Você está na página 1de 34

Os Lusíadas

Canto I
Epopeia

• Forma literária da Antiguidade Clássica que possui


forma extensa e exalta feitos grandiosos ou fatos
históricos.
• Tem sua origem em Homero/ Ilíada e Odisseia, e
Virgílio/ Eneida.
Externa

Estrutura Proposição

Invocação
Interna
Dedicatória

Protagonista Narração

Narrativa
Unidade

Verdade
Ação

Variedade

Integridade
Intervenção
do
sobrenatural

Inserção das
considerações
do poeta
Estrutura externa
• Dez cantos, 1102 estrofes, 8816 versos.
• Estrofes compostas por oito versos.
• Versos heroicos com acentos nas 6ª e 10ª.
• Rimas a b a b a b c c.
• Presença de dois ciclos épicos:

* Canto I ao V: Viagem a Melinde e História de Portugal.


* Canto VI ao X: Viagem à Índia e regresso a Portugal.
Estrutura Interna
• Proposição: Canto I: 1-3

“As armas e os barões assinalados”

“E também as memórias gloriosas


Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império e as terras viciosas”
“E, aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando”

“Que eu canto o peito ilustre Lusitano”


• Plano da viagem:

“Que da ocidental praia Lusitana,


Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana”
• Plano da história:

“Que eu canto o peito ilustre Lusitano”


• Plano da mitologia:

“A quem Neptuno e Marte obedeceram:


Cesse tudo o que a Musa antígua canta ”

• Plano do poeta:
“Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte”


• Invocação: Canto I: 4-5

“E vós, Tágides minhas”

“Dai-me agora um som alto e sublimado,


Um estilo grandíloquo e corrente”

“Dai-me igual canto aos feitos da famosa


Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso”
• Dedicatória: Canto I: 6-18

Exórdio: 6-8 “Vós, poderoso Rei, cujo alto Império


O Sol, logo em nascendo, vê primeiro”

Exposição: 9-11 “Vereis amor da pátria, não movido


De prêmio vil, mas alto e quase eterno”

Confirmação: 12-14 “Vede o primeiro Afonso, cuja lança


Escura faz qualquer estranha glória”
Peroração: 15-17 “Em vós se vêm da olímpica morada
Dos dois avós as almas cá famosas,
Uma na paz angélica dourada,
Outra pelas batalhas sanguinosas”

Epílogo: 18 “Dai vós favor ao novo atrevimento,


Para que estes meus versos vossos sejam”

• Narração: Canto I, estrofe 19 – canto X


Protagonista

“Não é a narrativa das façanhas de um certo homem


– de determinado herói – como nos demais poemas
épicos: é sim a dos feitos de uma nação. O herói aqui
é coletivo”. (SÉRGIO, António, 1981)
Ação
• Unidade: Os fatos permanecem ligados ao longo da narrativa.
• Variedade: Possui episódios de diversos tipos.

• Mitológicos: Concílio dos deuses – canto I


• Históricos: Batalha de Ourique – canto III
• Líricos: Ilha dos amores – canto IX
• Verdade: Grande parte é real.

• Integridade: é dividida em três momentos determinantes.

* Canto I: 1-18
* Canto I: 19-106 ao X: 144
* Canto X: 145-146
Narrativa
• In media res + analepse

“Já no largo Oceano navegavam,


As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas”
Plano Mitológico, dos Deuses
ou Maravilhoso (conflito entre os deuses pagãos)
• Camões imaginou um conflito entre os deuses pagãos: Baco
opõe-se à chegada dos Portugueses à Índia, pois receia que o
seu prestígio seja colocado em segundo plano pela glória dos
Portugueses, enquanto Vênus, apoiada por Marte, os protege.
• O maravilhoso tem uma função simbólica: esta intriga dos
deuses reflete indiretamente as dificuldades que os
Portugueses tiveram que vencer e inculca a ideia de que os
portugueses eram seres predestinados para estas façanhas do
destino e que os próprios deuses o desejavam.
• A mitologia permite a evolução da acção (os deuses assumem-
se como adjuvantes ou como oponentes dos portugueses) e
constitui, por isso, a intriga da obra.
Concílio dos deuses
• Júpiter
• Deus do Céu e da Terra, pai dos deuses e dos homens.
• Neptuno
• Deus do mar.
• Vênus
• Deusa do amor e da beleza.
• Baco
• Deus do vinho e do Oriente.
• Apolo
• Deus do Sol, das artes e das letras.
• Marte
• Deus da Guerra, velho apaixonado de Vênus.
• Mercúrio
• Mensageiro dos deuses.
• Original de Camões:

