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Cap.

16 - A crise da razão

Colégio São Carlos


Prof. Paulo Rogério
1. Os antecedentes da crise

O mito de Sísifo
Crise da “razão”

O movimento romântico (do séc.


XIX) representa uma reação ao
Iluminismo, criticando a crença:
de que a razão seria capaz de alcançar
a verdade;
de que a ciência e a tecnologia seriam
capazes de dominar a natureza.

Os primeiros sinais da crise surgiram


com o ceticismo de Hume (séc.
“Parade Amourese”
de Francis Picabia,
XVIII) e tornaram-se mais agudas
1917. com o criticismo de Kant.
Crise da “razão”
No entanto, a partir do séc. XIX e XX, a crise da razão
tornou-se mais evidente, o que levou à necessidade de
repensar toda a filosofia. Nesse sentido, alguns
pensadores tiveram influência marcante, como:

Sören Kierkegaard Arthur Schopenhauer Friedrich Nietzsche


(1813-1885) (1788-1860) (1844-1900)
Kierkegaard: razão e fé

Sören Kierkegaard
(1813-1885)
Ideia vs. Existência

Crítico da razão moderna, Kierkegaard afirmava que,


desde Descartes até Hegel, o ser humano não era
visto como “ser existente”, mas apenas como
abstração, “ideia”.

Neste sentido, o ser humano não pode


ser representado pelo pensamento,
mas pela sua própria existência.

Ou seja, somente através da


“existência subjetiva” que o
indivíduo toma consciência de si.
Incapacidade da Razão
Para Kierkegaard, a existência é permeada de
contradições que a razão é incapaz de solucionar.

Critica Hegel por explicar a dialética


do espírito através do conceito,
quando na verdade deveria fazê-lo
pela paixão e pelo dilema da
escolha existencial, como ato livre.

Por isso, para o filósofo, o sofrimento é algo inerente à


existência humana, identificando na “angústia” a
tomada de consciência que temos do abismo existente
entre o finito (homem) e o infinito (Deus).
Angústia e Desespero: apego à Fé

Essa angústia da existência (advinda da


consciência do abismo entre finito e infinito) é
racionalmente incompreensível e absurda.

Para aceitá-la é necessário


suspender a razão e entregar-se
à fé, a mais alta paixão humana.

A fé religiosa é um “salto no
escuro”; porém, revela ser
também uma paixão cheia de
Abraão e o paradoxos.
sacrifício de Isaac
A Fé Religiosa
A fé religiosa não tira do ser humano a
angústia nem o desespero; porém, torna-se a
única maneira para entender a condição finita da
existência frente ao absurdo do infinito.

O estágio da fé religiosa é para


Kierkegaard o último de um caminho
que o indivíduo pode percorrer na
sua existência, sendo superior
inclusive ao estágio estético e ético.
Nietzsche: o critério da vida

Friedrich Nietzsche
(1844-1900)
O problema do conhecimento
Questionou o problema do conhecimento,
alterando assim o papel da filosofia.
O que é o conhecimento? Para Nietzsche não passa
de mera uma interpretação (atribuição de sentidos)
sem jamais ser uma explicação da realidade.

Conferir sentidos também é


conferir valores. Por isso, o
conhecimento é uma interpretação
feita a partir de uma determinada
escala de valores que ser
promover ou ocultar.
A tarefa da Filosofia
E a nova tarefa da filosofia?
A tarefa da filosofia passa a ser então a de
interpretar os interesses e valores que estão
escondidos trás das “verdades que se dizem
eternas”.
Conferir sentidos também é
conferir valores. Por isso, o
conhecimento é uma interpretação
feita a partir de uma determinada
escala de valores que ser
promover ou ocultar.
Método: a Genealogia da Moral

Como método de decifração, Nietzsche propõe a


Genealogia, que busca entender o processo de
formação de uma determinada verdade eterna ou
metafísica, como também os interesses que estavam
em jogo no momento de sua origem.

Ou seja, a genealogia tenta descobrir


(no processo de formação de uma
ideia) aquilo que não foi dito e que
permitiu transformar determinados
conceitos em verdades absolutas e
eternas.
Método: a Genealogia da Moral

Para Nietzsche, a criação


das grandes ideologias
(como por exemplo a moral
religiosa) só serviram para
dar ao homem a condição
de “escravo”, impondo
regras transcendentais em
detrimento da própria
natureza humana.

Para Nietzsche o que importa é a Vontade de Poder


do ser humano: “negar nossos impulsos é negar aquilo
que faz de nós humanos”.
O Critério da vida
Por este motivo, segundo Nietzsche, o único critério
para avaliar a verdade é o “critério da vida”. O que
ele significa?

Ao fazer o exame genealógico,


pergunta-se que sentidos atribuídos
às coisas fortalecem nosso “querer-
viver” e quais o degeneram.
Enfim, a interpretação genealógica
questiona os valores para saber o que
nos fortalece vitalmente e o que nos
Super-homem de enfraquece.
Nietzsche.
Crítica à abstração: conceito vs.
intuição
Por exemplo, a dificuldade de se dizer o que é a
“honestidade”.

Não dá para saber nada sobre a qualidade


essencial que se chama “a honestidade”,
mas apenas as numerosas ações
individuais e desiguais. Ao reunir todas
essas ações sob o conceito de honestidade,
estamos diante de uma abstração.

O problema é que, ao colocar a ação sob a regência


da abstração, valoriza-se mais o conceito do que as
intuições da própria vida.
A importância da Metáfora
Como é possível conhecer então? Para Nietzsche o
conhecimento se vale da metáfora.

A metáfora é a única coisa que


consegue perceber as coisas no
seu estado de devir
permanente, porque cada
metáfora intuitiva é individual
e, por isso, escapa da
contaminação do “conceito”.

