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OS SOFRIMENTOS

DO JOVEM
WERTHER
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE
GOIÁS
CÂMPUS INHUMAS

LITERATURA PORTUGUESA I
PROF.ª VERA LÚCIA PAGANINI

ACADÊMICAS: DJELAINE CRUZ DE CASTRO


RÚBIA GARCIA DE PAULA
SUZANA DE SOUSA LINO
OBRA
Die Leiden des jungen Werthers é um romance de
Johann Wolfgang von Goethe de 1774.

Os sofrimentos do jovem Werther. Tradução Marcelo


Backes. Porto Alegre: L&PM, 2001. (Pocket, 217).
BIOGRAFIA
• Goethe (1749-1832) nasceu em Frankfurt, Alemanha,
em 28 de agosto de 1749.
• Filho do juiz Johann Gaspar Goethe e de Catharina
Elisabeth Goethe, descendente de uma rica e culta
família alemã. Cresceu em meio aos livros da biblioteca
de seu pai, que possuía mais de 2000 volumes.
Educados por tutores, recebeu aulas de inglês, francês,
italiano, grego e latim. Estudou ciências, religião e
música.
Local de nascimento de Goethe:

• Johann Wolfgang von Goethe foi um dos


maiores poetas de todos os tempos.
• Com apenas 25 anos Goethe escreveu “Os
Sofrimentos do Jovem Werther”,
inspirado em seu amor não-correspondido
pela noiva de um amigo. Com este livro
Goethe alcançou fama internacional.
• Sua obra-prima, porém, foi “Fausto”, cuja
segunda e última parte só foi publicada em
1832, quando Goethe já tinha mais de 80
anos.
• Em 1765, inicia o curso de Direito da
Universidade de Leipzig, mas logo foi
acometido por uma tuberculose, onde volta
para a casa dos pais.

