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“A África diante do desafio colonial”

Albert Adu Boahen


Na história da África jamais se sucederam tantas e tão
rápidas mudanças como durante o período entre 1880 e
1935. Na verdade, as mudanças mais importantes, mais
espetaculares – e também mais trágicas –, ocorreram
num lapso de tempo bem mais curto, de 1880 a 1910,
marcado pela conquista e ocupação de quase todo o
continente africano pelas potências imperialistas e,
depois, pela instauração do sistema colonial. A fase
posterior a 1910 caracterizou-se essencialmente pela
consolidação e exploração do sistema.
O desenvolvimento desse drama foi verdadeiramente
espantoso, pois até 1880 apenas algumas áreas bastante
restritas da África estavam sob a dominação direta de
europeus.
Em toda a África ocidental, essa dominação limitava-se às
zonas costeiras e ilhas do Senegal, à cidade de Freetown e
seus arredores (que hoje fazem parte de Serra Leoa), às
regiões meridionais da Costa do Ouro (atual Gana), ao
litoral de Abidjan, na Costa do Marfim, e de Porto Novo,
no Daomé (atual Benin), e à ilha de Lagos (no que
consiste atualmente a Nigéria). Na África setentrional, em
1880, os franceses tinham colonizado apenas a Argélia.
Da África oriental, nem um só palmo de terra havia
tombado em mãos de qualquer potência europeia,
enquanto, na África central, o poder exercido pelos
portugueses restringia- se a algumas faixas costeiras de
Moçambique e Angola. Só na África meridional é que a
dominação estrangeira se achava firmemente
implantada, estendendo-se largamente pelo interior da
região
Até 1880, em cerca de 80% do seu território, a África era
governada por seus próprios reis, rainhas, chefes de clãs e
de linhagens, em impérios, reinos, comunidades e
unidades políticas de porte e natureza variados. No
entanto, nos trinta anos seguintes, assiste-se a uma
transmutação extraordinária, para não dizer radical, dessa
situação. Em 1914, com a única exceção da Etiópia e da
Libéria, a África inteira vê-se submetida à dominação de
potências europeias e dividida em colônias de dimensões
diversas, mas de modo geral, muito mais extensas do que
as formações políticas preexistentes e, muitas vezes, com
pouca ou nenhuma relação com elas. Nessa época, aliás,
a África não é assaltada apenas na sua soberania e na sua
independência, mas também em seus valores culturais.
Em 1891, quando os britânicos ofereceram proteção a
Prempeh I, rei dos Ashanti, na Costa do Ouro (atual Gana), ele
replicou:

“A proposta para o país Ashanti, na presente situação,


colocar-se sob a proteção de Sua Majestade, a Rainha e
Imperatriz da Índia, foi objeto de exame aprofundado, mas me
permitam dizer que chegamos à seguinte conclusão: meu
reino, o Ashanti, jamais aderirá a uma tal política. O país
Ashanti deve continuar a manter, como até agora, laços de
amizade com todos os brancos. Não é por ufanismo que
escrevo isto, mas tendo clareza do significado das palavras
[...]. A causa dos Ashanti progride, e nenhum Ashanti tem a
menor razão para se preocupar com o futuro ou para
acreditar, por um só instante, que as hostilidades passadas
tenham prejudicado a nossa causa.”
Em 1895, Wogobo, o Moro Naba, ou rei dos Mossi
(na atual República do Alto Volta), declarou ao
oficial francês, capitão Destenave:

“Sei que os brancos querem me matar para tomar o


meu país, e, ainda assim, você insiste em que eles
me ajudarão a organizá-lo. Por mim, acho que meu
país está muito bem como está. Não preciso deles.
Sei o que me falta e o que desejo: tenho meus
próprios mercadores; considere- se feliz por não
mandar cortar-lhe a cabeça. Parta agora mesmo e,
principalmente, não volte nunca mais.”
A guerra dos Ashanti, em 1896 (Costa do Ouro): o invasor britânico equipado com
metralhadora Maxim. (Fonte: Musée de l’Homme).
Genocídio na Namíbia (1904-1905)