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O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Pri mei ra p ági n a d o ro man ce


dactilografada e corrigida por
Saramago. Agenda utilizada por José Saramago
para anotar todos os acontecimentos
do ano de 1936 - fundamentação
histórica para a realização do romance.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Fotocópia de recorte do Diário
de Noticias, de 21 de abril de
1972, com texto de Joaquim
Francisco Coelho intitulado “A
morte de Fernando Pessoa na
imprensa portuguesa do
tempo” (material de José
Saramago)

O obituário de Fernando Pessoa no


DN de 3 de Dezembro de 1935
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Contextualização histórico-literária

• O século XX é um momento de rutura a vários níveis.


• A partir das duas Grandes Guerras, o mundo mudou.
• A relação entre História e verdade foi abalada e passou a entender-se o relato histórico como
uma versão dos acontecimentos geralmente ligada ao poder.
• A História deixou de ser considerada um “armazém de verdade” e o texto histórico é encarado
como uma maneira parcial e pessoal de abordagem.
• O romance da segunda metade do século XX recorre ao discurso histórico, reescrevendo-o e
apresenta, muitas vezes, factos que reconhecemos, sob um ponto de vista novo.

A reescrita da História no final do milénio


• O discurso histórico é hoje considerado parcial e parcelar, pois regista apenas uma parte
daquilo que aconteceu.
• As minorias são pobres em documentos, por isso, se tornam pobres em História.
• No romance histórico do século XX, os acontecimentos passam a ser perspetivados de uma
forma múltipla, expondo o ponto de vista do homem comum, dando voz a quem nunca a
teve e apresentando versões diferentes de factos reconhecíveis.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Epígrafes do romance

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo.


Ricardo Reis

Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida.
Bernardo Soares

Se me disserem que é absurdo falar assim de quem nunca existiu, respondo


que também não tenho provas de que Lisboa tenha alguma vez existido, ou eu
que escrevo, ou qualquer cousa onde quer que seja.
Fernando Pessoa
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

O título e a estrutura da obra

O Ano da Morte de Ricardo Reis

O tempo histórico A obra pessoana

História Ficção
O ano de 1936 em Lisboa O regresso de Ricardo
e no mundo Reis a Lisboa depois da
morte de Fernando Pessoa
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Estrutura da obra
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio
correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno,
é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara.” (O Ano da Morte de
Ricardo Reis - cap.1, p.7-8)
Carácter
Inversão do verso épico de Camões – a viagem que se inicia agora é para circular
e por terra da obra
“Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu,
Melhor da que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim,
olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então
vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se
voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito.
Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.” (O Ano da Morte de Ricardo
Reis - cap.19, p.494)

Variação da frase inicial – o país está parado e limitado à contemplação


O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Representações do século XX
O espaço da cidade

• As veredas da cidade e as da criação poética no romance têm sempre a esclarecê-las


os versos camonianos, pois é impossível imaginar Portugal sem Camões e sem Os
Lusíadas.
• Reis está em Lisboa, Pessoa também, o primeiro habitando próximo do Adamastor, o
segundo, o Cemitério dos Prazeres.
• Lisboa, marcada pela presença do rio e da chuva.
• O “mau tempo” atmosférico como metáfora do tempo histórico.

• Os atributos da cidade metaforicamente associados às características dos seus


habitantes.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Representações do século XX
O espaço da cidade

CIDADE DE CONTRASTES:

• A opulência dos cafés históricos e • Uma burguesia rica;


dos teatros restaurados;
• o progresso (a capa dourada). • uma classe média remediada.

• A s u j i d ad e e o b a r u l h o d o s • A pobreza extrema – os bodos: os


mercados; incómodos da sociedade (o real a
• os bairros pobres e degradados (o ocultar).
real);
• os bairros dos proscritos: a Mouraria
(o real recusado).
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do século XX
O tempo histórico e
os acontecimentos políticos

▪ O romance recupera:
• um tempo: 1936,
• um poeta: Ricardo Reis,
• uma poesia: Fernando Pessoa,
• um contexto de amizade e de especulação intelectual entre Ricardo Reis e
Fernando Pessoa, sem deixar de lado a ficção e as profecias para o futuro
de Portugal.

• os regimes políticos totalitários na Europa (Alemanha, Itália),


• crises políticas internacionais (França, Espanha)
• a ditadura nacional: autoridade, propaganda, censura, vigilância (PVDE) e
repressão das tentativas de insurreição
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Representações do século XX

O tempo histórico e
os acontecimentos políticos

• O romance desenha a paisagem da Europa de 1936:


• a França governada por Léon Blum e as notícias das vitórias do movimento do
“Front Populaire”;
• a Itália fascista de Mussolini e o nacionalismo, a anexação do território
independente da Etiópia e a não oposição da França que teme que Itália faça
uma aliança com a Alemanha;
• a Alemanha de Hitler e o seu prestígio técnico-científico: “o adamastórico Graf
Zeppelin” (p. 286);
• a Espanha de Franco e a Guerra Civil;
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Representações do século XX

O tempo histórico e
os acontecimentos políticos
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do século XX

O tempo histórico e
os acontecimentos políticos
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do século XX

O tempo histórico e
os acontecimentos políticos

 Da primeira República à Ditadura existem 45 governos, 8 eleições, 8 presidentes (em 15


anos)
 Desde 1928 que Salazar se encontra no cargo de Ministro das Finanças e verdadeiro líder da
nação
 Salazar é visto como “Salvador da Pátria”, dentro do espírito messiânico e sebastianista de
quem acredita num futuro glorioso garantido por um passado grandioso;
 Os jornais portugueses estão comprometidos com o discurso do poder
 A repressão leva à contestação;
 A educação dos jovens;
 Existem movimentos contra o regime.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do século XX

O tempo histórico e
os acontecimentos políticos

Cidade envolta pela chuva, triste, cinzenta, sem qualquer atrativo, deserta e imóvel.

Metáfora do regime do Estado Novo, que cerca os seus cidadãos,


maioritariamente «súbditos, escravos, submissos, reprimidos,
oprimidos», sem vontade para lutar e para sair da situação em que se
encontram.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Deambulação geográfica e viagem literária


O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Deambulação geográfica e viagem literária

• Neste romance, a deambulação de Ricardo Reis pela cidade de Lisboa cruza-se


simbolicamente com uma viagem literária pelos escritores emblemáticos da literatura
portuguesa.

• A deambulação por Lisboa é labiríntica assim como a poesia pessoana. A figura de Camões
constitui-se como o guia orientador dos poetas em geral e de Ricardo Reis em particular,
na sua deambulação através da cidade.