http://www.goethezeitportal.de/wissen/illustrationen/johann-wolfgang-von-goethe/goethehaus-in-frankfurt.html
• Em 1770, vai para Estrasburgo, Alsácis, onde conhece Herder, filósofo e escritor
alemão, que lhe influencia na leitura de Shakespeare, Homero e Ossian.
• Em 1771, licencia-se em Direito. Nesse ano publica "O Cavaleiro da Mão de Ferro".
• Em 1774 o amor por Charlotte Buff, noiva de um amigo, dá origem à obra pré-
romântica "Os Sofrimentos do Jovem Werther".
• Em 1806, casa-se com Christiane Valpius. Escreve cenas de "Fausto", obra do
romantismo, que começou em 1774 e só é concluída em 1830.
• Johann Wolfgang Goethe morreu aos 82 anos em Weimar, Alemanha, no dia 22 de
março de 1832.
BIBLIOGRAFIA
Principais obras de Goethe:
•  Götz von Berlichingen - 1773 
• Os Sofrimentos do Jovem Werther -  Clavigo -  Prometheus  - 1774
•  Egmont - 1775 
•  Ifigênia em Taúrides – 1779
• Torquato Tasso - 1780 
• Reineke Raposo - 1794 
•  Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller) - 1796 
• Hermann e Dorothea - 1798 
• Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister - 1807 
• Fausto (Parte I) - 1808 
• As afinidades eletivas – 1809
• Fausto (Parte II) - 1832
CONTEXTO HISTÓRICO
• AUTOR: 1749 – 28 de agosto nasce Johann Wolfgang Goethe em
Frankfurt.
• 1774 - A obra Os sofrimentos do jovem Werther (Die Leiden des
jungen Werthers) foi escrita por Goethe na Alemanha;
• 1832 – Goethe morre em 22 de março.
• OBRA: As cartas são datadas em: 4 de maio de 1771 a 20 de
dezembro de 1772.
• PERÍODO: 1749 - 1832
• O imperador Carlos VI, ansioso em manter unificados os domínios dos
Habsburgo, promulgou a Sanção pragmática em 1713, declarando que sua filha
Maria Teresa I da Áustria lhe sucederia. Quando morreu em 1740, os eleitores da
Baviera e da Saxônia rechaçaram a Sanção Pragmática. Frederico II invadiu a
Silésia, precipitando a Guerra da Sucessão Austríaca (1740-1748). Maria Teresa
assinou a paz com ele em 1742, cedendo-lhe a Silésia.
• O surgimento da Prússia (O Reino da Prússia (em alemão: Königreich Preußen)
foi um reino alemão de 1701 a 1918 e, a partir de 1871, o principal Estado-
membro do Império Alemão, compreendendo quase dois terços da área do
império.)
• Prússica surgiu como uma grande potência levou a uma mudança de alianças e a novas
hostilidades. A intenção de Maria Teresa de reconquistar a Silésia deu lugar a uma série de
alianças que conduziriam à guerra dos Sete Anos (1756-1763).
• Durante 18 anos os Estados alemães estiveram implicados de forma diferente em cinco
guerras contra os exércitos da França revolucionária e napoleônica. No início a Áustria e
a Prússia perderam muitos territórios, mas em 1812 Napoleão foi derrotado na campanha
da Rússia. Frederico Guilherme III da Prússia, junto com a Áustria e a Rússia, derrotou
Napoleão em Leipzig (1813). No Congresso de Viena (1814-1815) os Estados vencedores
de Napoleão redesenharam o mapa da Europa.
• 8 de junho de 1820: A Constituição da Confederação Germânica entra em vigor.
ROMANTISMO
• Precursor do Romantismo, Rousseau foi o primeiro filósofo a dar
destaque ao culto á natureza e à emoção em oposição da razão;
desconfiando da ciência e recusando o racionalismo exacerbado dos
pensadores da Ilustração.
• Rousseau cria a hipótese do homem passar a ser corrompido pelo
poder e esmagado pela violência e aquilo que é natural do homem; os
instintos, os sentidos, as emoções, os sentimentos, a autenticidade e a
razão se transformam em perigo e maldade.
• A procura de um novo fazer literário, mais verdadeiro e expressivo era
o lema daqueles jovens que se reuniam para discutir e fazer a nova
literatura, que se configurará no movimento denominado de Sturm und
Drang (Tempestade e Ímpeto), mesmo título da peça de 1776 de um
dos integrantes do grupo em torno do jovem Goethe, Maximilian
Klinger.
• A questão central gira em torno dos novos valores que esta geração
tenta estabelecer a partir de suas produções literárias, nas quais
conceitos como amor, fantasia, sentimento, morte, liberdade e natureza
ocupam o lugar central.
• O Romantismo, partindo da Inglaterra e da Alemanha, se alastrou e
influenciou escritores de muitos outros países. Surgiu no rescaldo da
Revolução Francesa e em meio à euforia produzida pela Revolução
Industrial.
• O ROMANTISMO, enquanto visão de mundo foi uma reação aos
valores éticos e intelectuais ilustrados e clássicos, assim como aos
fatos históricos mais marcantes da virada do século XVIII para o
século XIX. Nesse sentido, a visão de mundo romântica surge mais
como uma reação ao novo que como a proposição de algo diferente.
Todo valor que ela elege é sempre em oposição a outro que pretende
negar.
• Em termos de história das ideias, nessa época a Alemanha estava em
plena tentativa de inserir-se no contexto da discussão intelectual
europeia centrada no delineamento do ideário do Iluminismo.
CLASSIFICAÇÃO TIPOLÓGICA DO ROMANCE

ROMANCE DE PERSONAGEM: personagem central, subjetivismo lírico, título representativo.

Aguiar e Silva (1988, p. 685) versa sobre o “Romance de personagem”:

Romance caracterizado pela existência de uma única personagem central, que o autor desenha
e estuda demoradamente e à qual obedece todo o desenvolvimento do romance. Trata-se,
frequentemente, de um romance propenso para o subjectivismo lírico e para o tom
confessional, como sucede com o Werther de Goethe, o Adolphe de Benjamim Constant, o
Raphael de Lamartine, etc. O título é, em geral, bem significativo acerca da natureza deste
tipo de romance, pois é constituído, com muita frequência, pelo próprio nome da personagem
central. (GRIFOS NOSSOS)
Assim, no nosso caso temos:

PERSONAGEM CENTRAL: Werther.