O conceito, por sua vez, nada mais é do que “o resíduo


de uma metáfora”.
A Teoria do Perspectivismo

Outro aspecto do caráter


interpretativo do conhecimento é
a teoria do perspectivismo,
que consiste em perseguir uma
ideia a partir de diferentes
perspectivas.

“Cada ponto de vista é a vista de um ponto”.

Essa pluralidade de ângulos não nos leva a conhecer


o que as coisas são em si mesmas, mas é
enriquecedora por nos aproximar mais da
complexidade da vida em seu movimento.
2. A Crise da Subjetividade

“O Nascimento
do novo
Homem”, de
Salvador Dali -
1943
A crise da subjetividade

O que chamamos de “crise da razão” é também uma


crise da ideia de subjetividade.

Com Descartes, vimos que a modernidade está


baseada na crença no sujeito:

O “penso logo existo” (cogito)


representa a ideia de que o sujeito
é capaz de conhecer a realidade
por si mesmo, de modo autônomo.
A crise da subjetividade
Porém, a partir do final do séc. XIX, os “mestres da
suspeita” (Marx, Nietzsche e Freud), introduziram
elementos de desconfiança na capacidade humana de
conhecer a realidade e ter acesso transparente a si
mesmo.
A crise da subjetividade
Sobre essa desconfiança, Freud cria a noção de feridas
narcísicas, ideia esta que se refere à humilhação
sofrida pelo indivíduo na história:

No séc. XVI, com: No séc. XIX, com as seguintes teorias:

Evolucionismo Inconsciente Materialismo


de Darwin de Freud de Marx

Heliocentrismo de
Copérnico
A crise da subjetividade
Nas décadas seguintes, vários filósofos debruçaram-se
sobre a ideia da “morte do sujeito”, que significa a
desconstrução do conceito de subjetividade que foi
construída na Idade Moderna.

Isso levou ao novo ceticismo


e relativismo, justamente
por propor a descrença com
relação à possibilidade do
conhecimento como algo
dependente unicamente do
sujeito.
3. Fenomenologia e
Intencionalidade

“Mão com a esfera


espelhada”, de M.
C. Escher - 1935
Fenomenologia

A Fenomenologia é um
método e uma filosofia que
surgiu com o alemão Edmund
Husserl (1859-1958).

A Fenomenologia critica tanto o


empirismo positivista (crença
no objeto) do séc. XIX, como
também o racionalismo
cartesiano (crença no sujeito).
Fenomenologia
O termo fenômeno (phainomenon) significa “o que
aparece”. Desta maneira, a fenomenologia aborda os
objetos do conhecimento não como eles “são” na
essência, mas como “aparecem” e se apresentam à
consciência.

Husserl entende por


fenomenologia o processo
pelo qual examina o fluxo da
consciência, ao mesmo tempo
que é capaz de representar
um objeto fora de si.
Crítica da Fenomenologia

A fenomenologia critica a filosofia


tradicional por desenvolver uma
metafísica cuja noção de ser é vazia e
abstrata, voltada apenas para a
explicação.

No entanto, também critica o


positivismo cientificista cuja noção
de conhecimento está voltada apenas
para a experimentação da matéria.
Intencionalidade

A ideia básica da
fenomenologia é a
intencionalidade, que
significa “dirigir-se para”,
“visar alguma coisa”.
Ou seja, toda consciência
é intencional por sempre
visar algo fora de si.
Consciência Intencional

A noção de uma consciência intencional contraria:

Os Racionalistas Os Empiristas
(como Descartes): (como Locke):

ao afirmar que não há Ao afirmar que não há


consciência pura e objeto em si, já que o
separada da realidade, objeto é sempre para um
porque toda consciência é sujeito que lhe dá
consciência de alguma coisa. significado.
Fenomenologia

A fenomenologia desconsidera toda indagação a


respeito de uma realidade em si, separada da
relação com o sujeito que conhece.

Portanto, não existe um puro


ser “escondido” atrás das
aparências ou do fenômeno: a
consciência desvela
progressivamente o objeto por
meio de seguidos perfis, de
perspectivas mais variadas.
Fenomenologia: filosofia da vivência

A consciência é doadora de sentido, fonte de


significado. Conhecer é, portanto, um processo que
não acaba nunca, é uma exploração exaustiva do
mundo.
Vale lembrar que a
“consciência do mundo” não se
reduz ao conhecimento
intelectual, pois a consciência é
fonte de intencionalidades não
só cognitivas, mas afetivas e
práticas. A fenomenologia é
uma filosofia da vivência.
4. Escola de
Frankfurt

Alienação cultural
Escola de Frankfurt: Razão
Instrumental e Indústria Cultural

A Escola de Frankfurt, fundada em 1924, trata-se de


um grupo de filósofos da universidade de Frankfurt que
tinham como objetivo criticar a hegemonia da razão
moderna como forma de manipulação da sociedade
ocidental.

Max Horkheimer Theodor Adorno Walter Herbert


Benjamin Marcuse
Escola de Frankfurt: Razão
Instrumental e Indústria Cultural

A Escola de Frankfurt faz uma crítica severa à


Razão Moderna, orientada à duas coisas:

1º) Ao conceito de
Razão Instrumental.

2º) Ao conceito de
Indústria Cultural.
Crítica à Razão Instrumental

Segundo os pensadores da escola de Frankfurt, a Razão


Moderna (Iluminismo) enganou o ser humano ao
prometer o progresso da humanidade.

No entanto, aquilo que era em sua


origem um projeto de esclarecimento
e progresso (iluminismo), ao longo do
séc. XX, acabou se transformando em
algo alienante e mistificador.

Concluem que a razão, exaltada tradicionalmente por ser


“iluminada”, também traz sombras, quando se torna
instrumento de dominação.
Crítica à Razão Instrumental

Na obra Eclipse da Razão, Horkheimer distingue


dois tipos de razão:

Razão Cognitiva: busca


conhecer a verdade.

