtube.com/watch?v=Y5m2MBXkyxk

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Sob o véu da pretensa racionalidade 10

• Habermas: racionalidade como elemento fundamental para a esfera pública.


• Sobre debates e refutações.
• As estratégias de Arthur Moledo do Val,
Gabriel Monteiro e outros.

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Palavras finais 11

• Internet e formas de CMC apresentam, estruturalmente, limitações a uma efetiva realização de esfera pública.
• Formas alternativas para a circulação de produções discursivas devem ser avaliadas nos termos de suas formas e
conteúdos.
• “Irracionalidade”, “manipulação midiática” e outras avaliações não dão conta da complexa trama discursiva que
poderia ser rotulada como “bolsonarismo” ou “a ascensão da extrema direita”.

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Bibliografia

HABERMAS, J.. The Public Sphere: An Encyclopedia Article. New German Critique (3), p. 49-55, 1974.

NANZ, Patrizia. Public Sphere. In: BRUNKHORST, H.; KREIDE, R.; LAFONT, C. (EDS.). The Habermas handbook. New
York: Columbia University Press, 2017.

POE, M. A history of communications: media and society from the evolution of speech to the Internet.
Cambridge ; New York: Cambridge University Press, 2011.

THURLOW, C.; LENGEL, L.; TOMIC, A. Computer mediated communication, social interaction and the internet.
Reprinted ed. Los Angeles: SAGE, 2004.

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