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UERN / FAFIC / DCSP

PPGCISH

EPISTEMOLOGIAS DAS
CIÊNCIAS HUMANAS

1 Profa. Dra. Maria Cristina Rocha Barreto


Prof. Dr. Raoni Borges Barbosa
PROGRAMA GERAL DE DISCIPLINA- PGD - OBJETIVO
 Esta disciplina discute, - no contexto de emergência e consolidação da modernidade ocidental, e desde
abordagens filosóficas, sociológicas e antropológicas clássicas e contemporâneas, - os modos de produção e
reprodução de repertórios simbólicos e de posturas cognitivo-comportamentais classificados como
científicos.
 Repertórios simbólicos e posturas cognitivo-comportamentais aqui entendidos como corpos de
conhecimentos e de saberes, mas também como conjuntos de definições e enquadramentos políticos,
morais e estéticos do real.
 Nesse modo de apreensão das ciências, - e das ciências humanas especificamente, - enquanto expressão e
código cultural e social destacado na construção do discurso público e da administração técnico-burocrática
da sociedade complexa, a questão epistemológica (dos momentos estruturantes e determinantes do
conhecimento científico) será posta em análise sincrônica, de modo a contemplar o devir histórico de
correntes e escolas de pensamento (Positivismo, Funcionalismo, Social-Estruturalismo, Estruturalismo,
Sociologia Formal, Sociologia Compreensiva, Sociologia Figuracional, Teoria de Sistemas, Teoria Crítica,
Culturalismo, Interpretativismo, Acionalismo, Interacionismo, Interacionismo Simbólico, Etnometodologia,
entre outras) e diacrônica, privilegiando o postulado geertziano de que os modos de ação e de realidade
inerentes à ciência enquanto sistema social e simbólico são apreendidos na observação de como os seus
operadores cotidianamente constroem a realidade social.
 Esta disciplina pretende colaborar com as discussões epistemológicas no âmbito das
Ciências Humanas, enfatizando a análise histórica e teórico-metodológica do fazer
científico enquanto exercício social, político, cultural, moral, emocional e estético. 2
UNIDADE I
 01º Encontro: 07.05 - Apresentação do Programa da Disciplina e Discussão Inicial.
MERTON, Robert K. Ensaios de sociologia da ciência. São Paulo: Associação Filosófica Scientiae Studia; Editora 34, 2013. [Caps. 4,5,6,7]
PIRES, Álvaro P. Sobre algumas questões epistemológicas de uma metodologia geral para as ciências sociais. In: Jean Poupart et al, A
Pesquisa qualitativa. Enfoques epistemológicos e metodológicos. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2010.
 02º Encontro: 00/00– Emergência, consolidação e crise da Modernidade Ocidental.
 ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1997. [p. 9-68]. [PEDRO LEVI]
 ELIAS, Norbert. O processo civilizador: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. [Cap.1 – Parte I, I-II-III-IV-V-VI;
Cap. 2 – I, II, III, IX, X]. [JORGE CARLOS]
 ELIAS, Norbert. O processo civilizador: Uma formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. [Cap.1 – Parte I, I-II-
III-IV-V-VI; Cap. 2 – I, II, III].
 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. [Cap. 1 e 2]. [ALLAN PHABLO]
 GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991. [Cap. 1]. [WINNIE]
 GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. [Caps. 1 e 4]. [RAISSA]
 BECK, Ulrich. La sociedade del riesgo. Hacia uma nueva modernidade. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidós, 2002.
 03º Encontro: 00/00– Epistemologias Modernas: Algumas Sínteses no Estudo da Sociedade e da
Cultura.
 04º Encontro: 00/00– Epistemologias Modernas: Algumas Sínteses no Estudo da Sociedade e da
Cultura II
 05º Encontro: 00/00 – Sociologias: Formal, Compreensiva, Figuracional.
AVALIAÇÃO Unidade 1: 1 RESENHA DE ATÉ 5 LAUDAS.
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UNIDADE II
 06º Encontro: 00/00 – Pragmatismos: Acionalismo, Interacionismo, Interacionismo
Simbólico, Fenomenologia e Etnometodologia.
 07º Encontro: 00/00 – Funcionalismos e Estruturalismos.
 08º Encontro: 00/00 – Culturalismo e Interpretativismo. [AULA em colaboração com a
Profa. Dra. Eliane A. Silva].
 09º Encontro: 00/00 – Teoria de Sistemas e Teoria do Agir Comunicativo. [AULA em
colaboração com o Prof. Dr. Jean].
 10º Encontro: 00/00 – Estudos Culturais e de Gênero.

