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A ARTE BARROCA

SEISCENTISMO)
A arte do conflito
A arte da
indisciplina
Contexto histórico

 Momento de crise espiritual


 Teocentrismo x antropocentrismo
 Reforma
 Companhia de Jesus
 Contra -Reforma
O homem barroco

 Dividido entre as influências do


Renascimento – materialismo, o paganismo
e o sensualismo - e da onda da
religiosidade trazida sobretudo pela Contra
-Reforma
OUTROS NOMES DO BARROCO

 MARINISMO – na Itália por influência do


poeta Giambatista Marini.
 Gongorismo – na Espanha, por influência do
poeta Luís de Gôngora. Nesse país, Barroco
 E gongorismo são palavras sinônimas.
 Preciosismo- na França, em razão do
requinte formal dos poemas.
 Eufuísmo- na Inglaterra.
A linguagem barroca

 Dualismo: tensões e contradições


 Jogo de palavras – Cultismo
 “O todo sem a parte não é todo;
 A parte sem o todo não é parte;
 Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
 Não se diga que é parte, sendo o todo.
A linguagem barroca

(...)
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte desde todo,


Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas deste todo.
( Gregório de Matos)
A linguagem Barroca
 Que falta nesta cidade?...Verdade.
 Que mais por sua desonra?...Honra.
 Falta mais que se lhe ponha?...Vergonha.
 O demo a viver se exponha,
 Por mais que a fama a exalta,
 Numa cidade onde falta
 Verdade, honra e vergonha.
 E que justiça a resguarda?......Bastarda.
 É grátis distribuída?.....Vendida.
 Quem tem que a todos assusta?.....Injusta.
 Valha-nos Deus, o que custa
 O que EL-Rei nos dá de graça,
 Que anda a justiça na praça
 Bastarda, vendida, injusta.
 (.........)
A linguagem barroca
 É a vaidade, Fábio, nesta vida,
 Rosa, que da manhã lisonjeada
 Púrpuras mil, com ambição dourada,
 Airosa rompe, arrasta presumida.

 É planta, que de abril favorecida,


 Por mares de soberba desatada,
 Florida galeota empavesada,
 Sulca ufana, navega destemida.

 É nau enfim, que em breve ligeireza,
 Com presunção de Fênix generosa,
 Galhardias apresenta, alento preza:

 Mas ser planta,, ser rosa, nau vistosa


 De que importa, se aguarda sem defesa
 Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa
A linguagem barroca

 ÊNFASE NO EFÊMERO
 "Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
 Depois da Luz se segue a noite escura,
 Em tristes sombras morre a formosura,
 Em contínuas tristezas a alegria.
 Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
 Se é tão formosa a Luz, porque não dura?
 Como a beleza assim se transfigura?
 Como o gosto da pena assim se fia?
A linguagem barroca
 Coceptismo – ideias em confronto
 "Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
 Porém pode ter fim todo o pecar,
 E não o vosso amor, que é infinito.
 Essa razão me obriga a confiar
 Que, por mais que pequei, neste conflito
 Espero em vosso amor de me salvar."
 Estes versos encobrem a formulação silogística, como segue:
 Premissa maior: O amor infinito de Cristo salva o pecador.
 Premissa menor: Eu sou um pecador.
 Conclusão: Logo, eu espero salvar-me.
AS MENINAS
DIEGO VELASQUEZ
Caravaggio
Amor Vencedor
Davi com a cabeça de Golias
Caravaggio
A crucificação de Santo André
Rembrant
Arquitetura Barroca

 Na ARQUITETURA BARROCA, os conceitos


de volume e simetria vigentes no
renascimento são substituídos pelo
dinamismo e pela teatralidade;
CATEDRAL DE SANTIAGO DE COMPOSTELA
Altar-mor da Igreja de São Bento, Olinda,
Pernambuco
Igreja e Convento de São Francisco Salvador-Bahia
Escultura Barroca

• A escultura barroca é marcada por um


intenso dramatismo, pela exuberância das
formas, pelas expressões teatrais e pelo
movimento.
DAVI - BERNINI
O êxtase de Santa Teresa
Poesia Barroca – Gregório de Mattos

A vós correndo vou braços sagrados,


Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos eclipsados


De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,


A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, pra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,


