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Os primeiros filósofos e o

desenvolvimento da filosofia
• Segundo a tradição, a filosofia grega teve
início em 585 a.C e chegou ao fim em 52
d.C;
• Originou-se quando Tales de Mileto,
primeiro filósofo grego, previu um eclipse
do sol; terminou quando o imperador
cristão Justiniano proibiu o ensino de
filosofia pagão na Universidade de Atenas;
• Essa proibição, contudo, não pôs um fim
abrupto à filosofia e ao filosofar, na medida
em que os gregos cultivavam pensamentos
filosóficos desde 585 a.C;
• Três divisões da filosofia:
• Primeira divisão: denominada de anos verdes
(585 a.C-400 a.C); período em que um grupo
de jovens geniais e inexperientes estabeleceu
o escopo e determinou os problemas
principais da filosofia – início da organização
conceitual e da montagem de sua estrutura.
• Segunda divisão: período das escolas
filosóficas – de Platão, de Aristóteles, dos
epicuristas, dos estóicos e dos céticos –
desenvolvimento de sistemas de pensamento –
ampla submissão críticas desses sistemas de
pensamento; chegou ao fim em 100 a.C.;
• Terceira divisão: mais extenso desse período –
marcado pela erudição e sincretismo; os
pensadores posteriores estudaram
exaustivamente seus predecessores –
produziram comentários e interpretações –
procuraram extrair um sistema coerente e
unificado de pensamentos que incluísse o que
havia aparecido de melhor nessas doutrinas
antigas;
Os filósofos pré-socráticos
• Filosofia: palavra grega cujo significado
etimológico significa “amor à sabedoria”; o
termo filosofia é empregado em um sentido
amplo, envolvendo todos os âmbitos do mundo;
• Três divisões da filosofia:
• a) Lógica: estudo da linguagem e do significado,
bem como estudo do pensamento e da
argumentação;
• Ética: referia-se ao estudo da teoria moral e
política;
• Física: tratava-se do estudo da natureza e dos
fenômenos do mundo natural;
• Os pré-socráticos eram considerados “físicos” –
Aristóteles denomina-os physikoi, e sua
atividade, physiologia – eram estudantes da
natureza, e seu campo de interesse, o estudo da
natureza;
• Importante: não havia distinção, no período pré-
socrático, entre ciência empírica e filosofia
especulativa – tampouco haviam especializações
e fronteiras intelectuais como ocorre nos nossos
dias;
• Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto,
Anaxímenes de Mileto e Heráclito de Éfeso –
considerados os primeiros filósofos gregos;
• Considerados os primeiros physicos,
“estudantes da natureza” ou “filósofos da
natureza”;
• O empenho dos primeiros filósofos era o de
revelar a “verdade sobre a natureza”:
descrever, explicar e organizar o universo e
todos os seus componentes;
• Objeto de investigação dos filósofos pré-
socráticos: observações detalhadas de
numerosos fenômenos naturais – os eclipses
e os movimentos dos corpos celestes; o
trovão, a chuva o granizo e o conjunto dos
“fenômenos meteorológicos”; tratava-se de
estudar os animais, os minerais e as plantas –
sua procriação, seu desenvolvimento, sua
alimentação e morte; por fim, tratava-se de
estudar o próprio homem – os aspectos
biológicos, psicológicos, sociais, políticos e
culturais que compõem a vida humana.
• Os filósofos pré-socráticos foram os
responsáveis por estudar primeiramente
questões que se tornariam o objeto
privilegiado de campos do saber como a
astronomia, a física, a botânica, a
psicologia, a zoologia etc.
• Na segunda metade do século V aparecem
os sofistas – Protágoras, Górgias e Hípias,
entre outros – mestres hábeis em ensinar a
virtude, a retórica e o êxito prático – o
objetivo dos seus ensinamentos era vencer
o debate e não alcançar a verdade;
Importância dos pré-socráticos para o
desenvolvimento da filosofia e da
ciência/razão
• Inventaram a própria ideia de ciência e filosofia:
a) descobriram uma forma específica de perceber o
mundo, que é a científica e racional;
b) b) viam o mundo como algo ordenado e inteligível,
cuja história obedecia a um desenvolvimento
explicável, sendo suas diferentes partes organizadas
em algum sistema compreensível;
c) o mundo não se caracteriza, para eles, numa reunião
aleatória de partes, tampouco sua história é uma
reunião arbitrária de eventos;
d) o mundo não é uma série de eventos
determinados pela vontade – ou capricho – dos
deuses;
e) o mundo obedece uma ordem sem ser
governado pelo divino; trata-se de uma ordem
intrínseca, isto é, os princípios internos da
natureza são suficientes para explicar a natureza
e a história;
f) os eventos do mundo são estruturados de tal
modo que se encaixam e interligam mutuamente
– trata-se, portanto, de explicá-los.
