Você está na página 1de 68

professor – OLHAR

ATENTO AOS NOVOS


TEMPOS

Edinara Leão
Doutora- UFSM
Com o processo
educativo nas mãos
Formar-se é um processo educativo que
está nas mãos do próprio formando,
que respeita a sua singularidade e que
busca ampliar as suas qualidades na
intenção de transformar a sociedade
em que vive.
Como aprender a conhecer
e a ser
• Como formar uma inteligência crítica, bem-
estruturada, em vez de um armazém entulhado de
conhecimentos?
• A CULTURA DA INFORMAÇÃO - Como afirma
Libâneo (2001): “A inteligência e a memória
navegam com a velocidade parecida com a
da luz, de modo que nada se lhe adere. É
pura sensação. Adrenalina em vez de
pensamento”.
• Nesse momento, entra o que significa
aprender a conhecer e aprender a ser.
• APRENDER A RELACIONAR E A
CONTEXTUALIZAR - O segredo de aprender a
conhecer é saber estabelecer relações e
contextualizar. Há um pensar e saber cada vez
mais especializado, mais compartimentalizado.
“Complexidade não significa dispersão, mas
conexão entre os elementos. Libâneo afirma que
o pensamento não se perde nunca no
momentâneo. Em vez de dizer que só existe o
presente, afirma-se o contrário. O presente não
existe. Ele é passado condensado e é futuro
anunciado. Vê-lo sempre assim é aprender a
conhecer. Pensa quem sabe perguntar-se a si e
à realidade. O processo educativo é o jogo de
levantar perguntas, buscar respostas, e sobre
elas continuar perguntando.
• Um bom ensino de línguas exige
LEITURA do professor para promover o
RECONHECIMENTO DE SI NAS OBRAS
LITERÁRIAS - Aprendemos a pensar em
profundidade sobre o amor, a morte, a
liberdade, o sofrimento, a injustiça e
tantas outras experiências básicas da
condição humana.
• “Ler é imenso privilégio. Aprende-se a
pensar lendo os pensadores”.
• Aprender leva em conta A LIÇÃO DAS
COISAS E DOS OBJETOS - As coisas
educam-nos o sentido de observação.
Isolados diante de monitores de TV e
internet, nossos sentidos vivem dos
estímulos artificiais, virtuais.
• “Educar a observação é caminho do
pensar”. A maior lição das coisas é
ensinar-nos a contemplar. Só aprende
conhecer e ser quem aprendeu a
contemplar.
• Para promover o currículo é necessário:
• 1. APRENDER A ANALISAR E SINTETIZAR -
“Pensar é analisar e sintetizar, separar e unir”. A
inteligência analítica procura perceber a distinção
de uma coisa e outra. A inteligência sintética
tenta recuperar dessas análises os pontos em
comum, de aproximação.
• 2. TER CAPACIDADE DE RELACIONAR -
Relacionar é superar uma visão dualista que
pensa o mundo sempre divididamente entre
sujeito e objeto, matéria e espírito, razão e
emoção, feminino e masculino, mente e corpo,
ensinar e aprender.
• 3. SABER VIVER NUM MUNDO DE
INCERTEZAS - Com a pós-modernidade, a
incerteza estabeleceu-se definitivamente no
campo do conhecimento. Rompe-se a evidência
da relação causa e efeito, de modo que uma
causa produz efeitos diversos conforme as
circunstâncias e de forma imprevisível.

• 4. SUPERAÇÃO DO DOGMATISMO - As teorias


aproximam-se da realidade sem nunca esgotá-
las, sempre à espera de correções. Aprender a
conhecer e a ser nesse mundo exige abandonar
todo dogmatismo e conduzem-nos ao “como
aprender a fazer”.
Como consequência:
• Aprender a fazer influencia o conhecer. Cria-se
uma capacidade criativa de articulação entre
conhecimento e prática. Isso quer dizer que o
progresso do conhecimento traz inovações no
agir, e as mudanças no agir exigem
reformulação do conhecimento.

• Edgar Morin faz uma distinção entre as duas


atitudes de aprender o feito e de aprender a
fazer. Chama a primeira de programação e a
segunda de estratégia.
Formar-se significa:

O mundo atual é marcado pelo


individualismo, pela violência, por
conflitos, por racismo, por intransigências
religiosas, por fanatismos. A arte de
formar-se é desafiada a ser antídoto de
tanto veneno.
Adotar uma postura profissional
implica:
• 1. APRENDER A SER TOLERANTE - Uma primeira lição
da convivência é a tolerância. A tolerância teórica tem
dois níveis: o das ideias e o das práticas. Os limites da
tolerância deveriam nascer do consenso racional do
grupo que se defende de sua destruição. E tal consenso
nasce de um diálogo em que as razões transparentes
convençam seus membros.