• A Lisboa de Saramago, neste romance, desperta no leitor o desejo de percorrê-la ou habitá-


la. Durante a leitura partilhamos caminhos ao lado do protagonista, que surge como uma
espécie de guia, que nos dá a conhecer o que observa no Rossio, na Baixa ou na Praça do
Comércio. Percorremos, assim, a zona que vai do Cais do Sodré e, pela Rua do Alecrim, ao
Largo do Barão de Quintela, chega ao Largo de Camões, ao Alto de Santa Catarina, ao Chiado:
com os seus heróis, residências, consultórios, monumentos.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Deambulação geográfica e viagem literária


“Vai subindo a rua do Alecrim, pelas calhas dos elétricos ainda correm regueirinhos de água, o
mundo não consegue estar quieto, é o vento que sopra, são as nuvens que voam, da chuva nem
fala, tanta tem sido. Ricardo Reis para diante da estátua de Eça de Queiroz”
(O Ano da Morte de Ricardo Reis, p. 66)

“Ricardo Reis atravessa o jardim, vai olhar a cidade, o


castelo com as suas muralhas derrubadas, o casario a cair
pela encosta. O sol branqueado bate nas telhas molhadas,
desce sobre a cidade um silêncio, todos os sons são
abafados, em surdina, parece Lisboa que é feita de
algodão…”
(O Ano da Morte de Ricardo Reis, p. 69)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Deambulação geográfica e viagem literária
“É instrutivo o passeio, ainda agora contemplámos o Eça e já podemos observar o Camões, a
este não se lembraram de pôr-lhe versos no pedestal, e se pusessem qual poriam, Aqui, com grave
dor, com triste acento, o melhor é deixar o triste amargurado(...)”
(O Ano da Morte de Ricardo Reis, p. 67)

“Ricardo Reis atravessou o Bairro Alto, descendo pela Rua do Norte chegou ao Camões, era
como se estivesse dentro de um labirinto que o conduzisse sempre ao mesmo lugar, a este bronze
afidalgado e espadachim, espécie de D’Artagnan premiado (...)”
(O Ano da Morte de Ricardo Reis, p. 77)

“(…) já pensou que não teríamos Lusíadas se não tivéssemos tido Camões,
é capaz de imaginar que Portugal seria o nosso sem Camões e sem Lusíadas.”
(O Ano da Morte de Ricardo Reis, p. 211)

• Camões, dentro do romance, representa a própria poesia portuguesa. As


veredas da cidade e as da criação poética no romance têm sempre a
esclarecê-las os versos camonianos, pois é impossível imaginar Portugal
sem Camões e sem Os Lusíadas. Reis está em Lisboa, Pessoa também, o
primeiro habitando próximo do Adamastor, o segundo o Cemitério dos
Prazeres.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Deambulação geográfica e viagem literária


“(…) sob o vento protetor do Adamastor, já se viu que Luís de Camões exagerou muito, este rosto
carregado, a barba esquálida, os olhos encovados, a postura nem medonha nem má, é puro
sofrimento amoroso”.
(O Ano da Morte de Ricardo Reis, p. 308)
• No romance, a estátua do Adamastor é, assim como a estátua de Camões,
um marco norteador dentro do labirinto da cidade de Lisboa.
Geograficamente, o Adamastor encontra-se num ponto de cruzamento de
caminhos. O Adamastor, símbolo de todos os obstáculos, no passado,
torna-se, no presente, a rosa-dos-ventos que anuncia o novo roteiro do
povo. Assim, nas coordenadas do texto, sendo a confluência das oito
direções cardeais, ilumina duplamente o horizonte de expectativas
humanas e anuncia um mundo novo.

• Simbologia do número oito - Enquanto o número sete está associado ao Antigo Testamento, o
número oito corresponde ao Novo, anunciando o futuro. Oito anos depois da partida de Ricardo
Reis para o Brasil é que o monumento foi erigido, e após oito anos de ele ali estar, no Alto de
Santa Catarina, é que Reis regressa à pátria. A estátua do Adamastor é um dos locais preferidos
por Ricardo Reis: símbolo dos obstáculos do passado que se opunha à marcha dos portugueses,
representa agora a aurora de uma sociedade nova.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidades

• A intertextualidade resulta do facto de a produção e compreensão de um texto estarem


dependentes do conhecimento de outros textos por parte dos interlocutores.
• A intertextualidade pode manifestar-se através de alusões diretas ou indiretas a outro texto, desde
a alusão e a citação até à imitação criativa, à paráfrase, à paródia e ao plágio.
• Alusão - Referência, explícita ou implícita a uma obra, a um autor ou a uma
situação, que conta com o conhecimento prévio do leitor ou ouvinte para a
identificar e compreender.
• Citação - Reprodução de um texto ou de parte dele noutro texto, assinalada e
identificada de acordo com as regras de citação.
• Imitação criativa - Recriação de um texto literário por meio de alterações criativas.
• Paráfrase - Reformulação de um texto, explicando, por outras palavras, o seu conteúdo e
mantendo a estrutura formal.
• Paródia - Imitação cómica ou irónica de um texto, com propósitos críticos e/ou lúdicos.
• Plágio - Imitação fraudulenta de uma obra alheia.
• (Epígrafe - Citação de um excerto, geralmente literário, no início de um texto, contribuindo
para a sua interpretação com o que sugere de relações de intertextualidade com a obra
citada.)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidades

• Saramago convoca, frequentemente, para o seu romance, outros textos. A citação, no romance
saramaguiano, tem muitas vezes uma natureza irónica ou paródica, pode constituir uma das
manifestações gerais da intertextualidade e não apresenta qualquer marca gráfica.

• Neste romance há inúmeras referências a autores e obras facilmente reconhecíveis: versos da


epopeia ou de poemas de Camões, expressões de Eça de Queirós, versos de Fernando Pessoa ou
dos heterónimos, versos de Bernardim Ribeiro, Cervantes, Jorge Luís Borges, etc. Saramago
elabora, assim, um texto polifónico.

• Neste romance está presente uma manifestação de intertextualidade extremamente curiosa e


original, uma vez que o narrador alude a um escritor e obra que só existem ficcionalmente (conto
de Jorge Luís Borges).

