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LITERATURA INFANTIL

HISTÓRIA E SITUAÇÃO ATUAL


A história da literatura infantil tem poucos capítulos.

Surge no início do século VXIII, quando a criança


passa a ser considerada um ser diferente do adulto,
com necessidades e características próprias, pelo que
deveria distanciar-se da vida dos mais velhos e
receber uma educação especial, que a preparasse
para a vida adulta.

Antes disso, a criança, acompanhando a vida social do


adulto, era considerada um adulto em miniatura e
participava também de sua literatura.
E que literatura era essa, a que tinha acesso a criança,
antes do surgimento da literatura infantil?

Temos que distinguir dois tipos de crianças:

A criança da nobreza A criança das classes populares


Orientada por preceptores Não tinha acesso aos estudos
Lia os grandes clássicos Lia ou ouvia histórias de
cavalaria, aventuras, lendas e
contos folclóricos, literatura de
cordel
Sobre o surgimento da literatura infantil, com a
ascensão da burguesia, comenta Regina Zilberman:

“Antes da constituição deste modelo familiar burguês,


inexistia uma consideração especial para com a infância.
Essa faixa etária não era percebida como um tempo
diferente, nem o mundo da criança como um espaço
separado. Pequenos e grandes compartilhava, dos mesmos
eventos, porém nenhum laço amoroso especial os
aproximava. A nova valorização da infância gerou maior
união familiar, mas igualmente os meios de controle do
desenvolvimento intelectual da criança e manipulação de
suas emoções. Literatura infantil e escola, inventada a
primeira e reformada a segunda, são convocadas para
cumprir esta missão.” (ZILBERMAN, Regina. A Literatura
infantil na escola. Porto Alegre: Global, 1981, p.15)
Fica evidenciada a estreita ligação da literatura
infantil com a PEDAGOGIA, quando vê-se que em
toda a Europa, os educadores assumem uma
importância grande na criação de uma literatura para
crianças e jovens, já que suas intenções eram
fundamentadas na formação e informação.
À procura de uma literatura adequada para a infância
e juventude, observaram-se duas tendências que já
faziam parte da literatura dos pequenos:
Os clássicos, dos quais se fizeram adaptações;
O folclore, houve a apropriação dos contos de fadas
(que não eram voltados para crianças).

Perrault e os irmãos Grimm, colecionadores dessas


histórias folclóricas, estão assim ligados à origem da
literatura infantil.

Estes tiveram seus contos republicados e adaptados


uma infinidade de vezes – a tal ponto que hoje estão
muito diferentes dos escritos originais.
Em cada país, além dessa literatura tornada universal,
vão aos poucos surgindo propostas diferentes de
obras literárias infantis.
Autor País de origem Literatura conhecida
Perrault França “Chapeuzinho Vermelho”, “A
Bela Adormecida”, “O Gato
de Botas”, “Pequeno
Polegar”, etc.
Irmãos Grimm (Jacob e Alemanha “A gata borralheira”, “Branca
Wilhelm Grimm)  de Neve”, “João e Maria”, etc.
Andersen Dinamarca “O Patinho Feio”, “A Pequena
Sereia”, “O Soldadinho de
Chumbo”, etc.
Carlo Coloddi Itália “As aventuras de Pinóquio”
Amicis Itália “Coração”
Autor País de origem Literatura conhecida
Lewis Carrol Inglaterra “Alice no país das maravilhas”
J.M.Barrie Inglaterra “Peter Pan”, “Gancho”,
“Aventuras da Terra do
Nunca”, etc.
Mark Tawain Estados Unidos “Barbie”, “O Príncipe e o
Mendigo”, etc...
Charles Dickens Inglaterra “David Cooperfield”
Ferenc Molnar Hungria “Os Meninos da rua Paulo”

No Brasil, a literatura infantil tem início com obras


pedagógicas e sobretudo adaptações de produções
portuguesas. Essa face inicial é representada por:
Autor País de Literatura conhecida
origem
Carlos Jansen Brasil “Contos seletos das mil
e uma noites”,
“Robinson Crusoé”, “As
viagens de Gulliver a
terras desconhecidas”,
etc
Figueiredo Brasil “Contos da carochinha”
Pimentel
Coelho Neto e Brasil “Teatrinho”, “contos
Olavo Bilac pátrios”
Tales de Andrade Brasil “Saudade”
Com Monteiro Lobato é que tem início a verdadeira
literatura infantil brasileira.