• 2. SUPERAR A AMEAÇA DO INDIVIDUALISMO - O


lugar para aprender a conviver é a vida em grupo, em
equipe, em comunidade, a começar pela família.
• 3. COMUNITARISMO DE EVENTO E GRUPOS
AFINS - Aprender a viver juntos exige
preciosamente a capacidade de administrar o
conflito, as divergências, as diferenças.

• 4. A DESCOBERTA DO VALOR DE SI E DOS


OUTROS - Aprender a viver juntos passa por
uma dupla descoberta: a do valor próprio e a do
valor dos outros. “A consciência de uma
igualdade radical na diferença dos talentos é a
base do viver juntos”.
• 5. SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E
TRABALHO EM EQUIPE - A capacidade
comunicativa das pessoas para criarem equipes
de trabalho se torna absolutamente
imprescindível.

• 6. EXPERIÊNCIA DE CONVÍVIO - Para as


crianças e os jovens aprenderem a viver juntos,
os professores precisam propiciar-lhes
experiências de convívio e, dentro delas, refletir
com eles sobre sua conduta. Aprender a
conviver é saber manter um olhar crítico,
vigilante, lúcido sobre si e sobre os outros, na
dupla faceta de reconhecimento dos valores e
das limitações.
O que temos hoje
• UNILATERALISMO DA CULTURA
OCIDENTAL - Os critérios de promoção
se fazem por meio de exames que exigem
certo tipo de inteligência lógica, de
memória, de capacidade dedutiva. É essa
concepção unilateral da inteligência. O ser
humano é reduzido a uma de suas
dimensões.
O que queremos construir

• DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DA PESSOA


HUMANA - Aprender a ser uma resposta a esses
extremos, procurando o desenvolvimento integral, total,
da pessoa humana: espírito e corpo.

• DIMENSÃO GERACIONAL - Existe o risco crescente de


ir lentamente estragando, destruindo, empobrecendo a
Terra, de modo que as gerações futuras pagarão por
pecados que não cometeram. Aprende-se a ser
para a realidade presente e vindoura num
espírito ético.
• A DIALÉTICA DO SER E TER - “O ter nos
agrega. O ser nos constitui”. Aprender a ter
é ocultar-se atrás das coisas. Aprender a
ser é despojar-se das coisas para revelar
o próprio ser.

• O OCULTAMENTO DE SI - Não se
expondo, o professor não pode ser, na
verdade, nem amado nem rejeitado.
Prefere renunciar ao amor a ser excluído.
Ser um profissional preparado é saber
enfrentar-se na verdade de si.
• ENFRENTAMENTO DA MÍDIA E DA CULTURA
MODERNA – Ser professor hoje implica uma
tarefa singular de saber situar-se diante da
terrível força inculcadora dos novos meios de
comunicação. Implica necessariamente uma
postura crítica diante dessa cultura massificada,
vulgarizada, banalizada.

• O MUNDO DOS SENTIMENTOS – Uma


abordagem que vá além do compartimento das
disciplinas deve contemplar o conjunto dos
sentimentos, que dá o equilíbrio ao ser humano.
• A DIMENSÃO DA BELEZA - Na educação, há
uma preocupação para que tudo que cerque a
criança seja o mais belo possível, mesmo em
situação de pobreza.
• A DIMENSÃO DA VERDADE - A verdade funda-
se no próprio ser das coisas.
• A DIMENSÃO DO BEM - “A janela que nos abre
para o bem é a ética.” Um bom profissional
educa-se eticamente, em resposta à crise atual
de valores. A crise de valores tem dupla face:
teórica e prática. Teórica, questiona-se
realmente a validade dos valores. Prática não
se discutem os valores.
• Aprender abrange todos os pilares –
conhecer, fazer, conviver e ser – todos
estão precedidos de um único verbo:
aprender a.

