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Escritos Sobre a História, II Consideração

Intempestiva: Sobre a Utilidade e os


Inconvenientes da História para a Vida (1874).
Friedrich. W. Nietzsche – ( 1844 – 1900)
 “Nietzsche, em II Consideração Intempestiva: Sobre a Utilidade e os
Inconvenientes da História para a Vida, tem seu discurso voltado para o
conhecimento histórico. Devemos entender por isso, não somente as
concatenações dos fatos que nos chegam sob o nome de “história”, mas
tudo quanto podemos chamar conhecimento humano, principalmente
todos os grandes pensadores, cientistas e artistas da humanidade.“(ZABEU,
2011)
 “Nietzsche procura conscientizar seus contemporâneos dos problemas
causados pelos excessos de história científica e que os impede de se
desenvolver. Longe de ser um defensor da memória” (ZABEU, 2011)
 O homem, segundo Nietzsche, sofre por seu passado. Tanto o homem
individual por seu passado pessoal, como os homens em geral pela história
da humanidade. “Por outro lado, o homem apropria-se da história, e
consciente do limite até o qual ela pode servi-lo, ele a utiliza para seu
desenvolvimento autêntico e próprio. Assim, ele pode “transformar e
assimilar as coisas passadas ou estranhas, curar suas feridas, reparar suas
perdas, reconstruir por si próprio as formas destruídas” (NIETZSCHE, apud,
ZABEU, 2011)
 “em Nietzsche, [...] tanto a perspectiva histórica como a perspectiva a-
histórica são igualmente necessárias para a vida. O homem deve conhecer
a história de modo a se apropriar dela, mas deve também estabelecer um
limite ao se voltar para o passado para que haja a possibilidade do a-
histórico, e, então, do anti-histórico. “Nenhum artista realizaria sua obra,
[...] nenhum povo conquistaria sua liberdade, sem que essas coisas
tivessem sido previamente desejadas e perseguidas num tal estado de a-
historicidade” (NIETZSCHE, apud, ZABEU, 2011)
 Somente na medida em que a história serve à vida queremos servi-la. Mas
há um grau que impulsiona a história e a avalia, onde a vida definha e se
degrada: um fenômeno que, por mais doloroso que seja, se descobre
justamente agora, em meio aos sintomas mais peculiares de nosso tempo.
 “No entanto, em meio à menor como em meio à maior felicidade é sempre
uma coisa que torna a felicidade o que ela é: o poder-esquecer ou, dito de
maneira mais erudita, a faculdade de sentir a-historicamente durante a sua
duração.”
 Para Nietzsche o conceito de a-histórico é a faculdade do esquecimentos
da historia. “ denomina a arte e a força do poder de esquecer e de se inserir
em um horizonte limitado.”(NIETZSCHE)
 Sobre a perspectiva supra-histórica “é aquela em que o homem tem a capacidade
de visualizar como nos grandes momentos da história pôde-se desligar-se dela, e
ao observar e meditar sobre sua situação histórica, pôde agir contra sua época (o
anti-histórico)”.
 Para que o homem faça história de forma apropriada é preciso que ele transite,
(uma vez que para Nietzsche ele já é e está inserido nela), para que ele viva bem,
ele deve encarar e transitar por todas elas, a histórica, a a-histórica e a supra
histórica.
 Nietzsche apresenta 3 formas de conhecer a história: história Monumental,
história tradicionalista, história crítica.
 “A história é pertinente ao vivente em três aspectos: ela lhe é pertinente conforme
ele age e aspira, preserva e venera, sofre e carece de libertação. A esta tripla
ligação correspondem três espécies de história, uma vez que é permitido
diferenciar entre uma espécie monumental, uma espécie antiquária e uma espécie
crítica de história.” ( NIETZSCHE)
 Por historia Monumental: entende-se ser a que o homem busca, a que recorre para
fazer grandes coisas, para ser lembrado. Segundo NIETZSCHE: Que os grandes
momentos na luta dos indivíduos formem uma corrente, que como uma cadeia de
montanhas liguem a espécie humana através dos milênios, que, para mim, o fato
de o ápice de um momento já há muito passado ainda esteja vivo, claro e
grandioso – este é o pensamento fundamental da crença em uma humanidade,
pensamento que se expressa pela exigência de uma história monumental.
 Por história tradicionalista: entende-se sobre aquele que o homem preserva como
rotina do valores do passado. Numa espécie de culto a valores estáticos que ele