Razão Instrumental: visa


agir sobre a natureza e
transformá-la.

No entanto, no capitalismo, com o desenvolvimento


das ciências aplicadas à técnica, a Razão
Instrumental se sobrepôs à Razão Cognitiva.
Crítica à Razão Instrumental

Desta maneira, ao tranformar-se num mero


instrumento estratégico da economia, a Razão
Instrumental acabou promovendo o progresso
apenas do capital, do poder e da técnica e não da
sociedade e da cultura em geral.

E foi justamente a luta por


este poder econômico e
técnico que resultou em
catástrofes inimagináveis no
século XX, além da definitiva
separação entre classes.
Crítica à Razão Instrumental

Com isso, a
Modernidade, com
sua arrogância racional,
ao invés de emancipar
a humanidade (como
haviam prometido) só a
levou ao terror e à
catástrofe, como foi o
caso da duas grandes
guerras mundiais.
Holocausto judeu
Guerra do Vietnã
Indústria Cultural:
a cultura como produto do lucro capital

Dois destes pensadores, Horkheimer e Adorno,


criaram a chamada teoria da Indústria Cultural,
que para eles nada mais é do que a massificação e
industrialização da cultura, provocado pelo
Capitalismo.

Ou seja, a cultura acabou se


tornando um produto
padronizado de massa,
cuja a única finalidade é o
lucro. Aquilo que não é
rentável não é mais
considerado como cultura.
Indústria Cultural:
a cultura como produto do lucro capital

A Indústria Cultura atual dá ao consumidor a falsa ideia


da autonomia da compra e da liberdade de escolha
do produto.

No entanto, o que se
percebe é apenas a
fabricação em massa
de produtos, voltados
para o lucro capital e
para o enburrecimento
da cultura.
Indústria Cultural:
a cultura como produto do lucro capital

“O consumidor não é
soberano, como a
Indústria Cultural quer
fazer crer, não é o seu
sujeito, mas o seu objeto”
– Theodor Adorno
Indústria Cultural:
a cultura como produto do lucro capital

E como a Indústria Cultural consegue ditar as regras


do consumo da cultura? Através dos meios de
comunicação de massa.

A ideia de que o produto


necessita ser comprado para
ser feliz, para estar
atualizado, para seguir as
últimas tendências da moda
etc., nada mais é do que
jogadas estratégicas para o
aumento do lucro capitalista.
Indústria Cultural:
a cultura como produto do lucro capital

Portanto, o consumidor acaba tornando-se alienado,


isto é, num estado de heteronomia cultural.
Indústria Cultural:
a cultura como produto do lucro capital
5. Habermas: o agir
comunicativo

Jürgen Habermas
(1929-...)
Teoria da Razão Comunicativa

Jürgen Habermas é um dos principais representantes


da segunda geração da Escola de Frankfurt,
continuando a discussão sobre a razão instrumental.

Porém, como viveu numa época posterior,


encontra-se diante de uma realidade
diferente, representada pela sociedade
industrial do capitalismo tardio (tecnologia,
produção em escala e consumo em massa).

Esse novo contexto levou-o a elaborar a teoria da


racionalidade comunicativa, que se contrapõe à
racionalidade instrumental.
Razão Instrumental x Razão Comunicativa

Habermas concorda com os autores da 1ª geração da


Escola de Frankfurt ao propor uma crítica à Razão
Instrumental comandada pela esfera político-
econômica.

No entanto, também propõe


outra modalidade de razão,
baseada na argumentação
crítica e autocrítica dos
modos de integração na social.

Esse novo tipo de racionalidade foi chamada de Razão


Comunicativa.
Agir Instrumental e Agir Comunicativo

Para o filósofo, cada modalidade de “razão” elabora


um tipo de “agir” específico:

Agir Instrumental: Agir Comunicativo:

Um tipo de ação baseada em Um tipo de ação baseada em


regras estratégicas que visam regras de interação simbólica
objetivos específicos e (debate) que visam o
orientados para o sucesso e a estabelecimento de critérios
eficácia da ação. Trata-se de para entendimento mútuo
um “agir-racional-com- (consenso). Trata-se de um agir
respeito-a-fins”, voltado para a linguístico voltado para o bem
apropriação material da estar comum e que deveria
Economia (dinheiro), Política reger as organizações
(poder) e Técnica (eficácia). artísticas, científicas e éticas.
Colonização do Agir Instrumental

Onde está o problema? O problema surge quando o Agir


Instrumental estende-se para outros domínios da
vida pessoal e social nos quais deveria prevalecer o
Agir Comunicativo.
A intromissão da ação instrumental
em outros domínios da vida empobrece
as relações afetivas e sociais: não se
avaliam as ações por serem justas ou
injustas, mas se são eficazes; ou seja,
os valores éticos e políticos são
tratados do ponto de vista técnico,
adequando-se aos fins propostos pelo
sistema (lucro e poder).
Colonização do Agir Instrumental

Para Habermas, a saída não


está em recusar o Sistema
(Economia, Política e
Técnica), mas em recuperar
o Agir Comunicativo
naqueles espaços em que
ele foi “colonizado” pelo
agir instrumental.

Isso significa que, para Habermas, a emancipação não


mais depende da revolução (como propôs Marx), mas do
aperfeiçoamento dos mecanismos de participação
dentro da sociedade, respeitando-se o Estado de direito.
Teoria do Agir Comunicativo

Desta maneira, em sua Teoria do


Agir Comunicativo, a proposta de
Habermas não apenas criticar a
Razão Instrumental, mas reelaborar
uma proposta de racionalidade ainda
não inaugurada na Modernidade: a
Razão Comunicativa.