• Formar é precisamente ajudar as


pessoas a descobrir esse processo
criativo de aprender a e ir atualizando-o
nos diversos pilares.
A construção do conhecimento
• Conhecimento - Transformar a informação em
conhecimento - captar a informação relevante,
senti-la, relacioná-la com a vida. Ajudar a
estimular o que é relevante na informação, a
transformá-la, saber integrá-la dentro de um
modelo mental/emocional equilibrado e
transformá-la em ação presente ou futura.
É preciso aprender a navegar entre tantas e tão
desencontradas informações, entre modelos
contraditórios de conhecimento, de visões de
mundo opostas.
• Desenvolvimento pessoal - Integração pessoal,
trabalhar a identidade positiva, a auto-estima, o
valor dos professores. Permitir um professor com
novos e variados papéis, que funcione como
planejador e como orientador da aprendizagem,
capaz de se comunicar, criativo, consciente de
sua responsabilidade para contribuir com a
transformação da sociedade, e de seus limites
como pessoa e como profissional, em constante
aperfeiçoamento, e assume conscientemente
seu auto-aperfeiçoamento.
Desenvolvimento cognitivo
• Os ambientes computacionais quando voltados
para a inteligência e o desenvolvimento
cognitivo como processos básicos da
aprendizagem podem constituir-se num desafio
à criatividade e invenção.
• Uma nova ecologia cognitiva (Lévy,1993)
significa uma nova dinâmica na construção do
conhecimento, um novo movimento, novas
capacidades de adaptação e de equilíbrio
dinâmico nos processos de construção do
conhecimento, um novo jogo entre sujeito e
objeto, um novo enfoque mostrando o enlace e
a interatividade existentes entre as coisas do
cérebro e os instrumentos que o homem utiliza.
Comunicação

• Aprender a manifestar o que o indivíduo é, o que sente,


deseja, captar o que é o outro em todas as suas
dimensões.
• Aprender a comunicar-se com todas as linguagens -
oral, escrita, áudio-vídeo-gráfica - com todo o ser:
corpo, mente, gestos.
• Desenvolver formas de interação, baseadas na
confiança, na valorização mútua, na interação sensorial-
emocional-intelectual aberta, criativa e organizada. O
educador é um comunicador que expressa capacidade
de motivar, de liderar, de coordenar e de adaptar-se aos
vários ritmos dos diversos grupos.
Trabalho cooperativo
• A cultura atual oferece efetivas
oportunidades para trabalho cooperativo,
mas problemas estruturais encontrados no
contexto escolar para uso das
informações, que incluem acesso, custos,
tempo e equipamento, podem dificultar
seu uso, devendo ser buscadas
alternativas para superar esses
problemas.
Criticidade
• Não basta que os alunos simplesmente
lembrem das informações: eles precisam
ter a habilidade e o desejo de utilizá-las,
precisam saber relacioná-las, sintetizá-las,
analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes
elementos constituem o pensamento
crítico aparecendo em aula quando os
alunos se esforçam para ir além de
respostas simples, quando desafiam
ideias e conclusões e procuram unir
eventos não relacionados dentro de um
entendimento coerente do mundo.
• Mas sua aplicação mais importante está fora da
sala de aula. A habilidade de pensar criticamente
apresenta pouco valor se não for exercitada no
dia-a-dia das situações da vida real. Aí as redes
telemáticas podem ter importante papel,
fornecendo o cenário para interessantes
aventuras do intelecto.
• É preciso que se crie condições para que os
participantes desenvolvam visão crítica frente a
utilização das novas tecnologias, e se
desenvolvam estudos sobre objetos de
conhecimento, favorecendo a aprendizagem a
partir de situações experimentais e conjeturais.
• Espera-se do professor no século XXI que ele
seja aquele que ajude a tecer a trama do
desenvolvimento individual e coletivo e que saiba
manejar os instrumentos que a cultura irá indicar
como representativos dos modos de viver e de
pensar civilizados, específicos dos novos
tempos.
• Para isso, ainda são necessárias muitas
pesquisas em novas tecnologias da informação,
modelos cognitivos, interações entre pares,
aprendizagem cooperativa, adequados ao
modelo baseado em tecnologia, que oriente a
formação de professores no seu
desenvolvimento e ofereça alguns parâmetros
para a tarefa docente nesta perspectiva.
A construção da identidade
• A educação escolar assim como a concebemos, se
amplia além da “formação acadêmica”. Consideramos
função da escola, aliada às famílias, investir na
construção da identidade voltada ao sentido de
cidadania que lhe é implícito.
• A escola, por ser um laboratório vivo das práticas
sociais é, por excelência, o lugar onde as crianças e
adolescentes tem a possibilidade de aprender a conviver
e construir os valores democráticos para uma cidadania
responsável, dentre os quais destacamos:
• o respeito às diferenças
• a solidariedade
• a responsabilidade
• a autonomia moral
Na sala de aula
• É através da vivência cotidiana no ambiente escolar que esta construção se
efetiva.
• Diversos instrumentos possibilitam que estes valores sejam incorporados:

• Momentos de reflexão – Sob a mediação dos professores e coordenadores,


situações de conflito inter-pessoais e de crise são objeto frequente de
análise.

• Contratos didáticos e educacionais – Instrumentos formais que definem


acordos realizados entre o(s) aluno(s) e professores/ coordenadores com o
objetivo de cumprimento de trabalhos escolares (contratos didáticos) ou
mudança de comportamento (contratos educacionais).

