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Psicologia e

feminismo
O que faz uma psicologia social? Intervenção na
psicologia social brasileira
Leidiane Pereira Lopes, Adriano Roberto Afonso do
Nascimento. Psicologia & Sociedade, 2016.
Estudos sobre condição feminina (1970/1980):
problema de mulher deve ser pensado unicamente pelas
mulheres. Estudos iniciam-se com a tese defendida por H.
Saffioti (corrente ligada ao marxismo). Dupla opressão:
classe e gênero.
Estudos sobre mulheres (1980): fala-se da
heterogeneidade das mulheres, mas permanece a
referência à unidade biológica das mulheres/morfologia do
sexo feminino (vagina, útero, seios).
Estudos de gênero (final dos anos 1980): problematizam
essa determinação biológica/relações de poder.
Artigo 1: análise Revista Psicologia & Sociedade (1996
a 2010) = analisar relações de
gênero/feminismo/psicologia social.

- Consolidação do campo relacionado à psicologia social;


- Surgimento de núcleos de pesquisas;
- Criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM): lançamento de
editais para pesquisas de gênero em parceria com órgãos de fomento à pesquisa;
- Conferências Nacionais de Políticas para as Mulheres (2004 e 2007);
Artigo 1: análise Revista Psicologia & Sociedade (1996
a 2010) = analisar relações de
gênero/feminismo/psicologia social.

- Consolidação do campo relacionado à psicologia social: caráter excludente e injusto


Da produção em psicologia sobre as mulheres;
- Crítica às perspectivas da psicologia standard que contribuem significativamente na
Criação de estereótipos de gênero assimétricos e desvalorizados para as mulheres.

Psicologia social depois da crise é relativamente receptiva à


articulação com as perspectivas de gênero (primeira disciplina
que se abrirá aos estudos de gênero e feminismo).
Artigo 1: análise Revista Psicologia & Sociedade (1996
a 2010).

36 artigos.

Artigos escritos por mulheres (80%) e homens (20%).


Sul = 47,67%
Sudeste = 22,09%
Nordeste = 5,81%
Centro-oeste = 1,16%
Norte = 0
(Mapa de quem produz, onde, com quem, a partir de
quais referências).
Artigo 1: análise Revista Psicologia & Sociedade (1996
a 2010).

Como gênero é abordado

Feminismo
Artigo 1: análise Revista Psicologia & Sociedade (1996
a 2010).

Autoras que embasam as


discussões
Anos 1990 – H. Saffioti, Joan Scott, Gayle Rubin
A partir de 2006 – Butler, Foucault, Rubin

Feministas negras/lésbicas = Lélia Gonzalez, Luiza


Bairros, Jurema Werneck e Sueli Carneiro (as críticas
das feministas chamada terceira onda talvez não
tenham tido grande expressividade no Brasil como em
outros contextos, p. 600) – hipóteses: racismo
acadêmico e pensamento colonizado.
Categorias articuladas a gênero
Gênero articulado à outra categoria ao longo do
tempo 
Marcadores sociais das diferenç

Final de 1980: introdução do conceito de


diferença/reelaboração do feminismo pelo
feminismo negro e lésbico (D. Haraway, 2004) x
mulheres brancas, anglófonas, classe média,
protestantes (Pelúcio, 2011) =

Crítica à universalização da categoria


“Mulher”/Crítica às tendências etnocêntricas,
imperialistas, homofóbicas e racistas.
Anos 1990: interseccionalidade - giro conceitual
na teoria feminista (B. Preciado, 2010) = teorias
Marcadores sociais das diferenç

Crítica à universalização da categoria


“Mulher”/Crítica às tendências etnocêntricas,
imperialistas, homofóbicas e racistas = “As
mulheres do Terceiro Mundo também vão apontar
para o caráter prescritivo da noção de gênero,
quando, a partir das lógicas coloniais, serão
consideradas por suas irmãs brancas e de países
de Primeiro Mundo como primitivas, submissas,
escravas e vítimas” (Mayorga, 2014, p. 227).
“Forasteiras de dentro” (C. Pons Cardoso,
2014)

“O ponto de contato entre as negras e as brancas era a relação


serva-senhora, uma relação hierárquica baseada no poder [...]”
= inserção de mulheres negras como empregadas domésticas.

(bell hooks, De mãos dadas com minhas irmãs. In: Ensinando a


transgredir. 2013, p. 128).
Discriminação interseccional
Visão tradicional:
A discriminação de gênero diz respeito às mulheres e a racial diz respeito à raça
e etnicidade. Assim como a discriminação de classe diz respeito apenas a
pessoas pobres” (Crenshaw, p. 10) = excluir as sobreposições.

Kimberlé Crenshaw

Women – mulheres
Poor – pobres
Southern – sulistas
Race – raça.
Women – mulheres
Poor – pobres
Southern – sulistas
Race – raça.