“Concílio dos Deuses no Olimpo


Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concílio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu formoso,
Vêm pela Via-Láctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
No license: PDF produce
Pelo neto gentil do velho Atlante”

• Adaptação de Rubem Braga:


“Enquanto os argonautas portugueses prosseguiam na aventura, os deuses
iam pelo formoso e cristalino céu da Via Láctea a caminho do Olimpo, de
onde a gente humana é governada. Eles haviam sido convocados, através
de Mercúrio, para um concílio sobre o futuro do Oriente”
• Original Camões:

23 – (...) Quando Júpiter alto, assim dizendo,


C’um tom de voz começa, grave e horrendo:

24 - (Fala de Júpiter)
“Eternos moradores do luzente
Estelífero pólo, e claro assento,
Se do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente,
Como é dos fados grandes certo intento,
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos”

• Adaptação de Rubem Braga:

“E Júpiter, majestoso, começou a falar em um tom de voz que infundia respeito e temor:
- Eternos moradores do céu estrelado, o Destino determinou que a forte gente de Luso
– o bravo companheiro de Baco – realizará proezas que farão cair no esquecimento os
assírios, persas, gregos e romanos”
• Original Camões:

27 – “(...) Que havendo tanto já que as partes vendo


Onde o dia é comprido e onde breve,
Inclinam seu propósito e porfia
A ver os berços onde nasce o dia”.

28 “Prometido lhe está do Fado eterno,


Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
Nas águas têm passado o duro inverno;
A gente vem perdida e trabalhada;
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra, que deseja.”

• Adaptação de Rubem Braga:

“Depois de conhecerem terras e mares dos hemisférios Norte e Sul, eles se lançam em
direção ao berço onde nasce o dia. Pois lhes está prometido pelo Destino o governo do
mar que presentia a chegada do sol. É bem justo, portanto, que lhes seja logo mostrada
a terra desejada”
• Original Camões:

30 – Oposição de Baco
Estas palavras Júpiter dizia,
Quando os Deuses por ordem respondendo,
Na sentença um do outro diferia,
Razões diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali não consentia
No que Júpiter disse, conhecendo
Que esquecerão seus feitos no Oriente,
Se lá passar a Lusitana gente...

• Adaptação de Rubem Braga:

“Após essas palavras de Júpiter, os deuses, respondendo por ordem de


hierarquia, divergiam entre si. Baco não concordava com o que Júpiter
dissera, sabendo que seus feitos no Oriente seriam esquecidos caso a
gente lusitana chegasse até lá”
• Original Camões:

33 - (Vénus, Favorável aos Portugueses)


Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga tão amada sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela,
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.

• Adaptação de Rubem Braga:

“A opinião de Baco era constestada pela bela Vênus, muito afeiçoada


à gente lusitana por ver nela qualidades tão semelhantes às da
gente romana, que tanto amava”
• Original Camões:

36 - Marte
Mas Marte, que da Deusa sustentava Como há já tanto tempo que ordenaste,
Entre todos as partes em porfia, Não onças mais, pois és juiz direito,
Ou porque o amor antigo o obrigava, Razões de quem parece que é suspeito.
Ou porque a gente forte o merecia,
(...)
38 - Fala de Marte
E disse assim: “Ó Padre, a cujo império
Tudo aquilo obedece, que criaste,
Se esta gente, que busca outro hemisfério,
Cuja valia, e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério,