Ao contrário da Razão Instrumental, a Razão


Comunicativa não está voltada para apenas para fins
administrativos (Economia e Política), mas sim para o
acordo dialógico e consensual, que inclui também os
interesses da cultura (Ciência, Moral e Arte).
Teoria do Agir Comunicativo

Por meio dessa teoria, Habermas critica a Filosofia


da Consciência da tradição moderna (Descartes e
Kant) por estar fundada em uma reflexão solitária,
centrada no sujeito.

Por isso, propõe outro


paradigma em que a razão
não seja monológica, mas
dialógica, como resultado do
processo de entendimento
intersubjetivo.
Agir Comunicativo e intersubjetividade

Ou seja, a racionalidade é exercida individualmente


(Razão monológica), mas por meio de sujeitos
situados historicamente, que, pela fala,
estabelecem uma relação intersubjetiva numa
comunidade comunicativa.

A Razão Comunicativa, por estar


baseada no diálogo
intersubjetivo, tende a eliminar
as coações exercidas pela
Razão Instrumental, que visa
apenas o capital.
Princípios para a validade do discurso

Essa “pluralidade de vozes” não paralisa a razão no


relativismo, uma vez que, por meio do procedimento
argumentativo, o grupo busca o consenso a partir
de princípios que visam assegurar a validade.

Portanto, a verdade não


resulta da reflexão isolada,
mas é exercida por meio do
diálogo orientado por regras
estabelecidas pelos
membros do grupo, numa
situação ideal de diálogo.
Situação ideal de fala

Portanto, a situação ideal de fala consiste em


evitar a coerção unilateral de um determinado tipo
de discurso e, ao mesmo tempo, dar condições
para todos os participantes exercerem seus atos de
fala no diálogo.

Para Habermas, o critério da


verdade não consiste na
correspondência do
enunciado com os fatos,
mas sim no consenso
discursivo.
6. Foucault: verdade e
poder

Michel Foucault
(1926-1984)
Relação entre Poder e Saber

O filósofo francês Michel Foucault descarta a hipótese


de buscar uma verdade essencial, opondo-se assim
à epistemologia da modernidade.

Investigando como as ideias de


loucura, disciplina e sexualidade
foram construídas historicamente
desde o século XVI, o filósofo
apresenta uma nova teoria em que
estabelece um nexo entre saber e
poder.
O poder gera o saber
Ao contrário da tradição da modernidade, pela qual o
saber antecede o poder, para Foucault, a verdade
não se encontra separada do poder, antes é o poder
que gera o saber.
Métodos: arqueológico e genealógico

Suas investigações, se baseavam em dois métodos:

a) O método arqueológico: que


tenta identificar quais regras de
conduta ou sistemas de pensamento
eram comuns a um determinado
período histórico.

b) O método genealógico: que


tenta compreender como um conceito
foi formado e transformado
historicamente por conta de
interesses camuflados.
Psiquiatria e os mecanismos de Poder

Ao investigar as condições do nascimento da psiquiatria,


Foucault descobriu que o saber psiquiátrico não tinha a
intenção de saber o que era a loucura, mas em ser um
dispositivo de poder e de dominação que propiciava
a transformação do “normal” em “anormal” e o seu
confinamento em instituições fechadas.

Por exemplo: no século XVII, mendigos


eram recolhidos em asilos e passaram a ser
alvos de mecanismos de exclusão que
separavam o “normal” do “anormal” e
ditavam as regras do que era a “sanidade”
e do que deveria ser a “loucura”.
Disciplina e Poder: os “corpos dóceis”

A questão é: Por que isso aconteceu?


Para Foucault, à medida que a burguesia se
constituiu classe dominante e detentora do processo
de produção industrial, precisou de uma disciplina
que excluísse os “incapazes” e “inúteis” para o
trabalho, como os loucos e os mendigos.

Ou melhor, a partir de então foram


criados mecanismos de controle
mais eficazes, a fim de tornar os
corpos dóceis e os comportamentos e
sentimentos adequados ao novo modo
de produção.
A sociedade disciplinar
Nos séculos XVII e XVIII, os
processos disciplinares assumiram
a fórmula geral de dominação
exercida não só nas fábricas, mas
em diversos espaços: nos
colégios, nos hospitais, na
organização militar, nas oficinas,
na família e também pela
medicalização da sexualidade.

O controle do espaço, do tempo, dos movimentos foi


submetido ao olhar vigilante (Panóptico), que, por
sua vez, introjetou-se no próprio indivíduo.
Microfísica do Poder
A consequência deste processo foi a formação de uma
sociedade disciplinar, cujo objetivo é o
desenvolvimento de uma “Microfísica do poder”.

E por que o termo “Microfísica do


Poder”? Porque, para Foucault, o
poder não se exerce de um ponto
central e de modo repressivo (como
em uma instância do Estado, por
exemplo), mas está disseminado
em uma rede de instituições
disciplinares e informais.
Microfísica do Poder
O segredo do poder para Foucault é que ele não é
repressivo e identificável a partir de um ponto; o
poder é empático e sua difusão está inserida nas
próprias situações do cotidiano. Por isso ele é eficaz.

Ou seja, são as próprias


pessoas, nas suas relações
recíprocas (pai, professor,
médico etc.), que, a partir
do “saber padronizado e
constituído”, fazem o
poder circular.
Microfísica do Poder

Portanto, a noção de verdade para Foucault está ligada


ao exercício ou práticas de poder disseminadas no
tecido social.
Esse poder não é exercido pela violência aparente
nem pela força física, mas pelo adestramento do
corpo e do comportamento, a fim de “fabricar” o tipo
de trabalhador adequado para a sociedade industrial
capitalista.

Cabe à genealogia do saber investigar como e por


que esses discursos se constituíram, que poderes estão
na origem deles, ou seja, como o poder produz o
saber.
7. Pragmatismo e
Neopragmatismo

“Verdadeiro é o
que funciona”.
O Pragmatismo
O Pragmatismo desenvolveu-se nos Estados Unidos a
partir do final do século XIX e, a partir do séc. XX,
orientou-se em diferentes tendências.