• Os nomes femininos elencados no texto recuperam figuras clássicas e subvertem-nas, numa


aproximação entre a poesia de Ricardo Reis e Camões.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Luís de Camões

▪ Camões enquanto símbolo da nação (o tom antiépico e a crise nacional)

▪ Os Lusíadas: inspiração e modelo literário

▪ A simbologia do Adamastor:
luta contra os perigos e sofrimento amoroso

• O texto camoniano é retomado com frequência e colocado na voz do narrador, de Ricardo


Reis, de Fernando Pessoa.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Luís de Camões

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Aqui o mar acaba e a terra principia” (p. 9) “tanto mar, a terra tão pouca” (p. 86)
“Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera” (p. 582)

LUÍS DE CAMÕES – OS LUSÍADAS


“Eis aqui, quási cume da cume da cabeça/De Europa toda, o Reino Lusitano,/Onde a terra se
acaba e o mar começa/E onde Febo repousa no Oceano./Este quis o Céu justo que floreça/
Nas armas contra o torpe Mauritano,/Deitando-o de si fora; e lá na ardente/África estar
quieto o não consente.” (canto III, est. 20)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Luís de Camões

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“As armas e os barões assinalados” (p. 93)

LUÍS DE CAMÕES – OS LUSÍADAS


“As armas e os Barões assinalados/ Que da Ocidental praia Lusitana/Por mares nunca de
antes navegados/ Passaram ainda além da Taprobana,/ Em perigos e guerras esforçados/
Mais do que prometia a foçça humana,/ E entre gente remota edificaram/Novo Reino, que
tanto sublimaram;” (canto I, est. 1)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Luís de Camões

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“já se sabe que daquela bondade estão excluídos os vilões[o povo] e os mecânicos [homens
dos oycios], gente não herdadora de bens ao luar, logo homens não bons. Porventura nem
bons nem homens, bichos como os bichos que os mordem ou roem ou infestam” (p. 127)

LUÍS DE CAMÕES – OS LUSÍADAS


“No mar tanta tormenta e tanto dano,/ Tantas vezes a morte apercebida!/Na terra tanta
guerra, tanto engano,/Tanta necessidade avorrecida!/Onde pode acolher-se um fraco
humano,/ Onde terá segura a curta vida,/ Que não se arme e se indigne o Céu sereno/ Contra
um bicho da terra tão pequeno?” (canto I, est. 106)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Luís de Camões

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Dizer isto a um morto, que lhe pode responder, com o saber feito da experiência, que o outro
lado da vida é só a morte” (p. 124)

LUÍS DE CAMÕES – OS LUSÍADAS


“Mas um velho, d’ aspeito venerando,/ Que ficava nas praias, entre a gente,/ Postos em nós os
olhos, meneando/ Três vezes a cabeça, descontente,/A voz pesada um pouco alevantando,/
Que nós no mar ouvimos claramente,/ Cum saber só d’experiências feito,/ Tais palavras tirou
do experto peito:” (canto IV, est. 94)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Cesário Verde
• Ricardo Reis retoma face à cidade de Lisboa um posicionamento semelhante ao de Cesário
Verde através:
• do carácter deambulatório que permite caracterizá-la como feia, suja solitária e
triste
• da visão da cidade na perspetiva do observador acidental
• da representação literária do quotidiano físico e social da cidade
• da descrição da capital como espaço conotado com o aprisionamento e a
tristeza, acentuando a nostalgia por um mundo que já não volta
• da perceção sensorial da realidade e problemática da questão social que
mostra uma Lisboa desigual (de um lado os ricos e de outro os pobres,
oprimidos e humilhados)
• do desconforto da revisitação de um local “desconhecido”
• do recurso à memória
• da tentativa de evasão.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Cesário Verde

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“os homens que, numa das ruas, descar- regam as sacas de feijão (p. 55)

CESÁRIO VERDE
Os calceteiros que, “De cócoras, em linha”, “Com lentidão, terrosos e grosseiros,/Calçam de lado a
lado a longa rua” (“Cristalizações”, est. 1)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Cesário Verde

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“O sol branqueado”, que bate “nas telhas molhadas, desce sobre a cidade” (p. 83)

CESÁRIO VERDE
“E as poças de água, como em chão vidrento, /Refletem a molhada casaria” (“Cristalizações”, est. 2)
“Ao meio, a casaria branca assenta/ À beira da calçada, que divide/Os escuros pomares de pevide, /
Da vinha, numa encosta soalhenta!” (“Nós”, II, est. 4)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Cesário Verde

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“há uma claridade branca por trás de Luís de Camões, um nimbo” (p. 42)
“Como se esquecera de fechar as portadas da janela, a matinal claridade cinzenta enchia-lhe o
quarto” (p. 333)

CESÁRIO VERDE
“Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,/Vibra uma imensa claridade crua” (“Cristalizações”,
est. 1)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

▪ O diálogo intertextual mais importante, neste romance, é entre Saramago e Fernando


Pessoa. As palavras da ficção e os versos pessoanos espelham-se, reciprocamente e
ressurgem transfigurados dos versos de Pessoa para o texto de Saramago – a
testemunhar a intimidade deste convívio.
• Citam-se e reescrevem-se versos dos vários poetas; o romance assume-se
como uma biografia complementar de Ricardo Reis, iniciada por Pessoa e
concluída por Saramago;
• Morto Pessoa e incapaz de compor, o trabalho poético de criação de Reis
continua, no romance de Saramago.
Materialização dessa intertextualidade:
• A poesia de Ricardo Reis (caracterização do protagonista)
▪Os textos do ortónimo e dos restantes heterónimos (a “viagem literária” e as relações no
seio da “família pessoana”)
▪ A poesia da Mensagem (valor simbólico)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Quando, Lídia, vier o nosso outono” (p. 61)

ODES DE RICARDO REIS


“Quando, Lídia, vier o nosso outono/ Com o inverno que há nele, reservemos/ Um pensamento, não
para a futura /Primavera, que é de outrem,”
(“Quando, Lídia, vier o nosso outono”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Vem sentar-te comigo, LÍdia, à beira do rio” (p. 61)
“Um homem sossegado, alguém que se sentou na margem do rio a ver passar o que o rio leva” (p.
406)
“Alguém que se sentou na margem do rio a ver passar o que o rio leva, à espera de se ver passar a si
próprio na corrente” (p. 413)
“Vem sentar-te comigo, Lídia, à̀ beira do rio” (p. 419)
“mais vale saber passar silenciosamente e sem desassossegos grandes” (p. 532)

ODES DE RICARDO REIS


“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio./ Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas./(Enlacemos as mãos.)”
(“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Lídia, a vida mais vil antes que a morte” (p. 61)

ODES DE RICARDO REIS


“Lídia, a vida mais vil antes que a morte, / Que desconheço, quero; e as flores colho/Que te entrego,
votivas/ De um pequeno destino.”
(“O sono é bom pois despertamos dele”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir” (pp. 62 e 63)
“Não quieto nem inquieto meu ser calmo quero erguer alto acima e onde os homens têm prazer ou
dores” (pp. 71-72)

ODES DE RICARDO REIS


“Aos deuses peço só que me concedam/ O nada lhes pedir. A dita é um jugo/E o ser feliz oprime/
Porque éum certo estado. /Não quieto nem inquieto meu ser calmo/ Quero erguer alto acima de
onde os homens /Têm prazer ou dores.”
(“Aos deuses peço só que me concedam”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia como tu” (p. 85)

