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Gênero e

relações
étnico-raciais
raça, gênero,
classe,
nacionalidade

“Não é apenas pela precisão histórica que um estudo desses


deve ser realizado; as lições que ele pode reunir sobre a era
escravista trarão esclarecimentos sobre a luta atual das
mulheres negras e de todas as mulheres em busca de
emancipação” (Davis, 2016, p. 15).
Sueli Carneiro

Nilma Lino

Jurema
Werneck
Enegrecer o feminismo
Pesquisadora(e)s branca(o)s: acreditam-se desracializada(o)s – quem tem
raça é o outro.

Branquidade – norma transparente. Psicologia: desenvolvimento do


psiquismo igual entre os diferentes grupos racializados.

“Branquidade é um lugar de privilégio racial, econômico e político, no qual a


racialidade, não nomeada como tal, carregada de valores, de experiências,
de identificações afetivas, acaba por defniir a sociedade” (Maria Aparecida
Bento, Branqueamento e branquitude no Brasil. 2002, p. 5).

Jesuíta Antonil definia os escravos como “as mãos e os pés do senhor de


engenho porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e
aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente” (Lília Schwarcz. Toma lá,
dá cá. In: ______. Brasil: uma biografia).
“Mas, como Adrienne Rich afirmou em uma
palestra recentemente, as feministas brancas
empenharam-se enormemente em educar-se
sobre elas mesmas nos últimos dez anos, então
como não se educaram também sobre mulheres
negras e as diferenças entre nós – brancas e
negras – quando isso é a chave para nossa
sobrevivência enquanto movimento?” (Lorde, A.
As ferramentas do mestre nunca vão
desmantelar a casa-grande, 1984).
 
Racismo aberto = sociedades de origem anglo-
saxônica
Racismo disfarçado = sociedades de origem latina.
Forma ideológica mais eficaz: ideologia do
branqueamento. . Desejo de embranquecer apagamento
a identidade racial.

“A minha tese, pois, é que a vitória na luta pela vida, entre nós,
pertencerá no provir ao branco – mas que este, para essa mesma
vitória, atento às agruras do clima, tem necessidade de aproveitar-
se do que é útil às outras duas raças lhe podem fornecer, máxime a
preta, com que tem mais cruzado. Pela seleção natural todavia,
depois de prestado o auxílio de que necessita, o tipo branco irá
mostrar-se puro e
tomando a preponderância até
belo como no velho mundo.
[...]. Dois fatos contribuirão largamente para tal resultado: de um
lado a extinção de tráfico africano e o desaparecimento constante
dos índios, e de
outro a imigração européia” (Silvio Romero. Retirado de
“Branqueamento e branquitude no Brasil).
Racismo: elaboração fria e extrema do
modelo ariano de exploração, cuja
presença é uma constante em todos os
níveis de pensamento, assim como parte e
parcelas das mais diferentes instituições
sociais (Gonzalez, 1988).
A categoria político-cultural da
amefricanidade – Lélia Gonzalez

“[...] o racismo estabelece uma hierarquia racial e cultural que opõe


a ‘superioridade’ branca ocidental à ‘inferioridade’ negroafricana. A
África é o continente ‘obscuro’, sem uma história própria (Hegel);
por isso, a Razão é branca, enquanto a Emoção é negra. Assim,
dada a sua ‘natureza subumana’, a exploração socio-econômica dos
amefricanos por todo o continente é considerada ‘natural’” (p. 77).

“[...] a inferioridade
destes indivíduos sob
todos os pontos de
vista, mesmo no
respeitante ao tamanho,
é muito manifesta (Hegel
citado por W. Mignolo).
Mecanism
o
performati
vo
Retirado de Werneck, J. Racismo institucional e saúde
da população negra, 2016.
“Eu não estou Propostas universalistas de lutas não são
descontente com a suficientes/mascaram as especificidades do
profissão que exerço. racismo brasileiro/Institucionalização da
Já habituei-me escravidão e do racismo.
andar suja”
(Carolina Maria de
Jesus. Quarto de
Mercado de trabalho
despejo. 20 de julho
de 1958, p. 22).
“Como os trabalhadores negros
(92,4%), as trabalhadoras
negras concentram-se,
sobretudo, nas ocupações
manuais (83%), o que significa
4/5 da força de trabalho negra
tem uma inserção ocupacional
caracterizada por baixos níveis
de rendimento e escolaridade”
Enegrecer o feminismo
(Gonzalez, Mulher negra, 1984,
p. 36 (Diário de Bitita).
Violência
Efeitos da hegemonia da branquitude no
imaginário social e nas relações sociais
concretas:

“Eu acho que o racismo é real. Eu nunca namorei negro, mas já


namorei japonês.... É difícil eu entrar num lugar e achar um negro
bonito, a não ser que ele seja muito bonito, seja unânime, é um
negro tal, um cara muito lindo... Mas, no geral, eu não vou achar
esses caras bonitos... Quando saio à noite, se vejo um branco muito
bonito, tenho certeza de que não tenho chances com ele. Mas sei, e
tenho quase certeza, de que tenho chances com um cara negro
muito bonito” e mais adiante “É que para mim um branco muito
bonito eu estou fora dos padrões, né? Eu sei que tenho um rosto
muito bonito, mas estou fora do peso. E com um negro? Eu sei que
eles adoram loiras... não é? Olha os jogadores de futebol, os
pagodeiros, eles sempre estão acompanhados de loiras” (Schucman,
Lia V. Sim, nós somos racistas: estudos psicossocial da
Saúde
Werneck, Jurema. Racismo institucional e saúde da população
negra. Saúde e Sociedade, 2016.