AVALIAÇÃO Unidade 2: 1 RESENHA DE ATÉ 5 LAUDAS.

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UNIDADE III
 11º Encontro: 00/00 – Nova História e História Social Inglesa [AULA em colaboração
com o Prof. Dr. Linhares].
 12º Encontro: 00/00 – Conceitos centrais das Epistemologias Modernas I: Humanidade
/ Animalidade, Objetividade / Subjetividade, Individualidade / Propriedade / Alteridade,
Pessoa / Espírito - Self, Natureza/Cultura.
 13º Encontro: 00/00 – Conceitos centrais das Epistemologias Modernas II: Sociedade /
Estado, Cultura / Civilização, Técnica / Processo, Política / Autoridade / Liberdade /
Verdade.
 14º Encontro: 00/00 – Conceitos centrais das Epistemologias Modernas III: Emoção /
Razão, Opinião, Crença, Conhecimento, Ideologia.
 15º Encontro: 00/00 – Conceitos centrais das Epistemologias Modernas IV: Tempo
(Cotidiano, Ritual, Sagrado, Público).

AVALIAÇÃO Unidade 3: 1 RESENHA DE ATÉ 5 LAUDAS.


AVALIAÇÃO Disciplina: 1 ARTIGO DE ATÉ 15 LAUDAS. 5
AULA 01 – 07.05.2020
Apresentação do Programa da Disciplina e Discussão Inicial.
MERTON, Robert K. Ensaios de sociologia da ciência. São Paulo: Associação Filosófica Scientiae Studia; Editora 34, 2013.
[Caps. 4,5,6,7]
PIRES, Álvaro P. Sobre algumas questões epistemológicas de uma metodologia geral para as ciências sociais. In: Jean
Poupart et al, A Pesquisa qualitativa. Enfoques epistemológicos e metodológicos. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2010.

Objetivos da Aula:

Questões Epistemológicas Fundamentais: Verdade, Realidade, Conhecimento, Ciência,


Senso Comum, Validade Científica, Metodologia, Realismo x Construtivista

1. Discorrer sobre a as Questões Epistemológicas Fundamentais da Ciência Moderna, em Pires (2010).

2. Discorrer sobre a noção de Sociologia do Conhecimento e da Inserção Social do Discurso Científico,


em Merton (2013);
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QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS DA CIÊNCIA MODERNA: O OLHAR DAS
CIÊNCIAS SOCIAIS
 Período de transição e de reinvenção de paradigmas nas ciências: emergência de discursos e
vozes que desafiam as narrativas modernas de cientificidade, de verdade, de conhecimento e de
produção acadêmica;
 Dilema epistemológico: Verdade – Realidade Objetiva;
 Dilema ético-político: Do desejo de verdade ao desejo de solidariedade: ética global e pós-
humanista;
 Discurso pós-moderno de superação da ciência moderna, engendrada no século XIX sob os valores de
neutralidade axiológica, distanciamento crítico, olhar exterior, busca pela verdade objetiva, dissociação entre
interesses político – éticos e o puro interesse científico;
 O discurso pós-moderno de produção de conhecimento enfatiza valores como solidariedade, harmonia,
criatividade, orientação ética do pesquisador;
 Feyerabend: contra o método! A ciência moderna é dogmática, perniciosa, fundamentalmente etnocêntrica;
 Relativismo (anarquismo) epistemológico radical;
 Pires advoga pelos valores da modernidade: disciplina e metodologia geral na busca pela
verdade empiricamente fundamentada e eticamente reflexiva como resposta ao dilema
epistemológico e ético-político na Ciência Moderna:
 Critérios de cientificidade e Noções de objetividade;
 Relação entre Ciência e Senso Comum, Ética e Ação; 7
 Metodologia Geral: não dogmática, não reducionista, não inteiramente relativista.
 O desenvolvimento das Ciências Sociais
 Parte de construção do discurso moderno de progresso, de ordem, de crescimento e
de acúmulo da experiência de controle e administração instrumental da Natureza e
da Cultura;
 Projeto que se estende pela Renascença, pelo Iluminismo e chega à
Contemporaneidade: produção coletiva de um conhecimento secular, empírico sobre
o real
 Especialização, autonomização, burocratização do saber legítimo;
 Mito – Especulação – Conhecimento: processo evolutivo de representação
verdadeira do real;
 Ciências Naturais x Artes – Filosofia – Humanidades – Letras (Primeira distinção
entre Ciência e Não –Ciência; Conhecimento Positivo);
 Ciências Naturais x Filosofia ; Ciências Sociais x Filosofia – Saberes Tradicionais e
Religiosos (Segunda Distinção; Conhecimento metodologicamente afiançado);