TÍTULO SIGNIFICATIVO: Os sofrimentos do jovem Werther.
SUBJETIVISMO LÍRICO: todas as cartas escritas por Werther pelas quais se desenvolve
o romance são oriundas do seu íntimo, do seu interior. Encontramos esse subjetivismo
caracterizado no seguinte trecho:

29 de julho. Não, está bem! Tudo corre pelo melhor... Eu, seu esposo! Oh, Deus
que me deste o ser, tivésseis me preparado esta felicidade e toda a minha vida não
passaria de uma adoração contínua! Mas não quero advogar contra a tua vontade.
Perdoa-me estas lágrimas, perdoa-me os meus inúteis anseios... Ela, minha
mulher! Se eu tivesse estreitado em meus braços a mais doce criatura da face da
terra... Corre-me um arrepio pelo corpo todo, Guilherme, quando Alberto abraça o
seu corpo esbelto. (GOETHE, p. 52)
ROMANTISMO CARACTERÍSTICAS

À razão, o Romantismo opôs o sentimento, à mente o coração, à ciência a arte e a


poesia, ao materialismo o espiritualismo, à objetividade a subjetividade, à filosofia
ilustrada o cristianismo, ao corpo e à matéria o espírito, ao equilíbrio a expansão e o
entusiasmo, aos valores universais os particulares e exóticos, ao estático e
permanente o movimento. Ela também foi profundamente crítica: a partir da visão
idealizada do indivíduo como ser original e singular, em essência dotado de gênio e
liberdade, questionou o processo de alienação a que teria de sujeitar-se ao aceitar as
novas formas de vida imposta.
• A valorização do sentimento e da emoção leva o autor romântico a explorar o
subjetivismo e até mesmo a egolatria, aspectos que produzem uma literatura de
tom intimista e confessional.
• O romântico julga-se centro do universo e o ego representa seu grande pólo de
interesse, a ponto de ver na natureza e no universo mero projeções de seu mundo
interior.
• Quebrando os padrões clássicos, a arte deveria ser expressão da emoção, intuição e
inspiração, de vocabulário simples, de liberdade formal, cheia de descrições
minuciosas com emprego constante de metáforas e comparações.
• Fazia uso da fantasia e sentimentalismo, a impulsividade, além do mistério,
solidão, o conflito interior e a morte.
“Outubro, 27
Quantas vezes tenho vontade de rasgar o peito e estourar o crânio vendo que somos
tão pouca coisa uns para os outros! Ah! O que trago em mim de amor, alegria, calor e
embriaguez só de mim depende, não me poderá ser dado por outrem...” (p.58)
O dilema de Werther: um ser “deslocado” que enfatizava a potência do sentir e se via
completamente perdido, caso não conseguisse viver de modo absoluto sua paixão,
esta era a única possibilidade de não se colocar limites à imaginação criadora.

“Suplico-te... Vês que para mim acabou-se tudo... Não poderei suportar tudo isso
mais tempo.” (p.63)
ENREDO
O jovem Werther, por motivos de trabalho, está longe de sua família e amigos, mas
comunica-se com Wilhelm (Guilherme, amigo) através de cartas nas quais narra sua
história de paixão e tragédia com a jovem Charlotte (Carlota).

Desde o início ele soube que sua amada estava prometida a um noivo: Albert (Alberto),
homem qual Werther adquiriu grande admiração e amizade desde sua apresentação.