População negra apresenta os piores


indicadores sociais e de saúde

Violência do controle da natalidade:


1) obrigada a procriar de acordo com
critérios econômicos;
2) Políticas de esterelização.
Meios de comunicação
Meios de comunicação

Enegrecer o feminismo
Subordinação Cultural e Econômica (Fraser,
2006)

1958: maior
Preconceito/criminalizaçã
o da pobreza escravidão era a
fome

Trecho do poema “Súplica do


mendigo”
escolaridade

Pobreza é generificada e racializada


Posição desigual:
(M. Santos; M. Ozanira Silva e Silva)
- acesso aos serviços públicos (saúde,
educação, etc);
- à participação política e social;
- à redistribuição da riqueza socialmente
Subordinação Cultural e Econômica (Fraser,
2006)

1958: maior
Preconceito/criminalizaçã
o da pobreza escravidão era a
fome

Trecho do poema “Súplica do


mendigo”
escolaridade

A cidade do colonizado, ou pelo menos a cidade indígena, a cidade


negra, a médina, a reserva, é um lugar mal afamado, povoado de
homens mal afamados. Aí se nasce não importa onde, não importa
como. Morre-se não importa onde, não importa de quê. É um mundo
sem intervalos, onde os homens estão uns sôbre os outros, as casas
umas sôbre as outras. A cidade do colonizado é uma cidade
faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A
cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade
ajoelhada, uma cidade acuada. É uma cidade de negros, uma
cidade de árabes. O olhar que o colonizado lança para a cidade do
Subordinação Cultural e Econômica (Fraser,
2006)

Preconceito/criminalizaçã
o da pobreza

Trecho do poema “Súplica do


mendigo”
escolaridade
maior
Galton escravidão
fome
O termo eugenia é criado em 1883 pelo inglês
Francis Galton. É usado pela primeira vez no
Brasil em 1914 - na tese intitulada Eugenía
(esboço) – e em 1918 é fundada a primeira
Trecho do poema “Súplica do
mendigo”

No ano de 1925, as escolas admitiam alunas


negras. Mas quando as alunas negras voltavam
das escolas, estavam chorando. Dizendo que
não queriam voltar à escola porque os brancos
falavam que os negros eram fedidos. As
professoras aceitavam os alunos pretos por
Trecho do poema “Súplica do
mendigo”

Eugenia positiva
Eugenia negativa
Desigualdade é racializada e generificada
“Onde estás felicidade?”
Carolina Maria de Jesus
“Forasteiras de dentro” (C. Pons Cardoso,
2014)

“Se a teoria feminista americana


branca precisa deixar de lidar com as
diferenças entre nós, e as
consequentes diferenças em nossas
“O ponto de contato entre opressões, então como lidar com o
as negras e as brancas era a
fato de que as mulheres que limpam
relação serva-senhora, uma
relação hierárquica baseada suas casas e cuidam de suas crianças
no poder [...]” enquanto vocês comparecem a
conferências sobre teoria feminista
(bell hooks, De mãos dadas são, majoritariamente, mulheres
com minhas irmãs. In: pobres e mulheres de cor?”
Ensinando a transgredir. Lorde, A. As ferramentas do mestre
“E eu não sou uma mulher?”

Sojourner Truth,
1851

“As mulheres negras eram mulheres de fato, mas suas vivências


durante a escravidão – trabalho pesado ao lado de seus
companheiros, igualdade no interior da família, resistência,
açoitamentos e estupros – as encorajavam a desenvolver certos
traços de personalidade que as diferenciavam da maioria das
mulheres brancas” (Davis, 2016, p. 39).
“Muito bem crianças, onde há muita algazarra alguma coisa está fora da
ordem. Eu acho que com essa mistura de negros do Sul e mulheres do Norte,
todo mundo falando sobre direitos, o homem branco vai entrar na linha
rapidinho.
Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em
carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o
melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em
carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor
lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus
braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum
poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar
tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse
oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher?
Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e
quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me
ouviu! E não sou uma mulher?
Daí eles falam dessa coisa na cabeça; como eles chamam isso… [alguém da
audiência sussurra, “intelecto”). É isso querido. O que é que isso tem a ver
com os direitos das mulheres e dos negros? Se o meu copo não tem mais que
um quarto, e o seu está cheio, porque você me impediria de completar a
minha medida?
Daí aquele homenzinho de preto ali disse que a mulher não pode ter os
mesmos direitos que o homem porque Cristo não era mulher! De onde o seu
Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem
não teve nada a ver com isso.
Trabalho compulsório –
mulheres vistas como
unidades lucrativas e o custo
da exploração de seu trabalho
era mais barata que a de
homens.

“A mulher escrava era, antes


de tudo, uma trabalhadora em
tempo integral, e apenas
ocasionalmente esposa, mãe
e dona de casa (Davis, ano, p.
17).

Ideias de feminilidade séc. XIX


Mito
Trabalhadoras agrícolas – sua opressão era idêntica à opressão
masculina./Estupro: arma de dominação, elemento
institucionalizado.

“Quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram


vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser
exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às
mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de
fêmeas” (Davis, 2016, p. 19).
REPRODUTORAS X MÃES
Não tinham direito legal
sobre seus filhos – e aí o
“Tráfico de mulheres” não as
Estupro

“Em grande parte estes mesmos senhores


também recorriam ao estupro, com a “vantagem”
adicional de poder garantir sua iniciação sexual,
além de poder dar vazão irreprimida a desejos e
fantasias sexuais no corpo da mulher subjugada.
De todo modo, as “crias” resultantes eram
commodities vendidas ou incorporadas ao
contingente de propriedade do senhor. Ou matéria
indesejada, abandonada à morte, caso a
premência financeira não requisitasse renovação
da mão de obra por estes meios” (Jurema
Werneck. O Belo ou o Puro?: Racismo, eugenia e