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A perspectiva enunciativo-

discursiva na elaboração de
questões de interpretação de texto
Profª Dedilene Alves de Jesus
“Todo discurso é orientado para a resposta e
ele não pode esquivar-se à influência profunda
do discurso da resposta antecipada.” (BAKHTIN)
• OBJETIVO:
Apresentar ferramentas para o professor elaborar
enunciados e questões a partir de uma perspectiva
dialógica da linguagem, na proposição de considerar o
processamento cognitivo do aluno nas atividades de
compreensão textual.

• JUSTIFICATIVA:
Existe uma defasagem na qualificação dos professores
acerca dessa questão específica, uma vez que há um
equívoco na consideração das atividades de interpretação
textual como meramente dedutivas ou subjetivas, não se
considerando que a compreensão textual é ensinável.
ROTEIRO
• Concepção enunciativo-discursiva da
linguagem
• A cognição do aluno na compreensão textual
• Elaboração de enunciados a partir da
concepção enunciativo-discursiva
O que é a concepção enunciativo-
discursiva da linguagem?
É a visão dialógica da linguagem, considerando
que o texto é um discurso, que “conversa” com
o leitor.
Para a compreensão do texto, a concepção
enunciativo-discursiva considera que haja uma
mobilização de habilidades, a partir de um
processamento cognitivo.
A cognição do aluno na compreensão
textual
COMPREENSÃO
GLOBAL

INFORMAÇÕES
EXPLÍCITAS

INFORMAÇÕES
IMPLÍCITAS
Metacognição
Consciência do aluno sobre o uso de conhecimentos
prévios para elevar o grau de aprendizado.

Cognição situada
“(...) as pessoas constroem significados de acordo com
o enquadramento de cena que lhes for oportuno num
dado momento, e essa construção é instanciada pelas
bases de conhecimento que acumularam em sua
memória semântica.” (GERHARDT ET AL, 2009, p. 80)
Critérios – interpretação de texto
(HERINGER, 1983; TAYLOR, 1986)
• RETENÇÃO NA MEMÓRIA
• COMPLEXIDADE/ACESSSIBILIDADE DA
SENTENÇA
• PREENCHIMENTO DE LACUNAS
• PARÁFRASE
• LISTAS DE IMPLICAÇÕES
• VERIFICAÇÃO
• CONHECIMENTO LINGUÍSTICO
Tipos de interpretação de texto
(CAGLIARI, 1991)
O estudo sobre respostas de
interpretação de texto
Contexto: teste de leitura da Rede Globo (2004), utilizado em artigo de Gerhardt
(2006), sobre estratégias sociocognitivas para interpretação de textos.

Lúcia Já Vou Indo


Lúcia Já-Vou-Indo não sabia andar depressa. De maneira nenhuma. Andava
devagar, falava devagar, chorava e ria devagarinho e pensava mais devagar ainda.
Muito natural, pois ela era uma lesma. Um dia, Lúcia recebeu um convite para uma
festa. Levou o dia inteirinho para ler o bilhete que dizia assim:

Chispa-Foguinho, a libélula, convida você para uma festa dançante, embaixo do Pé de


Maracujá, às oito horas da noite do dia 30 de janeiro. Comes e bebes, muita música,
muita alegria, tudo do bom, do melhor e de graça.

Mal acabou de ler, Lúcia já se foi preparando para a festa. Queria se pôr a
caminho imediatamente, embora faltasse ainda uma semana.
Pergunta sobre o texto:
“Por que a lesma começou a se arrumar assim que acabou de ler o
convite?”