ODES DE RICARDO REIS


“Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia/ Como tu, um a mais no Panteão e no culto,/Nada
mais, nem mais alto nem mais puro/ Porque para tudo havia deuses, menos tu.”
(“Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Ricardo Reis desce até à curva, ali pára a olhar o rio, a boca do mar, nome mais do que outros justo
porque é nestas paragens que o oceano vem saciar a sua inextinguível sede, lábios sugadores que se
aplicam às fontes aquáticas da terra, são imagens, metáforas, comparações que não terão lugar na
rigidez duma ode, mas ocorrem em horas matinais, quando o que em nós pensa está apenas sen-
tindo” (pp. 537-538)

FERNANDO PESSOA
“Ela canta, pobre ceifeira, [...] /Ah, canta, canta sem razão!/O que em mim sente ‘stá pensando. /
Derrama no meu coração/A tua incerta voz ondeando!”
(“Ela canta, pobre ceifeira”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“a estas horas vai longe, navegando para o norte, em mares onde o sal das lágrimas lusíadas é só de
pescadores” (p. 49)

FERNANDO PESSOA
“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!”
(Mensagem, Segunda parte: “Mar Português”, X. “Mar Português”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Que nau, que armada, que frota pode encontrar o caminho” (p. 249)

FERNANDO PESSOA
“Que nau, que armada, que frota/ Pode encontrar o caminho/A praia onde o mar insiste,/Se à vista
o mar é sozinho?”
(Mensagem, Terceira parte: “O Encoberto”, III. “Os Tempos” – Terceiro / “Calma”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Ai esta terra, repetiu, e não parava de rir, Eu a julgar que tinha ido longe de mais no atrevimento
quando na Mensagem chamei santo a Portugal, lá está São Portugal, e vem um príncipe da igreja
com a sua arquiepiscopal autoridade, e proclama que Portugal é Cristo” (p. 391)

FERNANDO PESSOA
“Sperança consumada, S. Portugal em ser,/Ergue a luz da tua espada/ Para a estrada se ver!”
(Mensagem Primeira parte: “Brasão”, IV. “A Coroa” – “Nun’Álvares Pereira”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Você não devia ter morrido tão novo, meu caro Fernando, foi uma pena, agora é que Portugal vai
cumprir-se” (p. 392)

FERNANDO PESSOA
“Quem te sagrou criou-te português./Do mar e nós em ti nos deu sinal./Cumpriu-se o Mar, e o
Império se desfez./ Senhor, falta cumprir-se Portugal!”
(Mensagem, Segunda parte: “Mar Português”, I. “O Infante”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidade:
José Saramago, leitor de Fernando Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“por isso nos deveremos começar a preparar para o pior. Mesmo que não vamos a tempo, sempre
valeu a pena, seja a alma grande ou pequena” (p. 489)

FERNANDO PESSOA
“Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena”
(Mensagem, Segunda parte: “Mar Português”, X. “Mar Português”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidades

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“... Este Tejo que não corre pela minha aldeia, o Tejo que corre pela minha aldeia chama-se
Douro, por isso, por não ter o mesmo nome, é que o Tejo não é mais belo que o rio que
corre pela minha aldeia” (p.129)

ALBERTO CAEIRO
“ O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/Mas o Tejo não é mais belo que
o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.” (
“Poema XX” de o “Guardador de Rebanhos”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidades

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, também tu Álvaro de Campos, todos nós.”
(p.108)

ÁLVARO DE CAMPOS
“Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel” (“Poema em linha recta”)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidades

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


“Perto do rio só se for o Bragança, ao princípio da Rua do Alecrim” (p.14)
“fosse duzentos e dois o número da porta, e já o hóspede poderia chamar-se Jacinto e ser
dono duma quinta em Tormes” (p.17)
“Ricardo Reis para diante da estátua de Eça de Queirós” (. 66)

EÇA DE QUEIRÓS
Hotel Bragança – referência literária que evoca a obra queirosiana.
Alusão à personagem Jacinto do conto “Civilização” in Contos.
Estátua de Eça de Queirós – a presença da estátua do escritor marca a sua influência
incontornável na ficção portuguesa.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Intertextualidades

The god of the labyrinth


A referência ao escritor ficticio Herbert Quain (recuperado de um conto da obra Ficções, de Jorge
Luís Borges) congrega o universo da heteronímia pessoana e da própria ideia de ficção. A
intercalação entre a realidade que Ricardo Reis lê nos jornais, no ano 1936, e a recuperação da
história policial de Borges simbolizam este aspeto labiríntico da fragmentação do sujeito poético.
Existe, portanto, um jogo de espelhos, que reflete uma personagem inventada, num tempo
histórico (1935/1936), que lê um livro de um escritor ficticio, que surge numa obra real.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do amor

▪Lídia e Marcenda são as duas figuras femininas que estabelecem uma relação amorosa
com o protagonista.

▪Marcenda - No nome desta personagem feminina está condensada a sua simbologia na


obra. Etimologicamente, Marcenda significa “aquela que deve murchar”, aquela a quem
falta a eternidade e que está, portanto, condenada a ser mortal. Ela é a musa de Ricardo
Reis sem ter sido, é a ave cujo voo é abortado pela mão inerte que a faz prisioneira do
labirinto familiar e afetivo. O romance com Ricardo Reis finda porque o poeta recusa
assumir-se outro e prefere “desenlaçar as mãos”.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do amor

Marcenda

Em poucas palavras
• Nome «gerundivo», original e fatidico («aquela que deve murchar»).
• Proveniente de Coimbra, de boas famílias; bela e débil.
• A sua mão esquerda está paralisada desde a morte da mãe.
• Submissa ao pai e incapaz de tomar as suas próprias decisões, afigura-se como
espelho de Ricardo Reis.
• Simboliza o amor imaterial e impossível de se concretizar.
• Figura labiríntica e inatingível
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do amor

▪Lídia - A personagem Lídia, neste romance, excede a imagem que o livro de odes de
Ricardo Reis lhe confere e assume uma vida de compromisso político. Ficando de lado o
modelo pessoano de musa pálida, de descompromisso com a vida para escapar à dor,
esta mulher-a-dias, camareira de hotel, morena, assume sozinha a sua condição e o filho
de pai incógnito. Lídia simboliza a esperança numa nova revolução que não aborte
antes de nascer e representa a imagem da terra portuguesa definida no romance:
“Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do amor

Lídia

Em poucas palavras:
• Homónima da musa mais referida nas odes de Ricardo Reis, cuja beleza o
atrai.
• Criada de hotel, trabalhadora, independente e responsável (aceita as
consequências dos seus atos).
• Figura serviçal: “existência desfocada de musa”
• É uma mulher excecional: apesar da sua condição sociocultural, produz
juízos/comentários de valor singular.
• Representa a vida e a ligação com o mundo quotidiano e real.
• Simboliza o amor incondicional, desinteressado e libertador.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Representações do amor

O amor natural O amor convencionalizado

▪ Amor espontâneo, desprovido ▪ Amor enquadrado pelos rituais e


de artifícios e imune às preconceitos sociais
convenções sociais
▪ Personificado em Marcenda, mulher de
▪ Personificado em Lídia, mulher perfil idealizado (ainda que fisicamente
marcada pela origem humilde, debilitada) e atuação conforme à das
pelo vigor físico, pela musas da poesia de Ricardo Reis
simplicidade e pela sensualidade
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Representações do amor
Lídia Marcenda