• Inventaram nomenclaturas científicas:
• a) Cosmos: universo, totalidade das coisas – é
também o universo ordenado e o universo
elegante;
• b) Physis: natureza; deriva de um verbo cujo
significado é crescer; o conceito de natureza
pode se referir tanto ao mundo natural como
ao mundo artificial, entre as coisas que se
desenvolvem e as coisas que são fabricadas;
discorrer sobre a natureza significa abordar o
mundo em sua totalidade.
• c) Logos: razão. Os pré-socráticos não se
contentavam com o mero enunciado – faziam
uso da razão, do raciocínio, da argumentação,
da evidência etc. para explicar o mundo e suas
causas; explicar algo é expor as razões últimas
desse algo.
• d) Arché: princípio originário – investigar a
natureza das coisas implica em investigar os
primeiros princípios – trata-se de uma
investigação de todos os componentes dos
objetos naturais;
• O cosmos é constituído de alguns princípios
essenciais:
• Tales: água;
• Heráclito: fogo;
• Anaxímenes: ar;
• Xenófanes: terra;
• Pitágoras: números;
• Etc.
O Sócrates de Platão
• Platão (428-348 a.C) – primeiro filósofo grego a
tematizar em sua obra questões ético-filosóficas
que nos são caras até hoje;
• Em seus primeiros diálogos – ditos “diálogos
socráticos” – Platão ainda está totalmente
influenciado por seu mestre Sócrates (470-399
a.C);
• Os diálogos se desenrolam diretamente entre
Sócrates e seus interlocutores em torno de
conceitos éticos como a amizade (Lisis), a virtude
(Mênon), a coragem (Laques), o sentimento
religioso (Eutífron).
• Os diálogos socráticos possuem um estilo
aporético (são inconclusivos), isto é, não
encontramos neles respostas definitivas para os
problemas cruciais abordados;
• Nestes diálogos, Sócrates estava preocupado (I)
com o desenvolvimento da consciência moral dos
indivíduos, (II) com o desenvolvimento de uma
atitude reflexiva e crítica que nos leve a adotar
comportamentos mais éticos, e (III) não lhe
interessava a formulação de um saber sobre a
ética e seus conceitos pronto e acabado; “Uma
vida sem exame não vale a pena ser vivida”
(Apologia 38a).
• O indivíduo ético aparece, tanto nos diálogos
socráticos como nos escritos posteriores, de
maturidade (por exemplo, A República), tendo
duas características principais:
• a) o indivíduo que age de modo ético é aquele
capaz de “autocontrole”, de “governar a si
mesmo” (tese principal do Górgias);
• b) o agir corretamente e a capacidade de tomar
decisões éticas depende de um conhecimento do
BEM (causa de tudo o que é reto e belo – A
República, 517c) só é adquirido por meio de um
lento e longo processo de amadurecimento
espiritual, de “ascensão da alma”; este indivíduo
é capaz de agir de forma justa.
Górgias – O melhor é o mais forte

• Górgias: é um dos primeiros diálogos


socráticos – tema principal: a retórica, ou arte
do discurso.
• O diálogo é dividido em três partes:
• a) Na primeira parte (447a-460b), Sócrates
discute com Górgias, sofista nascido na Sicília,
em Leontine, na época considerado um dos
maiores mestres da retórica; o tema é a
natureza da retórica.
• Sócrates: a retórica é uma simples techné cuja
função é persuadir; não serve para ensinar ou
produzir o verdadeiro conhecimento;
• b) Na segunda parte (461a- 480e), Sócrates tem
como interlocutor Polo, um discípulo de Górgias,
e o tema principal continua sendo a discussão
sobre a natureza e a utilidade da retórica;
• c) Na terceira parte (481a-522e), o interlocutor
de Sócrates é Cálicles, personagem fictício
representado por um jovem e ambicioso político
ateniense que defende o exercício do poder
político pelos mais fortes, sem nenhum
compromisso com a moral e os princípios éticos;
• Sócrates: no exercício do poder político, os princípios
éticos devem prevalecer sobre a força – o “melhor” é
aquele que, em primeiro lugar, é capaz de ter equilíbrio
e autocontrole;
• Cálicles: afirma que, na democracia ateniense, as leis
foram impostas pela maioria, composta pelos mais
fracos, para impedir os mais fortes, hábeis e
inteligentes de exercer o poder como quisessem
(483b);
• Sócrates contesta a afirmação de que o melhor é o
mais forte, fazendo com que seu oponente caia em
contradição: se fosse assim, um bando de escravos,
cuja única força é a dos músculos, poderia ser
caracterizado como os melhores – o que o próprio
Cálicles passa a admitir (488c).