• Assembleias de classe – Momento escolar organizado para que os alunos


possam falar, discutir e encaminhar propostas sobre tudo o que possa
otimizar o trabalho e a convivência. Participar do ritual da assembleia
propicia o desenvolvimento do espírito democrático nas crianças e nos
jovens.

• Fichas de auto-gestão – Instrumentos de orientação que visam a organização


pessoal e a auto-avaliação sistemática do cumprimento e da qualidade do
trabalho produzido.
A arte de ser e de
conviver

• O momento atual em que vivemos nos faz


repensar nossos objetivos pessoais,
nossa qualidade de vida, de como
encontrar as respostas à busca de
significado naquilo que fazemos e de
como melhorar nossos relacionamentos.
Sensibilização ecológica

• A sensibilização da sociedade para as


questões ecológicas, e de que todos nós
somos agentes transformadores do
ambiente em que vivemos, leva-nos a
compreender que somos todos
interdependentes.
Relações interpessoais
saudáveis
• Somos um ser multidimensional – mente -
corpo – emoção e espírito- com estas
dimensões entrelaçadas dentro de nós
mesmos. Para que possamos desenvolver
relações interpessoais saudáveis cada um
de nós precisa desenvolver a capacidade
de fortalecer em si todas essas
dimensões, integrando o intuir, o pensar, o
sentir e o agir.
Viagem para dentro de nós
• Isto é possível quando ousamos fazer
uma viagem para dentro de nós mesmos,
nossa terra natal, desenvolver a
percepção de nossas crenças e valores,
conhecer e acreditar em nosso potencial
criativo, desenvolvendo uma segurança
interior que nos permite aprender a
aprender, aprender a ser e a conviver.
Aprendendo com histórias
• Uma sugestão para o trabalho
pedagógico é a metodologia que utiliza
histórias-ensinamento do folclore dos
povos. Essas histórias, metáforas do
comportamento humano, conduzem o
participante a uma experiência rica em
comunicação intra-pessoal que contribui
para a melhoria da sua relação com o
mundo a seu redor, a comunicação
interpessoal.
A experiência
• A experiência de estudo das histórias-
ensinamento, metáforas do
comportamento humano, produz uma
ordenação interna no participante,
modelando para ele uma maneira mais
flexível de estar no mundo e a aprender
que podem experimentar, confrontar suas
próprias experiências e hábitos
limitadores, dando-lhes um novo
significado e descobrindo aí um novo
aprendizado.
• As atividades escolares devem estimular
as múltiplas inteligências do ser humano,
expandindo a percepção do que ele é, de
como foi o seu desenvolvimento pessoal
até hoje e do como tudo isso contribui
para a construção do seu futuro. São
também ativadoras de novos processos de
percepção, de linguagem e de expressão
criativa.
Conviver com o meio
ambiente
• Se, num voo da imaginação, visualizarmos os
futuros seres humanos olhando o mundo no qual
nascerão, como seria essa visão?

• Certamente, a de um mundo com grandes


contrastes, desde a barbárie de formas extremas
de violência até os mais iluminados momentos
de convívio pacífico e solidário. Veriam uma
parte da humanidade oprimindo a outra com
abuso de poder, promovendo uma enorme
devastação ambiental pelo excesso de consumo
e pela ganância, gerando grande desigualdade
social;
• por outro lado, veriam também outra parte
da humanidade desenvolvendo uma
consciência coletiva de cuidar do
ambiente e das comunidades menos
favorecidas para tentar restaurar a
delicada teia da vida que tem sido
rompida em muitos pontos e que ameaça
seriamente o planeta e seus habitantes.
• Um dos grandes desafios do século XXI é
continuar descobrindo caminhos eficazes
para ajudar crianças e jovens a crescer
com a capacidade de construir a paz e a
solidariedade em um mundo com tantos
episódios de violência não apenas contra
eles, mas também entre eles.
Tecelagem
• De que lado da humanidade queremos estar?
Em que direção iremos caminhar
prioritariamente, com pequenas e grandes ações
dentro da nossa área de atuação?