perpetua com forma de se afirma na história de suas origens. “A posse dos bens de
seus ancestrais altera o seu significado no interior de uma tal alma: pois esta alma
é muito mais possuída por eles. O diminuto e circunscrito, o esfacelado e obsoleto
mantêm sua própria dignidade e inviolabilidade pelo fato de a alma preservadora e
veneradora do homem antiquado se transportar para estas coisas e preparar aí um
ninho pátrio. A história de sua cidade transforma-se, para ele, na história de si
mesmo” (NIETZSCHE)
 Por história crítica: é aquela em que o homem se sente oprimido pelo presente, e
questiona seu lugar, querendo se livrar da carga que esta lhe impõem. Assim julga
e condena, procurando mudar seu passado. Segundo Nietzsche, “aqui na história
crítica o esquecimento é merecido. todo passado é digno de ser condenado – pois
é assim que se passa com as coisas humanas: sempre houve nelas violência e
fraqueza humanas potentes. Não é a justiça que se acha aqui em julgamento, nem
tampouco a misericórdia que anuncia aqui o veredicto: mas apenas a vida, aquele
poder obscuro, impulsionador, inesgotável que deseja a si mesmo.”(
NIETZSCHE)
 Segundo Nietzsche estes são os serviços que a “história pode prestar
à vida; de acordo com suas metas, forças e necessidades, todo
homem e todo povo precisa de um certo conhecimento do passado,
ora sob a forma da história monumental, ora da antiquária, ora da
crítica: não como um grupo de puros pensadores que apenas
contemplam a vida, não como indivíduos ávidos de saber, que só se
satisfazem com o saber e para os quais a ampliação do
conhecimento é a própria meta, mas sempre apenas para os fins da
vida, e, portanto, sob o domínio e condução suprema destes fins.
Esta é a ligação natural que uma época, uma cultura, um povo deve
ter com a história – evocada pela fome, regulada pelo grau de suas
necessidades, mantida sob limites pela força plástica que lhe é
própria – se o conhecimento do passado, em todas as épocas, só é
desejado a serviço do futuro e do presente, não para o
enfraquecimento do presente ou para o desenraizamento de um
futuro vitalmente vigoroso: tudo isto é simples como a verdade é
simples e convence imediatamente também aquele que não se
deixou levar, inicialmente, pela justificativa histórica.”
(NIETZSCHE)
 Em Nietzsche, “a ideia de criação e de movimento que se encontra no conceito de vida
choca-se com a concepção de um progresso histórico, De acordo com ele, o homem
que se encontra preso à história dando-lhe um valor excessivo é aquele que acredita
que o sentido da existência se revela em um progresso. Em suposto desenvolvimento
linear da humanidade, fundado na concepção historicista.” (ZABEU, 2011)
 “O que é a história senão o modo como o espírito do homem acolhe eventos
impenetráveis para ele? Que, sabe Deus, se se correspondem; que substitui o
incompreensível pelo compreensível; através de algo, desloca seus conceitos de
conveniência para fora do todo, que só conhece movimento para o seu interior; e
novamente assume o acaso, onde mil pequenas causas agiram. Cada homem tem ao
mesmo tempo sua própria necessidade individual, de tal modo que milhões de direções
correm paralelamente em linhas tortas e retas, umas ao lado das outras, se
entrecruzam, exigem, obstruem, aspiram seguir em frente ou voltar atrás e assumem
através daí, reciprocamente, o caráter do acaso.”(NIETZSCHE).
 “A concepção de progresso histórico fora afirmada em todos os campos do
conhecimento e aceita tradicionalmente a partir do objetivismo. Mas compreender a
história dessa forma é agir contra a vida, contra o movimento que a perspectiva supra-
histórica é capaz de perceber, e que a perspectiva a-histórica é capaz de dar
possibilidade. Somente exercendo uma influência intempestiva sobre sua época, isto é,
rompendo com qualquer concepção de linearidade histórica, é que se está a favor da
vida.” (ZABEU, 2011)
 “Assim temos que a história, segundo Nietzsche: o autêntico historiador precisa
ter a força para converter o que é conhecido por todos em algo inaudito, a força
para anunciar o universal de maneira tão simples e profunda que não vê a
simplicidade para além da profundidade e a profundidade para além da
simplicidade. Ninguém pode ser ao mesmo tempo um grande historiador, um
artista e um cabeça-de-vento” (NIETZSCHE)