• Início do diálogo: [488a-491e) Sócrates questiona
Cálicles sobre o significado da expressão direito
conforme a natureza; estaria implícito na
expressão direito por natureza a tese de que seria
legítimo ao indivíduo mais forte tomar aquilo que
pertence ao indivíduo mais fraco? Além disso,
Sócrates questiona, na mesma expressão, se o
melhor deveria mandar nos piores e o superior se
impor sobre o inferior?
• Cálicles responde prontamente que sim: seria
legítimo (correto) que o indivíduo mais forte tome
o que pertence ao mais fraco, e que o indivíduo
melhor ou superior mande nos piores ou
inferiores;
• Sócrates volta a questionar Cálicles: “melhor”
e “mais forte” possuem o mesmo significado?
• Vejamos a passagem do texto:
• Sócrates: “Recorda-me, por favor, no que
consiste o direito segundo a natureza, tal
como o entendes no mesmo sentido de
Píndaro. Estou enganado em supor que isso
significa que o mais forte tem o direito de
tomar aquilo que pertence ao mais fraco? E
que o melhor deve mandar nos piores e o
superior se impor aos inferiores” (p. 19)?
• Cálicles: “Não estás enganado, é isso que eu dizia
e confirmo” (p.19).
• Sócrates: Mas queres dizer que “melhor” (béltion)
e “mais forte” significam a mesma coisa? Não
entendi bem se era isso que querias dizer. Por
“mais forte” queres dizer aqueles que têm maior
força física, e devem os mais fracos sempre
obedecê-los? Era o que querias dizer quando
afirmaste que as cidades mais fortes tinham o
direito de atacar as mais fracas, de acordo com a
lei natural, simplesmente por serem mais fortes,
equivalendo-se assim o “mais poderoso”, o “mais
forte” e o “melhor” (p. 19-20)?
• [...] Não é possível ser melhor e ao mesmo
tempo mais fraco, com menos força, e
também mais forte, porém pior? Ou devem
“melhor” e “mais forte” ser definido do
mesmo modo? São esses termos que gostaria
que fossem mais claramente definidos: são
“mais forte” e “mais poderoso” sinônimos
(p.20)?
• Cálicles: digo claramente que são sinônimos”.
• Sócrates: Mas não é a maioria naturalmente
mais forte do que o indivíduo?
• Cálicles: É claro.
• Sócrates: Então as leis impostas pela maioria são
impostas pelo mais forte?
• Cálicles: Certamente.
• Sócrates: E, portanto, pelos melhores? Segundo a
tua definição, os mais fortes são os melhores.
• Cálicles: Sim.
• Sócrates: E assim sendo, uma vez que são os mais
fortes, as leis que estabelecem são por natureza
boas?
• Cálicles: Concordo.
• Sócrates: Mas não é verdade, como dizias há
pouco, que na opinião da maioria a justiça diz
respeito à igualdade e que é pior praticar uma
injustiça do que sofrê-la? Não é assim? [...] A
maioria acredita ou não que a justiça consiste na
igualdade e não na desigualdade e que mais vale
sofrer uma injustiça do que praticá-la? [...].
• Cálicles: É certo que assim pensa a maioria.
• Sócrates: Portanto, parece que a crença de que é
pior praticar uma injustiça do que sofrê-la e de
que a justiça consiste na igualdade não é apenas
uma questão de convenção, mas também de
natureza [...].
• Cálicles: [...] Achas que quero dizer algo de
diferente quando digo “mais fortes” ou
“melhores”? Não estou dizendo há bastante
tempo que entendo serem o “melhor” e o “mais
forte” o mesmo? Ou tu supões que em meu
entender um bando de escravos e de indivíduos
desqualificados, cuja única qualidade é a força
física, pode determinar a lei?
• Sócrates: Dize-me afinal se por “melhores” e
“mais fortes” entendes os “mais inteligentes” ou
alguma outra coisa.
• Cálicles: Sim, é a isso que me refiro.
• Sócrates: Então, segundo essa concepção, um
homem de bom entendimento pode ser mais
forte do que dez mil tolos e por isso deve
governá-los. Os tolos devem aceitar os mandos
do mais forte, a quem cabe a maior parte de
tudo. É isso que tu pareces querer dizer [...]
(p.21).
• Cálicles: É isso que quero dizer. Creio que a lei
natural consiste em o melhor e de maior
entendimento governar os demais e ter a
maior parte em tudo (p. 21).
• Sócrates: Mas, por favor, diga-me então em
que esfera um homem deve demonstrar sua
superioridade em termos de força e
inteligência para ter direito a uma vantagem
sobre os demais? [...].