Resposta do gabarito:
“Porque ela era uma lesma”

Considerações:
“(...)uma resposta-justificativa circular, porque repete um dos termos
da pergunta e, portanto, não traz nenhuma informação nova que
esclareça por que Dona Lúcia começou a se arrumar tão incontinenti.
Esta circularidade, parece-nos, traz implícita uma expectativa de que,
agregado ao nome lesma, esteja o conhecimento por parte do aluno
do que é uma lesma, e que a lesma é um animal lento e rastejante, por
isso Dona Lúcia Já Vou Indo, uma lesma, teria de se arrumar muito
cedo para uma festa que só aconteceria dali a uma semana.”
(GERHARDT, 2006, p. 1196-1197)
O teste foi aplicado em uma turma de 22 alunos de uma escola municipal de Barra
Mansa (RJ). As respostas dadas pelos alunos foram as seguintes:

1. Porque ela anda devagar e queria chegar antes da festa começar.


2. Porque ela queria se pôr a caminho imediatamente.
3. Porque ela não queria faltar a festa poricio que ela se arrumou de pressa.
4. Queria se pôr a caminho imediatamente, embora faltasse ainda uma semana.
5. Porque ela andava devagar.
6. Porque se pôr a caminho imediatamente, embora faltasse uma semana.
7. Porque ela era muito lerda por isso ela começou a se a ruma uma semana ante.
8. Por que ela levava dias para chegar lá.
9. Porque se pôs a caminho imediatamente, embora faltasse ainda uma semana.
10. Porque Lucia andava muito devagar
11. Porque queria se por a caminho imediatamente, embora faltasse ainda uma
semana. Porque não sabia andar depressa
12. Porque ela era muito devagar em tudo.
13. Porque queria se por a caminho imediatamente.
14. Porque tudo que ela faz e de vagarinho.
15. Porque ela queria se pôr a caminho imediatamente,
embora faltasse ainda uma semana.
16. Porque ela anda muito devagarzinho.
17. Porque ela era uma lesma e pensava devagar, andava
devagar e fazia tudo devagar.
18. Porque a lesma é mole, se ela se arrumasse no dia,
não ia dar tempo de ela chegar.
19. Ela estava se arrumando para a festa.
20. Porque ela já estava se preparando para a festa.
21. Porque ela ia se atrasar para a festa.
22. Ela foi ser preparando rápido porque ela sabia que
não irria chegar a tempo no dia da festa porque sabia que
era muito lenta para chegar no dia certo.
Espectro de respostas PERIFERIA

CENTRO 3

7 6
19
9 21
5 10
2
14
17 15
11
18 16
20
12 1 13
22
8 4
Elaboração de enunciados a partir da
concepção enunciativo-discursiva
• Princípio da seleção dos textos: é preciso fazer uma escolha
acertada do texto, privilegiando o interesse dos alunos, mas
também levando em conta o grau de maturidade e o nível dos
textos do livro didático.
• Princípio da autoria dos materiais didáticos: não sair copiando
atividades de sites, sem analisar o perfil dos alunos de sua turma.
Criar atividades a partir do que se conhece da turma faz com que
haja maior probabilidade de ganhos na construção de habilidades
ou fixação de conteúdos.
• Princípio do dialogismo das questões: o enunciado precisa
conversar com os alunos, criando um contexto que seja próximo de
suas realidades, dentro de um equilíbrio (não infantilizar nem
adultizar).
• Princípio dos descritores das habilidades: sempre criar enunciados
que se encaminhem dentro dos níveis de habilidades (inicial,
profundo e consolidado), de acordo com os tipos de inferência.
ANÁLISE DE QUESTÕES DE
INTEPRETAÇÃO DE TEXTO
TEXTO PARA ELABORAÇÃO DAS
QUESTÕES

UMA MENINA DO SEU TAMANHO


(Ana Maria Machado)
ORIENTAÇÕES
• Elaborar 5 questões:
- 1 sobre compreensão global do texto
- 1 sobre informação explícita do texto
- 1 sobre informação implícita do texto
- 1 sobre o gênero textual
- 1 sobre gramática contextualizada (análise
linguística)
Referências
GERHARDT, A.F.; ALBUQUERQUE, C.F.; SILVA, I.S.
A cognição situada e o conhecimento prévio em
leitura e ensino. Ciências & Cognição, 2009; Vol
14 (2): 074-091.
PEREIRA, S.V.M. O lugar do texto e do discurso
em teorias enunciativas e discursivas. SCRIPTA,
Belo Horizonte, v. 22, n. 44, p. 203-218, 1º
quadrimestre de 2018.

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