• Cuidar do planeta é a oportunidade preciosa (e,


evidentemente, uma enorme responsabilidade)
de participar ativamente dessa tecelagem de
uma novo tempo no mundo em que vivemos.
O ambiente que gera a vida
• Com o desenvolvimento da tecnologia, é possível fotografar
e filmar a evolução do ser humano desde o momento da
concepção. Já se sabe que o bebê não nasce como folha
em branco: tudo fica registrado nos arquivos celulares, base
da memória, da percepção, dos sentimentos.
• No ventre materno, o feto desenvolve habilidades incríveis:
os movimentos não são aleatórios, mas graciosos e
coordenados; escuta a voz da mãe e os ruídos do interior
de seu corpo, aprende a gostar até mesmo das músicas
que ela escuta ou que costuma cantar. Nos últimos meses
de gestação, o feto também escuta a voz do pai, quando
ele fala próximo à barriga da mãe. São tantos os estudos e
as descobertas sobre as competências pré-natais, que há
quem considere o útero nossa primeira “sala de aula”.
A aventura da vida
• Os conhecimentos recentes da neurociência afetiva
sobre a influência do relacionamento familiar sobre o
desenvolvimento do cérebro, da empatia e das várias
inteligências nos primeiros anos de vida apontam muito
claramente para o poder da expansão do amor e para a
enorme importância de plantar as sementes da paz e da
solidariedade nos primórdios da vida.

• Há, portanto, bons motivos para investir cada vez mais nesse
“capital humano”, acreditando na sabedoria das crianças e dos
jovens, criando condições para que desenvolvam habilidades e
competências para construir bons “pactos de convivência”, uma vez
que, ao nascer, o bebê está equipado para iniciar a grande aventura
da vida: descobrir a si mesmo, as pessoas e o mundo ao seu redor.
Alfabetização ecológica
• Nos primeiros anos de vida, é essencial apresentar a criança à
beleza do mundo, para que ela possa apreciá-la, valorizá-la,
cultivá-la fora e dentro de si mesma. Não é possível continuar
considerando a violência como entretenimento nem como
espetáculo que faz crescer os índices de audiência.

• Num mundo com tantos episódios violentos e tristes, antes da


poluição do consumismo, dos shoppings, dos comerciais da TV
e dos videogames, é preciso descobrir a magia das árvores, da
água, dos pequenos animais, das paisagens naturais. O
encantamento com a natureza é a base da chamada
alfabetização ecológica, que se alicerça no desenvolvimento da
cooperação.
Nova consciência global
• Perceber a grandeza dos pequenos momentos poderá
resultar na construção de uma nova consciência global,
a partir de uma infinidade de ações e de gestos
concretos.
• É assim que aprendemos a colocar em prática os
valores fundamentais do convívio: gentileza, respeito,
consideração, cooperação e solidariedade.
• Um dos grandes desafios deste século, e um tema
interdisciplinar, por excelência, é a mudança de valores
e a recuperação do respeito pela vida.
Parceria família-escola
• Todos nós nascemos com um impulso amoroso e com um
impulso agressivo. O desenvolvimento da empatia é
essencial para controlar a impulsividade e canalizar a
agressividade para fins construtivos. Ser amorosamente
firmes com a criança é a melhor maneira de ajudá-la a
conter o impulso de fazer o que não pode sem criar clima
de guerra.
• Além da proteção contra perigos, o valor dos limites é
socializar a criança. Todos os grandes marcos do
desenvolvimento da criança são oportunidades de estimular
o crescimento das sementes do amor por si mesma, pelos
outros e pelo ambiente. A parceria entre a família e a escola
é essencial para estimular o desenvolvimento harmônico de
crianças e jovens em suas redes de convivência.
Preparar para a vida
• Porém, ouvimos muitos pais levantando a seguinte
questão:

• “Como vamos criar filhos pacíficos e solidários num


mundo violento? Crianças que gostem de cooperar e
não só de competir não sobreviveriam, não saberiam se
defender, não conseguiriam conquistar um lugar viável
no mercado de trabalho!”

• Pensam que “preparar os filhos para a vida” quase


equivale a prepará-los para a guerra.
Inteligência emocional
• No entanto, o desenvolvimento de uma criança que se tornará uma
pessoa pacífica e solidária requer a consolidação de características
múltiplas e complexas, muitas das quais estão incluídas nos conceitos
de “inteligência emocional” e de “inteligência interpessoal”:

• olhar os conflitos como desafios para criar saídas e


soluções razoáveis para todos os envolvidos; capacidade
de empatia; pensamento sistêmico; facilidade de trabalhar
com grupos e em equipe; capacidade de liderança e de
tomar iniciativas; disposição para superar dificuldades e
obstáculos. Ou seja, posturas ativas e dinâmicas que
estão sendo cada vez mais valorizadas no mercado de
trabalho. Longe de uma postura de submissão,
conformismo ou pasmaceira.
O ambiente somos nós
• Na evolução do conceito de “meio”, chegou-se a
uma visão holística, em que construir a paz no
cotidiano de nossas vidas equivale a um trabalho
ativo ao redor de três eixos:
1. aprender a cuidar bem de nós mesmos
2. dos outros
3. e do ambiente em que vivemos.
• Em essência, isto significa expandir a capacidade
amorosa e canalizar o potencial agressivo para
fins de assertividade e persistência para alcançar
as metas propostas.
A degradação ambiental
• No cenário desolador, vemos uma violência generalizada, com uma
brutal concentração de renda nas mãos de poucos às custas de
uma imensa massa de excluídos, vivendo abaixo da linha da
pobreza, numa gigantesca desigualdade social; vemos a agressão à
economia de muitos países submersos em dívidas impagáveis,
sujeitos ao capital sem pátria e sem solidariedade, que se volatiliza
e migra ao sabor dos menores riscos e das maiores taxas.