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 Rebaixamento teórico-metodológico da Filosofia, classificada como discurso geral; e
diferenciação entre História e estória;
 Noção de dados objetivos: laboratório, arquivo, pesquisa de campo; e de
metodologia científica nas Ciências Sociais, de modo que a busca pela verdade
deveria pautar-se em práticas impessoais, verificáveis e falsificáveis a partir de
registros axiologicamente neutros;
 Debate epistemológico nas Ciências Sociais: olhar do pesquisador como ferramenta
de validação empírica:
 Olhar exterior; Olhar interior; Olhar de baixo; universalidade da verdade sobre o

real;
 Debate metodológico nas Ciências Sociais:
 Dados qualitativos; dados quantitativos; linguagem matemática; linguagem

literária; produção de predição, de regulação e de precisão de dados; dados ou


fontes primárias e secundárias; precisão numérica e precisão descritiva.
 As Ciências Sociais se estabelecem na segunda distinção epistemológica de
construção do projeto moderno de Ciência, de modo que tem como espelho de
aproximação as Ciências Naturais e como espelho de distanciamento a Filosofia e as 9
Artes.
 “Descobertas” nas Ciências Sociais
 Progresso e descoberta nas Ciências Sociais no sentido de construção de Leis Científicas?
 A queda tendencial da produção de mais-valia?
 A determinação da superestrutura pela infraestrutura social?
 A evolução histórica das formas sociais ou modos de produção na dialética das forças produtivas e das
relações de produção?
 Luta de classes como motor da história humana, mediada pelo acesso técnico à Natureza cada vez mais
sofisticado?
 Organização científica do trabalho?
 Sócio- e psicogênese?
 O self autoespelhado?
 A fachada como princípio simbólico-interacional fundamental?
 O self coevolui com as possibilidades comunicacionais, expressivo-simbólicas e imaginárias dos rituais de
interação?
 Estruturas sociais binarizadas se organizam como objetificação das estruturais mentais arquetípicas?
 Cultura subjetiva e cultura objetiva em espirais de retroalimentação constróem o social e a cultura?
 Gênero e Relações sexistas?
 Etnocentrismo e diversidade cultural?
 Minorias sociais e culturais?
 Democracia, Poliarquia e Direitos Naturais e Humanos? 10
 Liberdade – Igualdade – Solidariedade?
 Infância?
 Descobrir, no discurso científico das Ciências Sociais:
 Revelar tabus, interditos, problemas sociais invisibilizados e silenciados no espaço
público e não enquadrados como problema político;
 Impedir que arenas públicas e políticas de produção de conhecimento sobre o real

social sejam extintas pelos interesses religiosos, econômicos e políticos;


 Missão emancipadora da produção científica em relação à tradição, ao senso

comum e aos saberes mágicos, mitológicos e religiosos.


 O cotidiano e a história como laboratório: senso comum e movimentos sociais na

produção das descobertas científicas.

