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A Psicanálise Clássica

e a Psicanálise Relacional

António Pazo Pires

ISPA-IU, Lisboa, 2018.04.22


Sumário
• O aparecimento da psicanálise
• O setting
• Transferência
• Psicologia de uma pessoa vs duas pessoas
• Inconsciente
• Resistências
• Personalidade
• O insight
• Enactment
• Quatro formas de focar a relação
• Implicações clínicas
Pequena história do
aparecimento da Psicanálise
Sumário
• Do cérebro para a mente
• Da hipnose à Psicanálise
• O modelo topográfico
• A associação livre
• A transferência e resistência
• Os sonhos 1889/1990
• A teoria da sedução infantil
• A teoria das pulsões sexuais
• Complexo de édipo e conflito
• Teoria dual das pulsões (em 1920 acrescenta a agressividade)
• Da topografia à estrutura (1923)

• Ter em conta a relação entre: observações; teoria; a história pessoal do investigador; e o contexto social e
cultural da época
Do cérebro à mente
O neurologista
• Entre 1882 e 1885 Freud não sabia nada de neuroses.
“sobre neuroses eu nada compreendia. Um certa
ocasião, apresentei ao meu auditório um neurótico
que sofria de dor de cabeça persistente como um caso
de meningite crónica localizada; todos se levantaram
imediatamente, revoltados, e me abandonaram…”
(Freud, 1925, p.19).

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Início da actividade clínica
A hipnose
• Em 1885 empreende a viagem a Paris onde assiste inicialmente
com assombro e cepticismo às demonstrações de Charcot.
• Precisando de ganhar a vida Freud dedica-se à clínica.
“Qualquer um que deseje ganhar para subsistência com o
tratamento de pacientes nervosos deve ser claramente capaz de
fazer algo para ajudá-los. Meu arsenal terapêutico continha
apenas duas armas, a electroterapia e o hipnotismo; receitar
uma visita a um estabelecimento hidropático após uma única
consulta era uma fonte insuficiente de renda.” (Freud, 1925,
23)

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Princípio da constância e teoria do afeto
• A concetualização psicanalítica de Freud pode ser dividida em 3 fases. A
primeira entre 1880 e 1905 pode ser designada por teoria do afeto. A
segunda inicia-se com o abandono da teoria da sedução. Entre O
comportamento humano é entendido como sendo regulado pelo
princípio da constância. Os acontecimentos tronam-se patogénicos
quando o afeto que lhes está associado não pode ser descarregado. A
modalidade de tratamento sugerida em Estudos sobre a histeria é a de
que a recuperação de memórias recalcadas tornará possível a ab-reação.
Sem esta descarga completa de afeto reprimido que foi eliminado à data
do evento, e que, por isso passou a operar na alimentação dos sintomas
neuróticos, a doença é inevitável. As psiconeuroses eram causadas por
um conflito provocado pela incompatibidade de ideias e o consequente
insucesso na descarga do afeto (Greenberg & Mitchell, 1983, pp. 47-50)
Método catártico de Breuer, 1980-1889
• Em 1880 Breuer estava a tratar Marta Pappenheim que enquanto
tratava do seu pai doente desenvolve vários sintomas. Verificou-se
na maioria dos casos que tinha havido algum pensamento ou
impulso que ela tivera de suprimir enquanto se encontrava à
cabeceira do enfermo, e que, em lugar dele, como substituto do
mesmo, surgira depois o sintoma. Quando a paciente se recordava
de uma situação dessa espécie de forma alucinatória, sob a hipnose,
e levava até sua conclusão, com uma expressão livre de emoção, o
acto mental que ela havia originalmente suprimido, o sintoma era
eliminado e não voltava. Por esse processo Breuer conseguiu, após
longos e penosos esforços, aliviar a paciente de seus sintomas.

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Breuer e Pappenheim
• A certa altura ganhou repugnância aos líquidos
e ficou muito doente por desidratação. Breuer
colocou-a em transe hipnótico. Ela não tinha
vontade de falar no assunto. Breuer insistiu,
forçou e vencendo uma forte resistência ela
lembrou que tinha visto o cão a beber do copo
de água dela. Recorda com grande zanga que
procurando ser polida, se conteve (Mitchell &
Black 1995, p. 30)
Terapia pela fala
• Certa ocasião, [Anna O] relatou os detalhes do
primeiro aparecimento de um sintoma
específico e, para grande espanto de Breuer,
isso teve como resultado o seu completo
desaparecimento. Percebendo o valor desse
procedimento, a paciente prosseguiu com um
sintoma depois do outro denominando o
procedimento de "cura pela fala" ou "limpeza
da chaminé". (Jones, E. 1953/1989, 231)
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A hipnose
• Porque é que algumas experiências geram sentimentos
que ficam dissociados ou clivados do resto da mente ?
As ideias eram perturbadoras e incompatíveis com o
resto da consciência e por isso mantidas à parte, fora da
consciência. As histéricas escondiam segredos dos
outros e de si próprias.
• A explicação de Freud é que estas ideias eram
perturbadoras, inaceitáveis e estavam em conflito com
o resto da consciência e por isso mantidas à parte, fora
da consciência (Mitchell & Black, 1995 p. 32)
A sugestão e sugestão hipnótica
• “Em Paris vira o hipnotismo usado livremente como um
método para produzir sintomas em pacientes, então
removendo-os novamente. E agora chegava-nos a notícia
de que surgira uma escola em Nancy que fazia uso
extenso e marcantemente bem-sucedido da sugestão, com
ou sem hipnotismo, para fins terapêuticos. Ocorreu assim,
como algo natural, que, nos primeiros anos de minha
actividade como médico, meu principal instrumento de
trabalho, para além dos métodos psicoterapêuticos
aleatórios e não sistemáticos, tenha sido a sugestão
hipnótica” (1925, 24).

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Abandono do hipnotismo
• Uma informação de Bernheim levou Freud a usar a técnica da
pressão com a mão sem hipnotismo. “Quando o paciente
despertava do seu estado de sonambulismo, parecia haver
perdido toda a recordação do que tinha acontecido enquanto se
encontrava naquele estado. Mas Bernheim havia afirmado que a
lembrança se encontrava presente da mesma maneira; e se
insistisse com o paciente para que se recordasse, se dissesse ao
paciente que ele sabia de tudo e que tinha apenas de falar, e se ao
mesmo tempo pusesse a mão na testa do paciente, então as
lembranças esquecidas de facto voltavam, de início de forma
hesitante, mas finalmente numa torrente e com clareza completa.
Determinei que agiria da mesma forma”. (Freud, 1925, 34)

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Cont.
• De facto Berhneim diz a Freud que após a
hipnose os pacientes não tinham
propriamente esquecido, poderiam recuperar
a informação com alguma ajuda. Freud é
levado a pensar que se eram capazes de
recordar se fossem ajudados a isso então
também de alguma forma tinham a
informação e poderiam recordá-la sem serem
hipnotizados.
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Cont.
• “Meus pacientes, reflecti, devem de facto 'saber' todas as
coisas que até então só tinham sido tornadas acessíveis a eles
na hipnose; e garantias e encorajamento da minha parte
auxiliados talvez pelo toque da minha mão, teriam, pensei, o
poder de forçar os factos e ligações esquecidos na consciência.
Sem dúvida, isto parecia um processo mais laborioso do que
levar os pacientes à hipnose, mas poderia resultar como sendo
altamente instrutivo. Assim, abandonei o hipnotismo,
conservando apenas meu hábito de exigir do paciente que
ficasse deitado num sofá enquanto eu ficava sentado ao lado
dele, vendo-o, mas sem que eu fosse visto.” (34)