Relação carnal, marcada pelo Envolvimento poético-afetivo / misto


envolvimento csico: de atração espiritual e csica:
•Lídia apaixona-se por Ricardo Reis, •Marcenda exerce sobre Ricardo Reis
provocando nele um duplo efeito de um efeito de fascínio, devido à sua
atração e de menosprezo; fragilidade (mão paralisada); inexperiente mas
• Lídia sofre por amor, consciente de desejosa de conhecer o amor, Marcenda
que a relação não tem futuro, devido aproxima-se de
a preconceitos sociais /diferença de Ricardo Reis;
classes sociais (doutor vs. criada); •A r e l a ç ã o a s s u m e c o n t o r n o s
• Lídia engravida. predominantemente platónicos/espirituais (é
consumada por dois beijos);
•Ricardo Reis pede Marcenda em casamento,
mas esta recusa a proposta.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Linguagem e estilo

▪ Tom oralizante – aproximação do discurso


escrito ao discurso oral:
• frases longas
• conjugação de modalidades de reprodução
do discurso
• predomínio da coordenação
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Linguagem e estilo

• Uso peculiar dos sinais de pontuação:


• recurso apenas à vírgula e ao ponto final
• discurso direto sem as marcações gráficas habituais: falas iniciadas por
maiúscula e isoladas por vírgulas
• A subversão da pontuação marca do “estilo saramaguiano” é uma
aproximação à linguagem oral. Assim, as palavras proferidas por uma
personagem surgem, muitas vezes, no meio do discurso do narrador,
sem recurso a qualquer marca formal. O discurso ficcional é cerrado e
denso e o diálogo e o discurso do narrador misturam-se.

• Comentários e ironia do narrador (geralmente omnisciente)

• Intertextualidade com obras e autores portugueses e estrangeiros, provérbios


populares e expressões idiomáticas
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Linguagem e estilo

• O relato de discurso adquire especial subtileza no romance saramaguiano e

determina a interseção de múltiplas vozes, ao:

• inserir citações;

• reproduzir fielmente o discurso relatado, conservando a sua enunciação e a

sua sequencialização de uma forma absolutamente subversiva e criativa.

• O discurso relatado é utilizado por Saramago de uma forma peculiar e criativa. O

facto de não incluir verbos introdutores nem apresentar qualquer elo subordinativo

entre discurso relatado e discurso narrado torna, por vezes, difícil a distinção das

diferentes vozes discursivas que irrompem no texto.


O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago

Linguagem e estilo – recursos expressivos

Antítese
Oposição entre o significado de duas ou mais palavras ou expressões, com a finalidade
de destacar o contraste entre ideias. Ex. “Aqui o mar acaba e a terra principia.” Com
as antíteses “mar”/ “terra” e “acaba”/ “principia” realça-se a localização geográfica de
Portugal e estabelece-se uma relação de intertextualidade com a epopeia camoniana,
por meio da subversão (“Aqui onde a terra se acaba e o mar começa”).

Comparação
Relação de analogia entre dois termos com o objetivo de assinalar as suas diferenças ou
semelhanças, recorrendo a uma palavra ou expressão comparativa. Ex. “um vulto que parece
ruína de castelo” Com esta comparação sugere-se o clima de opressão vivido na cidade de
Lisboa.

Enumeração
Apresentação ou listagem sucessiva de elementos relacionados entre si e, geralmente, da mesma
classe gramatical, de forma a intensificar uma ideia. Ex. “tudo isto é ilusão, quimera, miragem
criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado” Com esta enumeração
descreve-se Lisboa de forma negativa, sugerindo-se a opressão vivida no país.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Linguagem e estilo

Ironia
expressão em que se sugerem ideias ou sentimentos contrários ou diferentes do que se diz. A
interpretação correta da ironia depende do contexto e do entendimento do interlocutor.
Ex. ““o nosso [Estado], afirmará a sua extraordinária força e a inteligência refletida dos
homens que o dirigem.”

Metáfora
Utilização de um termo para designar algo diferente daquilo que designa habitualmente, a partir
de elementos que são comuns a esse termo e ao que ele refere.
Ex. ““tudo isto é ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem
do céu fechado.” Esta metáfora remete para as condições climatéricas, acentuando o
desconforto trazido pela chuva.

Reprodução do discurso no discurso


• Uso peculiar do discurso direto – não seguimento das convenções associadas à formatação
gráfica do discurso direto; marcação do discurso direto com inicial maiúscula (início de fala) e
vírgula (fim de fala). Ex. “Já Lídia não saiu, dócil voltou atrás e veio explicar, foi sol de pouca
dura o bote fulminante, Meu irmão está na marinha, Qual marinha, A marinha de guerra, é
marinheiro do Afonso de Albuquerque, É mais velho ou mais novo do que tu, Fez vinte e
três anos, chama-se Daniel, Também não sei o teu apelido, O nome da minha família é
Martins”.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
O que traz Ricardo Reis a Lisboa

“Ricardo Reis leu, Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos,
quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever”

(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.3, p.89-)

“Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em
Novembro rebentou no Brasil uma revolução, muitas mortes, muita gente presa, temi que a
situação viesse a piorar, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí
decidi-me, pronunciei-me, como disse o outro”

(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.3, p.90)


O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Metas curriculares

Alguns excertos respresentativos

• Representações do século XX:


• O espaço da cidade;
• O tempo histórico;
• Os acontecimentos políticos;
• Deambulação geográfica e viagem literária;
• Representações do amor;
• Intertextualidade: José Saramago, leitor de Luís de Camões, Cesário Verde e Fernando
Pessoa; (slide 24 a 50)
• Linguagem, estilo e estrutura:
• A estrutura da obra;
• O tom oralizante e a pontuação;
• Recursos expressivos:
• Antitese;
• Comparação;
• Enumeração;
• Ironia;
• Metáfora;
• Reprodução do discurso no discurso
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio
correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno,
é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Simbologia do
Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma tempo
lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos atmosférico em
portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por Lisboa
esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e
Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos
rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas,
mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar
do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os
que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão
caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao
Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos
estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar,
por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as
ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é
impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda. Em dias de amena
meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e parada de velhos, porém
não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros
embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas,
como se só de casas térreas construída, por acaso além um zimbório alto, uma
empena mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é
ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu
fechado.” (O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.7-8)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio
correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, Lisboacomo
é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala cidade chuvosa,
Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma
lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos suja, “ pál i da”,
portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por “cinzenta”.
esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e O t e m p o
Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos
a t m o s f é r i co é
rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas,
mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar símbolo do tempo
do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os históricode
que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão Portugal.
caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao
Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos
estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar,
por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as M e t á f o r a do
ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é r e g i m e d o
impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda. Em dias de amena Estado Novo, de
meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e parada de velhos, porém t o d o s o s
não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros oprimidos que
embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, não têm vontade
como se só de casas térreas construída, por acaso além um zimbório alto, uma para lutar e para
empena mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é sair da situação
ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu e m q u e s e
fechado.” (O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.7-8) encontram.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio
correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno,
é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Simbologia do
Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma Highland
lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos Brigade
portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por
esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e
Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos
rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas,
mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar
do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os
que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão
caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao
Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos
estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar,
por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as
ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é
impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda. Em dias de amena
meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e parada de velhos, porém
não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros
embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas,
como se só de casas térreas construída, por acaso além um zimbório alto, uma
empena mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é
ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu
fechado.” (O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.7-8)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio
correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno,
é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Barco inglês – “ao
Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma império britânico
lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos nada é impossível”
portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por
esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e
Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos
rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, Barco inglês –
mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar “escuro” que
do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os navega no “fluxo
que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão soturno”
caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao
Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos
estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar,
Barco da morte
por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as
ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é
impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda. Em dias de amena
meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e parada de velhos, porém Ricardo Reis vem
não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros para Portugal para
embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, ter o seu encontro
como se só de casas térreas construída, por acaso além um zimbório alto, uma fatal
empena mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é
ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu
fechado.” (O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.7-8)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio
correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno,
é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Intertextualidade
Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma
lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos Camões
portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por
esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Alberto Caeiro
Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos
rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas,
mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar
do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os
que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão
caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao
Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos
estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar,
por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as
ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é
impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda. Em dias de amena
meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e parada de velhos, porém
não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros
embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas,
como se só de casas térreas construída, por acaso além um zimbório alto, uma
empena mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é
ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu
fechado.” (O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.7-8)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio
correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, Camões
é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala
Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma Alusão a um verso
lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos d’Os Lusíadas com
portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por alterações –
esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e “Onde a terra se
Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos
acaba e o mar
rios o maior, qual a aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas,
começa”
mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar
do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os
que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão
caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao
Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família. Ambos Alberto Caeiro
estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar,
por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as “O Tejo é mais
ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é belo que o rio que
impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda. Em dias de amena corre pela minha
meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e parada de velhos, porém aldeia” (Poema XX
não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros
“Guardador de
embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas,
Rebanhos”)
como se só de casas térreas construída, por acaso além um zimbório alto, uma
empena mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é
ilusão, quimera, miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu
fechado.” (O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.7-8)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“A porta abriu-se outra vez, agora entrou um homem de meia-idade, alto,
formal, de rosto comprido e vincado, e uma rapariga de uns vinte anos, se os Primeiro
tem, magra, ainda que mais exacto seria dizer delgada, dirigem-se para a mesa vislumbre de
fronteira à de Ricardo Reis[…] A rapariga fica de perfil, o homem está de costas, Marcenda
conversam em voz baixa, mas o tom dela subiu quando disse, Não, meu pai,
sinto-me bem, são portanto - pai e filha, conjunção pouco costumada em Caracterização de
hotéis, nestas idades.[…] A rapariga magra acabou a sopa, pousa a colher, a sua Marcenda:
mão direita vai afagar, como um animalzinho doméstico, a mão esquerda que - Vinte anos
descansa no colo. Então Ricardo Reis, surpreendido pela sua própria (+/-)
descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel, recorda- - “delgada”
se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora agarra a esquerda - “mão
e vai pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e ali a deixa paralisada”
ficar, ao lado do prato, assistindo à refeição, os longos dedos estendidos,
pálidos, ausentes. […] Ricardo Reis sente um arrepio, é ele quem o sente,
ninguém por si o está sentindo, por fora e por dentro da pele se arrepia, e olha Caracterização de
fascinado a mão paralisada e cega que não sabe aonde há-de ir se a não Marcenda:
levarem, aqui a apanhar sol, aqui a ouvir a conversa, aqui para que te veja - Classe social
aquele senhor doutor que veio do Brasil, mãozinha duas vezes esquerda, por superior;
- Culta;
estar desse lado e ser canhota, inábil, inerte, mão morta mão morta que não
- Paciente;
irás bater àquela porta.” (O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.25-26)
- Inteligente;
Marcenda aproxima-se das musas de Ricardo Reis e tal como ele não sabe - Encontra-se
posicionar-se (apesar de tudo, é inerte como a sua mão). com Ricardo
Reis às
Em Memorial do Convento, Baltasar Sete-Sóis não tem a mão esquerda. escondidas.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“A porta abriu-se outra vez, agora entrou um homem de meia-idade, alto,
formal, de rosto comprido e vincado, e uma rapariga de uns vinte anos, se os Recursos
tem, magra, ainda que mais exacto seria dizer delgada, dirigem-se para a mesa expressivos
fronteira à de Ricardo Reis[…] A rapariga fica de perfil, o homem está de costas,
conversam em voz baixa, mas o tom dela subiu quando disse, Não, meu pai,
sinto-me bem, são portanto - pai e filha, conjunção pouco costumada em
hotéis, nestas idades.[…] A rapariga magra acabou a sopa, pousa a colher, a sua
mão direita vai afagar, como um animalzinho doméstico, a mão esquerda que • Comparação
descansa no colo. Então Ricardo Reis, surpreendido pela sua própria
descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel, recorda-
se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora agarra a
esquerda e vai pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e • Metáfora
ali a deixa ficar, ao lado do prato, assistindo à refeição, os longos dedos
estendidos, pálidos, ausentes. […] Ricardo Reis sente um arrepio, é ele quem o
sente, ninguém por si o está sentindo, por fora e por dentro da pele se arrepia,
e olha fascinado a mão paralisada e cega que não sabe aonde há-de ir se a não • Personificação
levarem, aqui a apanhar sol, aqui a ouvir a conversa, aqui para que te veja
aquele senhor doutor que veio do Brasil, mãozinha duas vezes esquerda, por
estar desse lado e ser canhota, inábil, inerte, mão morta mão morta que não • Alteração de
irás bater àquela porta.” expressão
(O Ano da Morte de Ricardo Reis - cap.1, p.25-26) popular
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Tem vinte e três anos Marcenda, não sabemos ao certo que estudos fez, mas,
sendo filha de notário, ainda por cima de Coimbra, sem dúvida concluiu o curso
liceal e só por ter tão dramaticamente adoecido terá abandonado uma Caracterização de
faculdade qualquer, direito ou letras, letras de preferência, que direito não é tão Marcenda revela:
próprio para mulheres, o árido estudo dos códigos, além de já termos um - Crítica e
advogado na família, ainda se fosse um rapaz para continuar a dinastia e o opinião do
cartório, mas a questão não é esta, a questão é a confessada surpresa de narrador face à
vermos como uma rapariga deste país e tempo foi capaz de manter tão seguida educação das
e elevada conversa, dizemos elevada por comparação com os padrões mulheres,
correntes, não foi estúpida nem uma só vez, não se mostrou pretensiosa, não assim como ao
esteve a presumir de sábia nem a competir com o macho, com perdão da preconceito
grosseira palavra, falou com naturalidade de pessoa, e é inteligente, talvez por que existe
compensação do seu defeito, o que tanto pode suceder a mulher como a relativamente
homem. Agora levantou-se, segura a mão esquerda à altura do peito e sorri, às pessoas de
Agradeço-lhe muito a paciência que teve comigo, Não me agradeça, para mim sexo feminino.
foi um grande prazer esta conversa, Janta no hotel, Janto, Então logo nos
veremos, Até logo, viu-a Ricardo Reis afastar-se, menos alta do que a memória
lhe lembrava, mas esguia...” (O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.6, p.149-150)