• Vemos um consumo predatório de recursos finitos, que


conduziu a uma degradação ambiental sem precedentes,
que se reflete nos altos índices de poluição, na mudança
climática e na grave carência de água potável para
muitos países; vemos o crime globalizado, com uma
organização altamente eficiente a aterrorizar o mundo,
globalizando o medo e a insegurança.
Uma outra globalização
• No cenário esperançoso, vemos, como mostra Milton Santos, que
já existem condições materiais e técnicas que possibilitam uma
“mutação filosófica da espécie humana”, para fundar uma história
universal humana, facilitada pela democratização do acesso à
informação.

• É possível uma outra globalização, que supere o


endeusamento do dinheiro e reconheça a humanidade
como um todo, fazendo uma nova construção, de baixo
para cima, ou seja, partindo dos menos favorecidos, já
que para a maioria dos poderosos não interessa tomar
esse tipo de iniciativa. Isto permitirá a implantação de
um novo modelo econômico, social e político que
conduza à realização de uma vida coletiva solidária,
passando da escala do lugar à escala do planeta,
reformando o mundo numa outra globalização.
A humanidade em um único
corpo
• Elisabet Sahtouris comenta que, há poucos anos,
inventamos uma tecnologia que mudou o planeta e nos
uniu numa evolução da espécie: podemos nos
comunicar com o mundo inteiro em tempo real, nos
transportar de um lado para outro, estamos evoluindo
para um único corpo de humanidade.

• Antes, não conseguíamos saber o que acontecia no


mundo em tempo real nem acessar as raízes remotas
de nossa história: hoje temos telescópios e microscópios
potentes para pesquisar a evolução. Agora podemos ver
a Terra do espaço e percebê-la como um grande ser
vivo, que se auto-regula, buscando equilíbrio.
Consuma sem consumir o
ambiente em que você vive
• O reconhecimento de que o consumismo
exagerado reflete uma fome espiritual e
de relacionamentos e está
comprometendo seriamente o equilíbrio
ecológico gerou novos conceitos que
inspiram uma revisão de estilos de vida e
de hábitos de consumo – a “simplicidade
voluntária” e o “consumo consciente”.
Algumas questões para pensar
• Quando fomos forçados a racionar o consumo da energia elétrica,
descobrimos que poderíamos usá-la com mais parcimônia e muitos
de nós passamos a poupar mais, mesmo após o fim do
racionamento.
Algumas questões que se colocam são:
• Podemos viver mais com menos?
• Daquilo que consumimos, o que mais agride o meio ambiente?
Como evitar isto, por exemplo, evitando utilizar embalagens
descartáveis?
• Procuramos comprar produtos de empresas socialmente
responsáveis?
• Precisamos de tudo que estamos comprando, ou
podemos trabalhar menos e dedicar mais tempo às
conversas em família?
• Como podemos fazer uma “reengenharia do tempo”, na
busca de um equilíbrio melhor entre trabalho, vida em
família e lazer?
A reengenharia do tempo
• Já encontramos empresas interessadas nessa “reengenharia do
tempo”, flexibilizando horários de trabalho, reconhecendo que parte
das tarefas podem ser feitas em casa, e cuidando de cumprir a lei,
por exemplo, de instalar creches no local de trabalho.

• Muitas empresas estão reconhecendo a necessidade de


cuidar melhor do “capital humano” (até porque
funcionários satisfeitos produzem mais) e se
conscientizando de sua responsabilidade social,
gerando ou apoiando projetos de melhoria da qualidade
de vida de populações carentes e de preservação
ambiental (até porque isto melhora a imagem da
empresa junto ao consumidor).
Progresso e qualidade de
vida
• O expressivo aumento da adesão ao voluntariado, inclusive
dentro das empresas, dá a dimensão do crescimento das redes
solidárias. Muitas escolas incentivam a participação dos alunos em
projetos sociais.

• O aumento dos projetos bem sucedidos de desenvolvimento


sustentável mostra que é possível usar os recursos da natureza
sem o excesso destruidor, cuidando do progresso das comunidades
e pensando na qualidade de vida das gerações futuras.