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O abandono da hipnose (Cont.)
• Mais tarde (1905) Freud dirá “Se abandonei tão cedo a
técnica da sugestão, e com ela a hipnose, foi porque não
tinha esperança de tornar a sugestão tão forte e sólida
quanto seria necessário para obter a cura permanente. Em
todos os casos graves, vi a sugestão introduzida voltar a
desmoronar, e então reaparecia a doença ou um substituto
dela. Além disso, censuro essa técnica por ocultar de nós
o entendimento do jogo de forças psíquico; ela não nos
permite por exemplo, identificar a resistência com que os
doentes se agarram à doença, chegando a lutar contra a
sua própria recuperação” (Freud, 1905, 247)

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O modelo topográfico
• Haveria um consciente, aquilo que está de
momento na consciência; um Pré-consciente,
as ideias e sentimentos aceitáveis e que se
podem tronar conscientes; e o inconsciente,
ideias não aceites.
Técnica da concentração
• Pedia-se à paciente, deitada e de olhos fechados, para
que concentrasse a sua atenção num sintoma
específico e tentasse recordar quaisquer lembranças
que pudessem esclarecer a sua origem. Quando não
ocorria nenhum progresso, Freud pressionava com a
mão a testa da paciente e assegurava-lhe que alguns
pensamentos ou lembranças sem dúvida lhe
ocorreriam. Algumas vezes, a despeito desse gesto,
nada parecia acontecer, mesmo quando se repetia a
pressão da mão. (Jones, 249)

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Prescrição da regra fundamental
• ….A seguir, talvez na quarta tentativa, a paciente dizia o
que lhe tinha vindo à mente, mas com o comentário: "Eu
poderia ter-lhe dito isso da primeira vez, mas não pensei
que isso fosse o que o senhor queria." Essas experiências
confirmavam sua confiança no processo, que de facto lhe
parecia infalível. Também fizera com que ele estabelecesse
para a paciente a prescrição de ignorar qualquer censura e
exprimir qualquer pensamento, mesmo que ela o
considerasse irrelevante, pouco importante ou muito
desagradável. Este foi o primeiro passo em direcção ao
posterior método da associação livre (Jones, 249).

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Em direcção à associação livre (1900)

• Freud ainda insistia, pressionava e indagava,


trabalho que lhe parecia árduo mas necessário.
“…em uma ocasião histórica, a paciente, a
Srta. Elisabeth reprovou-o por interromper
com perguntas o seu fluxo de pensamento.
[Freud] Aproveitou a indicação e assim deu
um outro passo em direcção à associação livre.
(Jones, 249)

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A resistência e a transferência
• Mas a transferência instalava-se e o paciente
recusava-se a falar de sentimentos ou
pensamentos por eles serem embaraçosos por
se referirem ao terapeuta. A resistência que
impedia a lembrança de ideias incompatíveis
manifestava-se agora na transferência.
Os sonhos
• Freud tratou os sonhos que apareciam nas associações
livres como o restante material: teriam pensamentos
escondidos e ligações às experiências infantis. No sonho
as defesas estariam enfraquecidas. Se ocorressem sem
disfarce o sono seria perturbado. Na sua formação a
condensação, deslocamento e simbolismo são usados
para disfarçar o conteúdo latente. A interpretação dos
sonhos seguiria o caminho inverso ao da sua formação.

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Os sonhos
• A forma que delineou a teoria dos sonhos
tornou-se central para a compreensão de outros
fenómenos psíquico. A estrutura dos sintomas,
e atos falhados era idêntica à estrutura dos
sonhos: um compromisso entre pensamentos e
sentimentos inaceitáveis e as defesas contra
isso. O material proibido teria acesso ao
inconsciente apenas de forma dissimulada
(Mitchell & Black 1995, p. 74).
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Teoria da sedução infantil
• A causa das neuroses, não apenas da histeria,
estava relacionada com alguma forma de
abuso sexual infantil. A criança não teria
possibilidade de processar mas isso viria ao de
cima novamente no início da adolescência
produzindo sintomas.

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A teoria das pulsões sexuais,
complexo de édipo e conflito
• Haveria várias componentes pulsionais (oral, anal,
etc.) que seriam organizadas sob uma sexualidade
genital. A criança desejaria uma proximidade com
o progenitor do sexo oposto e teria rivalidade com
o progenitor do mesmo sexo. A criança renuncia à
ambição edipiana por receio da castração.

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Teoria dual das pulsões (1920)
• Até 1920 Freud via a pulsão sexual como a fonte de todos
os conflitos e psicopatologia. A agressividade, o sadismo e
o poder eram componentes da pulsão sexual. Em 1920
atribui à agressividade um estatuto igual à sexualidade. Não
seria só a sexualidade que era reprimida mas uma
destrutividade selvagem derivada da pulsão de morte.
• A repressão social não seria imposta de forma desnecessária
por uma sociedade restritiva. A repressão uma forma de
controlo social salvando o indivíduo da própria destruição.

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Da topografia à estrutura (1923)
• Em 1923 teoriza que os desejos e pulsões
estão em conflito com as defesas (elas
próprias inconscientes) e não com o
consciente.

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Bibliografia
• Greenberg, J., & Mitchell, S. A. (1983/2003).
Relações de objecto na teoria psicanalítica.
Lisboa: Climepsi
Origens da Psicanálise Relacional
Sumário

• Ferenczi
• Psicanálise interpessoal
• Teoria das relações de objecto
– Klein
– Fairbairn
– Balint
– Winnicott
• Psicologia do self
Ferenczi
Hipocrisia profissional (1933)
• Ferenczi percebeu que com o objectivo aparente de manter a
neutralidade e abstinência o analista podia estar a ser hipócrita.
• é bem possível que certos traços, externos ou internos, do
paciente nos sejam dificilmente suportáveis. Ou ainda, podemos
sentir que a sessão de analise gera uma perturbação desagradável
numa preocupação profissional mais importante, ou numa
preocupação pessoal e íntima. Também nesse caso não vejo outro
meio senão tomar consciência do nosso próprio incomodo e falar
sobre ele com o paciente, admiti-lo, não só como possibilidade
mas como facto real [honestidade, auto-revelação]. (99)

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Neutralidade
• Ter descoberto e resolvido [admitindo os erros, sendo sincero] esse
problema puramente técnico abriu-me acesso a um material escondido
ao qual até agora se dera muito pouca atenção. A situação analítica,
essa fria reserva, a hipocrisia profissional e a antipatia a respeito do
paciente que se dissimula por trás dela, e que o doente sente com
todos os seus membros, não difere essencialmente do estado de coisas
que outrora, ou seja, na infância, o fez adoecer. (100)
• renunciar à "hipocrisia profissional", considerada até agora como
inevitável, em vez de ferir o paciente, proporcionava-lhe, pelo
contrário, um extraordinário alívio…todo o nível da personalidade do
paciente parecia elevar-se (99)

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A hipocrisia profissional (1933)
• Na relação entre o médico e o paciente existia uma falta de
sinceridade, algo que não tinha sido formulado, e o fato de lhe dar
uma explicação soltava, de certo modo, a língua do paciente.
Admitir um erro valia ao analista a confiança do analisando. (100)
• Cheguei pouco a pouco à convicção de que os pacientes percebem
com muita subtileza os desejos, as tendências, os humores, as
simpatias e antipatias do analista, mesmo quando este está
inteiramente inconsciente disso. Em vez de contradizer o analista,
de acusá-lo de fracasso ou de cometer erros , os pacientes
identificam-se com ele. (98)