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 Metodologia Geral
 Reconhecimento da falência de uma abordagem dogmática na produção do discurso científico, de
modo que metodologias plurais e epistemologias concorrentes são acionadas;
 Reconhecimento da complexidade social inerente aos critérios de cientificidade, de modo que estes não
devem reduzir-se a posturas estanques e dogmáticas do tipo qualitativo x quantitativo, identidade x
diferença, neutralidade x engajamento, exclusividade x anarquismo metodológico / epistemológico;
 Pires permanece moderno, mas assume um tom de reflexividade: a Ciência como polêmica de si
mesmo, característico da modernidade reflexiva e tardia;
 Visão moderna: da epistemologia e metodologia reificada ao objeto analítico;
 Visão moderna reflexiva: das questões de pesquisa à epistemologia e ao método em construção;
 Pires retoma o percurso histórico de debates epistemológicos que redundaram:
 1. na produção fundacional do objeto analítico das Ciências Sociais (o fato social, em detrimento do

fato natural ou psicológico; a ação social, em detrimento de forças naturais e supranaturais);


 2. nas suas apropriações dos modelos epistemológicos tradicionais (indução, relativismo, alteração,

paradigmas e etc.) para pesquisas específicas;


 3. e, por fim, no contexto de crise epistemológica dos anos de 1970, na institucionalização da crítica

à normatividade científica como modo de recepção da crítica da normativa social produzida pelas
minorias sociais, étnicas, nacionais, políticas, econômicas, estéticas e morais.

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 A metodologia geral parte, assim, de uma refundação epistemológica do conhecimento
científico: desnaturaliza e des-essencializa os discursos de verdade, de objetividade e de
cientificidade.
 Pires, com efeito, sustenta uma postura epistemológica moderna reflexiva que:
 Afirma um conhecimento sistemático do real válido empiricamente: esforço de objetivação e
registro do verdadeiro e do falso;
 Esse esforço de objetivação inerente à pesquisa científica pode ser axiologicamente neutro ou

engajado, mas sempre crítico e reflexivo;


 A avaliação da verdade científica deve levar em conta o alcance, a validade e o interesse social

dessa objetivação do real, haja vista que juízos de valor e juízos de realidade são dificilmente
distinguíveis;
 Observar o mundo empírico implica em acionar um mundo moral e emocional pré-estabelecido, de

modo que a produção da verdade científica é uma forma de construir o social e a cultura (traz um
projeto de sociedade), o que não impede hierarquizações científicas dessas construções.

