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V SEMINÁRIO MILBA

"Entre tradição e contemporaneidade:


insubmissas vozes de mulheres”

“Gibi de Menininha – historietas de terror e putaria”:


Treze quadrinistas mulheres transgredindo os lugares-comuns
de uma estética feminina idealizada.

Bruno Fernandes Alves


Ded - UFRPE
Origens das Histórias em Quadrinhos

A primeira forma de comunicação entre os antepassados do homem, num contexto onde as linguagens falada e
escrita ainda não existiam, se deu através da imagem. (ALVES, 2003, p. 7)

A utilização deliberada de imagens em sequência para relatar um fato podem ser encontradas nas primeiras
civilizações, como as egípcia e astecas (McCLOUD, 1995, p. 14)

Códice Asteca
Século XVI
A linguagem moderna dos quadrinhos. A partir de 1896 jornais norte-americanos
começaram a publicar quadrinhos, expandindo a linguagem para o grande público.

Rudolph Töpffer. M. Vieux Bois, 1827 Wilhelm Busch. Max und Moritz, 1865

Angelo Agostini. Zé Caipora, 1883 Christophe. La Familie Fenoulliard, 1889


Na historiografia oficial dos quadrinhos, apenas produções feitas por homens é referenciada. Porém, a primeira tira
feminina foi publicada em 1896, mesmo ano de publicação do personagem The Yellow Kid, de Richard Outcault, citado
até hoje como a hq que tornou a linguagem popular. A pesquisadora e quadrinista norte-americana Trina Robbins tem
revisado essa historiografia.

“The Old Subscriber Calls”, de Rose O’Neill, primeira tira feminina publicada, em 1896, na revista Truth.
Mary Shelley, autora da primeira obra de ficção científica: Frankstein: ou o Moderno Prometeu (1818)
A Rainha do Ignoto, primeiro romance brasileiro de fantasia e ficção científica, escrito por Emília Freitas e
publicado em 1899. A narrativa mostra uma rainha que habita uma ilha onde funciona uma sociedade
feminina, composta por mulheres que sofreram algum tipo de sofrimento. A obra aborda as mazelas da
sociedade patriarcal da época.
Camille Claudel, escultora francesa (1864-1943) O Abandono, 1905.
Margaret Keane, pintora norte-americana dos
anos 1950-1960 cuja obra foi atribuída, durante
anos, ao seu marido Walter Keane.
Linda Nochlin, no artigo Why have there beenno great women artists?, (1989), pergunta sobre as mulheres artistas
esquecidas no discurso oficial da história da arte (LOPONTE, 2005, p. 36)

A relação entre as mulheres e a criação artística na cultura ocidental baseia-se na “hipervisibilidade da mulher como
objeto da representação e sua invisibilidade persistente como sujeito criador” (Mayayo, 2003, p. 21 apud Loponte,
2005, p. 37. grifos nossos)

Auguste Renoir: “Considero as escritoras, advogadas e políticas – como Georges Sand, Madame Adam e outros – como
monstros, terneiros de cinco patas [...] A mulher artista é sinceramente ridícula!”

Degas, falando sobre Mary Cassat, artista impressionista norte-americana: “Não posso admitir que uma mulher desenhe
tão bem!” (PORQUERES, 1994 apud LOPONTE, 2005, p. 50)

(...) Trata-se de premissas acerca da debilidade e passividade da mulher; de sua disponibilidade sexual; seu papel como
esposa e mãe; sua íntima relação com a natureza; sua incapacidade para participar ativamente da vida política. Todas
essas noções compartilhadas, em maior ou menor grau pela maior parte da população até nossos dias constituem uma
espécie de subtexto que subjaz quase todas as imagens envolvendo mulheres. (NOCHLIN, 1989, p. 2 apud LOPONTE,
2005, p. 55)
O corpo biológico socialmente modelado é um corpo politizado, ou se preferimos, uma política incorporada. Os
princípios fundamentais da visão androcêntrica do mundo são naturalizados sob a forma de posições e disposições
elementares do corpo que são percebidas como expressões naturais de tendências naturais. (...) as posturas curvas,
maleáveis, e a docilidade correlativa, são supostamente convenientes à mulher (Bourdieu, 1995, p. 156)

Tendo sido colocadas pela taxonomia oficial, no lado do interior, do úmido, do baixo, do curvo, do contínuo, as
mulheres veem atribuir a elas todos os trabalhos domésticos, isto é, os trabalhos privados e escondidos e até mesmo
invisíveis ou vergonhosos, como a criação das crianças e dos animais, e uma boa parte dos trabalhos exteriores,
principalmente aqueles referente à água, às plantas, ao verde (como a capina e a jardinagem), ao leite, à madeira, e
muito especialmente os mais sujos (como o transporte do estrume), os mais monótonos, os mais penosos e os mais
humildes. Quanto aos homens, estando situados no lado do exterior, do oficial, do público, do direito, do seco, do alto,
do descontínuo, eles se arrogam todos os atos ao mesmo tempo breves, perigosos e espetaculares que, como a
matança do boi, a lavragem ou a colheita, sem falar do assassinato ou da guerra, marcam rupturas no curso comum
da vida, e fazem intervir instrumentos fabricados pelo fogo. (BORDIEU, 1995, p.
Tira da quadrinista Fabiane Langona, que assina como Chiquinha.
Garota Siririca,
de LoveLove6
A publicação contém 84 páginas e seis histórias, escritas e desenhadas
por quadrinistas mulheres. As páginas de abertura das histórias são
escritas e desenhadas pela organizadora da coletânea, Germana Viana.