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Ferenczi
• Ferenczi (1873-1933) enfatizou a influência que os
traços de caráter do analista têm na indução da
transferência do paciente. A transferência surgia no
contexto da contratransferência; a resistência emergia
em resposta aos fracassos da empatia do analista. Os
sonhos e acting outs eram tentativas de comunicar.
Desta forma a tela não era assim tão branca.
• Para Ferenczi era inevitável que o terapeuta atualizasse
as expectativas transferenciais do paciente e repetisse a
traumatização que o paciente sofreu na infância.
A técnica clássica e Ferenczi
• Os proponentes do que veio a ser chamado de “técnica
clássica” durante as décadas de 50 e 60 tomaram como
seu ponto de partida a técnica de Freud de interpretar a
resistência transferencial contida nas associações livres
dos seus pacientes como a chave para resolver os seus
conflitos neuróticos e desenredar os significados
inconscientes de seus sintomas.
• Mas quase desde o início houve uma ênfase
concomitante, que recebeu um enorme ímpeto de
Ferenczi, no importante papel curativo também
desempenhado pelo relacionamento afectivo entre analista
e analisando.
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A psicanálise interpessoal
O movimento interpessoal
• As figuras chave do movimento interpessoal - Harry
Stack Sullivan, Erich Fromm, Karen Horney, Clara
Thompson e Frieda Fromm-Reichman –conheceram-se
e influenciaram-se mutuamente. Começaram com um
ponto de partida comum: a convicção de que a teoria
pulsional estava fundamentalmente errada nas suas
premissas básicas relativamente à motivação humana.
Partilhavam a convicção de que a teoria freudiana
clássica subvalorizava o contexto social e cultural o qual
deveria figurar de forma proeminente em qualquer
teoria que procurasse considerar as origens, o
desenvolvimento e a deformação da personalidade.
Sullivan e o pragmatismo
• Uma das maiores influências nas ideias de Sullivan foi o meio
intelectual que caracterizava o pensamento americano do início do
século XX dominado pelo pragmatismo. O pragmatismo dominava
as ciências sociais de Chicago e as teorias de Sullivan foram
grandemente influenciadas pela obra de George Herbert Mead,
entre outros.
• O pragmatismo era uma reação às abstrações materiais,
característica fundamental da metafísica europeia do sec XIX. Os
pragmáticos defendiam que a filosofia devia preocupar-se com a
experiência vivida, a realidade prática, a vida tal como é pressentida
e sentida. As ciências sociais imbuídas do espírito do pragmatismo
eram caraterizadas por uma orientação para a realidade prática,
social e para o que pode ser observado e medido e um afastamento
das abstrações não visíveis. Davam enorme ênfase à realidade
social da vida do doente, às circunstâncias concretas com que vive.
Perspectiva Pragmática e interaccionista

• 1) É preciso sair para o terreno …


• 2) As teorias têm de ser enraizadas na
realidade
• 3) Crença no papel activo das pessoas
• 4) Ênfase na mudança, processos e
variabilidade e complexidade da vida,
• 5) Interligação entre condições, significados e
acções.
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Interacionismo simbólico
• Escola de Chicago - George Herbert
Mead
• Interaccionismo simbólico - premissas
– 1) o significado resulta da interacção
– 2) para obter o significado é preciso interpretar
– 3) o significado atribuído determina o
comportamento