• Iniciativas empreendedoras com base no conceito de “ economia


solidária” e de acesso ao microcrédito também compõem
esse cenário esperançoso.
A neurociência
• No cenário dos progressos tecnológicos que permitiram descobertas
científicas importantes no campo dos primórdios da formação do ser
humano, vale a pena destacar os recentes avanços da
neurociência.
• Como menciona Thomas Verny, nosso cérebro e, por conseguinte,
nossa personalidade, resulta da integração entre nossos genes e as
experiências pelas quais passamos desde a vida intrauterina.
Quando o olhar da mãe e o do bebê se encontram amorosamente,
no corpo do bebê são liberados os hormônios ligados à socialização
e à empatia, preparando seu cérebro para a capacidade de amar.
Acariciar o bebê reduz os hormônios do estresse que prejudicam o
desenvolvimento cerebral. Como diz Kent Hoffman: “Com 11 milhões
de sinapses por minuto surgindo no cérebro do bebê, pode-se dizer
que os cuidadores estão co-criando galáxias de neuroconexões nas
crianças pequenas.”
• Por outro lado, se a criança sofrer violência e maus-
tratos repetidamente, a arquitetura do cérebro sofrerá
danos. Em síntese, vínculos seguros facilitam a
formação de boa auto-estima e visão positiva do mundo;
os vínculos pouco amorosos ou inseguros conduzem a
problemas emocionais posteriores. Vínculo seguro
significa amor com sensibilidade, aconchego, sintonia,
reparar rupturas, negociar caminhos de vida
atravessando adversidades e superando obstáculos.
Amor, carinho, respeito: ingredientes necessários para
criar crianças pacíficas, solidárias e com competência
social.
A sobrevivência da espécie
• Portanto, no cenário das descobertas científicas sobre o
desenvolvimento, destaca-se o conceito de competência do bebê e
da criança pequena, de sua capacidade de formar vínculos desde
muito cedo. O ser humano já nasce equipado para vincular-se: o
desenvolvimento da empatia, as sementes da solidariedade e da
expansão amorosa começam a germinar nos primeiros anos de
vida.

• É preciso reconhecer a sabedoria das crianças, a


competência das famílias e o poder dos pequenos
gestos e ações do cotidiano como contribuições
essenciais para a grande mudança da consciência
coletiva da humanidade que, por força do que nos
mostra o cenário desolador, tornou-se uma medida de
sobrevivência da espécie.
• Podemos crescer como seres humanos, na medida em que nossos
filhos crescem, por meio das necessárias revisões do nosso
modo de ser no mundo, de nosso estilo de vida, dos
hábitos de consumo, do ritmo e da forma de trabalho e
de lazer, dos valores de convívio, da espiritualidade e da
busca de transcendência.

• Considerando que todos nós vivemos inseridos nos cenários


desolador e esperançoso descritos acima, precisamos todos, atuar
como ativistas sociais, ambientalistas a partir do
cotidiano da família e do trabalho, nutrindo amor e
respeito, cooperação e responsabilidade pelo bem
comum.
O nosso papel
• Cabe a cada família e a cada educador transformar todos esses
conceitos abstratos em ações concretas no cotidiano,
reconhecendo a grandeza contida em cada pequeno gesto e ação.
• Alguns exemplos: quando todos (meninos e meninas, homens e
mulheres) da casa preparam o lanche de domingo e arrumam a
mesa da refeição, estão tendo uma experiência de partilha e de
cooperação;
• passear com os filhos num parque, apreciando belezas naturais,
colocando o lixo nos recipientes adequados, é uma maneira de
valorizar a beleza do mundo e perceber a necessidade de
preservar esse bem coletivo;
• usar eletricidade, água e combustível sem excessos, materiais de
limpeza biodegradáveis, produtos com embalagens recicladas
como meios de dar uma parcela de contribuição para o equilíbrio de
recursos que são finitos;
A grandeza dos pequenos
momentos
• E em casa: estimular os irmãos a se ajudarem nos trabalhos
escolares,
• na aprendizagem de novas habilidades,
• na escuta atenta, transmite noções de empatia, solidariedade,
cooperação;
• colocar perguntas estimuladoras – “como vocês podem resolver
isso sem briga?” – contribui para a criatividade na busca de
soluções para impasses e conflitos que inevitavelmente surgem no
cotidiano do convívio.
• Enfim, o exercício da reflexão sobre a grandeza dos
pequenos momentos poderá conduzir cada família a
trabalhar em prol da construção dessa nova consciência
global, a partir de uma infinidade de ações e gestos
concretos.
Na escola...
• O cotidiano das escolas também oferece inúmeras oportunidades de
construir a paz:
• 1. Respeitar colegas e professores,
• 2. discordar ou mostrar desagrado sem ofender os outros,
• 3. aprender não só a aceitar como também a apreciar a diversidade,
• 4. conviver com as diferenças,
• 5. aprender a transformar conflitos destrutivos em acordos
construtivos,
• 6. cuidar bem do espaço coletivo,
• 7. ser solidário com os colegas que atravessam dificuldades,
• 8. aprimorar a capacidade de trabalhar cooperativamente em equipe.