Com uma obra diversificada quanto a gêneros e


orientação, cria uma literatura centralizada em
algumas personagens, que percorrem e unificam seu
universo ficcional. No Sítio do Picapau Amarelo vivem
Dona Benta e Tia Anastácia, as personagens adultas
que “orientam” as crianças Pedrinho e Narizinho,
outras criaturas Emília e Visconde
e animais como Quindim e Rabicó.
Ao lado de obras didáticas, Lobato explora o folclore e
a imaginação, com ou sem reaproveitamento de
elementos e personagens da literatura infantil
tradicional.
Lobato escreve seus textos mantendo sempre um
questionamento e inquietação intelectual: a
preocupação com as questões nacionais ou os
grandes problemas mundiais. Mas vai escrever sobre
esses temas, mantendo o “jeito” brasileiro de falar,
aproveitando toda a cultura nacional.

Além disso, ele foi ainda um grande adaptador de


contos de fadas e de obras como Peter Pan e
Pinóquio, tanto que essa temática sempre aparece
nas histórias do “Sítio’.
Como a literatura infantil brasileira tem uma idade
relativamente pequena, um século de existência, pois
começa no Brasil no finalzinho do século XIX, a partir
de 1895, é difícil traçar uma história desse gênero.

Os estudiosos dizem que existem tendências para


esse tipo de produção aqui no Brasil:

•A do realismo;
•A da fantasia como caminho para questionar os
problemas sociais;
•A do reaproveitamento do folclore;
•A da exploração de fatos históricos.
Pode-se afirmar que a literatura infantil brasileira tem
caráter excessivamente pedagógico.

TEORIAS EM TORNO DA LITERATURA INFANTIL

1) Muitos educadores e literatos questionam a


existência da literatura infantil. Muitos mesmo
fizeram pouco ou nenhum uso dela. Que literatos,
sobretudo, leem mais, e mais cedo, ficou provado em
pesquisa feita pelos estudantes de Didática de
Português, na Universidade Federal de Minas Gerais,
em 1964.
Drummond diz a respeito disso:

“O gênero ‘literatura infantil’ tem, a meu ver, existência


duvidosa. Haverá música infantil? Pintura infantil? A partir de
que ponto uma obra literária deixa de constituir alimento para
o espírito da criança ou do jovem e se dirige ao espírito do
adulto? Qual o bom livro para crianças, que não seja lido com
interesse pelo homem feito? Qual o livro de viagens ou
aventuras, destinado a adultos, que não possa ser dado a
crianças, desde que vazado em linguagem simples e isento de
matéria de escândalo? Observados alguns cuidados de
linguagem e decência, a distinção preconceituosa se desfaz.
Será a criança um ser à parte, estranho ao homem, e
reclamando uma literatura também à parte? Ou será
literatura infantil algo de mutilado, de reduzido, de
desvitalizado – porque coisa primária, fabricada na persuasão
de que a imitação da infância é a própria infância?
Vêm-me à lembrança as miniaturas de árvores, com que se
diverte o sadismo botânico dos japoneses; não são organismos
naturais e plenos; são anões vegetais. A redução do homem
que a literatura infantil implica dá produtos semelhantes. Há
uma trsiteza cômica no espetáculo desses cavalheiros amáveis
e dessas senhoras não menos gentis, quem em visita a amigos,
se detêm a conversar com as crianças de colo, estas inocentes
e sérias, dizendo-lhes toda sorte de frases em linguagem
infantil, quem vem a ser a mesma linguagem de gente grande,
apenas deformada no final das palavras e edulcorada
pronúncia... Essas pessoas fazem oralmente, e sem o saber,
literatura ‘infantil’.” (ANDRADE, Carlos Drummond de. Literatura
Infantil. In: - . Confissões de Minas. Rio de janeiro: Aguilar, 1964)
Percebe-se nas palavras de Drummond, o mérito que um bom
livro pode apresentar, por servir tanto a criança quanto ao
adulto. Logo, pode-se concluir, que para o autor Literatura
Infantil é antes de qualquer coisa, “Literatura”, isto é,
“mensagem de arte, beleza ou emoção” considerando o fato
de poder causar satisfação tanto à criança quanto ao adulto,
assim, presumi-se que a “redução do homem” a que se
referiu Drummond, encontra-se nos livros que não são
Literatura Infantil, mas “pueril”, que segundo Goes (1990),
são “obras carregadas de diminutivos, piegas, onde
transparece falsa simplicidade, com ação e diálogos
artificiais” p. (03).
TEORIAS EM TORNO DA LITERATURA INFANTIL

