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A formação do Cânon do Antigo

Testamento.
Definição
• “O termo ‘cânon’ é proveniente do
grego, no qual kanon significa regra, lista
– um padrão de medida. Com relação à
Bíblia, diz respeito aos livros que
satisfizeram o padrão e que, portanto,
foram dignos de inclusão. Desde o
século IV, o vocábulo kanon é usado
pelos cristãos para indicar uma lista
autoritária de livros que pertencem ao
Antigo ou ao Novo Testamento”
(BECKWITH in COMFORT, 1999, p. 79).
O Cânon do AT
• “Onde surgiu a ideia do cânon? De
que o povo de Deus deve preservar
uma coleção de palavras escritas de
Deus? A própria Bíblia dá
testemunho do desenvolvimento
histórico do cânon” (GRUDEM,
2012, p. 28).
• “A coleção mais antiga das palavras
de Deus eram os Dez Mandamentos.
Os Dez Mandamentos, portanto,
constituem o início do cânon bíblico.
O próprio Deus escreveu sobre duas
tábuas de pedra as palavras que ele
ordenou ao seu povo: ‘E, tendo
acabado de falar com ele no monte
Sinai, deu a Moisés as duas tábuas
do Testemunho, tábuas de pedra,
escritas pelo dedo de Deus’ (Êx
31.18)” (GRUDEM, 2012, pp. 28-29).
• “Essa coleção de palavras de Deus,
dotadas de autoridade absoluta,
aumentou ao longo da história de
Israel. O próprio Moisés acrescentou
palavras para que fossem
depositadas ao lado da arca da
aliança (Dt 31.24-26)” (GRUDEM,
2012, p. 29).

• Moisés foi o autor dos primeiros 5


livros do cânon (cf. Êx 17.14; 24.4;
34.27; Nm 33.2; Dt 31.22).
“Após a morte de Moisés, Josué também
ampliou a coleção das palavras escritas
de Deus: ‘Josué escreveu estas palavras
no Livro da Lei de Deus’ (Js 24.26). Isso é
particularmente inesperado tendo em
vista a ordem de não acrescentar nem
subtrair nada às palavras que Deus deu
ao povo por intermédio de Moisés: ‘Nada
acrescentareis à palavra que vos mando,
nem diminuireis dela...’
(Dt. 4.2; cf. 12.32)”
(GRUDEM, 2012, p. 29).
• “Para ter desobedecido a uma ordem
tão específica, Josué deve ter sido
convencido de que não estava por conta
própria aumentando as palavras
escritas de Deus, mas que o próprio
Deus tinha autorizado esse acréscimo”
(GRUDEM, 2012, p. 29).
“Mais tarde, outros em
Israel, em geral aqueles
que exerciam o ofício de
profeta, acrescentaram
palavras da parte de
Deus” (GRUDEM, 2012,
p. 29).
• 1Sm 10:25 “Declarou Samuel ao povo o direito do
reino, escreveu-o num livro e o pôs perante o
SENHOR. Então, despediu Samuel todo o povo,
cada um para sua casa”.

• 1Cr 29:29 “Os atos, pois, do rei Davi, tanto os


primeiros como os últimos, eis que estão escritos
nas crônicas, registrados por Samuel, o vidente, nas
crônicas do profeta Natã e nas crônicas de Gade, o
vidente”.
• 2Cr 26:22 “Quanto aos mais atos de Uzias, tanto os
primeiros como os últimos, o profeta Isaías, filho de
Amoz, os escreveu”.

• 2Cr 32:32 “Quanto aos mais atos de Ezequias e às


suas obras de misericórdia, eis que estão escritos na
Visão do Profeta Isaías, filho de Amoz, e no Livro da
História dos Reis de Judá e de Israel”.
• Jer 30:2 “Assim fala o SENHOR, Deus de Israel:
Escreve num livro todas as palavras que eu disse”.