Mas o tempo é um martírio para as almas envoltas pela paixão. Com o convívio diário,
Werther apaixonava-se cada vez mais. Passeios no campo, longas conversas, poemas,
todos os momentos que contribuíram para fazer com que esquecesse do mundo todo e só
visse importância em Charlotte (Carlota).
Werther, culpando-se do amor que sente pela jovem Charlotte, muda-se para outra região, mas
não consegue esquecer a amada, por vezes, tentou afastar esse pensamento, sabia que nunca
poderia tê-la para si. Mas a certeza cega de que ela também o amava fez com que retornasse
para, mortalmente, ser atingido pela paixão.
Charlotte casa-se com Alberto, que passa a ter ciúmes de Werther, este percebendo o embaraço
que causa ao casal, continua nutrindo um amor platônico por Charlotte. Werther promete não
mais visitá-la e no último encontro com a moça, lê em voz alta, os Cantos de Ossain.
Ambos se comovem, choram, se abraçam e se beijam. O mais sublime e apaixonado beijo da
história da literatura, mas em seguida Charlotte repele-o, dizendo que nunca mais quer vê-lo.
Charlotte (Carlota) sabia que amava Werther, mas também sabia que este amor era impossível.
Assim, ela pediu para nunca mais vê-lo e ele assentiu.
Werther parte acreditando que é amado mas ciente de que é um amor impossível. Resolve então
suicidar-se, mandando pedir as pistolas de Alberto, alegando que ia viajar e precisava de
proteção. Charlotte com o coração despedaçado, envia-lhe as armas. Werther dispara um tiro em
sua própria cabeça e morre. No dia seguinte, Werther foi encontrado morto em seu quarto. Todas
as suas cartas a Charlotte (Carlota) estão transcritas no livro. Sua morte é a prova da intensidade
do amor romântico e doentio. A história de Werther retrata a paixão exacerbada e infeliz que
culmina com o suicídio, o escapismo do romântico.
TEMPO & ESPAÇO
• Espaço:
Não é possível determinar se o espaço utilizado nesta obra é realístico
ou ficcional.
• A cidade de Walheim – A natureza é descrita com paixão; a pintura,
era totalmente bucólica, o campo onde se via uma grande extensão de
um manto verde; as árvores centenárias, a simplicidade da vida
camponesa, o luar, o sol ao entardecer.
• Na primeira carta, Werther (p. 8) escreve:
“De resto estou me sentindo muito bem por aqui. A solidão destas campinas
paradisíacas é um bálsamo delicioso para o meu peito, e essa época de juventude
aquenta com toda plenitude meu coração tantas vezes tiritante. Cada árvore, cada
moita é um ramo de flores, e a gente faria gosto em se transformar num besouro
para esvoaçar nesse mar de perfumes e poder sugar todos os seus alimentos. A
cidade em si é desagradável, mas nos arrabaldes a natureza é de uma beleza
indizível. Foi o que levou o falecido Conde de M... a plantar um jardim sobre uma
daquelas colinas, que se sucedem umas às outras com tanta variedade, formando
vales plenos de delícia.”
Segundo Aguiar e Silva o tempo pode ser dividido em:

TEMPO DA DIEGESE: tempo da história narrada, tempo do significado narrativo

TEMPO OBJETIVO: “delimitado e caracterizado por indicadores estritamente cronológicos atinentes


ao calendário do ano civil – anos, meses, dias (...). (1998, p. 746).

No romance em análise, o tempo cronológico das cartas indica a sucessão dos acontecimentos: “Aos 04
de maio de 1771” (GOETHE, p. 7); “Aos 08 de janeiro de 1772” (GOETHE, p. 7); “20 de dezembro
(GOETHE, 1988, p. 69).

TEMPO SUBJETIVO: “um tempo mais fluido e mais complexo – o tempo subjetivo, o tempo
vivencial das personagens” (1988. P. 747)
TEMPO DO DISCURSO NARRARTIVO: “ao contrário do tempo objetivo da
diegese, o tempo do discurso narrativo é de difícil medição.” (1988, p. 750)

Tempo aferido por meio da paginação?

Tempo para leitura?


Fala, ainda, em ANACRONIAS (1988, p. 751), que são os desencontros entre o
tempo da diegese e o tempo da narrativa, pois eles nunca se coincidem
perfeitamente, pois a diegese vem depois do discurso que ocorre antes.
As cartas são datadas de 4 de maio de 1771 a 20 de dezembro de 1772.