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Sullivan, o trabalho com esquizofrénicos
• Outra grande influência nas suas ideias foi a sua experiência com
esquizofrénicos, que constituíam quase em exclusivo a sua
população de doentes nos primeiros anos de carreira.
• Sullivan (1892-1949) trabalhou com pacientes esquizofrénicos em
hospitais e foi dando conta que a esquizofrenia não podia ser
uma doença neurofisiológica como Kraeplin defendia uma vez
que os esquizofrénicos eram sensíveis ao contexto interpessoal.
Notou que se comportavam de modo diferente quando estavam
com a família e quando estavam com os médicos. A unidade de
análise não podia ser o indivíduo mas o contexto. Em 1960 Laing
(1927-1989) defendia que a personalidade não reside dentro da
pessoa mas é algo que aparece nas interações.
Cont.
• Sullivan procurou demonstrar que os fenómenos
esquizofrénicos não eram produtos aleatórios da deterioração
neurológica, mas que eram portadores de sentido. A patologia
dos doentes parecia refletir uma adaptação às circunstâncias,
cuja expressão pareciam frequentemente compreensíveis e
pareciam acessíveis à intervenção terapêutica.
• A esquizofrenia não seria um processo que emerge a partir de
dentro do organismo do indivíduo mas sim uma reação a
processos e acontecimentos que ocorrem entre o indivíduo e o
seu meio, sendo este último constituído pelas pessoas
significativas com as quais o doente interage e os valores
culturais e sociais mais amplos que transmitem.
Cont.
• Tornou-se evidente para Sullivan que a dimensão saliente da
patologia esquizofrénica consistia numa perturbação grave da sua
capacidade para se relacionar com outras pessoas e que esta
perturbação era um produto, não de um processo biológico
irreversível, mas da história das interações significativas do doente
com os outros. Defendeu que os fenómenos esquizofrénicos são
difíceis de compreender quando são examinados separadamente
do contexto interpessoal dos quais derivam e tomam significado
(Greenberg & Mitchell, 1983, p. 113).
• A recuperação do doente dependeria não apenas do insight mas
da reorganização da personalidade implicando a incorporação no
Eu de experiências anteriores não integradas. A relação entre o
doente e terapeuta constituía o fator determinante no
tratamento.
Cont.
• Uma personalidade jamais pode ser isolada da
complexidade das relações interpessoais nas
quais a pessoa vive e existe (1940). A
personalidade torna-se manifesta apenas em
situações interpessoais (1938). Quem recolhe os
dados nunca é um repórter objetivo, mas sim um
observador-participante. Opõe-se à linguagem da
estrutura na teorização psicanalítica, não existem
estruturas, apenas padrões de transformação.
Cont.
• Sullivan considera que Freud subvalorizou a
importância das relações com os outros quer a um
nível interpessoal imediato quer em termos do
impacto da cultura no funcionamento individual .
• Acusa Freud de miopia cultural: confunde o seu
próprio contexto cultural com a condição humana
universal e assume, como Kraepelin, uma objetividade
enganadora e impossível, deixando de fora os aspetos
culturais e sociais da opinião-formação do pensador
(Greenberg & Mitchell, 1983, p. 116)
Psicanálise Interpessoal:
Síntese e crítica
• da Psicanálise Interpessoal a Psicanálise Relacional reteve
a enfase nas relações para além do intrapsíquico e a
importância do contexto.
• Os psicanalistas interpessoais a partir da década de 70
(ex. Levenson, Wolstein) enfatizavam a contribuição do
analista para a transferência do paciente. Mas as versões
iniciais como a de Sullivan não o faziam apesar da sua
ideia de observador participante ter influenciado as
primeiras tentativas de um constructo de duas pessoas
por C. Thompson, Erich Fromm, e Frieda From-
Reichmann.
Teoria das Relações de Objecto
Klein
Klein
• Klein, contrariamente a Freud dá maior importância à relação com os
objetos quer internos quer reais e externos como a sua concepção do
complexo de Édipo revela.
• Klein sugere que Freud não deu suficiente peso ao papel dos
sentimentos amorosos quer no desenvolvimento quer na resolução
do complexo de Édipo…a situação do Édipo perde poder não só
porque o rapaz está com medo mas também porque é guiado por
sentimentos de amor e culpa tendentes a preservar o seu pai como
figura interna e externa (1945). Deste modo, o amor do rapaz pelo
pai e o seu desejo de preservar uma boa relação com ele e, por outro
lado o seu ódio, ciúme e inveja constituem o conflito central do CE e
substituem o conflito entre a procura de gratificação pulsional e a
ansiedade de castração.
Klein
• O objecto deixa de ser apenas um veículo para satisfação das
pulsões mas torna-se um outro com o qual a criança mantêm
relações pessoais.
• Klein sugere que entre os 3 e os 6 meses, a criança desenvolve a
capacidade para interiorizar objetos totais. Portanto é a sua mãe
amada, tanto como figura externa real quanto como figura refletida
num objecto interno que a criança destrói através de fantasias
malévolas inconscientes, durante o período de frustração e
ansiedade do desmame. Isto dá origem ao medo de ter destruído o
objeto, o que é designado por ansiedade depressiva, enquanto a
ansiedade paranoide diz respeito ao receio de ser destruído pelo
objecto. (Greenberg & Mitchell, 1983, pp. 158)
Klein, o sistema motivacional
• O sistema motivacional de Klein vai mudando. Na
primeira fase da sua teorização a criança é motivada pela
procura de prazer e de conhecimento; na segunda
procura dominar a ansiedade persecutória; na terceira
fase a força condutora da personalidade é a ansiedade
sobre o destino do objecto e os esforços para o restaurar,
para o tornar outra vez total através do amor. Portanto
nas últimas formulações de Klein os outros reais
adquirem extrema importância. A criança lamenta o dano
que sente ter infligido aos seus pais e procura reparra
esse dano (Greenberg & Mitchell, 1983, pp. 159-160)
Klein
• Klein faz um movimento no sentido dos
objectos mas ao mesmo tempo, as pessoas
exteriores e reais são generalizadas e não
diferenciadas e individualizadas.
• As mães são vistas de forma geral como
figuras boas que compensam a agressividade
inata da criança.
Fairbairn
Fairbairn, teoria da motivação
• Fairbairn (1899-1964) defende a ideia da procura de objetos (para contacto e
ligação) como motivação e não apenas para satisfação de pulsões (gratificação e
redução da tensão). Não nega a importância do prazer mas coloca-o num
contexto, no qual é visto como um meio para alcançar um fim., um poste de
sinalização para o objeto, e não como um fim em si mesmo.
• Várias situações terão contribuído para a revisão que Fairbairn fez da teoria
pulsional. Trabalhou com crianças maltratadas e abusadas e mesmo quando os
pais as tratavam mal não procuravam outros objectos à procura de prazer. Por
outro lado, conta que um paciente protestou com ele dizendo “está sempre a
falar sobre este e aquele meu desejo que quero ver satisfeito, mas realmente o
que eu quero é o meu pai“ (1946).
• Fairbairn defende que o bebé humano é tão orientado para a realidade, a mãe,
como outros animais de espécie diferentes, mas que devido à falta de
comportamentos intintivos pré-programados, o seu percurso até à mãe é mais
rudimentarmente traçado (1946)
Fairbairn, teoria do desenvolvimento
• Os estádios de F. não são baseados na maturação de zonas
corporais mas na maturação de diferentes modos de
relacionamento com os outros. Uma fase de “dependência”
infantil caracterizada por fusão e indiferenciação, uma fase de
“transição” e outra de “dependência madura”. Nesta há renuncia
a vínculos compulsivos em relação a objetos (dependência
incondidcional, têm de ser aqueles), baseados na identificação
primária e fusão, em favor de relações baseadas na diferenciação
e na troca. A enfase passa de receber para dar e trocar. Da
dependência incondicional (têm de ser aqueles), para
dependência madura (podem ser substituídos. Para que essa
renuncia ocorra a criança tem de se sentir amada como pessoa de
direito próprio e de acreditar que o seu amor é bem vindo e
valorizado.
Cont.
• O conflito central de toda a fase de “transição”
e, por isso, o conflito central nuclear,
subjacente a toda a psicopatologia, situa-se
entre o ímpeto de desenvolvimento para a
dependência madura e para relações mais
ricas e a relutância regressiva para abandonar
a dependência infantil e os vínculos a objetos
indiferenciados devido ao medo de perda de
qualquer contacto.
Fairbairn, origem da psicopatologia
• A psicopatologia não provém de conflitos
relativos aos impulsos à procura de prazer, mas
é reflexo de perturbações e interferências nas
relações com os outros.
• O processo analítico não é visto como a
resolução de um conflito incosnciente mas como
um processo através do qual é restaurada a
capacidade para estabelecer e manter contacto
direto e pleno com outros seres humanos reais.
Fairbairn e as pessoas reais
• Klein dava pouca importância às pessoas reais externas.
Fairbairn atribui uma importância central às características
dos pais. Esta diferença nota-se na divergência entre Klein
e Fairbairn quanto à origem da patologia. Para Klein a raiz
do mal reside nas pulsões sobretudo a pulsão agressiva. E
a angústia mais primitiva é persecutória, a criança
experiencia a ameaça da sua própria morte como vítima
da sua agressividade projetada (fruto das suas fantasias
sádicas). Para Fairbairn a raiz da psicopatologia e do
sofrimento humano reside na privação materna e a
angústia central envolve proteger esse vínculo à mãe.
Balint
• No texto que é visto como a primeira apresentação explícita duma visão de duas pessoas
Balint (1950) argumenta que “o nosso verdadeiro campo de estudo é a situação
psicanalítica” incluindo o comportamento do analista. Os conceitos da psicanálise
clássica “resultaram do estudo de uma psicologia de um corpo… e por isso só podem dar
uma descrição aproximada do que se passa na situação analítica, que é essencialmente
uma situação de duas pessoas”. Portanto, Balint reclama uma visão relacional para o
setting psicanalítico.
• Wachtel considera que falar em psicologia de duas pessoas em vez de uma foca a atenção
no número de pessoas quando o essencial é a atenção ao contexto. A natureza humana é
fundamentalmente contextual (Wachtel, 2008, p.60), e em vez e nos referirmos à
perspetiva clássica dizendo que era uma perspetiva de uma pessoa devíamos dizer que
era acontextual. A designação de “psicologia de duas pessoas” resultou do debate ter
começado acerca do setting analítico. Infelizmente alguns analistas passaram a ter uma
visão relacional do setting analítico mas continuam a esquecer largamente o contexto
relacional das relações do paciente fora da sessão.
Winnicott
O par mãe-bebé
• Os contributos inovadores de Winnicott vão no sentido
relacional e contextual. Insiste na não existência de algo
como um bebé, mas sim no par mãe-bebé. A sua
experiência como pediatra que manteve em simultâneo
com a de psicanalista de crianças e adultos levam-no a
estabelecer o seu quadro de referência não nos processos
que ocorrem apenas dentro da criança, mas no campo
relacional. “O centro de gravidade do ser não começa no
indivíduo. Está na situação total” (1952). Insiste na
impossibilidade de se compreender a psicopatologia se se
encarar o indivíduo como algo isoladamente.
As relações de objecto
• A crítica mais abrangente de W. relativamente ao sistema
de Klein diz respeito à enfase desta nos processos
internos em detrimento das relações com os outros
reais, as relações interpessoais. Klein faz derivar as
relações de objecto de fontes constitucionais, inerentes,
tais como imagens a priori de objectos e agressividade
inata. O que Klein faz derivar do constitucional,
Winnicott faz derivar das provisões e das falhas do meio.
As relações de objecto resultam das interações entre as
necessidades de desenvolvimento da criança e os
cuidados fornecidos pela mãe.
A mãe suficientemente boa
• A preocupação maternal primária permite à mãe
antecipar e satisfazer as necessidades do bebé
dando-lhe uma ilusão de omnipotência. Winnicott
sugere que esta omnipotência se transforma na base
do desenvolvimento saudável e da solidez do Eu.
• O bebé alterna entre estados de excitação e estados
de quietude. E é tão importante que a mãe responda
adequadamente às necessidades da criança nos
períodos de excitação como disponibilizar uma
presença não intrusiva nos períodos de acalmia.
A posição depressiva
• Winnicott sugere que o bebé, na sua excitação insaciável, utiliza a mãe
sem olhar aos seus sentimentos ou mesmo à sua sobrevivência. Está
apenas ciente dos seus próprios desejos. A crise depressiva é
precipitada pela perceção de que a mãe que constitui o objeto destes
estados de excitação, é também, a mãe que dá o meio seguro. Esta
síntese e realização fazem surgir uma preocupação profunda pela mãe.
• Mas para que o bebé integre a capacidade de se preocupar a mãe tem
de sobreviver dando a possibilidade à criança de perceber que não é
inteiramente omnipotente, e tem de dar ao bebé a oportunidade de
se aproximar e de a consolar. Só se a reparação for possível é que a
culpa que a criança sente pela sua ação destrutiva é tolerada e
emerge na criança a capacidade de se preocupar.
Cont.
• Na reformulação que Winnicott faz da posição depressiva
de Klein, considera a angústia depressiva e a culpa como
muito mais diretamente relacionadas com a pessoa real
da mãe do que Klein. A criança não pode simplesmente
reparar a mãe ao nível da fantasia e através do jogo, mas
tem de lhe ser dada a oportunidade de contribuir para
consolar efetivamente a mãe. Tal coloca problemas às
crianças das mães deprimidas. Deste modo, para W. a
posição depressiva está mais assente no mundo
interpessoal da criança. (Greenberg & Mitchell, 1983, p.
245)
Crítica da TRO
• A TRO veio defender que a teoria freudiana dava pouca atenção à relação. As
relações humanas não eram procuradas por si mesmas mas eram procuradas
como forma de satisfação dos impulsos. Mas acabou por substituir as pulsões
por objectos internalizados que substituem a função anterior das pulsões mas
atribuem igualmente pouco relevo às relações [reais]. (Wachtel, 2008, p. 47).
• A TRO pode ser vista como uma variante do modelo arqueológico das pulsões.
Neste caso o que está enterrado são as relações de objecto mas são
igualmente inalteradas pela experiência. ((Wachtel, 2008, pp. 100-101).
• A TRO também não dá enfase à subjectividade do analista e procura manter a
neutralidade e anonimato em vez de atitude colaborativa. Os autores da TRO
como Winnicott com a noção de holder e de Bion com a noção de contentor,
também não dão enfase suficiente à individualidade e subjectividade do
analista que é transformado no “aparelho de pensar” do bebé, ou receptor das
projecções.
Teoria das Relações de objecto. Síntese