Herdeiro da tradição do
empirismo inglês (Locke, Hume
e Stuart Mill), o pragmatismo
buscou libertar-se da
metafísica racionalista.

Todavia, também não aderiu completamente ao


empirismo, pois ambas as ideias não conseguiram
resolver as relação entre razão e experiência.
Crítica ao Fundacionismo
Crítica ao Fundacionismo
Fundacionismo trata-se da tendência epistemológica que
entende a verdade e o conhecimento como crença
justificada, ou seja, como uma estrutura que se ergue
baseada em fundamentos certos e seguros, como na
metafísica tradicional.

Geralmente os filósofos
buscam justificar uma teoria Por exemplo: em
baseando-se em outra, em Descartes, a ideia
“Penso, logo
outra e mais outra, até
existo” é a base
chegar a uma ideia que seja para afirmar todo
o ponto de partida e que o racionalismo.
sustente todas as demais.
Crítica ao Fundacionismo

Ou seja, utilizando-se da
metáfora de um edifício,
todos os tijolos são
sustentados por um alicerce
(uma fundação).

Para contrariar essa ideia (fundacionismo), o


pragmatismo propõe o conceito de experiência como
um conjunto de relações que os seres humanos
estabelecem entre si e com o meio, de modo a
facilitar as ações e práticas futuras.
Crítica ao Fundacionismo

Deste modo, o teste da verdade não é uma ideia


“base” do passado, mas a experiência presente como
uma atividade conceitual capaz de guiar as ações
futuras em relação ao ambiente.

Ou seja, os conceitos de
experiência não são
ideias abstratas, mas
instrumentos que ajudam
o ser humano a orientar
sua ação prática.
Crítica ao Fundacionismo

“Para o pragmatismo, a experiência é substancialmente


abertura para o futuro: uma característica básica será
a possibilidade de fundamentar uma previsão. [...]
Desse ponto de vista, uma 'verdade' é, não porque
possa ser confrontada com os dados acumulados da
experiência passada, mas sim por ser suscetível de um
qualquer uso na experiência futura. [...] Nesse sentido,
a tese fundamental do pragmatismo é a de que toda a
verdade é uma regra de ação, uma norma para a
conduta futura”.
(ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia)
Crítica ao Fundacionismo

A verdade depende, portanto, dos resultados


práticos alcançados pela ação. Vale lembrar que o
pragmatismo filosófico não reduz grosseiramente a
verdade à utilidade.
Por exemplo, para o
pragmatista William James
uma proposição é
verdadeira quando
“funciona”, isto é, quando
permite que nos orientemos
na realidade, levando-nos de
uma experiência a outra.
Representantes do Pragmatismo

Charles S. Peirce Wlliam James John Dewey


(1839-1914) (1842-1910) (1859-1952)
Charles S. Peirce: falibilismo

Iniciador do pragmatismo, propôs o


conceito de falibilismo (conceito mais
tarde usado por Popper), teoria pela
qual se afirma que não podemos
estar absolutamente certos de
nada.

Ao analisar a linguagem, Peirce observa que o


pensamento produz “hábitos de ação” derivados de
certas crenças, que, por sua vez, tranquilizam as
dúvidas humanas. Por este motivo que nem todas as
crenças podem levar a bons resultados.
Charles S. Peirce: falibilismo
Segundo Peirce, somente aquelas crenças que se
originam da ciência e que podem ser confirmadas
pela experiência são capazes de conduzir à ação de
maneira eficaz e produzir bons resultados.

Porém, ainda assim, nenhuma prova


cientifica é “para sempre”, pois a
todo momento pode ser contestada
por uma nova experiência.

Mais tarde, trocou o nome de sua teoria para


pragmaticismo.
William James: funcionalismo

James entende o pragmatismo


como um método que nos ajuda a
olhar os fatos e avaliar os efeitos
práticos, a fim de nos orientar
adequadamente em nossa
experiência.

Neste sentido, James tem uma concepção


instrumental da verdade: a utilidade e a
função (enquanto capacidade de operar e de
agir) são, portanto, determinantes para
identificar a ideia verdadeira.
William James: pragmatismo moral

No campo da moral ocorre o mesmo: o bem e o


mal distinguem-se em função da sua utilidade e
importância para a vida.

Isso pode ser notado no seu livro A


vontade de Crer, no qual James
afirma que se pode crer em tudo o
que se queira, mesmo nas
verdades que não foram
demonstradas, como na fé religiosa.
John Dewey: instrumentalismo

Seguidor de James, o pragmatismo de Dewey é uma


espécie de instrumentalismo.
Tendo em vista que é
importante que as ideias
estejam ligadas à prática,
para Dewey elas são
propriamente instrumentos
para resolver problemas:
O grau de sua relevância e eficácia para alcançar este
fim é o que garante ou não a sua validade. Por isso as
ideias não são verdades ou falsidades absolutas, porque
podem ser corrigidas ou aperfeiçoadas.
O Neopragmatismo

Richard Rorty Donald Davidson Hilary Putnam


(1931-2007) (1917-2003) (1926...)
Rorty: o relativismo linguístico

Rorty recusa-se a buscar a “verdade objetiva”,


criticando a epistemologia tradicional, segundo a qual
a mente humana teria a capacidade de espelhar a
natureza e atingir sua representação precisa.