Discurso polifónico – reprodução do discurso no discurso


• Diálogo entre - Marcenda/Ricardo Reis
• Utilização da maiúscula e vírgula a separar o discurso
de cada personagem.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Ouviu passos no corredor, ressoaram discretamente uns nós de dedos na Primeiro contacto
porta, Entre, palavra que foi rogo, não ordem, e quando a criada abriu, mal a com Lídia
olhando, disse, A janela estava aberta, não dei por que a chuva entrasse, está o
chão todo molhado[…] Agradecia limpasse, porém o entendeu sem mais poesia
Apesar do nome
a criada, que saiu e voltou com esfregão e balde, e posta de joelhos, serpeando
estabelecer um
o corpo ao movimento dos braços, restituiu quanto possível a secura que às
paralelo com a
madeiras enceradas convém, amanhã lhes deitará uma pouca de cera, Deseja
musa de Ricardo
mais alguma coisa, senhor doutor, Não, muito obrigado, e ambos se olharam de
Reis, esta mulher
frente, a chuva batia fortissima nas vidraças, acelerara-se o ritmo, agora rufava
é:
como um tambor, em sobressalto os adormecidos acordavam, Como se chama,
- criada;
e ela respondeu, Lídia, senhor doutor, e acrescentou, Às ordens do senhor
- prática;
doutor, poderia ter dito doutra maneira, por exemplo, é bem mais alto, Eis-me
- en f r e n ta o
aqui, a este extremo autorizada pela recomendação do gerente.”
(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.2, p.50-51) quotidiano;
- sensual
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
“Já conhecemos a criada que traz o pequeno-almoço, é a Lídia, ela é também
quem faz a cama e limpa e arruma o quarto, dirige-se a Ricardo Reis chamando- • Diferença
lhe sempre senhor doutor, ele diz Lídia, sem senhoria, mas, sendo homem de social
educação, não a trata por tu, e pede, Faça-me isto, Traga-me aquilo, e ela gosta, existente entre
não está habituada, em geral logo ao primeiro dia e hora a tuteiam, quem paga Lídia e Ricardo
julga que o dinheiro confere e confirma todos os direitos, embora, faça-se essa Reis
justiça, outro hóspede haja que se lhe dirige com igual consideração, é a • Ricardo Reis
menina Marcenda, filha do doutor Sampaio. Lídia tem quê, os seus trinta anos, mostra
é uma mulher feita e bem feita, morena portuguesa, mais para o baixo que interesse por
para o alto, se há importância em mencionar os sinais particulares ou as Lídia
características ysicas duma simples criada que até agora não fez mais que
limpar o chão, servir o pequeno-almoço e, uma vez, rir-se de ver um homem às
costas doutro, enquanto este hóspede sorria, tão simpático, mas tem o ar
Lídia pertence “à
triste, não deve de ser pessoa feliz, ainda que haja momentos em que o seu
terra”, à
rosto se torna claro, é como este quarto sombrio, quando lá fora as nuvens realidade.
deixam passar o sol entra aqui dentro uma espécie de luar diurno, luz que não Aceita o destino,
é a do dia, luz sombra de luz, e como a cabeça de Lídia estava em posição não exige nada de
favorável Ricardo Reis notou o sinal que ela tinha perto da asa do nariz, Fica-lhe
Ricardo Reis.
bem, pensou, depois não soube se ainda estava a referir-se ao sinal, ou ao
Contenta-se com
avental branco, ou ao adorno engomado da cabeça, ou ao debrum bordado que o que tem, pois
lhe cingia o pescoço, Sim, já pode levar a bandeja.” sabe qual é a sua
(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.4, p.95-96)
posição na
sociedade.
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Diante de Ricardo Reis aparece uma multidão negra que enche a rua em toda a largura,
alastra para cá e para lá, ao mesmo tempo paciente e agitada, sobre as cabeças passam O Bodo do século
refluxos, variações, é como o jogar das ondas na praia ou do vento nas searas. Ricardo
Reis aproxima-se, pede licença para passar, quem à frente dele está faz um movimento
de recusa, vai-se voltar e dizer, por exemplo, Estás com pressa, viesses mais cedo, mas Bodo - Distribuição
dá com um senhor bem-posto, sem boina nem boné, de gabardina clara, camisa branca solene de
e gravata, é quanto basta para que lhe dê logo passagem, e não se contenta com isso, alimentos, e, por
bate nas costas do da frente, Deixa passar este senhor, e o outro faz o mesmo, por isso extensão, de
vemos o chapéu cinzento de Ricardo Reis avançar tão facilmente por entre a mole dinheiro e roupas, a
humana, é como o cisne do Lohengrin em águas subitamente amansadas do mar Negro,
mas esta travessia leva seu tempo porque a gente é muita, sem contar que à medida
necessitados.
que se vai aproximando do centro da multidão as pessoas abrem caminho mais
dificultosamente, não por súbita má vontade, é só porque o aperto quase as não deixa in Dicionário
mexerem-se, Que será, interroga-se Ricardo Reis, mas não se atreve a fazer a pergunta Priberam da Língua
em voz alta, acha que onde tanta gente se reuniu por uma razão de todos conhecida, Portuguesa
não é lícito, e talvez seja impróprio, ou indelicado, manifestar ignorância, podiam as
pessoas ficar ofendidas, nunca há a certeza de como vai reagir a sensibilidade dos
Segundo a tradição,
outros, e como teríamos tal certeza, se a nossa própria sensibilidade se comporta de
maneira tantas vezes imprevisível para nós que julgávamos conhecê-la. Ricardo Reis o costume de
alcançou o meio da rua, está defronte da entrada do grande prédio do jornal O Século, o celebrar o bodo foi
de maior expansão e circulação, a multidão alarga-se, mais folgada, pela meia-laranja introduzido em
que com ele entesta, respira-se melhor, só agora Ricardo R eis deu por que vinha a reter Portugal no século
a respiração para não sentir o mau cheiro, ainda há quem diga que os pretos fedem, o XIII
cheiro do preto é um cheiro de animal selvagem, não este odor de cebola, alho e suor
recozida, de roupas raro mudadas, de corpos sem banho ou só no dia de ir ao médico,
qualquer pituitária medianamente delicada se teria ofendido na provação deste
trânsito.
(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.3, p.74-75)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Diante de Ricardo Reis aparece uma multidão negra que enche a rua em toda a largura,