• da TRO, sobretudo de Fairbairn (1899-1964) a


Prelacional reteve a ideia da procura de
objetos (para contacto e ligação) como
motivação e não apenas para satisfação de
pulsões (gratificação e redução da tensão).
• de Winnicott a importância da pessoa se
sentir real, integrada, e separada dos outros;
Psicologia do Self
• da Psicologia do self retirou a enfase no desenvolvimento do
self e da atitude (empática) e responsiva do analista no
processo; e na sintonia emocional no processo analítico.
• Crítica: Mas assemelha-se à P. Clássica no sentido de que a
transferência do paciente é influenciada apenas por fatores
da estrutura (interna) da personalidade do paciente baseado
na ideia de que há um “programa” de desenvolvimento
(inato) que foi interrompido e tem de ser reconstituído e o
papel do analista é proporcionar as condições. Critica
também a noção de paragem no desenvolvimento e
consequente pouco peso atribuído à relação;
Bibliografia
• Greenberg, J., & Mitchell, S. A. (1983/2003).
Relações de objecto na teoria psicanalítica.
Lisboa: Climepsi.
• Mitchell, S. A. & Black, M. J. (1995). Freud and
beyond. A history of modern psychoanalytic
thought. New York: Basic Books.
Psicanálise Relacional
(características e diferenciação da Psicanálise Clássica)
Sumário
• O setting
• Psicologia de uma pessoa vs duas pessoas
• Modelo arqueológico vs cíclico-contextual
• Transferência
• Inconsciente
• Resistências
• Personalidade
• O insight
• Enactment
• Quatro formas de focar a relação
• Implicações clínicas
O setting
Setting Clássico
• Na psicanálise freudiana clássica o paciente
estava em associação livre e o analista em
atenção flutuante interpretava de quando em
vez, de uma posição de neutralidade, para
despertar o insight do paciente. Existe
portanto um elemento em ação (a mostrar o
seu pensamento) e um observador distante,
isento, não interferindo na ação. Não havia
interação.
Observador vs observador participante
• Na metáfora de Leo Rangel (1954) (modelo Clássico) o analista seria
um árbitro de ténis que não está no campo a jogar mas no limite do
campo. Observa e não interfere. As suas interpretações são do tipo
“olhe o que você fez. Aqui está um impulso, aqui uma defesa, aqui
uma resistência, um sintoma…” Para Mitchell (1988) (Modelo
Relacional) o analista está no campo a jogar com o paciente.
Apercebemo-nos aqui da interpretação vs interação, intrapsíquico vs
interpessoal; modelo das pulsões vs modelo relacional.
• Vários psicanalistas (Franz Alexander, 1946; Sullivan; Frieda Fromm-
Reichman, 1951) consideram que o Psicanalista, mesmo que o
quisesse, não conseguia ser apenas um observador mas seria sempre
simultaneamente um participante. Não conseguia funcionar como
uma tela em branco.
Setting Relacional
• Na Psicanálise Relacional a situação envolve dois
participantes. O analista toma consciência apenas
duma parte do que se passa com ele, com o
paciente e entre os dois. Por influência do
construtivismo a teoria da ação terapêutica tomou
novas formas. A mudança começou a ser
conceptualizada como um processo no qual os
enactments inconscientes são primeiro criados
mutuamente pelo paciente e analista e depois
explorados e negociados entre eles (Stern, 2015,
p.40).
A crítica da tela branca
• No modelo Clássico o analista era visto como um observador
isento da mente do paciente, não envolvido na situação. Não
devia intervir, agir, interagir. Devia apenas interpretar para
estimular o insight por parte do paciente. O analista devia
funcionar como uma tela em branco na qual o paciente fazia
as suas projeções.
• Com a emigração dos analistas para os EUA a psicanálise
começou a ser usada nos anos 30, 40 e 50 nos hospitais
psiquiátricos e teve de ser adaptada aos pacientes psicóticos
como propunha Franz Alexander, William Meninger, ou
Sullivan. Os que a usavam nos hospitais psiquiátricos
tornaram-se partidários de uma PSA interativa e que não
usava só a interpretação, mas também a interação.
Psicologia de uma pessoa vs duas pessoas
Psicologia de uma pessoa
• Na Teoria das pulsões, que está na base da
Psicanálise Clássica, está implícita uma visão do ser
humano como um sistema biológico fechado que
procura uma descarga de energia para manter a
homeostase. A unidade de análise é o indivíduo
(psicologia de uma pessoa), o objecto de estudo é a
mente individual do paciente. Tudo o que é
interpessoal é atribuído às vicissitudes das pulsões
e defesas, ou seja ao intrapsíquico de uma pessoa, o
paciente.
Psicanálise relacional
• A Psicanálise Relacional é identificada como uma
teoria de duas pessoas, estuda o significado da
interação coconstruído por, ou negociado entre
paciente e analista. É uma teoria dialética que inclui
a relação entre o individual e o social, objectos
internos e relações externas interpessoias, auto-
regulação e regulação mútua, intrasubjectivo e
intersubjectivo.
• Se no modelo das pulsões a procura do prazer e a
descarga das pulsões é a base da existência, no
modelo relacional as configurações das relações são
a base.
Implicações sobre a postura do terapeuta e
sobre a relação terapeutica (Wachtel, 2008)
• Quando o terapeuta acredita que o que observa
emerge ou desenrola-se espontaneamente do
inconsciente do paciente, tende a minimizar a
possibilidade de que seja uma distorção introduzida
pela sua própria presença e participação. Procurando
ser neutro, anónimo e não gratificando as necessidades
infantis do paciente tenderá a restringir o seu
comportamento na sessão, procurando evitar a sua
influência. Esta restrição limita a sua participação e
envolvimento na relação, fator considerado essencial
para a mudança na psicanálise relacional. (Wachtel,
2008, pp. 19-20).
Paradigmas
Definição de Paradigma
• é um contexto filosófico e teórico de uma
escola científica ou disciplina que influencia as
teorias e leis existentes nesse contexto assim
como a investigação que é realizada para as
suportar. Os paradigmas são visões do mundo,
um conjunto de crenças básicas.