Propõe uma nova concepção de


filosofia antiplatônica, ou seja,
não essencialista assistemática.
Platão
Como os demais pragmatistas, rejeita o
fundacionismo, isto é, a noção de verdade última
como fundação de todas as outras.
Rorty: o relativismo linguístico

No entanto, enquanto os pragmatistas clássicos


referem-se à “experiência”, os neopragmatistas
falam em “linguagem” de modo não tradicional:

Concepção tradicional Concepção neopragmática

O objetivo da linguagem é O objetivo da linguagem é


descobrir a essência ligar objetos uns aos outros,
escondida das coisas de modo a compreender sua
(essencialismo) função (pragmatismo)

Por exemplo, não podemos saber o que é uma mesa,


a não ser ligando-a com conceitos como: “madeira”,
“cor castanha”, “dura”, “pesada”, “velha” etc.
Rorty: o relativismo linguístico

Rorty abandona de vez a tentativa de atribuir à


noção de verdade um papel explicativo.
Para ele, o significado das coisas (versões e crenças)
está sempre em aberto, aperfeiçoando-se na
comunidade através da reflexão e do diálogo,
capaz de buscar as novas crenças e novas
descrições de um mundo em mutação.
Além de Rorty, são representantes desse movimento,
evidentemente com diferenças de enfoques e de
conclusões, Hilary Putnam (1926) e Donald
Davidson (1917-2003).
8. A Filosofia da Linguagem

“Os limites da
linguagem são
os limites do
meu mundo”.
Giro linguístico: Filosofia Analítica

A crítica à metafísica e à
possibilidade de se atingir a
verdade a partir da
subjetividade encontra sua
posição mais radical na
Filosofia Analítica, que
abandona as noções do “sujeito
que conhece” para se limitar à
investigação da linguagem:
nossa relação com o mundo é
como uma relação de
significação.
Giro linguístico: Filosofia Analítica

Chama-se “giro linguístico” (ou virada linguística) a


revolução que representou o novo paradigma
filosófico da epistemologia. Ou seja:

*Enquanto a filosofia tradicional


promoveu a análise como investigação
das essências;

* [...] a filosofia analítica privilegia a


análise conceitual dos significados,
utilizando os novos recursos da
linguística e os da lógica simbólica, que
permitem o estudo lógico das sentenças.
Ludwig Wittgenstein

Ludwig Wittgenstein
(1889-1951)
Filosofia Analítica: Wittgenstein

Representante da Filosofia Analítica, o austríaco


Wittgenstein é considerado um dos principais
filósofos do séc. XX.

O impacto de suas obras foi


notável no que diz respeito à
relação entre linguagem e
pensamento, que mais tarde
influenciou diretamente no
positivismo lógico do Círculo
de Viena e na Filosofia
Analítica de Oxford. Retrato de Ludwig
Wittgenstein (1889-1951)
Filosofia Analítica: Wittgenstein

O pensamento de Wittgenstein teve duas fases


distintas:
1ª Fase: análise 2ª Fase: análise
lógica da linguagem do uso linguagem

Livro: Tractatus Livro: Investigações


Logico-Philosophicus Filosóficas
Ludwig Wittgenstein

1ª Fase: “Tractatus Logico-philosophicus”


“Tractatus Logico-philosophicus”

A 1ª fase do pensamento de Wittgenstein tem


influências das obras de Frege e Bertrand Russell.
Na Introdução, declara que o seu propósito é tratar
dos problemas da filosofia a partir da compreensão
da lógica da linguagem e sobre os limites dela:

“O que pode ser falado, é


falado claramente. Sobre
aquilo que não pode ser
falado, deve ser calado”.
(Wittgenstein)
“Tractatus Logico-philosophicus”

O que Wittgenstein quer dizer com esta frase?

Primeiro: que nada se pode falar ou compreender


fora da linguagem.

“Os limites da
linguagem são os
limites do meu mundo”.
(Wittgenstein)

Esta ideia representa bem a opção metodológica do


giro linguístico: a filosofia não pergunta mais pelo
“o que é o ser”, mas “como representar o ser”.
O mundo é a totalidade de fatos

Ou seja, segundo Wittgenstein SOMENTE por meio


da linguagem que os fatos são representados.

“O mundo é a
totalidade de fatos, não
de coisas”.
(Wittgenstein)

Wittgenstein fala de “fatos” e não “coisas”. Por quê?


Enquanto as coisas (objetos) são simples, os fatos são
complexos e é por meio deles que temos acesso ao mundo.
Diferença entre “fatos” e “coisas”

Por exemplo, nada pode dizer diante do conceito


“água”, mas sim quando ela está relacionada com
outros conceitos (coisas) numa proposição como: “A
água está límpida” ou “a água ferve a 100ºC”.

Conceito de “água” “A água ferve a 100ºC”

Coisa simples, da qual Fato complexo, que pode ser


nada pode ser dito, pois compreendido por meio da frase,
não tem relação linguística pois promove uma relação com
com nada. outras coisas.
As “coisas” são incompreensíveis

Coisas: objetos e
conceitos isolados
“Água”
(essências) e, por isso,
não compreensível.

Na imagem ao lado, nada


pode ser dito ou conhecido
de “água” porque trata-se
de um conceito isolado, isto
é, não representado em um
estado de coisas possível
(uma relação com outras
“coisas”).
Fatos: estado de coisas referente ao real

+ + =
Trata-se de um estado de coisas: a relação de coisas dentro
da possibilidade lógica de uma frase.

Se o estado de coisas Se o estado de coisas não se


referir-se à realidade, referir à realidade, temos
então temo um FATO apenas o conteúdo de uma
(coincide com a realidade). FRASE COM SENTIDO.
Por exemplo: “A água Por exemplo: “A água ferve a
ferve a 100ºC”. 20ºC”.
Pensamento: proposição com sentido

Apesar de saber que a “água não ferve a 20ºC”,


ainda assim essa frase é compreensível, porque está
dentro de uma relação lógica de estado de coisas.

No entanto, se disser a frase “a água ferve e não


ferve a 100ºC”, temos então uma contradição
lógica que indica um estado de coisas que não
ocorre, nem poderá ocorrer nunca.