A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
LEITURA

1 . Tanto os textos literários quanto a escultura de Aleijadinho


apresentam semelhanças quanto ao tema, evidenciando
interesse por determinado assunto. Qual é esse assunto?
2. Nesse texto, o eu-lírico manifesta ter um sentimento de culpa?
Justifique com dados do texto.
3. A expressividade da obra de Aleijadinho reside principalmente
em duas partes do conjunto: O rosto ( sobretudo o olhar) e as
mãos. Observe esses elementos.
Que sentimentos ou sensações traduzem:
a) A mão sobre cruz e os dedos crispados de cristo?
b) O olhar distante e perplexo de cristo?
Poesia- Gregório de Matos
 A MARIA DOS POVOS
 Discreta, e formosíssima Maria,
 Enquanto estamos vendo a qualquer hora
 Em tuas faces a rosada Aurora,
 Em teus olhos, e boca o sol, e o dia:

 Enquanto com gentil descortesia


 O ar, que fresco Adônis te namora,
 Te espalha a rica trança voadora,
 Quando vem passear-te pela fria:

 Goza, goza da flor da mocidade,


 Que o tempo trota a toda ligeireza,
 E imprime em toda a flor sua pisada.

 Oh não aguardes, que a madura idade


 Te converta em flor, essa beleza
 Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
Poesia erótica- Gregório de Matos
 Ei-lo vai desenfreado
 Que quebrou na briga o freio,
 Todo vai de sangue cheio,
 Todo vai ensanguentado:
 Mete-se na briga armado,
 Como quem nada receia,
 Foi dar um golpe na veia,
 Deu outro também em si,
 Bem merece estar assi,
 Quem se mete em casa alheia.
 ...............................................
 Este lampreão com talo,
 Que come tudo sem nojo,
 Tem pesos como relojo,
 Também serve de badalo:Tem freio como cavalo
 E como frade capelo,
 É cousa ensagraçado vê-lo
 Ora curto, ora comprido,
 Anda de peles vestido
 Curtidas já sem cabelo
Poesia lírico – amorosa
 DEFINIÇÃO DE AMOR
 ..................................................
 O amor é finalmente
 um embaraço de pernas,
 uma união de barrigas,
 um breve tremor de artérias
 Uma confusão de bocas
 uma batalha de veias,
 um reboliço de ancas,
 quem diz outra coisa é besta.
 Gregório de Matos
Poesia lírico – amorosa
Poesia Barroca – Gregório de Mattos

Anjo no nome, Angélica na cara


Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara


De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares


Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda


Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda
O culto do contraste

Na pintura de Caravaggio
Na poesia de Gregório de Matos
Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
  .....

A vós correndo vou, braços sagrados


Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais cravados
O rebuscamento

Na poesia lírica de Gregório de Matos


Nas igrejas de Ouro Preto Pintura Admirável de uma beleza
 
Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?
 
O céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?
 
Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês desse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?
 
Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isso bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.
Poesia erótica- Gregório de Matos
 Ei-lo vai desenfreado
 Que quebrou na briga o freio,
 Todo vai de sangue cheio,
 Todo vai ensanguentado:
 Mete-se na briga armado,
 Como quem nada receia,
 Foi dar um golpe na veia,
 Deu outro também em si,
 Bem merece estar assi,
 Quem se mete em casa alheia.
 ...............................................
 Este lampreão com talo,
 Que come tudo sem nojo,
 Tem pesos como relojo,
 Também serve de badalo:Tem freio como cavalo
 E como frade capelo,
 É cousa ensagraçado vê-lo
 Ora curto, ora comprido,
 Anda de peles vestido
 Curtidas já sem cabelo
Poesia lírico – amorosa
 DEFINIÇÃO DE AMOR
 ..................................................
 O amor é finalmente
 um embaraço de pernas,
 uma união de barrigas,
 um breve tremor de artérias
 Uma confusão de bocas
 uma batalha de veias,
 um reboliço de ancas,
 quem diz outra coisa é besta.
 Gregório de Matos
Certa vez, o conde de Ericeira D. Luís de Meneses pediu a Gregório de Matos
que fizesse um soneto em seu louvor. O poeta, porém, não achava nele que
pudesse ser louvado, mas não querendo desagradá-lo compôs este soneto

 Um soneto começo em vosso gabo


 Contemos esta regra por primeira,
 Já lá vão duas, e esta é a terceira,
 Já este quartetinho está no cabo.

 Na quinta torce agora a porca o rabo:


 A sexta vá também desta maneira,
 Na sétima entro já com grã canseira,
 E saio dos quartetos muito brabo.

 Agora nos tercetos que direi?