05/12/2020 83
3 Questões (Guba e Lincoln, 1994;
Altman, I., 1993).
• 1) Questão ontológica. O que pode ser conhecido. Ou
qual a forma e natureza da realidade?
• 2) Questão epistemológica. Qual é a natureza da
relação entre sujeito e objecto?
• 3) Questão metodológica. Como é que essa realidade
pode ser conhecida, ou, que processos (método)
usar para conhecê-la?

05/12/2020 84
Paradigma positivista
• 1) realismo ingénuo, i. e., acredita que existe uma
realidade objectiva externa apreensível como tal
regida por leis imutáveis permitindo generalizações.
É analítico e empírico.
• 2) dualista
• 3) método experimental manipulativo
• O realismo ingénuo adere ao empirismo da
experiência sensível e à falácia do observador
neutro; o idealista nega a experiência

05/12/2020 85
Paradigma construtivista
• 1) relativismo. As realidades são apreendidas sob
múltiplas transformações mentais. Estão baseadas na
experiência individual e social de natureza local e
específica.
• 2) Transacional e subjectiva. O investigador e objecto
interagem de modo que os resultados são
literalmente criados à medida que a investigação se
desenrola.
• 3) hermenêutica e dialéctica

05/12/2020 86
Modelo arqueológico vs cíclico-contextual
• O modelo arqueológico pressupõe um mundo interno fechado à
experiência do dia-a-dia que influencia o dia-a-dia mas não é
influenciado por ele. Um mundo que fica agarrado às fantasias da
infância, preservadas na sua forma original, e que guia a psique do
adulto.
• No modelo cíclico-contextual o estado interno não é nem mais
nem menos central que os eventos externos. São duas faces da
mesma moeda inseparáveis e compreendidos apenas de forma
incompleta sem referência ao outro. No modelo C-C a dinâmica
interna não é negligenciada; as fantasias, memórias e desejos
continuam a ser analisados mas não são vistas como residindo
num mundo interno separado dos eventos externos. Não são
meros reflexos de processos profundos mas parte dos processos
que dão origem aos processos profundos.
Modelo cíclico-contextual
• Os comportamentos repetitivos que mantêm os
padrões dominantes do paciente ao longo dos anos
constituem um poderoso campo de forças e
exercem uma forte pressão sobre os outros que são
induzidos a manter o seu padrão de relação com o
paciente. Desta forma os outros agem como
“cúmplices” na perpetuação de padrões de relação
que mantêm e reforçam as estruturas internas da
vida psíquica. Mundo interior e acontecimentos
exteriores criam e evocam o outro.
Quatro tipo de relações
Os psicanalistas atuais concordam na importância das relações. A discordância
reside na importância atribuída a cada um dos quatro tipos de relação para a
psicopatologia e como foco da intervenção. A Psicanálise Clássica tende a focar-se
nas relações parentais precoces acreditando que o comportamento atual é uma
repetição por transferência dessas relações passadas. A Teoria das Relações de
Objecto explora sobretudo as relações de objecto internalizadas considerando
que a experiência atual é resultado da projeção desses objetos internos. A
Psicanálise Relacional tende a explorar estas relações mas também a relação
terapêutica e as relações interpessoais. A relação terapeuta-paciente, ou relação
terapêutica é um foco privilegiado de intervenção. Não só por acreditarem no
importante papel curativo desempenhado pelo relacionamento afetivo entre
analista e analisando, mas porque a exploração de aspetos que ocorram na
relação entre os dois podem ser a melhor forma de construírem em conjunto
uma nova relação. As relações interpessoais com pessoas significativas do
presente são exploradas no sentido de ajudar o paciente a perceber como o seu
comportamento interpessoal mantêm um padrão e induz os outros a manterem
um padrão que mantêm e reforçam as estruturas internas da vida psíquica.
A transferência
A transferência no modelo clássico

• Na psicanálise clássica, o objetivo do setting analítico era


favorecer o anonimato e neutralidade como formas de
minimizar o papel do analista e permitir o desenrolar
natural da transferência sem interferência do analista.
Nessas condições, a associação livre do paciente era vista
como uma expressão da mente, do intrapsíquico, do
paciente, derivado do seu passado, e deslocada para o
presente. O processo seria independente do analista.
Cont.
• Na T Clássica a transferência não é vista como um evento
interpessoal ocorrendo entre duas pessoas, mas antes como
um evento ocorrendo dentro da mente do analisando, uma
visão distorcida do analista pelo analisando. É vista como
determinada pela história de desenvolvimento do paciente
e como uma deslocação do passado para o presente. Se o
analista analisar corretamente, for tecnicamente neutro e
anónimo, a transferência desenrola-se espontaneamente
sem ser distorcida pela personalidade do analista. Esta é
claramente uma concetualização duma “psicologia de uma
pessoa” da transferência. (Aron, 1996, 48-49)
A Transferência na Psicanálise Relacional