O título da coletânea é uma provocação ao estereótipo de que a arte


produzida por mulheres deve ter um estilo suave, leve, “feminino”,
“fofo”; esse reducionismo reforça o discurso da sensibilidade feminina
e do lugar que ela deve ocupar na produção estética da sociedade.

Artistas

ANA RECALDE - CAMILA TORRANO (capa) - CAMILA SUZUKI


CAROL PIMENTEL - CLARICE FRANÇA - FABIANA SIGNORINI
GERMANA VIANA (organizadora e autora das vinhetas de abertura
dos capítulos) - KATIA SCHITTINE - MARI SANTTOS - MILENA AZEVEDO
- RENATA C B Lzz - ROBERTA CIRNE - TALESSAK

Capa do álbum. Arte de Camila Torrano


Mama Jellybean, personagem criada pela roteirista e organizadora da coletânea, Germana Viana. Ela aparece em
ilustrações na abertura de cada capítulo. A autora intitulou esses interlúdios de “Catecismos”, uma alusão aos
quadrinhos pornográficos que circularam clandestinamente durante a ditadura militar e que eram produzidos
pelo quadrinista Alcides Caminha, que usava o pseudônimo Carlos Zéfiro. Na segunda edição do Gibi de
Menininha, a personagem terá uma publicação independente contando a sua origem.
Nossa origem é duvidosa. Uns dizem que viemos do macaco, outros da costela de um homem, e há quem afirme
que somos de outro planeta. De qualquer forma, não confie.

Belas, recatadas, do lar e, ao mesmo tempo, vingativas e cruéis. Somos a tentação, a luxúria, a loucura. O pecado.
Tentaram nos queimar, mas somos o fogo.

Somos manipuladoras, usamos nossos corpos para conseguir o que queremos. Os mesmos corpos que geram vidas,
que nos permitem decidir quem vive e quem morre. Consegue imaginar o horror disso?

Portanto, não confie.

Somos verdadeiras forças da natureza. E as historietas a seguir foram imaginadas, escritas e desenhadas por
exemplares dessa força: instintivas, famintas, obcecadas e sexuais. Cada uma com seu olhar único e brilhante sobre
o inexplicável.

Até o nome desta obra mostra o quanto somos ardilosas: Gibi de Menininha é o cacete!

Não confie.

Você não tem ideia do que somos capazes.

Dane Taranha, radialista e apresentadora, no prefácio do álbum.


Considerações

A produção de quadrinhos autorais no Brasil tem se destacado pela qualidade e diversidade de gêneros e estilos,
que vão desde histórias infantis ao terror, passando por narrativas de aventura, ficção científica, super-heróis,
biografias e dramas psicológicos.

Nesse contexto, os quadrinhos de autoria feminina tem marcado a cena nacional principalmente por subverter os
discursos pré-estabelecidos sobre o lugar da mulher na produção estética.

A coletânea Gibi de Menininha – Historietas de terror e putaria traz uma importante contribuição ao apresentar
uma produção de qualidade em um gênero tradicionalmente ocupado pelo discurso estético masculino, que
geralmente apresenta um corpo feminino objetificado ou que serve de recurso narrativo para incentivar as ações
do herói clássico, viril.

A repercussão da publicação no segmento de quadrinhos foi bastante positiva e uma segunda edição está em
produção, trazendo novas artistas e novos olhares sobre o terror e erotismo nas histórias em quadrinhos –
gêneros que já tiveram narrativas criadas por mulheres, mas que foram silenciadas na historiografia oficial.
REFERÊNCIAS

ALVES, Bruno F. Superpoderes, Malandros e Heróis: O Discurso da identidade Nacional nos Quadrinhos Brasileiros de
Super-Heróis. Dissertação de Mestrado em Comunicação. PPGCOM/UFPE. Recife, 2003.
BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
LOPONTE, Luciana Gruppelli. Docência artista: arte, estética de si e subjetividades femininas. Tese de Doutorado.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Porto
Alegre: UFRGS, 2005.
McCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. São Paulo: Makron Books, 1995.
MOURA, Daniela Gomes Mirchal de. Pelos ritos corporais: materializações poético-capilares. Dissertação de Mestrado.
Universidade Federal de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Artes. Belo Horizonte: UFMG, 2010.
VIANA, Germana [et al.] Gibi de Menininha. Historietas de Terror e Putaria. Campinas, SP: Zarabatana Books, 2018.
BRUNO ALVES

brunoalves65@gmail.com