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REALISMO NO

BRASIL
Machado de Assis:
• UM CÉTICO ANALISA A SOCIEDADE
• MELANCOLIA E SARCASMO
• O LEITOR NO CENTRO DA CENA
LITERÁRIA
“Desde os cinco anos merecera eu a

alcunha de “menino diabo”; e

verdadeiramente não era outra coisa; fui De acordo com a


constituição social no
dos mais malignos do meu tempo, mundo a escravidão
não existe mais. O
arguto, indiscreto, traquinas e último país a abolir a
escravidão foi a
voluntarioso. Por exemplo, um dia Mauretânia em 1981.
Porém a escravidão
quebrei a cabeça de uma escrava, continua em muitos
países, pois as leis não
porque me negara uma colher do doce de são aplicadas. Elas
foram somente feitas
coco que estava fazendo, e, não contente pela pressão de outros
países e da ONU, mas
com o malefício, deitei um punhado de não representam a
vontade do governo do
cinza ao tacho, e, não satisfeito da respectivo país. Hoje
em dia tem pelo menos
travessura, fui dizer à minha mãe que a 27 milhões escravos no
mundo. A foto de J. H.
escrava é que estragara o doce “por Papf que retrata uma
babá e uma criança, em
pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. 1899, 11 anos após o
fim da escravidão,
(...). revela que muito pouco
havia mudado no país.
(...) Prudêncio, um moleque da

casa, era o meu cavalo de todos os

dias; punha as mãos no chão, recebia Na metade do século XIX,


leis de iniciativa
um cordel nos queixos, à guisa de abolicionista passaram a
ser promulgadas, sendo a
freio, eu trepava-lhe ao dorso, com primeira delas a Lei
Eusébio de Queirós, que
foi sancionada no ano de
uma varinha na mão, fustigava-o, 1850, a qual proibia o
tráfico negreiro no
dava mil voltas a um e outro lado, e oceano Atlântico. A
novidade causou choque,
ele obedecia, — algumas vezes mas ela não foi suficiente
para impedir a
gemendo, — mas obedecia sem dizer continuação do tráfico de
negros a serem
palavra, ou, quando muito, um — “ai, escravizados.
Em 1872, antes ainda de
surgir a Lei dos
nhonhô!” — ao que eu retorquia: —
Sexagenários, outra lei foi
aprovada na tentativa de
“Cala a boca, besta! impedir que os senhores
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de engenho, donos dos
grandes territórios,
de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, submetessem também
2001. p. 87-90. (Fragmento). crianças negras ao
trabalho escravo.
O projeto literário do
Realismo
E m u m a c o n f e r ê n c i a i n t i t u l a d a “A literatura nova (o
realismo como nova expressão da arte)”, o escritor
português Eça de Queirós d e fi n e , em linhas gerais, o
projeto literário da nova estética: “o Realismo é a
anatomia do caráter”. E explica:

[...] É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios


olhos — para condenar o que houver de mau na nossa sociedade .

QUEIRÓS, Eça de. In: SARAIVA, Antonio José. História da literatura portuguesa.
12. ed. Porto: Porto Editora, 1982. p. 926. (Fragmento).
Recepção crítica do
No
Realismo
Brasil, Machado de Assis também espantou
publicação de seu romance mais ousado, Memórias póstumas de Brás
o público após a

Cubas. Houve críticas que apontaram com dureza a falta de qualidade de


Memórias póstumas de Brás Cubas:

A obra do Sr. Machado de Assis é deficiente , senão falsa, no


fundo, porque não enfrenta o verdadeiro problema que se propôs a
resolver e só filosofou sobre caráteres de uma vulgaridade perfeita; é
deficiente na forma, porque não há nitidez, não há desenho, mas
bosquejos, não há coloridos, mas pinceladas ao acaso.
DUARTE, Urbano. Apud: GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis.
São Paulo: Nanquin/Edusp, 2004. p. 192. (Fragmento adaptado).
Análise do trecho de “Brás Cubas”

 É impressionante observar a arrogância e a prepotência que constituem os traços


fundamentais do caráter de Brás Cubas. Diferentemente do que se esperaria de um narrador
protagonista, ele revela os piores traços de sua personalidade, “liberado” das consequências
por sua cômoda posição de defunto autor, que não tem mais nada a perder porque já está
morto. A frase final explica o título “O menino é pai do homem”: seu caráter se formou em um
contexto familiar que favorecia comportamentos prepotentes.