• “Outras palavras que ilustram o crescimento da


coleção de palavras escritas de Deus são 2Cr 9.29;
12.15; 13.22; Is 30.8; Jr 29.1; 36.1-32; 45.1; 51.60;
Ez 43.11; Dn 7.1; Hc 2.2. Esses acréscimos eram
feitos em geral por intermédio de um profeta”
(GRUDEM, 2012, p. 40).
• “O conteúdo do cânon do Antigo
Testamento continuou
aumentando até o fim do
processo de escrita. Se datarmos
Ageu de 520 a.C., Zacarias de
520-518 a.C. [...] e Malaquias por
volta de 435 a.C., teremos as
datas aproximadas dos últimos
profetas do Antigo Testamento”
(GRUDEM, 2012, p. 29).
“Coincidindo grosso modo com esse período
estão os últimos livros da história do Antigo
Testamento – Esdras, Neemias e Ester. Esdras foi
para Jerusalém em 458 a.C., e Neemias esteve
também ali em 445-433 a.C. Ester foi escrito algum tempo
depois da morte de Xerxes I (= Assuero) em 465 a.C., e é
provável que isso tenha ocorrido durante o reinado de
Artaxerxes (464-423 a.C.). Desse modo, depois de
aproximadamente 435 a.C. não houve mais acréscimos ao
cânon do Antigo Testamento. A história do povo judeu foi
registrada em outros escritos, tais como os livros de
Macabeus, mas eles não foram considerados dignos de
inclusão na coleção das palavras de Deus que vinham dos
anos anteriores” (GRUDEM, 2012, pp. 29-30).
• Na literatura judaica extra bíblica
é fácil encontrar referências a
crença de que “haviam cessado as
palavras divinamente autorizadas
da parte de Deus” (GRUDEM,
2012, p. 30).
“Josefo (nascido em c. 37/38 d. C.) explicou: ‘Desde
Artaxerxes até os nossos dias foi escrita uma
história completa, mas não foi julgada digna de
crédito igual ao dos registros mais antigos, devido
à falta de sucessão exata dos profetas’ (Contra
Ápião 1.41). Essa declaração do maior historiador
judeu do primeiro século cristão mostra que ele
conhecia os escritos que agora fazem parte dos
‘apócrifos’, mas que ele (e muitos dos seus
contemporâneos) não os consideravam dignos ‘de
crédito igual’ ao das obras agora conhecidas por
nós como Escrituras do Antigo Testamento.
Segundo o ponto de vista de Josefo, nenhuma
‘palavra de Deus’ foi acrescentada às Escrituras
após cerca de 435 a.C.” (GRUDEM, 2012, p. 30).
• Nem Jesus nem seus discípulos entraram em
controvérsias com os líderes judeus ou o povo em si
quanto a questão da extensão do cânon.

• “Ao que parece, Jesus e seus


discípulos, de um lado, e os
líderes judeus ou o povo
judeu, de outro, estavam
plenamente de acordo em
que acréscimos ao cânon do
Antigo Testamento haviam cessado após os dias de
Esdras, Neemias, Ester, Ageu, Zacarias e Malaquias”
(GRUDEM, 2012, p. 30).
• Segundo uma contagem, Jesus e os
autores do Novo Testamento citam
mais de 295 vezes várias partes das
Escrituras do Antigo Testamento como
palavras autorizadas por Deus, mas
nem uma vez sequer citam alguma
declaração extraída dos livros apócrifos
ou qualquer outros escritos como se
tivessem autoridade divina” (GRUDEM,
2012, pp. 30-31).
Os Apócrifos
• “A palavra grega apokrypha
significa ‘coisas ocultas’, mas
Metzger observa [...] que os
estudiosos não sabem ao certo
por que essa palavra foi aplicada
a esses escritos” (GRUDEM,
2012, p. 41).
“Judas 14-15 cita 1 Enoque 60.8 e 1.9,
e Paulo pelo menos duas vezes cita
autores gregos pagãos (veja At 17.28;
Tt 1.12), mas essas citações são mais
para propósito de ilustração que de
prova. As obras nunca são introduzidas
com frases como ‘Deus diz’ ou ‘a
Escritura diz’ ou ‘está escrito’, frases
que implicam a atribuição da
autoridade divina às palavras citadas.
(Deve-se observar que nem 1 Enoque
nem os autores citados por Paulo
fazem parte dos apócrifos.) Nenhum
livro apócrifo é mencionado no Novo
Testamento” (GRUDEM, 2012, p. 40).
• “Os apócrifos incluem os seguintes escritos:
Tobias, Judite, acréscimos a Ester, Sabedoria de
Salomão, Eclesiástico, Baruc (incluindo a Carta
de Jeremias), Cântico dos Três Jovens, Susana,
Bel e o Dragão, e 1 e 2 Macabeus. Esses
escritos não se encontram na Bíblia Hebraica,
mas foram incluídos na Septuaginta”
(GRUDEM, 2012, p. 40).
• “Esses livros nunca foram aceitos como
Escrituras pelos judeus, mas ao longo da
história inicial da igreja as opiniões se dividiram
sobre se eles deviam ou não fazer parte das
Escrituras” (GRUDEM, 2012, p. 31).
• “[...] a evidência cristão mais antiga
coloca-se de modo decisivo contra a
visão dos apócrifos como Escrituras”
(GRUDEM, 2012, p. 31).
• Sua inclusão na Vulgata de Jerônimo
serviu para sua aceitação e apoio na
igreja, “[...] embora o próprio
Jerônimo tenha dito que eles não
eram ‘livros do cânon’, mas apenas
‘livros da igreja’, úteis e proveitosos
para os crente” (GRUDEM, 2012, p.
31).
A lista de Melito, bispo de Sardes, é a mais
antiga lista cristã dos livros do A. T. Ela “[...]
não menciona [...] nenhum livro dos
apócrifos, mas inclui todos os nossos atuais
livros do Antigo Testamento, exceto Ester”
(GRUDEM, 2012, p. 31).