“19 de junho

Já não sei mais por onde fiquei em minha narrativa. Tudo o que sei é que eram
duas horas da madrugada quando me deitei à cama, e que se pudesse conversar
contigo ao invés de escrever, teria talvez te mantido acordado até de manhã.” (p.20)
A PERSONAGEM
Sobre a personagem, esclarece Aguiar e Silva (1988, p. 687)
(...) elemento estrutural indispensável da narrativa romanesca. (...) a função e o significado das ações ocorrentes numa
sintagmática narrativa dependem primordialmente da atribuição ou da referência dessas ações a uma personagem ou a
um agente. (GRIFOS NOSSOS)
 
Ao estudar “A personagem” (p. 687-695) o citado autor o faz pelos seguintes tópicos:
“O narrador” (p. 695-697);
“O narratário” (p. 698-699);
“A personagem como protogonista ou herói” (p. 699-703);
“O retrato da personagem” (p. 703-709)
“Personagens ‘planas’ e ‘redondas’ (p. 709-711)
•  
 
NARRADOR E NARRATÁRIO
 
Sobre o narrador, versa Aguiar e Silva (1988, p. 695):
 
Dentre as personagens possíveis de um romance, há uma que se particulariza pelo seu estatuto e pelas
suas funções no processo narrativo e na estruturação do texto – o narrador. (AGUIAR E SILVA,
 

E complementa: “(...) todo texto narrativo exige uma voz narradora, seja qual for a sua caracterização.”
(AGUIAR E SILVA, 1988, p. 698)
Sobre o narratário, versa:
O narratário apresenta-se como uma personagem, com caracterização psicológica,
social etc., (...) que pode desempenhar apenas a função especifica de narratário ou
acumular esta função com a de interveniente mais ou menos importante na intriga
do romance. (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 699)

“(...) o narratário não existe necessariamente em todos os textos narrativos, ao


contrário do que afirma Prince.” (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 698)
CONCLUSÃO:

“não existe simetria ontológica e funcional entre o narrador (...) e o


narratário.” (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 698)
NARRADOR E NARRATÁRIO EM “OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER”

No romance ocorre algo interessante, pois é dividido em dois momentos, como se fosse uma
história dentro da outra:

1º MOMENTO: O jovem Werther envia cartas a um amigo (Wilhelm ou Guilherme), pelas


quais se desenvolve a história de sua paixão por Carlota até culminar no suicídio.

2º MOMENTO: Há um editor que recolhe as cartas do jovem Werther, as reúne, ordena, edita e
publica.

Nesse caso, procuramos encontrar o narrador e o narratário em cada um desses momentos...


NARRADOR NO 1º MOMENTO: Werther (fictício), pois narra as ações dos personagens através de cartas
ao amigo Guilherme.

NARRATÁRIO NO 1º MOMENTO: Wilhelm ou Guilherme (fictício), o amigo de Werther. Se não,


vejamos nos seguintes trechos:

“Aos 04 de maio de 1771. Como estou contente de ter partido! Ah, meu amigo, o que é o coração humano!”
(GOETHE, p. 8)

Aqui aparece o nome do amigo:

22 de maio. (...) quando constato que a tranqüilidade a respeito de certas questões não passa de uma
resignação sonhadora, como se a gente tivesse pintado as paredes entre as quais jazemos presos com
feições coloridas e perspectivas risonhas – tudo isso, Guilherme, me deixa mudo. (GOETHE, p. 11)
Alargando esse horizonte do narratário, temos a profa. Dra. Marisa Martins Gama-Khalil
(2016, p. 81):
O narratário de Werther na primeira carta é apresentado como “Meu caro
amigo”: a amizade é o nó que enreda a leitura. (...) No decorrer das cartas,
entretanto, veremos que não só Wilhelm é destacado como voz receptora, já
que são eleitos outros amigos receptores, como na passagem: Ó meus amigos,
por que é que tão raras vezes se vê a torrente do gênio altear-se em grandes
ondas, avançar rugindo e perturbar as almas maravilhadas? (GOETHE, 1971,
p. 22) Vemos, no trecho, a ampliação do horizonte de recepção. O receptor
imediato das cartas é Wilhelm, mas o autor das mesmas sabe que, falando a
Wilhelm, fala para os homens do seu tempo, homens com as mesmas angústias
e sensações que as dele.
• 
 

NARRADOR NO 2º MOMENTO: editor fictício (onisciente, onipresente) que reúne as cartas e a


edita.
Ordenando a materialidade das cartas de Werther, há a voz do editor fictício em dois
momentos: no princípio, para anunciar o conteúdo dos livros; e, no final, para alinhavar,
depois da morte de Werther, a história dessa personagem. (GAMA-KHALIL, 2016, p. 81)

NARRATÁRIO NO 2º MOMENTO: o “homem bom”, ou a “boa alma”.