Exemplo: General Motors


Class
e class
raça ra
heterossexualida
ede
gêne
gênero
ça ro
ssex
hetero e
ualidad

Interseccionalidade

Cuidados analíticos

- Não é uma simples somatória


- Necessidade de historicizar as categorias

- Exemplo: trabalho com prostitutas em BH.


Colisões que afetam as mulheres negras:

1.Discriminação contra grupos específicos (mulheres específicas): exemplo: violência


racial e étnica. As propagandas – raça determina hábitos e padrões sexuais e as situam
fora das expectativas comportamentais tradicionais/propaganda como componente
racial contra mulheres negras – dificulta acesso aos direitos e justiça.
Mulheres afro-americanas serão categorizadas como más, a despeito do que fazem e
de onde vivem.
Exercício: seguir as pistas de
Carolina
Foto de Audálio Dantas

Foto de Audálio Dantas

Favela do Canindé

“Quarto de despejo:diário de uma


favelada” Carolina Maria de Jesus
(1960)
ͽDiálogo transdisciplinar a
partir da produção de
conhecimento de vozes
marginalizadas/subalterniz
adas encontradas em
tecnologias sociais
(práticas que produzem
poder);
ͽ Carolina é sujeito do
conhecimento capaz de
criar categorias próprias e
teorias “Quarto de despejo” – Carolina Maria
ͽ protagonista/conta sua de Jesus (1960)
história.
“Mesmo se estivermos
famintas, não somos
pobres de
experiências”.

(Anzaldúa. G. Falando em línguas:


uma carta para as mulheres
escritoras do terceiro mundo.
Revista Estudos Feministas,
2000, p. 235).
Uma mulher que escreve
tem poder
Jornal Última Hora

Problemas que afetam os sujeitos não


podem ser analisados isoladamente do
contexto de desigualdade
nacional/internacional(Avtar Brah,
raça, gênero,
classe,
nacionalidade

“O cidadão só o é – ou não é –
dentro de um país”(Milton Santos, 2012)

Entrelaçamento
Privação Econômica  Desrespeito
cultural
Desigualdade é racializada e generificada
Diferenças que fazem
diferença (K. Crenshaw)

Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus

As pessoas são afetadas


diferentemente pelas discriminações a
depender da posição que ocupam na
“Onde estás felicidade?”
Carolina Maria de Jesus
Vulnerabilidade interseccional (Crenshaw)
Subordinação Cultural e Econômica (Fraser,
2006)

Trecho do poema “Súplica do


mendigo”
HQ de João Pinheiro

1958: maior escravidão era a


Subordinação Cultural e Econômica (Fraser,
2006)

Preconceito/criminalizaçã
o da pobreza
ocupação

Trecho do poema “Súplica do


mendigo”
escolaridade

Pobreza
(M. Santos; M. Ozanira Silva e Silva)

Posição desigual:

- acesso aos serviços públicos (saúde, educação, etc);


- à participação política e social;
- à redistribuição da riqueza socialmente produzida.;
- ao mercado de trabalho/exploração.
Subordinação Cultural e Econômica (Fraser,
2006)

“ (...) Passou um senhor, parou e nos


olhou. E disse perceptível:
Favela do Canindé. Foto de Audálio Dantas.

-Será que este povo é deste mundo?


Eu achei graça e respondi:
- Nós somos feios e mal vestidos,
Trecho do poema “Súplica do
mas somos deste mundo” (24 de
mendigo”
dezembro de 1958, p. 146).
“A menina tem 9 anos. Ela
pede esmola de manhã e
vai para a escola a tarde.
Subordinação Cultural e Econômica

A menina conhece as
letras e os numeros. Mas
não sabe formar palavras.
Quando escreve ela põe
qualquer letra que lhe
vem na mente. Mistura
numeros e letras. Escreve
assim:
ACR85CZbO4Up7MnO10E2
(Fraser, 2006)

0.
E faz dois anos que ela
está na escola” (21 de
julho de 1958, p. 99).

Foto de junho de 196


“Eu não estou descontente
com a profissão que exerço.
Já habituei-me andar suja”
(20 de julho de 1958, p. 22).
Subordinação Cultural e Econômica

Feminização do
HQ de João Pinheiro
2006)

trabalho precário
(Fraser,

(Haraway 2000; Hirata,


2011; Sassen, 2003)
Rompimento com o embranquecimento

Subordinação Cultural e Econômica


(Fraser, 2006)

Jornal Última Hora

“... Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles


respondia-me:
-É pena você ser preta.
Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo
rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo
de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o
cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do
Subordinação Cultural e Econômica
(Fraser, 2006)

Jornal Última Hora


“...Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para
defender o Brasil porque eu lia a Historia do Brasil e ficava sabendo
que existia guerra. Só lia os nomes masculinos como defensor da
patria. Então eu dizia para minha mãe:
-Porque a senhora não faz eu virar homem?
Ela dizia:
- Se você passar por debaixo do arco-íris você vira homem” (7 de
Vulnerabilidade interseccional
Vulnerabilidade interseccional

classe
social
ocupaç gên
ão
raça/eero
tnia
escolarida nacionalidad
e
de
Complexidade das violências
Fim