 Concluindo: temos o homem criador, segundo Zabeu: Os conhecimentos


históricos, como vimos, não são importantes em si mesmos, mas somente perante
à vida
 “O ser humano se relaciona com o tempo de forma diferente, só ele pode
apropriar-se do tempo, lidar com ele de forma pessoal, interpretar o passado,
projetá-lo num futuro. O viver é viver para o futuro, para o devir, é tornar-se
quem se é.” (idem)
 “a origem da cultura histórica – e sua oposição interna completamente radical ao
espírito de um “novo tempo”, de uma “consciência moderna” – precisa ser ela
mesma conhecida uma vez mais historicamente, a história precisa resolver o
próprio problema da história, o saber precisa voltar o seu ferrão contra si mesmo –
esta necessidade tripla é o imperativo do espírito do “novo tempo”, caso ainda
haja nele realmente algo novo, poderoso, originário e promissor para a vida”
(NIETZSCHE)
 “Entretanto, também encontramos lá a efetividade de uma cultura essencialmente
a-histórica e de uma cultura que é, apesar disto ou muito exatamente por isto,
indescritivelmente rica e plena de vida.” (NIETZSCHE)
 “Cada ser humano se realiza de forma diferente, o indivíduo é um acontecimento
único. É dessa forma que devemos conceber a história, em prol da vida, do
movimento, da multiplicidade que há em cada pessoa [...] Para chegarmos a ser o
que somos, temos que distinguir cuidadosamente e destruir impiedosamente, o
que Nietzsche fala sobre o espírito da arte, da vontade de criar. Tal vontade se dá
por necessidade, por oposição do estabelecido que oprime. Por isso, o chegar a ser
o que se é está aqui do lado da liberdade, entendida como vontade e necessidade
de arte.” (ZABEU, 2011)
 “Não estamos maduros ainda para sermos arremessados de volta ao nada, pois
acreditamos que as coisas tornar-se-ão mesmo ainda mais divertidas por aqui se
começarem a te compreender, a ti, homem do inconsciente
incompreendido.”(NIETZSCHE)
 “cultura também pode ser outra coisa do que decoração da vida, o que no fundo
significa ainda sempre dissimulação e disfarce; pois todo adorno oculta o
adornado. Assim, se lhe desvelará o conceito grego de cultura – em contraposição
ao romano – o conceito de cultura como uma physis nova e aprimorada, sem
dentro e sem fora, sem dissimulação e convenção, como uma unanimidade entre
vida, pensamento, aparência e querer. Assim, ele aprende com sua própria
experiência que foi a partir da própria força suprema da natureza ética que os
gregos conseguiram a vitória sobre todas as outras culturas, e que toda ampliação
da veracidade também deve ser um fomento preparatório da verdadeira cultura”.
(NIETZSCHE).
 Nietzsche critica veementemente a história ciência e exige dos historiadores que
façam outro tipo de história, a saber, a história não-histórica ou não-
historiográfica; que busquem na Antiguidade clássica o modelo de cultura a ser
implantado na modernidade; que pensem o passado não como um tempo acabado,
mas como fonte de exemplos para inspiração, condução e aperfeiçoamento do
homem no presente.
 REFERÊNCIAS:
 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Segunda consideração intempestiva: da
utilidade e desvantagem da história para a vida; tradutor Marco Antônio
Casanova. – Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
 ZABEU , Gabriela Miranda. NIETZSCHE - II CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA
, P E R I • v . 0 3 • n . 0 1 • 2 0 1 1 • p . 6 1 - 7 2.

 SOUSA, Raylane Marques; CHAGAS, Eduardo F.; NIETZSCHE, O


INTEMPESTIVO: SOBRE OS EXCESSOS DA HISTÓRIA CIENTÍFICA E
O NÃO-HISTÓRICO. Revista Dedalus, ano 4, nº 10, jan-jul-2017, pag. 232-
247.

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