• Adaptação de Rubem Braga:

“Foi então que Marte se levantou para defender a causa de Vênus – talvez obrigado pelo seu
antigo amor pela deusa. (...)
- O senho, meu Pai, já ordenou que esta gente que agora busca o Oriente não sofra mais
privações. Se quer que a determinações do Destino seja cumprida, não ouça mais as
razões de quem parece suspeito”
• Original Camões:

41 - (Decide Júpiter a favor dos Portugueses)


Como isto disse, o Padre poderoso,
A cabeça inclinando, consentiu
No que disse Mavorte valeroso,
E néctar sobre todos esparziu.
Pelo caminho Lácteo glorioso
Logo cada um dos Deuses se partiu,
Fazendo seus reais acatamentos,
Para os determinados aposentos.

• Adaptação de Rubem Braga:

“O pai poderoso, satisfeito, concordou com as palavras do valoroso Marte


e espargiu néctar sobre todos os deuses, abençoando-os. Em seguida
cada um lhe fez uma reverência e partiu pelo luminoso caminho lácteo
em direção à sua morada”
Intervenção do sobrenatural

• Negativa: Baco

“Ódio de Baco aos Portugueses


Do claro assento etóreo o grão Tebano,
Que da paternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento Lusitano ”
• Positiva: Júpter, Vênus e Marte

“Para lá se inclinava a leda frota;


Mas a Deusa em Citere celebrada,
Vendo como deixava a certa rota
Por ir buscar a morte não cuidada,
Não consente que em terra tão remota
Se perca a gente dela tanto amada.
E com ventos contrários a desvia
Donde o piloto falso a leva e guia”
Narrativa
42
Enquanto isto se passa na fermosa
Casa etérea do Olimpo omnipotente
Cortava o mar a gente belicosa
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em pexes converteu.
47
De panos de algodão vinham vestidos,
De várias cores, brancos e listrados;
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraçadados;
Das cintas pêra cima vêm despidos;
Por armas têm adagas e tarçados
Com toucas na cabeça; e, navegando,
Anafis sonorosos
69
Porém disto que o Mouro aqui notou,
E de tudo o que viu com olho atento,
Um ódio certo na alma lhe ficou
Ua vontade má de pensamento
Nas mostras e no gesto o não mostrou,
Mas, com risonho e ledo fingimento,
Tratá-los brandamente determina,
Até que mostra possa imagina.
74
(Solilóquio de Baco)
“Está do fado já determinado,
Que tamanhas vitórias, tão famosas,
Hajam os Portugueses alcançado
Das Indianas gentes belicosas.
E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei de sofrer que o fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça?
77
Isto dizendo, irado e quase insano,
Sobre a terra africana descendeu,
Onde vestindo a forma e gesto humano,
Para o Prasso sabido se moveu.
E por melhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
Dum Mouro, em Moçambique conhecido
Velho, sábio, e co’o Xeque mui valido
94 - (Paz Simulada e Falso Piloto)
Pazes cometer manda arrependido
O Regedor daquela iníqua terra,
Sem ser dos Lusitanos entendido,
Que em figura de paz lhe manda guerra;
Porque o piloto falso prometido,
Que toda a má tenção no peito encerra,
Para os guiar à morte lhe mandava,
Como em sinal das pazes que tratava.
98
E diz-lhe mais, com o falso pensamento
Com que Sinon os Frígios enganou:
Que perto está uma ilha, cujo assento
Povo antigo cristão sempre habitou.
O Capitão, que a tudo estava a tento,
Tanto com estas novas se alegrou,
Que com dádivas grandes lhe rogava,
Que o leve à terra onde esta gente estava.
106
No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Inserção das considerações do poeta
“O recado que trazem é de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!”
Referências

• CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 1881.


• MILITIZ, Lígia. A poética de Aristóteles – 2ª ed. São
Paulo: Ática, 2006.
• SÉRGIO, António. Luís de Camões: Os Lusíadas.
Clássicos dos estudantes. Lisboa: Editora Sá da
Costa, 1981.