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 Objeto Construído
 Objeto disciplinar: fato social, ação social, papéis sociais, sociabilidades, estruturas sociais, discursos,
narrativas, imaginário, simbólico, moralidades..;
 Pré-construção social do objeto de estudo: o social e a cultura informam ao pesquisador as formas de
classificação e de representação do real, de modo que o olhar científico está contaminando por estas
construções em primeiro grau; as ciências sociais são observações tecnicamente codificadas das observações
do ator e agente social comum sobre o mundo;
 O crime, a burocracia, o jornal, a sexualidade, a guerra, o divórcio, o contrato, a arte, a cidade são formas sociais e culturais de antemão
estabelecidas...
 Procedimento epistemológico, teórico-metodológico e temático operado pelo pesquisador: seleções,
perspectivas e recortes na construção do objeto analítico.
 Schutz (1987, p. 11): ciência como construção em segundo grau:
“...os objetos de pensamento, construídos pelos pesquisadores nas ciências sociais, baseiam-se em objetos
de pensamento construídos pelo pensamento comum do homem levando sua vida cotidiana entre seus
semelhantes, e a ele se reportando”.
 A noção de objeto construído não implica em uma postura epistemológica construcionista do pesquisador:
 A teoria, o olhar discriminador, vem antes dos fatos, os eventos circunstanciais do mundo social nominados, classificados e categorizados
pela teoria;
 O Construcionismo não se interessa pela discussão ontológica sobre o real pressuposto pelo discurso nativo, de modo que não diferencia
entre juízos de valor e juízos de realidade;
 A noção de objeto construído não implica em subjetivismo:
 A construção científica, por definição, reduz a complexidade do social e da cultura em um discurso inteligível e metodologicamente
enquadrado, mas não necessariamente literário e subjetivista, pois busca a verdade em aproximações jamais conclusivas do real; 14
 O objeto construído deforma a realidade, mas não a verdade: produz mapas mentais.
 Ciência e Senso Comum
 O modelo moderno reflexivo: ruptura com o senso comum; ruptura com a ruptura epistemológica
científica clássica e reflexão sobre o senso comum;
 Demarcação entre formas de conhecimento, e não de acesso à verdade;
 O senso comum, a teoria nativa, é o ponto de partida de toda reflexão empiricamente embasada
sobre o social e a cultura.
 A produção da Verdade: 3 modelos E-T-M
 Como apreender a verdade sobre o mundo social?
 1. Olhar exterior e neutralidade axiológica: tradição positivista, funcionalista, estruturalista, sistêmica; ênfase
em dados quantitativos; discurso de ruptura com o senso comum, as pré-noções; dissociação entre contemplação
e ação; busca por leis e causalidades materiais;
 2. Olhar interior e neutralidade axiológica: tradição compreensiva, fenomenológica, etnometodológica,
simbólico-interacionista; sujeito e objeto da pesquisa social partilham de uma mesma ontologia; ênfase na
subjetividade, na produção de sentidos, na linguagem, na ação social; dicotomia contemplação / ação e ruptura
relativa com o senso comum; primado dos dados qualitativos, da precisão descritiva; busca pela causalidade
intencional;
 3. Olhar de baixo e engajamento crítico e emancipatório: tradição hegeliana, marxista, feminista, de estudos
culturais e de gênero, pós-modernas; afirmação da inserção da ciência no mundo social de hierarquias, posições,
fronteiras e interesses sociais e repertórios simbólicos; as pré-noções, o senso comum, fazem parte da pesquisa,
que deve organizar um confronto emancipatório ou uma luta por reconhecimento; busca pela causalidade
material, intencional e de interpretação e a consequente superação dos vieses inerentes às visões de mundo
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dominantes; constante preocupação com a reflexividade epistêmica; primado dos dados qualitativos, da ação
sobre a contemplação.
 Formas de Medida no discurso científico e suas Funções
 Precisão Teórica: ajuste do esquema conceitual enquanto verdade e aproximação do real ou enquanto
modelo de apreensão da teoria nativa;
 Precisão Empírica: uso adequado das medidas quantitativa e qualitativa;
 Funções de criatividade e de reflexividade no ato de medir: afastamento do objeto analítico (jogo das
grandezas), afastamento do olhar do pesquisador (jogo do pesquisador).
 O 4° modelo E-T-M
 O processo de objetivação científica desde uma postura de estrangeirice: liberdade política, ética, de
conhecimento (ontológica, teórica, epistemológica e metodológica); não pertencimento ao grupo
estudado e às suas perspectivas; mas vinculação, participação e interesse pelo mesmo em um olhar
distante e próximo, exterior e interior, de baixo e solidário, atento e indiferente, pois o estrangeiro
participa de forma não apologética;
 Simmel afirma que a ciência é participação social, de modo que um olhar exterior, um olhar interior
distanciado e um olhar de baixo são meros equívocos sobre o fazer científico, que deve pautar-se em
participação-crítica, em reflexividade epistêmica, teórica e metodológica;
 Bourdieu: o paradigma da objetivação participante;
 Feminismo: perspectiva de identidade e de proximidade, mas pertencimento crítico e liberdade de
movimento;
 Foucault: situar-se nas fronteiras do pensamento e afirmar a relacionalidade dos olhares de dentro, de
fora e de baixo. 16
 Considerações epistemológicas para uma Metodologia Geral das Ciências Sociais e
Questões Epistemológicas Fundamentais:
 Indiferença em relação às posturas epistemológicas construtivistas e realistas;
 Pires, nesse sentido, refuta o dilema epistemológico clássico das Ciências Sociais e aponta que as
questões epistemológicas fundamentais incidem na abertura do pensamento científico para uma
modernidade reflexiva, crítica e consciente de sua participação no mundo social:
 Ciência Social como modo e estilo de vida pautado na estrangeirice simmeliana: liberdade de movimento, de
combinação de paradigmas E-T-M; afirmação do interesse na busca pela verdade científica e na transformação social;
 Superação da distinção entre pesquisas qualitativas e quantitativas: primado da precisão numérica
ou descritiva e das funções epistemológicas de criatividade e de reflexividade;
 A metodologia, o procedimento de pesquisa, é trans-teórico e transdisciplinar;
 As formas de medida (quantitativa e qualitativa) e os materiais empíricos (observações diretas,
documentos, experimentos) tem seus limites teóricos, ainda que não impliquem em posições
epistemológicas específicas;
 Precisão numérica e precisão descritiva não são funções meramente intercambiáveis, pois que
apontam dimensões sociais e culturais particulares do mundo relacional humanos.