Portanto, só podemos “O pensamento é


compreender proposições uma proposição com
com sentido (estado de coisas sentido”.
possível), mesmo que não
correspondam a nenhum fato. (Wittgenstein)
Pensamento: proposição com sentido

Segundo: que nada aquilo que não decorre dos


fatos (o que pode ser falado), deve ser calado.

Enquanto a ciência investiga os fatos, cabe à


filosofia apenas examinar o mecanismo lógico da
linguagem como expressão do pensamento.
Por isso, nada se pode dizer sobre os
fundamentos da ética, da estética e da
religião. Não porque elas não existam
ou não sejam importantes, mas sim
porque estão no campo do inefável,
daquilo que não se pode exprimir.
Ludwig Wittgenstein

2ª Fase: “Investigações Filosóficas”


“Investigações Filosóficas”
Após muito tempo sem escrever, Wittgenstein, a
partir de 1929, repensou sua filosofia e
reformulou-a sob muitos aspectos, processo que
culminou com a elaboração de Investigações
filosóficas.

Como anteriormente, continuou


ocupando-se do significado das
expressões linguísticas, porém,
não mais se atendo ao que elas se
referem, mas ao modo como
elas são usadas.
O significado da linguagem
depende do seu uso
Wittgenstein percebeu que geralmente busca-se nas
proposições o que elas explicam ou descrevem.

Por exemplo, se falamos “a água ferve a 100ºC”,


damos somente uma característica da água.

Mas, se dizemos apenas “Água!”,


isso pode ter vários significados,
dependendo das circunstâncias:
tenho sede, rendo-me ao adversário,
preciso apagar o incêndio, ensino
uma criança a falar etc...
O significado da linguagem
depende do seu uso
Portanto, a linguagem não é mais uma
representação conceitual dos fatos (realidade), mas
uma significação cuja correspondência com a
realidade precisa ser conferida em cada situação.

Ou seja, o significado da
linguagem depende do
modo em que ela é usada
num determinado
contexto social, e não da
forma como ela é
representada na proposição
lógica.
“Os jogos de linguagem”
Para isso, Wittgenstein criou a expressão “jogos de
linguagem”, que se trata exatamente das regras
específicas do uso da linguagem em cada contexto –
em oposição à rigidez da forma lógica.
Os jogos de linguagem são inúmeros, e estão
sempre sendo recriados uns e esquecidos outros.
Em cada jogo específico, a
palavra tem o seu significado
pelo uso que assume, pois a
linguagem muda conforme o
contexto, como pedir, ordenar,
aconselhar, xingar etc.
Tarefa da Filosofia

E a filosofia, para que serve? É preciso, primeiro,


curar a cegueira do filósofo, acostumado com
abstrações e generalizações, para que assim olhe
os antigos fenômenos estudados sob uma nova
ótica, prestando atenção às formas de vida e à
multiplicidade de sentidos.

Cabe à filosofia apenas descrever, analisar,


elucidar a linguagem, como na fase do Tractatus;
porém, agora, levando em consideração as regras
do uso dos jogos de linguagem.
Reflexão:
Coisa “em si”, “imagem” ou “linguagem”?

“Uma e três cadeiras”,


de Joseph Kosuth, 1965.

A arte consiste de uma


cadeira, da fotografia do
mesmo móvel e da
ampliação fotográfica do
verbete “cadeira” de um
dicionário

A partir da cena, o artista propunha a questão: em


qual das três imagens está a verdadeira identidade
da cadeira? Na coisa em si, em sua imagem ou na
descrição verbal?
9. O Discurso da Pós-
modernidade

A Persistência
da Memória.
Salvador Dali,
1931.
Pós-modernidade
Nas duas últimas décadas do século XX ocorreram
transformações cruciais na sociedade por conta da
revolução da informática e da fragmentação dos
grandes blocos dos saberes (como as concepções
sistemáticas da filosofia, ciência, literatura, pintura e
arquitetura).

Irrompeu então no que


ficou conhecido como
pós-modernidade.
Descrença pós-moderna
O conceito de pós-moderno não é de fácil definição,
pois há diferentes explicações para o fenômeno.

De maneira geral, consiste no estado de espírito


que não acredita mais na herança do Iluminismo:

não se aceitam mais os grandes


sistemas (como o marxismo, o
liberalismo, a esperança depositada
no progresso), nem faz mais sentido
a ilusão de que a razão haveria de
orientar o homem para uma
sociedade mais harmônica.
Descrença pós-moderna
Para o pós-moderno, tudo
está em descrédito, ou seja,
parece envelhecido e
ultrapassado, cada vez mais
distante do sonho iluminista
da libertação humana pelo
conhecimento.

Em que tipo de descrenças


nos lançam os novos tempos “O Grito”, de Eduard
pós-modernos? Munch, 1893.
Descrença pós-moderna
A pós-modernidade lançou-nos na
descrença da razão iluminista,
por conta de tragédias como: as
grandes Guerras Mundiais; o
Holocausto Nazista; a contribuição
da física contemporânea para as
bombas de Hiroshima e Nagasaki;
os totalitarismos do séc. XX etc.

Esse cenário abalou os princípios morais absolutos


e universais, que se dissolveram na diversidade dos
valores vitais e da espontaneidade.
Descrença pós-moderna
Esse cenário abalou os princípios morais
absolutos e universais, que se dissolveram na
diversidade dos valores vitais e da
espontaneidade, concentrados principalmente nas
seguintes esferas:

Arte Moral Filosofia


Arte Pós-Moderna
A Pós-modernidade foi desenvolvida primeiramente
pela Arte (pintura, arquiterura e literatura)

De modo geral, a arte Pós-


moderna tem como principais
características o apagamento
das fronteiras existentes
entre a arte popular (das
massas) e a arte erudita.