 Direi que vós, Senhor, a mim me honrais,
 Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

 Nesta vida um soneto já ditei,


 Se desta agora escapo, nunca mais
 Louvado seja Deus, que o acabei.
POESIA AMOROSA - Erótico - irônica

 PICA – FLOR”
 Se Pica - flor me chamais
 Pica - flor aceito ser,
 Mas resta agora saber,
 se no nome que me dais,
 Meteis a flor que guardais
 no passarinho melhor!
 Se me dais este favor,
 sendo só de mim o Pica,
 e o mais vosso, claro fica,
 que fico então Pica - flor.
Poesia Sacra
 A vós correndo vou braços sagrados,
 Nessa cruz sacrossanta descobertos,
 Que, para receber-me, estais abertos,
 E, por não castigar-me, estais cravados.

 A vós, divinos olhos eclipsados


 De tanto sangue e lágrimas abertos,
 Pois para perdoar-me, estais despertos,
 E, por não condenar-me, estais fechados.

 A vós, pregados pés, por não deixar-me,


 A vós, sangue vertido, para ungir-me,
 A vós, cabeça baixa, pra chamar-me

 A vós, lado patente, quero unir-me,


 A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
 Para ficar unido, atado e firme.
Certa vez, o conde de Ericeira D. Luís de Meneses pediu a Gregório de Matos que fizesse
um soneto em seu louvor. O poeta, porém, não achava nele que pudesse ser louvado,
mas não querendo desagradá-lo compôs este soneto

 Um soneto começo em vosso gabo


 Contemos esta regra por primeira,
 Já lá vão duas, e esta é a terceira,
 Já este quartetinho está no cabo.

 Na quinta torce agora a porca o rabo:


 A sexta vá também desta maneira,
 Na sétima entro já com grã canseira,
 E saio dos quartetos muito brabo.

 Agora nos tercetos que direi?


 Direi que vós, Senhor, a mim me honrais,
 Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

 Nesta vida um soneto já ditei,


 Se desta agora escapo, nunca mais
 Louvado seja Deus, que o acabei.
POESIA FILOSÓFICA

 É a vaidade, Fábio, nesta vida,


 Rosa, que da manhã lisonjeada
 Púrpuras mil, com ambição dourada,
 Airosa rompe, arrasta presumida.

 É planta, que de abril favorecida,


 Por mares de soberba desatada,
 Florida galeota empavesada,
 Sulca ufana, navega destemida.

 É nau enfim, que em breve ligeireza,
 Com presunção de Fênix generosa,
 Galhardias apresenta, alento preza:

 Mas ser planta,, ser rosa, nau vistosa


 De que importa, se aguarda sem defesa
 Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa
Poesia Filosófica
 À instabilidade das Cousas do Mundo
 Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
 Depois da luz, se segue a noite escura,
 Em tristes sombras morre a formosura,
 Em contínuas tristezas, a alegria.

 Porém, se acaba o Sol, porque nascia?


 Se é tão formosa a luz, por que não dura?
 Como a beleza assim transfigura?
 Como o gosto da pena assim se fia

 Mas no Sol, e na luz, falta a firmeza;


 Na formosura, não se dê constância;
 E na alegria sinta-se tristeza.

 Começa o mundo enfim pela ignorância,


 Pois tem qualquer dos bens por natureza,
 A firmeza somente na inconstância
NA PROSA - PADRE ANTÔNIO VIEIRA 1608 - 1697)

 Os senhores poucos, os escravos muitos; os


senhores rompendo galas, os escravos despidos a
nus: os senhores banqueteando, os escravos
perecendo à forma: os senhores nadando em ouro e
prata, os escravos carregados de ferro; os senhores
tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e
temendo-os como deuses; os senhores em pé,
apontando para o açoite, como estátuas de soberba
e tirania, os escravos prostrados com as mãos
atadas atrás, como imagens vilissimas da servidão e
espetáculos de extrema miséria.”
 (Sermão do Rosário)
PADRE Antônio Vieira
 Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois
o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que
façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a
corrupção, mas quanto a terra se vê tão corrupta de sal, qual
será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque
o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira
doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvinte,
sendo verdadeira a doutrina, que lhes dão, e não querem
receber: ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem
uma cousa, e fazem outra, ou porque a terra se não deixa
salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem,
que fazer o que dizem: ou é porque o sal não salga, e os
Pregadores se pregam a si, e não a Cristo, servem a seus
apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.”
PADRE Antônio Vieira
 “Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um
estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão
afetado, um estilo tão encontrado a toda arte e a toda
natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser muito
fácil e muito natural. Por isso cristo comparou o pregar ao
semear: Exit Qui seminati, seminare. Compara Cristo o pregar
ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de
natureza que de arte: na música tudo se faz por compasso, na
arquitetura tudo se faz por negra, na aritmética tudo se faz por
conta, na geometria tudo se faz por medida. O semeador não é
assim. É uma arte sem arte; caia onde cair.