Corroborando esse pensamento, a profa. Dra. Gama-Khalil (2016, p. 81), o “narratário eleito
pelo editor é o homem bom”.

Senão, vejamos um trecho da obra: “E tu, boa alma” (GOETHE, p. 7).


 

NARRADOR, AUTOR TEXTUAL e AUTOR EMPÍRICO

Ensina Aguiar e Silva (1988, p. 695)


O narrador (...) não se identifica necessariamente com o autor textual e muito menos com o autor
empírico – identificação esta típica de um biografismo ingênuo ou preconcebido (...).
 
Assim, em Goethe temos:

AUTOR EMPÍRICO: Johann Wolfgang von Goeth – existência jurídica/ser biológico/ser social.

AUTOR TEXTUAL: Johann Wolfgang von Goeth – existência literária para dizer o
texto/criado pelo autor empírico/cria o(s) narrador(es).
 

A PERSONAGEM COMO PROTAGONISTA OU HEROI


 

Segundo Aguiar e Silva (1988, p. 699) as “personagens de um romance compreendem uma


personagem principal – o herói ou protagonista – e personagens secundárias, de importância funcional
muito variável.”
Vejamos a seguinte definição (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 699):
 
“O protagonista representa, na estrutura dos actantes ou agentes que participam da ação narrativa, o
núcleo ou o ponto cardeal por onde passam os vectores que configuram funcionalmente as outras
personagens, pois é em relação a ele, aos valores que ele consubstancia, aos eventos que ele provoca ou
que ele suporta, que se definem o deuteragonista, a personagem secundária mais relevante, o
antagonista, a personagem que se opõe à personagem principal – e que, em muitos textos, coincide com
o deuteragonista -, e os comparsas, as personagens acessórias ou episódicas.” (GRIFOS NOSSOS)
 

COMO SE CONSTRÓI O HEROI?

Segundo o mesmo autor, o “conceito de herói está estreitamente ligado aos


códigos culturais, éticos e ideológicos, dominantes numa determinada época
histórica e numa determinada sociedade.” (1988, p. 700)

A partir daí traz a noção de ANTI-HERÓI (1988, p. 700):


“o herói, em vez de se conformar com os paradigmas aceites e exaltados pela
maioria da comunidade, aparece como um indivíduo em ruptura e conflito com tais
paradigmas, valorizando o que a norma social rejeita e reprime (homossexualidade,
adultério, sadismo etc.). Nessas condições o herói assume o estatuto de um anti-
herói”
 

A depender das classes dos romances, o protagonista pode ser:

- Uma pessoa: Madame Bovary, Flaubert (1988, p. 7001);

- Uma família/grupo social: As vinhas da ira, John


Steinbeck (1988, p. 702);

- Uma cidade: Nossa Senhora de Paris, Victor Hugo (1988, p.


702);

- Um elemento físico/realidade sociológica: O Cortiço, Aloísio


de Azevedo (1988, p. 703)
 

A partir da definição de Aguiar e Silva, na obra literária em análise, temos:

PROTAGONISTA: Werther (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 700)

DEUTERAGONISTA: Carlota (Charlotte ou Lotte)

ANTAGONISTA: embora sejamos levados a crer que Alberto seja o


antagonista da história, ele não é visto como vilão por Werther, que nutre
respeito por ele. Porém, ao emprestar friamente a arma de fogo para Werther,
com a qual este se mataria, na nossa visão fica clara a oposição de Alberto e
Werther e poderíamos, a partir do narrador-editor considerá-lo antagonista.
 

O RETRATO DA PERSNONAGEM
 

Para Aguiar e Silva (1988, p. 703) este: “retrato mais ou menos minucioso, mais ou menos
sobrecarregado de dados semânticos, pode dizer respeito à fisionomia, ao vestuário, ao
temperamento, ao caráter, ao modo de vida etc. da personagem em causa.”