 O realismo machadiano é diferente dos outros, foge da crítica direta e fácil. De modo
engenhoso, surpreende com um retrato fiel e sem retoques de um membro da elite brasileira.
Ao apresentar Brás Cubas em toda a sua desfaçatez e arrogância, o que se percebe é que esse
era o comportamento daqueles que ocupavam as altas posições em nossa sociedade. Através
dele, o leitor é forçado a encarar, sem atenuantes, o retrato de sua própria miséria humana.
Brasil: um país em crise

 Na segunda metade do século XIX, o Brasil enfrenta um cenário de crise. O fim

do tráfico negreiro, em 1850, acelera a decadência da economia açucareira e

anuncia a ruptura definitiva do regime escravocrata.

 A sociedade precisava de novos intérpretes para essa realidade. É Machado de

Assis quem desenvolve um novo olhar para a sociedade do Segundo Império,

esboçando de modo revelador e impiedoso seu retrato mais fiel.


"Ao Leitor
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores,
coisa é que admira e consterna. O que não admira nem provavelmente
consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem
cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na
verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de
um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de
pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta
da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce
que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo
que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da
estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da
opinião (...).

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê
Editorial, 2001. p. 67. (Fragmento).
(...) Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro
remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém
menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado.
Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na
composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso,
mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A
obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te
não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial,
2001. p. 67. (Fragmento).
O leitor no centro da cena literária

 A ficção de Machado é caracterizada por um diálogo constante com o leitor. Ao


contrário do que faziam os românticos, o narrador provoca, insulta, desafia e ironiza
seu público, transformado em alvo de chacota.

 Essa mudança sinaliza uma importante característica da prosa realista: o objetivo é


manter a atenção do leitor, e não convencê-lo a se comportar dessa ou daquela
maneira, como queriam os românticos.

 A proposta do narrador é divertir e, ao fazer isso, seduzir de tal modo que o leitor
aceite as caracterizações mais duras e cruéis de personagens cujo perfil é muito
semelhante ao dele.
“ O senão do livro
[...] Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício
grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de


envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e
fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda,
andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial,
2001. p. 72. (Fragmento).
Dom Casmurro:
Os mistérios da alma humana

 De modo bastante resumido, Dom Casmurro conta a história de um homem


completamente perturbado por um sentimento mesquinho: o ciúme.

 A questão básica é: até que ponto a narrativa de um homem certo de ter sido traído
pela esposa é confiável? Como saber o que de fato aconteceu entre Capitu e Escobar
(se é que houve mesmo um envolvimento amoroso entre ambos)? Apenas Bento
Santiago, amargurado e só, decide o que deve ou não ser relatado ao leitor.

 Assim, a grande questão do livro deixa de ser se Capitu cometeu ou não adultério. O
que importa é perceber como Machado retrata, de modo extraordinário, o
comportamento de um homem completamente transtornado pelo ciúme.
Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis
despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos.
Muitos homens choraram também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a
viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali.
A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o
cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem
algumas lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-
as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de
carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a tinha
ASSIS,
também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais Machado de.
Dom
os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a Casmurro. 32.
vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. ed. São Paulo:
Ática, 1997. p.
160-161.
(Fragmento).
Machado de Assis:
Um cético analisa a sociedade

 Com Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis profetiza a


construção de um Realismo diferente daquele que surgiu com Flaubert e
chegou ao Brasil com os romances de Eça de Queirós. Como avisou no
prólogo, seu livro “é taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva
outro vinho”.

 Em suas cartas, Machado revela sua perspectiva de preferência: “Eu gosto


de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o
meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto.”