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QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS DA CIÊNCIA MODERNA: A SOCIOLOGIA DO
CONHECIMENTO E A INSERÇÃO SOCIAL DO DISCURSO CIENTÍFICO
 O conhecimento é socialmente definido de forma ampla e não necessariamente abarca a demarcação de validade ou
falsidade, mas de aceitação social: ideias, ideologias, crenças, mitos, tecnologias, ciências, narrativas artísticas..;
 A Sociologia do Conhecimento objetiva explicar e compreender o conhecimento, incluso a ciência, como produção,
representação, ação, função social;
 Bacon, Voltaire e a crítica da perturbação social ao conhecimento objetivo: distinção entre Verdade e Interesse;
 Nietzsche: distinção entre Validade e Utilidade do conhecimento;
 Kant: sistematização de uma filosofia da consciência que reconhece o indivíduo como sujeito cognoscente e portador de
categorias inatas de pensamento; a consciência racionaliza o mundo em uma visão passível de comunicação coletiva;
superação do empirismo inglês; precursor do racionalismo durkheimiano;
 Hegel: o conhecimento se realiza em função dos processos dialéticos do Espírito;
 Marx: o conhecimento se realiza em função dos processos dialéticos das relações de produção; problema da falsa
consciência, da alienação positiva e negativa; possibilidade de objetividade do olhar de baixo emancipado dos
preconceitos da visão dominante;
 Scheler: a ciência moderna é resultado de espaços de liberdade de investigação, crítica e reflexão adquiridos desde a
idade média europeia, quando emerge uma pluralidade de agências mundanas e religiosas em disputa moral e pela
definição ontológica, epistemológica e teórica do mundo: como resultado o paulatino estabelecimento da livre discussão
pública, da troca dialética de teses, do parlamento e do mercado, do anseio burguês pelo acúmulo de bens, do controle
racional instrumental da natureza, do social e da cultura, da aventura em busca da verdade que relativiza noções absolutas
de ontologia e de epistemologia;
 Mannheim: conhecimento como narrativa interessada de grupos sociais; o relativismo E-T-M da ciência moderna se 18
realiza pela diferenciação social, pela mobilidade social, pela democratização política e econômica; o interesse social não
necessariamente invalida o conhecimento; distinção entre conhecimento ideológico e conhecimento utópico.
 As questões fundamentais da Sociologia do Conhecimento de certa forma ignoram a questão
epistemológica da validade do conhecimento e enfatizam:
 O estudo das mudanças e transformações dos interesses acadêmicos e intelectuais em relação com as mudanças e
transformações sociais;
 O estudo das mentalidades e suas justificações nativas;
 O estudo da avaliação social dos tipos de conhecimento e os fatores que apontam para a sua aceitação ou rejeição;
 O estudo das condições sociais de emergência de problemas e disciplinas de conhecimento;
 O estudo dos processos de institucionalização da vida intelectual;
 O estudo dos intelectuais;
 A análise dos impactos sociais do conhecimento institucionalizado, científico e tecnológico
 Contexto de emergência da Sociologia do Conhecimento
 Conflito social, disputa moral e de narrativas em sociedades diferenciadas e democratizadas, de tradição na
institucionalização da produção intelectual;
 Sociedade da desconfiança epistêmica e do caos cultural, mas não social, demanda profissionais da análise ideológica;
 Revolução copernicana: erro e verdade são socialmente condicionados.
 Paradigma para a Sociologia do Conhecimento
 A base existencial das produções mentais dever ser buscada no social (formas relacionais) e na cultura (formas simbólicas),
enfatizando as relações causais ou funcionais e as relações simbólicas ou significativas entre conhecimento e base existencial;