• A escola como uma comunidade social oferece a cada


dia oportunidades de envolvimento interpessoal.
A consciência coletiva do
ser humano
• Para melhor refletir sobre a missão dos educadores
no século XXI, convém começar por uma abordagem
panorâmica, sintética e, necessariamente,
incompleta de um cenário desolador e de um
cenário esperançoso que vislumbramos hoje.

• Precisamos, também mencionar o do poder do


cotidiano na formação de uma nova consciência
coletiva do ser humano. Esta é a condição
indispensável para transformar o desastre que
provocamos no meio ambiente e nas relações entre
povos e nações em oportunidades de evolução das
formas de viver no mundo em que habitamos e
conviver com nossos semelhantes.
Concluindo...
• Portanto, a missão de pais e educadores no
século XXI, numa proposta educativa
interdisciplinar, é desenvolver o poder da
responsabilidade. Significa olhar o cotidiano
como caminho de transformação da consciência
do ser humano, ampliando sua contribuição
para reverter o cenário desolador,
incrementando as tendências já existentes no
cenário esperançoso para construir novos
rumos e educar crianças e jovens para a paz e
a solidariedade, capazes de criar um mundo
melhor para todos nós.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AZEVEDO, José Clovis de. Novos paradigmas e a formação dos educadores.
Pátio, v. 5 n. 17, p. 51-53, 2001.

BOFF, Leonardo. Do iceberg à arca de Noé. Ed. Garamond, R.J., 2002.

BOULDING, Elise. Cultures of peace, the hidden side of History. Syracuse


University Press, N.Y., 2000.

CAPRA, Fritjof. Conexões ocultas. Ed. Cultrix, S.P., 2002.

DOWBOR, L. O espaço do conhecimento. In: A revolução tecnológica e os


novos paradigmas da sociedade. Belo Horizonte, IPSO, 1993.

DRUCKER, P. Sociedade pós-capitalista. São Paulo, Pioneira, 1993.

FRIGOTTO, G. A formação e profissionalização do educador frente aos


novos desafios. VIII ENDIPE, Florianópolis, 1996. Pp. 389-406.

GIROUX, Henry. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia


crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1997.
LAROCCA, Priscila. Problematizando os contínuos desafios da
psicologia na formação docente. In: AZZI, Roberta Gurgel; SADALLA, Ana
Maria Falcão de Aragão (Orgs.). Psicologia e formação docente: desafios e
conversas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002. p. 29-45.

LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era


da informática. Rio de Janeiro, ed.34, 1993.

MALDONADO, Maria Tereza. As sementes do amor. Ed. Planeta, S.P., 2003.

MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina. La interrelación entre investigación


psicológica y práctica educativa: un análisis crítico a partir del campo
de la creatividad. In: DEL PRETTE, Zilda. Psicologia escolar e educacional:
saúde e qualidade de vida. Campinas: Átomo e Alínea, 2001. p. 87-112.

MORIN, Edgar. A epistemologia da complexidade. In: SCHNITMAN, Dora


Fried (Org.). Novos paradigmas cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artmed,
1996. p. 274-289.

NÓVOA, A. Formação contínua de professores: realidades e


perspectivas. Aveiro, Univ.Aveiro, 1991.

OSOFSKY, Joy. Children in a violent society. Guilford Press, Nova Iorque,


1997
PEREIRA, Monica Neves. Criatividade na educação infantil: um estudo
sociocultural construtivista de concepções e práticas de educadores.
Tese de Doutorado em Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília, 2004.
• PIAGET, Jean. A equilibração das estruturas cognitivas.
Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

• SANTOS, Milton. Por uma nova globalização. Rio, ed.


Record, 2001.
SCHNITMAN, Dora Fried. Novos paradigmas, cultura e
subjetividade. Porto Alegre: Artmed, 1996.

• SCHÖN, Donald. Formar professores como profissionais


reflexivos. In: NÓVOA, António (Org.). Os professores e sua
formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992. p. 52-77.

• VALSINER, Jaan. Comparative Study of human cultural


development. Madrid: Fundación Infancia y Aprendizaje,
2001.

• VIGOTSKI, Levy. The problem of the environment. In:


VAN DER DEER, Rene; VALSINER, Jaan (Orgs.). The Vygotsky
reader. Oxford, U.K.: Blackwell, 1994. p. 338-354
Contato

edinaraleao1@gmail.com

Você também pode gostar