• Na psicanálise relacional a transferência é


sempre vista como resultado da contribuição
dos dois intervenientes. Os desejos e conflitos
infantis do paciente não são apenas vestígios
do passado mas refletem a interação com as
características pessoais (únicas, individuais) do
analista.
As implicações clínicas
• Se o paciente diz que na sessão anterior quando nos ouviu dizer que
tínhamos chegado ao fim do nosso tempo, pensou "pronto já me
está a pôr pra fora, para receber o filho querido (o paciente
seguinte)".
• Usando o modelo clássico o analista faria uma interpretação sobre a
rivalidade fraterna no contexto edipiano lembrando ao paciente a
sua história passada. Usando um modelo relacional a
“transferência” é vista como um acontecimento interpessoal.
Perguntaríamos por exemplo, "o que tem observado em mim
ultimamente que o leve a pensar isso?“ Isto é, exploraria a
contribuição do analista para a interação. Estando aberto a
reconhecer alguma veracidade nas palavras do paciente, algo que
não tivesse ainda percebido fruto de um enactment.
As implicações clínicas cont.
• Na P Clássica se o paciente acha o analista
severo ou irritado este tende a interpretar
essa perceção como resultado da relação
precoce interiorizada. Na P Relacional pede-se
ao paciente para descrever o que observou no
analista que o levou a formar essa opinião.
Esta intervenção ajuda a esclarecerem em
conjunto a contribuição de um e de outro para
a perceção do paciente.
A teoria de campo
Uma teoria de campo
• Uma conceção inteiramente interpessoal de tratamento é uma teoria de campo.
A relação psicanalítica, como qualquer relação, ocorre num campo que é
definido e incessantemente redefinido pelos seus participantes. Não é apenas a
dinâmica intrapsíquica que o paciente e analista trazem para o seu
relacionamento que determina a experiência um com o outro. O campo é uma
criação única, não uma simples combinação aditiva de dinâmicas individuais; É
em último caso o campo que determina que experiências as pessoas que estão
no processo de co-criação desse campo podem ter na presença um do outro. É
o campo que determina o que será dissociado e o que será articulado, quando a
imaginação será possível e quando os participantes ficarão trancados em
estereotipias de experiência mútua. Cada vez que um participante muda a
natureza de seu envolvimento no campo, as possibilidades para a experiência da
outra pessoa também mudam ...(Stern, 1997, p. 110)

• Stern, D. B. (1997). Unformulated experience: from dissociation to imagination in psychoanalysis.


Hillsdale, NJ: Guilford
A Personalidade
A Personalidade nas “teorias de uma e duas
pessoas”
• As teorias de uma pessoa enfatizam a estrutura interna da
personalidade vendo-as pouco influenciadas pela experiência
e contexto relacional atual (Wachtel, 2008, p. 38).
• Adotam o conceito de fixação, ou de paragem no
desenvolvimento. Como se experiências, fantasias ou desejos
precoces (por ex. pré-edipianos) fossem preservadas na
psique na sua forma e intensidade original. Estas estruturas
seriam inacessíveis à mudança, a não ser pela análise que
seria vista como uma regressão ao ponto de fixação (p. 39).
• A personalidade nas teorias de duas pessoas atende
plenamente às características e propensões de longa data da
pessoa mas contextualiza-as (p. 43).
Como é visto o impacto das experiência
precoce
• Os psicanalistas atuais concordam que as experiências precoces
têm um grande impacto no desenvolvimento posterior. A
maioria concorda que abordamos as situações novas com base
nas expectativas e esquemas que se desenvolveram nas relações
precoces. A discordância reside em como essas experiências
precoces moldam o comportamento atual. Se a experiência atual
é uma mera tela onde são projetadas as RO internas, mantidas
inalteradas (e em grande medida inacessíveis à mudança) desde
a infância, ou se a presente matriz relacional, a configuração de
perceções e interações afetivamente significativas com as
pessoas importantes da sua vida atual, é levada a sério como um
modelador igualmente importante da experiência da pessoa.
Wachtel, 2008, p. 80)
Personalidade (Wachtel, P. 2008)
• A psicanálise relacional enfatiza o papel das relações, em vez das
pulsões, na génese da personalidade, da psicopatologia e na prática
clínica (Ghent, 1992, cit Wachtel 2008, p. 78)
• Os não relacionais dão mais atenção a uma estrutura que
inexoravelmente molda a perceção e comportamento da pessoa.
Os autores da TRO, por exemplo Guntrip (1971) até veem a vida
precoce em termos de interações, mas uma vez estruturada vai
preservar-se e negligenciam a importância das relações atuais.
Mitchell, 1988, p.162)
• A principal diferença na prática clínica é se o Psicanalista vê a
estruturação da personalidade ao longo do tempo: se o passado é
preservado através da internalização, fixação ou paragem no
desenvolvimento, versus através de uma influência contínua de
transações bidirecionais ao longo do ciclo de vida (Wachtel, 2008,
Relacionais, mas não completamente
• Há terapeutas que se consideram a si mesmos como
relacionais sem prestarem muita atenção aos
relacionamentos atuais do paciente. Eles sondam o
interior para encontrar as fantasias do paciente sobre os
relacionamentos, para procurar o impacto
(especialmente a distorção) dos relacionamentos
passados nas experiências presentes, mas com a
exceção do relacionamento terapêutico, prestam pouca
atenção à matriz relacional atual ou campo interativo
que é o contexto de tudo o que o paciente experiencia
(Wachtell, 2008, p. 81).
Como é vista a personalidade ao longo do
tempo

• A origem principal das diferenças na prática clínica entre


terapeutas não reside tanto no facto de atribuírem os alicerces
fundamentais da personalidade aos impulsos ou aos
relacionamentos, mas no modo como concebem a estruturação
da personalidade ao longo do tempo - se o passado é visto
como preservado através da “internalização”, fixação ou
paragem no desenvolvimento, ou se a personalidade é vista
como estruturada através da influência contínua de transações
bidirecionais ao longo do ciclo de vida (cf. Zeanah, Anders,
Seifer & Stern, 1989, cit Wachtell, 2008, p. 89).
Implicações sobre a intervenção
• Por outro lado, se o terapeuta acredita que a
experiência atual é resultado da projeção dos objetos
internos (ex. TRO) a sua atenção é dirigida para as
estruturas internas vistas como moldando as perceções
e comportamento, e não procura no exterior, no
comportamento atual do paciente, parte da explicação.
• Até poderão ter uma posição relacional (TRO e alguns
da P. Relaciona) no que diz respeito ao setting mas
ignorando o que se passa nas relações interpessoais do
paciente.
A resistência
Resistência
• No pensamento psicanalítico tradicional, a resistência ao
processo analítico deriva da batalha interna entre os
impulsos e as defesas do paciente (Greenson, 1967). O
paciente evita tomar consciência.
• No ponto de vista relacional o paciente tem uma
motivação para progredir e descobrir coisas sobre si e ser
saudável e procurar novas formas de relação, como tem
para repetir padrões relacionais antigos, e uma ligação
adesiva a objetos insatisfatórios. Ao pôr um foco no
analista também salienta as resistências do próprio
analista.
Inconsciente
O inconsciente vs processos inconscientes