 A Sociologia do Conhecimento se nutre de teorias historicistas e teorias analíticas gerais;
 Realismo: posição epistemológica preocupada com a validade do conhecimento; Construtivismo: a noção de verdade é
função de uma base social e cultural;
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 Marx, Scheler, Mannheim, Durkheim, Sorokin: relações de produção e conhecimento; fatores reais e dados culturais; grupos
organicamente integrados produzem o conhecimento publicamente legítimo; o social é a fonte e repositório das formas
elementares de conhecimento; sistemas de verdade e integração cultural em sociedades complexas.
 Tipos de Conhecimento e Função
 Mito e lenda;
 Conhecimento implícito na linguagem popular natural;
 Conhecimento religioso;
 Conhecimento místico;
 Conhecimento filosófico-metafísico;
 Conhecimento Positivo;
 Conhecimento Tecnológico.
 Função do conhecimento
 Marx: organização das relações de produção e das forças produtivas;
 Scheler: expressão das formas particulares dos grupos sociais, que atualizam essências eternas em juízos
localizados de valor.
 Mannheim: afirmação ideológica e utópica de grupos sociais organizados;
 Durkheim: organização dos rituais de coerção e de efervescência, regulação negativa e positiva do social;
 Sorokin: expressão dos sistemas de verdade e integração cultural.
 Problemas adicionais
 Conhecimento e contexto cultural e social: raça, gênero, ideologias políticas e econômicas, religião,
filiação nacional e etc.
 Darwin, Hobbes, Ricardo: seleção das espécies, guerra de todos contra todos, sobrevivência dos 20
mais aptos, lógica egoísta natural de mercado, Estado de Natureza...
 Ethos e estrutura cultural da Ciência
 Ciência Pura:
 lugar moral e emocional, cognitivo e comportamental de questionamento e reflexão sobre o social e a cultura em
sociedades complexas e diferenciadas administradas em regimes de concorrência dos poderes e recursos sociais;
implica em um complexo emocionalmente modulado de normas e valores operados por cientistas situados em redes
de interdependência;
 código de validação, de reconhecimento, de reciprocidade, de obrigação e de depuração de uma herança partilhada
de bens simbólicos;
 projeto global de modernidade, de afirmação etnocêntrica dos valores culturais de acúmulo material e simbólico, de
trabalho e exploração da natureza e do social, de racionalidade instrumental, de objetividade do mundo social, de
quantificação e de comparação de fenômenos, de vida contemplativa, de abstração lógica, de diferenciação –
segmentação de causalidades;
 questões de ciência: ontologia, epistemologia, teoria, metodologia, implicações éticas do conhecimento científico...
 papéis sociais e ethos específico de respeito, lealdade e adesão aos cânones disciplinares; legitimação pelos pares;
insulação.
 Universalismo: discurso de verdade objetiva, impessoal, verificável e falsificável de forma transcultural e global;
conhecimento científico acessível a toda a humanidade;
 Comunismo: a ciência é um produto coletivo e herança comum; reconhecimento e estima como únicos direitos de
propriedade; imperativo da transparência, da honestidade, da comunicação;
 Desinteresse: caráter público e testável da ciência frustra interesses escusos por parte dos próprios cientistas; o alto
custo transacional de comunicação da ciência faz dela um ‘mau negócio’; o público leigo cede aos apelos da
propaganda, do mito, do esoterismo, dos dogmas políticos e religiosos e do refrigério da arte;
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 Ceticismo organizado: imperativo institucional e metodológico de organização autorreferente do conhecimento
científico, que se esgota em sua sacralidade própria e desinteressada.
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AULA 02 – 14.05.2020

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