Segundo o mesmo autor (1988, p. 706):


O estatuto da personagem solidamente travejada, bem definida pelos seus predicados e
pelas suas circunstâncias – elementos caracterológicos, traços fisionómicos, meio
social, ocupação profissional, etc. -, entrou em crise ainda na segunda metade do século
XIX,, com os romances de Dostoiewskij. Após a sua leitura, impõem-se obstinadamente
as teorias, as disputas ideológicas, as dúvidas, as raivas, os desesperos das suas
personagens, mas dificilmente se rememoram os seus rostos, a cor dos seus olhos, a
decoração de suas casas, etc. (GRIFOS NOSSOS)
 

PERSONAGENS PLANAS E REDONDAS


 

PERSONAGENS DESENHADAS OU PLANAS: “são definidas linearmente


apenas por um traço, por um elemento característico básico que as acompanha
durante todo o texto.” Além do mais, “(...) não altera o seu comportamento no
decurso do romance e, por isso, nenhum acto ou nenhuma reação da sua parte
podem surpreender o leitor”. (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 709)

Ex.: pai de Carlota


 

PERSONAGENS MODELADAS OU REDONDAS: “oferecem uma


complexidade muito acentuada e o romancista tem de lhes consagrar uma
atenção vigilante, esforçando-se por caracterizá-las sob diversos
aspectos.” (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 710)

Ex.: Werther
 

Werther - Personagem principal, inspirado em Goethe; personagem redondo

Editor - Criado por Goethe, chama-se Wilhelm (Guilherme), e é supostamente


o amigo a quem Werther endereçou as cartas e quem as organizou; personagem
plano.

Charlotte (Carlota) - Amada de Werther, noiva de Albert; personagem redondo

Albert (Alberto) - Noivo de Charlotte, foi normalmente contrário aos

pensamentos de Werther. Personagem redondo.


DIEGESE E DISCURSO NARRATIVO

Aguiar e Silva (1988, p. 717) assim aborda o assunto:


Ora, a diegese de um texto narrativo literário não possui existência
independente em relação ao texto (...). A diegese (...) só adquire
existência através do discurso de um narrador e por isso essa existência é
indissociável das estruturas textuais, das microestruturas estilísticas como
das macroestruturas técnicocompositivas.

NARRADOR → DIEGESE → DISCURSO NARRATIVO (TEXTO)


Nesse ponto, o autor fala também em transcodificação inter-semiótica:
A diegese de um determinado romance nunca será
rigorosamente igual à diegese de um filme extraído desse
romance, por grande que seja a fidelidade do realizador à
história narrada no texto do romance, tal como a diegese de um
romance (...) haveria de se alterar se fosse possível reescrevê-lo
segundo uma técnica narrativa diferente”. (AGUIAR E SILVA,
1988, p. 717)
SINTAXE DA DIEGESE
DIEGESE DE UM ROMANCE:

Abrange personagens/eventos/objectos/contexto temporal/espacial, portanto, não é só


sucessão de ações (elemento nuclear da diegese), mas também “atmosfera”
(retratos/descrição de estados/objetos/meios geográficos e sociais/construção de uma
determinada atmosfera etc). (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 719)

Ex.: o comportamento romântico de Werther que não se adéqua à sociedade capitalista da


época.
ROMANCE FECHADO

Sobre o romance fechado, Aguiar e Silva versa:


O romance fechado caracteriza-se por possuir uma diegese claramente demarcada, com princípio,
meio e fim. O narrador apresenta metodicamente as personagens, descreve os meios em que elas
vivem e agem, conta ordenadamente uma história desde o seu início até ao seu epílogo.

É o caso de “Os sofrimentos do jovem Werther”:

INÍCIO: Werther, em viagem de negócios, se apaixona por Carlota;

MEIO: o amor é impossível porque Carlota está noiva, então Werther fica melancólico;

FIM: Werther se mata e Carlota continua com Alberto.


A DESCRIÇÃO

Segundo Aguiar e Silva (1988, p. 740):


a descrição é um elemento textual privilegiado de que o narrador dispõe para
produzir o ‘efeito real’ a que se refere Barthes e por isso mesmo os indícios e
sobretudo as informações da diegese se encontram com tanta frequência e com
tanta relevância nas descrições.
 