• “o inconsciente” é uma concepção da psicologia de


uma pessoa. É algo que reside dentro da pessoa à
espera de ser descoberto. (Wachtel, 2008, p. 19-20)
• A psicologia de duas pessoas debruça-se sobre
“processos inconscientes” que fazem com que a
vida psicológica ocorra sem consciência. Não se
destapa o que sempre lá esteve, mas em vez disso
articula-se algo que emerge e não tinha sido até
então formulado (p. 24-25)
Inconsciente
• Lidamos não com um inconsciente mas com
diferentes níveis de consciência e
inconsciência. Os conteúdos mentais não são
simplesmente conscientes ou inconscientes,
podemos experienciá-los e articulá-los em
vários graus dependendo do nosso estado
mental e do contexto situacional, relacional e
cultural (Wachtel, 2008, p. 146).
Inconsciente
• É a própria consciência que é o caminho real para o inconsciente. O
clínico percebe do que o paciente se está a defender dando atenção às
qualidades e conteúdos variáveis da consciência, percebendo o que é
focado nitidamente, o que é experimentado apenas de uma forma fraca
ou embaciada, quando é que o foco e a qualidade da consciência muda,
abrupta ou sutilmente, quando a experiência subjetiva do paciente
parece sincera e quando está protegida, silenciada ou sem afeto, e
assim por diante. (Wachtel, 2008, p. 149)
• O inconsciente não é tanto um reino oculto, totalmente formado e
mantido invisível na profundidade, mas sim um conjunto desarticulado
de potenciais para uma experiência mais completa, um conjunto de
inclinações que guiam e moldam a experiência sem que o paciente as
elabore, reconheça e endosse totalmente (cf. Stern, 1997). A
compreensão do inconsciente é sempre uma inferência baseada no
estudo próximo dos caprichos da consciência.
Emergente = inconsciente
• Ocorre de surpresa tanto para o analista como
para o paciente, sem ser esperado, planeado,
e o paciente e analista têm a sensação de
estar a perceber algo importante e
desconhecido. Quando esta experiência
ocorre não se consegue dizer porquê.
Enactment
Enactment
• Na psicanálise clássica olhava-se apenas para a contribuição do paciente
(a transferência). O exame da contratransferência ( a partir da década de
50) veio deslocar progressivamente a atenção para o analista. O
enactment vem pôr mais enfase ainda na intervenção do terapeuta.
• O enactment foi originalmente descrito por um autor freudiano (T.
Jacobs, 1986). Do ponto de vista freudiano contemporâneo o enactment
é visto como algo que acontece ao analista por impacto do paciente. À
semelhança da identificação projetiva na perspetiva kleiniana. O
paciente projeta algo para dentro do analista que é levado a agir.
• No ponto de vista relacional paciente e analista são apanhados ou
envolvidos ambos num padrão problemático. O foco não é o
comportamento do paciente mas o padrão relacional repetitivo em que
ambos tomam parte.
Dissociação
Dissociação
• Com a mudança da teoria da sedução infantil
e o trauma para a teoria da sexualidade e o
desejo e fantasia infantil, Freud relegou a
dissociação para segundo plano, tomando a
proeminência o recalcamento.
Dissociação e enactment
• A experiência traumática que causa percepções e sensações
incompatíveis é afastada do sistema de processamento cognitivo e
permanece não formulada (Stern), e não simbolizada. Os estados do self
dissociados não podem ser formulados por palavras e repetem-se através
de enactments. As crianças vítimas de trauma e abuso tendem a criar
representações do self/outro inconciliáveis que são mantidos separados.
Por ex. ora uma representação de progenitor cuidador, protetor,
afetuoso, ora de um progenitor abusivo, maltratante, sádico. Esses
subsistemas alternam à vez na consciência sem que alguma vez se
encontrem simultaneamente. Coexistem dissociados um do outro.
• Para Stern (2004, 2006) o enactment pode ser visto como a
interpersonalização da dissociação. Partes de si próprio são dissociadas e
atribuídas ao outro que é tratado então como estranho. Uma rigidez do
campo, um impasse ou beco sem saída [deadlock].
O Insight
O que é o insight
Evidência de insight (Kernberg et al., 1989)
• O paciente pode reconhecer com convicção
emocional o que o terapeuta está descrevendo
e pode espontaneamente descrever outras
relações demonstrando um padrão similar.
Uma caracterização correta pode levar a
material não relatado previamente ou a novas
memórias que estejam ligadas à díade self-
objecto descrita. (p. 113)
Insight cognitivo vs experiencial
• O insight é visto com uma característica
distintiva da psicoterapia psicanalítica e
psicanálise. No artigo “a acção terapêutica da
psicanálise” Strachey (1934) salienta a
superioridade da interpretação da
transferência que mobilize o afeto e a
cognição sobre a que mobilize apenas a
cognição.
Insight na P. do ego e na P. Relacional
• Enquanto na Psicologia do ego o insight era visto
como necessário, i.e., uma causa, para que ocorresse
a mudança, na Psicanálise relacional o insight é visto
como um sinal de que o paciente mudou.
• O insight é visto como um produto da colaboração
terapêutica entre paciente e terapeuta depois de uma
relação autêntica e de confiança ter sido estabelecida.
O insight é favorecido por um ambiente de apoio
caloroso por parte do terapeuta em que o paciente se
sinta confiante para explorar os seus conflitos.
Implicações clínicas
• A Psicologia do Ego considera que o terapeuta
ajuda o paciente a chegar ao insight através da
interpretação. Na Psicanálise Relacional o insight
é enquadrado na relação.
• Se de acordo com a Psicologia do Ego o terapeuta
diz “você está a sentir-me como se eu fosse o seu
pai”, de acordo com a Psicanálise Relacional diria
“parece que eu e você estamos a repetir um
padrão emocional da sua relação com o seu pai”.
Quatro formas de focar a relação
Quatro formas de focar a relação
• A Psicanálise Clássica tende a focar-se nas relações parentais precoces
acreditando que o comportamento atual é uma repetição por transferência
dessas relações passadas. A Teoria das Relações de Objecto explora
sobretudo as relações de objecto internalizadas considerando que a
experiência atual é resultado da projeção desses objetos internos. A
psicanálise relacional tende a explorar estas relações mas também a relação
terapêutica e as relações interpessoais. A relação terapeuta-paciente, ou
relação terapêutica é um foco privilegiado de intervenção. Não só por
acreditarem no importante papel curativo desempenhado pelo
relacionamento afectivo entre analista e analisando, mas porque a
exploração de aspectos que ocorram na relação entre os dois podem ser a
melhor forma de construírem em conjunto uma nova relação. As relações
interpessoais são exploradas no sentido de ajudar o paciente a perceber
como o seu comportamento interpessoal mantêm um padrão e induz os
outros a manterem um padrão que mantêm e reforçam as estruturas
internas da vida psíquica.
Conclusão
Características essenciais da P Relacional
• 1) considera que a procura de relação é uma motivação
primária em vez de um resultado da satisfação das
pulsões. As relações internas e externas, reais ou
imaginadas são centrais (Aron, 1996, p. 18)
• 2) Considera que existem dois sujeitos em vez de um
sujeito e um objecto. Somos essencialmente diádicos e
interactivos e a organização psíquica e as estruturas são
constituídas a partir dos padrões dessas interações
(Mitchell, 1988, pp. 3-4)
• 3) Tudo o que ocorre no setting é co-construído
intersubjectivamente.
Bibliografia
• Aron, L. (1996). A meeting of minds. Mutuality in
psychoanalysis. Routledge
• Perlman, F., & Frankel, J. (2009). Relational
Psychoanalysis: A Review. Psychoanalytic Social Work,
16 (2), p105, 21p
• Stern, D. B. (1997). Unformulated experience: from
dissociation to imagination in psychoanalysis.
Hillsdale, NJ: Guilford
• Wachtel, P. L. (2008). Relational theory and practice of
psychotherapy. New York: Guilford.
Obrigado

António Pazo Pires


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