alastra para cá e para lá, ao mesmo tempo paciente e agitada, sobre as cabeças passam O Bodo do século
refluxos, variações, é como o jogar das ondas na praia ou do vento nas searas. Ricardo
Reis aproxima-se, pede licença para passar, quem à frente dele está faz um movimento
de recusa, vai-se voltar e dizer, por exemplo, Estás com pressa, viesses mais cedo, mas Expressão popular
dá com um senhor bem-posto, sem boina nem boné, de gabardina clara, camisa branca
e gravata, é quanto basta para que lhe dê logo passagem, e não se contenta com isso,
bate nas costas do da frente, Deixa passar este senhor, e o outro faz o mesmo, por isso
vemos o chapéu cinzento de Ricardo Reis avançar tão facilmente por entre a mole
Deambulação
humana, é como o cisne do Lohengrin em águas subitamente amansadas do mar Negro, geográfica
mas esta travessia leva seu tempo porque a gente é muita, sem contar que à medida
que se vai aproximando do centro da multidão as pessoas abrem caminho mais
dificultosamente, não por súbita má vontade, é só porque o aperto quase as não deixa
mexerem-se, Que será, interroga-se Ricardo Reis, mas não se atreve a fazer a pergunta O espaço da cidade
em voz alta, acha que onde tanta gente se reuniu por uma razão de todos conhecida, • pouca higiene
não é lícito, e talvez seja impróprio, ou indelicado, manifestar ignorância, podiam as
pessoas ficar ofendidas, nunca há a certeza de como vai reagir a sensibilidade dos
outros, e como teríamos tal certeza, se a nossa própria sensibilidade se comporta de
maneira tantas vezes imprevisível para nós que julgávamos conhecê-la. Ricardo Reis
alcançou o meio da rua, está defronte da entrada do grande prédio do jornal O Século,
o de maior expansão e circulação, a multidão alarga-se, mais folgada, pela meia-laranja
que com ele entesta, respira-se melhor, só agora Ricardo Reis deu por que vinha a reter
a respiração para não sentir o mau cheiro, ainda há quem diga que os pretos fedem, o
cheiro do preto é um cheiro de animal selvagem, não este odor de cebola, alho e suor
recozida, de roupas raro mudadas, de corpos sem banho ou só no dia de ir ao médico,
qualquer pituitária medianamente delicada se teria ofendido na provação deste
trânsito.
(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.3, p.74-75)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
A entrada estão dois polícias, aqui perto outros dois que disciplinam o acesso, a
um deles vai Ricardo Reis perguntar, Que ajuntamento é este, senhor guarda, e o
agente de autoridade responde com deferência, vê-se logo que o perguntador A mendicidade de
está aqui por um acaso, É o bodo do Século, Mas é uma multidão, Saiba vossa Lisboa – “mais de mil os
senhoria que se calculam em mais de mil os contemplados, Tudo gente pobre, contemplados”.
Sim senhor, tudo gente pobre, dos pátios e barracas, Tantos, E não estão aqui Recebem:
todos, Claro, mas assim todos juntos, ao bodo, faz impressão, A mim não, já - Dez escudos,
estou habituado, E o que é que recebem, A cada pobre calha dez escudos, Dez - Agasalhos;
escudos, É verdade, dez escudos, e os garotos levam agasalhos, e brinquedos, e - Brinquedos;
livros de leitura, Por causa da instrução, Sim senhor, por causa da instrução, Dez - Livros de leitura
escudos não dá para muito, Sempre é melhor que nada, Lá isso é verdade, Há
quem esteja o ano inteiro à espera do bodo, deste e dos outros, olhe que não
falta quem passe o tempo a correr de bodo para bodo, à colheita, o piar é Campanha de
quando aparecem em sítios onde não são conhecidos, outros bairros, outras propaganda do Estado
paróquias, outras beneficências, os pobres de lá nem os deixam chegar-se, cada
pobre é fiscal doutro pobre, Caso triste, Triste será, mas é bem feito, para
aprenderem a não ser aproveitadores, Muito obrigado pelas suas informações,
senhor guarda, Às ordens de vossa senhoria, passe vossa senhoria por aqui, e,
tendo dito, o polícia avançou três passos, de braços abertos, como quem enxota
galinhas para a capoeira, Vamos lá, quietos, não queiram que trabalhe o sabre.
com estas persuasivas palavras a multidão acomodou-se, as mulheres
murmurando como é costume seu, os homens fazendo de contas que não tinham
ouvido, os garotos a pensar no brinquedo, será carrinho, será ciclista, será boneco
de celulóide, por estes dariam camisola e livro de leitura.
(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.3, p.74-75)
O ano da morte de Ricardo Reis de José Saramago
Ricardo Reis subiu a rampa da Calçada dos Caetanos, dali podia
apreciar o ajuntamento quase à vol d'oiseau, voando baixo o Deambulação geográfica
pássaro, mais de mil, o polícia calculara bem, terra riquíssima em
pobres, queira Deus que nunca se extinga a caridade para que não
venha a acabar-se a pobreza, esta gente de xaile e lenço, de
surrobecos remendados, de cotins com fundilhos doutro pano, de
alpargatas, tantos descalços, e sendo as cores tão diversas, todas Espaço da cidade e tempo
juntas fazem uma nódoa parda, negra, de lodo mal cheiroso, como histórico:
a vasa do Caís do Sodré. Ali estão, estarão, à espera de que chegue - O ambiente que se vive neste
a sua vez, horas e horas de pé, alguns desde a madrugada, as mães
momento é ilustrativo da
segurando ao colo os filhos pequenos, dando de mamar aos da
miséria de Lisboa – espaço
sazão, os pais conversando uns com os outros em conversas de
homens, os velhos calados e sombrios, mal seguros nas pernas, social - pobreza;
babam-se, dia de bodo é o único em que se lhes não deseja a
morte, por causa do prejuízo que seria. E há febres por aí, tosses,
umas garrafinhas de aguardente que ajudam a passar o tempo e
espairecem do frio. Se volta a chover, apanham-na toda, daqui
ninguém arreda.
Ricardo Reis atravessou o Bairro Alto, descendo pela Rua do
Norte chegou ao Camões, era como se estivesse dentro de um
labirinto que o conduzisse sempre ao mesmo lugar .
(O Ano da Morte de Ricardo Reis – cap.3, p.74-75)