“Coca-cola”, de
Andy Warhol, 1962
Arte Pós-Moderna
De modo geral, a arte pós-moderna também tem
como marca o desaparecimento do sujeito artista
genial, do vanguardismo e do novo.

Esgotada a capacidade de
criação, o artista pós-
moderno é obrigado a voltar
ao passado e recorrer ao
pastiche de obras anteriores.
A Antiarte do cotidiano
Está fundada no processo de
desestetização e da antiarte, isto
é, na substituição da cultura elevada
por uma cultura banal do cotidiano.
Está interessada tanto numa crítica
cultural moderna, como também na
apresentação cômica e ridicula-
“A Fonte”, de Marcel rizada da cultura clássica.
Duchamp, 1917

Enfim, apresenta-se como uma obra muito variada


e sem uma raiz central e tradicional.
Arte pós-moderna: retorno ao
passado

A crítica à austeridade do modernismo também é


percebida na arquitetura pós-moderna, que ironiza as
teorias da funcionalidade na arquitetura (como por
exemplo, a tendência alemã da Bauhaus), propondo
assim criações com referências ecléticas ao passado.

Piazza d’Italia, do
arquiteto Charles Moore,
1979-1979), em Nova
Orleans (EUA).
Desestetização da Arte Pós-Moderna

“Todos reconhecendo o belo


como belo: eis aí o feio;
todos reconhecendo o bem
como bem; eis aí o mal”.
Lao Tsé (480-390 a.C.)
Moral Pós-Moderna
No que diz respeito à moral, a pós-modernidade
também influenciou profundamente.

De modo geral, a moral pós-


moderna faz uma severa
critica aos padrões e regras
morais cristalizadas, frutos
de ideologias tradicionais.

Uma das influências teóricas da moral pós-moderna


pode encontra-se na psicanálise de Freud.
Moral Pós-Moderna
Criador da Psicanálise, Freud afirma a existência de
três estruturas na personalidade de uma pessoa:

ID – é o reservatório inconsciente das


pulsões do prazer, que estão sempre
ativas.
EGO – regido pelo princípio da realidade,
cuida dos impulsos do ID. Desejos
inadequados não são satisfeitos, mas
reprimidos.
SUPEREGO – serve como um censor das
funções do ego (proveniente dos valores
familiares e sociais), sendo a fonte dos
sentimentos de culpa e punição.
Moral Pós-Moderna

Com isso, depois de


Freud, a Moral Moderna
passou a criticada como
uma tipo de Superego
Racional, especializado
em conter os impulsos e
desejos naturais do ser
humano.

Freud chamou ess efeito de Mal-estar da


Civilização.
Moral da Razão subordinada à Moral
da Pulsão

Para a Moral Pós-moderna, a


razão não é mais o cume da
personalidade do indivíduo.
Pelo contrário, só o impulso e o
prazer são reais e afirmadores
da vida (e por isso não devem
ser reprimidos); o resto não
passa de neurose e morte.

Daí surgiram muitas críticas à moral moderna


incorporadas em discursos consumistas, hedonistas
e individualistas.
Filosofia Pós-moderna
Na filosofia, o pensamento “pós-
moderno” sofreu influência do
perspectivismo de Nietzsche e
dos vários filósofos já
mencionados (Escola de Frankfurt,
Foucault, Rorty etc.), que
desvendaram as ilusões do
conhecimento, denunciaram a
razão emancipadora (que
mostrou sua face de dominação) e
questionaram a possibilidade de O sono da Razão,
de Francisco de
se alcançar a verdade. Goya, 1796-1798
Filosofia Pós-moderna
Juntamente com outros filósofos
(Davidson, Derrida, Gianni Vattimo),
o fracês Jean-François Lyotard
(1924-1998) foi um dos autores que
melhor descreveu o tema na obra A
Condição Pós-Moderna.

Para ele, a Razão moderna é inseparável


daquilo que ele chamou de “metanarrativas
legitimadoras” da Modernidade.
Filosofia Pós-moderna
Segundo Lyotard, metanarrativas são aquelas
grandes narrativas que se julgam capazes de
explicar a realidade de modo absoluto e universal,
mas que, na verdade, não passaram de grandes
ideologias construídas pela Modernidade com o
intuito de dominar e manipular a sociedade, como:
• Ideologia da Razão Emancipatória: que defende a
ideia do projeto de progresso do gênero humano através
do uso da Ciência e da Técnica (Iluminismo);

• Ideologia da Razão Especulativa: que defende a ideia


da Razão autônoma, universal e absoluta, promovida
pela ideia da autocertificação da Modernidade (Hegel).
Filosofia Pós-moderna
Enfim síntese, o que caracteriza a Razão pós-
moderna é justamente a incredulidade às
metanarrativas da Modernidade.
Foi esse o sonho, por exemplo,
de Descartes e de todas as
teorias radicais, globalizantes,
tais como as construídas por
Hegel, Marx, Freud e até pelas
grandes religiões.

Opostamente a eles, a pós-modernidade aceita o


fragmentário, o descontínuo, o caótico.
Filosofia Pós-moderna

Desta maneira, a ciência pós-moderna...

não acredita mais no consenso da Razão (que


afirma que tudo deve ser provado através de uma
única forma de linguagem, a linguagem do saber
científico).
mas sim no dissenso da Razão (que afirma que o
conhecimento deve basear-se em várias formas de
linguagem que, por sua vez, devem ser aceitas pela
comunidade científica, ou seja, a linguagem do
saber narrativo).
Crítica de Habermas

Contra o movimento pós-moderno,


Jürgen Habermas escreveu “A
modernidade, um projeto
inacabado”, justamente para dizer
que a tarefa iniciada por Kant (da
superação da menoridade da razão e
incentivo da autonomia de ousar
saber), ainda deverá ser completada.

Para Habermas, a modernidade é uma tarefa a ser


refeita em cada momento, a partir do exercício da
razão crítica.