Adiante complementa: “o espaço, numa mescla inextricável de parâmetros físicos,


psíquicos e ideológicos, pode ser representado como locus amoemos ou como locus
horrendus (...). (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 740)
Vejamos a seguinte descrição constante no trecho da obra em análise:

A cidade em si é desagradável, mas nos arrabaldes a natureza é de uma


beleza indizível. Foi o que levou o falecido Conde de M... a plantar um
jardim sobre uma daquelas colinas, que se sucedem umas às outras com
tanta variedade, formando vales plenos de delícia. O jardim é simples, e
logo à entrada a gente sente que o seu esboço não foi elaborado por um
jardineiro que domina a ciência, mas por um coração sensível, que ali
queria deleitar-se e gozar-se a si mesmo. Alguma lágrima já consagrei a sua
memória, num pavilhão arruinado que foi o seu lugarejo favorito e hoje é
também o meu. Em breve serei o senhor do jardim; o jardineiro já simpatiza
comigo tão-só pela convivência destes poucos dias e não achará mal se eu
ficar por ali em definitivo. (GOETHE, p. 8-9)
A VOZ

Segundo Aguiar e Silva (1988, p. 759):


A voz do narrador tem como funções primárias e inderrogáveis
uma função de representação, isto é, a função de produzir
intratextualmente o universo diegético – personagens, eventos, etc.
–, e uma função de organização e controlo das estruturas do texto
narrativo, quer a nível tópico (microestruturas), quer a nível
transtópico (macroestruturas).
A FOCALIZAÇÃO/PONTO DE VISTA OU
FOCO NARRATIVO

“Relações que o narrador mantém com o universo diegético e também com o leitor” (AGUIAR
E SILVA, 1988, p. 765).

Mas o autor cita um PROBLEMA: “má-consciência”:


romancistas (...) se sentem na necessidade de explicar mistificadoramente aos seus leitores o
modo como tiveram conhecimento da narrativa que vão apresetar, atribuindo a sua autoria
efectiva a outrem e reservando para si tão só o papel de editor ou mero transmissor. O romance
epistolar (...) constitui o exemplo típico (...). (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 765-766).

É o caso de Werther, de Goethe.


EXPLICAÇÃO: “o romancista procura autentificar, com a chancela da veracidade,
a sua narrativa, mas, ao mesmo tempo, endossa ilusoriamente a outrem a
responsabilidade da focalização”. (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 766).

Argumenta: “é muito diferente a história de um homem contada por ele próprio


(...), e a história de um homem contada por um narrador demiúrgico que utiliza a
terceira pessoa para se referir ao herói.
Efeito Werther
O romance provocou uma verdadeira comoção entre os jovens da época, muitos leitores afirmam
que durante e após a leitura, eram acometidos por uma profunda tristeza e melancolia, e
resolveram seguir o mesmo rumo pondo fim em suas próprias vidas, cujo período ficou conhecido
como: a maldição goethiana.

Foi grande o número de suicídios relacionado à leitura do romance de Goethe, tornando-se


rapidamente uma obra maldita para a igreja. Tanto que na psicanálise criou-se um termo chamado
Efeito Werther, em referência ao personagem e caracterizado por sua fenomenologia suicida.
REFERÊNCIAS
 AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina, 1988. p. 671-677.
GAMA-KHALIL, Marisa. Espaços da recepção, da angústia e do medo em Werther e o homem da areia. Nonada: Letras em Revista, n. 27, vol.
2. Setembro de 2016. pp. 79-94.
GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. Trad. Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM POCKET e-books.
Afinal, quem é Goethe?. Disponível em: https://goethebrasilia.org.br/blog/afinal-quem-e-goethe/ Acesso em: Outubro/2019
Civilização Alemã - História da Alemanha. Por Rainer Gonçalves Sousa. Disponível:
https://www.historiadomundo.com.br/germanica/civilizacao-germanica.htm Acesso em: Outubro/2019
Maldição goethiana. Disponível em: < https://homoliteratus.com/maldicao-goethiana-jovem-werther-suicidio-na-literatura/> Acesso em:
Outubro/2019