Haviam dúvidas entre algumas igreja do


Oriente quanto a canonicidade de Ester, mas
essas dúvidas foram posteriormente
dirimidas “e o costume cristão se tornou
igual à visão judaica, que já tinha contado
Ester como parte do cânon” (GRUDEM, 2012,
p. 41).
• “Eusébio cita também Orígenes que
teria confirmado a maioria dos livros
do nosso presente cânon do Antigo
Testamento (inclusive Ester), mas
nenhum dos apócrifos é declarado
canônico, e se diz explicitamente que
os livros de Macabeus estão ‘fora
desses [livros canônicos]’” (GRUDEM,
2012, p. 31).
• “De modo semelhante, em 367 d.C., [...] Atanásio,
bispo de Alexandria, escreveu sua Carta Pascal e
alistou todos os livros do nosso atual cânon do Novo
Testamento e do Antigo Testamento, exceto Ester.
Mencionou também alguns livros dos apócrifos, tais
como Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Sirac,
Judite e Tobias, e disse que esses ‘não são na
realidade incluídos no cânon, mas indicados pelos
Pais para serem lidos por aqueles que recentemente
se uniram a nós e que desejam instrução na palavra
de bondade’. Entretanto, outros líderes da igreja
antiga citam vários desses livros como Escrituras”
(GRUDEM, 2012, pp. 31-32).
• “Metzger observa que nenhum dos
Pais da igreja latinos ou gregos que
citam os apócrifos como Escrituras
conhecia hebraico. Beckwith [...]
argumenta que a evidência de
escritores cristãos citando os
apócrifos como Escrituras é bem
menos extensa e menos significativa
que os estudiosos alegam com
frequência” (GRUDEM, 2012, p. 41).
• “Desde o início, os livros
apócrifos eram conhecidos
pelas igrejas, mas quanto
mais longe se volta no tempo,
mais raramente são tratados
como inspirados” (BECKWITH
in COMFORT, 1999, p. 94).
• Sobre os problemas existentes nos apócrifos, E. J.
Young (apud GRUDEM, 2012, p. 32) diz:
“Não existe nenhum sinal nesses livros que ateste origem
divina [...] tanto Judite como Tobias contêm erros
históricos, cronológicos e geográficos. Os livros justificam
a falsidade e a fraude e faz com que a salvação dependa
de obras meritórias. [...] Eclesiástico e Sabedoria de
Salomão inculcam uma moralidade baseada em
conveniências. Sabedoria ensina a criação do mundo a
partir de matéria preexistente (11.17). Eclesiástico ensina
que dar esmolas propicia expiação pelo pecado (3.30).
Em Baruc se diz que Deus ouve as orações dos mortos
(3.4), e em 1 Macabeus há erros históricos e geográficos”.
• É importante lembrar:
• Só em 1546, no Concílio de Trento, é que
“a Igreja Católica Romana declarou
oficialmente que os apócrifos fazem parte
do cânon” (GRUDEM, 2012, p. 32).

• Isto foi uma resposta “aos ensinos de [...]


Lutero e da Reforma Protestante que se
espalhavam rapidamente, e os livros
apócrifos contêm apoio para o ensino
católico de oração pelos mortos e
justificação pela fé com obras, não pela
fé somente” (GRUDEM, 2012, p. 32).
Conclusão
• Motivos para rejeitar os apócrifos, de acordo com
Grudem (2012, p. 32):
• “(1) eles não atribuem a si o mesmo tipo de
autoridade que têm os escritos do Antigo
Testamento”;
• “(2) não foram considerados palavras de Deus pelo
povo judeu do qual se originaram”;
• “(3) não foram considerados Escrituras por Jesus
nem pelos escritores do Novo Testamento”;
• “(4) contêm ensinos incoerentes com o restante da
Bíblia”.
Conclusão
• “Devemos concluir que eles eram meramente
palavras humanas, não palavras inspiradas por Deus
como as palavras das Escrituras. Têm valor, sim,
para pesquisa histórica e lingüística [sic.] e contêm
numerosas histórias a respeito da coragem e da fé
de muitos judeus durante o período posterior ao
encerramento do Antigo Testamento, mas nunca
fizeram parte do cânon do Antigo Testamento e não
devem ser encarados como parte da Bíblia.
Portanto, não têm autoridade compulsória para o
pensamento nem para a fé dos cristãos de hoje”
(GRUDEM, 2012, p. 32).