• Cálicles: Já disse o que penso, Sócrates.
Quando me refiro ao mais forte, [...] refiro-me
àqueles que têm entendimento sobre como
governar. E não apenas entendimento, mas
coragem para realizar o que pretende sem
fraquejar (p. 22).
• Notem que Cálicles dá três respostas diferentes
ao questionamento de Sócrates:
• a) melhores e mais fortes eram os de maior
força física;
• b) melhores e mais fortes eram os de melhor
entendimento;
• c) melhores e mais fortes são, agora, os de
coragem;
• Cálicles explica então que está se referindo às
pessoas entendidas em negócios políticos e com
coragem para realizar seus propósitos; são estes
que devem governar os estados e, enquanto
governantes, é de direito que os demais estejam
subordinados a eles;
• Sócrates acrescenta um componente importante
ao debate: o governo de si mesmo.
• Sócrates: “Mas em relação a si mesmos, eles
governam ou são governados”?
• Governar a si mesmo significa ser equilibrado e
capaz de autocontrole, dominar os desejos e as
paixões (p.23).
Conclusões preliminares: a) Cálicles é um jovem
e ambicioso político ateniense que defende o
exercício do poder político pelos mais fortes; b)
Sócrates quer mostrar a Cálicles que o exercício
do poder político deve obedecer aos princípios
éticos e morais; c) A ética grega envolve o
“conhecer-se a si mesmo”, o “governo de si”
(governo das paixões, dos instintos etc.); d) O
governo de si é condição de possibilidade para o
governo dos outros; e) governar bem a si
mesmo e aos outros é governar conforme a
justiça – virtude por excelência de toda a
atividade humana.
Górgias – É melhor sofrer ou praticar uma
injustiça
• Tese defendida por Sócrates: o indivíduo que
comete injustiças e causa danos a outro será visto
como injusto e perverso; isso lhe causará
problemas de reputação e de convívio em
sociedade; e, portanto, lhe causará danos;
• Não se pode ser feliz fazendo o Mal, por isso é
preferível sofrer uma injustiça do que praticá-la;
• Aquele que faz o Mal, ao ser punido, expia sua
culpa, fica quite com a sociedade e consegue
voltar a ser feliz;
• O diálogo dá continuidade ao tema
desenvolvido no diálogo anterior: o exercício
do poder sobre qualquer pessoa supõe que
aquele que o exerce seja capaz, em primeiro
lugar, de controlar a si mesmo para agir de
modo justo e equilibrado com os demais;
• [469b-c] Sócrates: Porque o maior dos males
consiste em praticar uma injustiça.
• Polo: Esse é o maior? Não é o maior sofrer
uma injustiça?
• Sócrates: Absolutamente não.
• Polo: Preferirias então sofre uma injustiça a
praticá-la?
• Sócrates: Não preferiria uma coisa nem outra;
mas se fosse inevitável, sofrer ou praticar uma
injustiça, preferiria sofrê-la.
• 478d-e- Sócrates: Considerando-se dois
doentes, seja do corpo ou da alma, qual o
mais infeliz: o que se trata e obtêm a cura, ou
aquele que não se trata e permanece doente?
• Polo: Evidentemente, aquele que não se trata.
• Sócrates: É verdade que pagar pelos próprios
crimes seria a libertação de um mal maior?
• Sócrates: Isso porque a justiça é uma cura
moral que nos disciplina e nos torna mais
justos?
• Polo: Sim.
• Sócrates: O mais feliz, porém, é aquele que
não tem maldade na alma, pois ficou provado
que esse é o maior dos males.
• Polo: É claro.
• Sócrates: Em segundo lugar vem aquele que
dessa maldade foi libertado;
• Polo: Naturalmente.
• Sócrates: Conclui-se então que o maior mal
consiste em praticar uma injustiça.
• Polo: Sim, ao que parece.
• Sócrates: No entanto, ficou claro que pagar por
seus crimes leva à libertação do mal.
• Polo: É possível que sim.
• Sócrates: E não pagar por eles é permanecer no
Mal.
• [...] Sócrates: Cometer uma injustiça é então o
segundo dos males, sendo o primeiro, e maior,
não pagar pelos crimes cometidos.
• Sócrates: [...] Será sempre mais infeliz o autor
da injustiça do que a vítima, e mais ainda
aquele que permanece impune e não paga
por seus crimes.
• [508e-509d] – Sócrates: Afirmo, Cálicles, que
o maior mal não é ser golpeado na face sem
motivo, ou ser ferido, ou roubado. Bater-me e
ferir a mim e aos meus, escravizar-me, assaltar
minha casa, ou, em suma, causar a mim e aos
meus algum dano é pior e mais desonroso
para quem o faz do que para mim, que sofro
esses males.