2) Muitos autores de literatura infantil relutam em


dizer que escreveram suas obras para crianças:
preferem afirmar que escreveram simplesmente em
destinatário. Em geral, esses só escrevem para
crianças.

3) Outros dizem que, ao conceberem a obra, já a


imaginam para criança ou não. Esses, em geral, fazem
literatura para adulto e para criança.
QUESTÕES PROPOSTAS E POSSÍVEIS RESPOSTAS À
LITERATURA INFANTIL
Essas teorias e suas explicações nos levam a entender
que existe um certo preconceito em torno da
literatura para criança. E vão de encontro a vários
outros questionamentos:
1)Existe ou não uma literatura infantil?
É inquestionável afirmar que não existe uma
literatura infantil hoje. Ela existe e tem características
especiais como afirma Drummond. O fato dela ser
recente pode aumentar o equívoco de artistas na sua
produção e de teóricos na sua análise, mas isso não a
invalida.
QUESTÕES PROPOSTAS E POSSÍVEIS RESPOSTAS À
LITERATURA INFANTIL
2) A existência da literatura infantil tende a ser
transitória?
Parece pouco provável, pois a sociedade pode mudar,
como já mudou, sua relação com a criança e esta, um
dia, também vai tornar-se adulto.
Vários gêneros literários fazem o maior sucesso em
determinadas épocas e com determinadas faixas
etárias. A história literária tem vários exemplos disso.
Seus representantes não têm sua existência posta em
dúvida. O que é importante definir são os pontos de
contato e de afastamento entre literatura para
crianças e para adultos. Se o afastamento se der na
essência do fenômeno literário, então não haverá
QUESTÕES PROPOSTAS E POSSÍVEIS RESPOSTAS À
LITERATURA INFANTIL

literatura infantil. Nesse caso, a própria expressão


“literatura infantil” torna-se absurda, pois não se
pode imaginar uma literatura sem arte.
É comum a ideia de que literatura infantil é
subliteratura, um gênero menor. Esse mesmo
preconceito parece implícito na fala dos autores que
dizem não escrever para crianças. Tais escritores,
muitos deles excelentes, dão a impressão de se
sentirem monos importantes do que os que fazem
literatura para adultos.
QUESTÕES PROPOSTAS E POSSÍVEIS RESPOSTAS À
LITERATURA INFANTIL

3) A literatura infantil está obrigada a manter seu


vínculo histórico com a pedagogia?
Isso não precisa ocorrer, pois muitas obras feitas para
crianças e ditas de literatura infantil não se
desprendem de uma peculiaridade do discurso
pedagógico: a redução da criança, notadamente pela
facilitação artística e pelo tom moralizador.
Nesses casos, temos apenas uma pretensa literatura
infantil, exatamente como, dentro da produção
artística para adultos, existem também lamentáveis
equívocos: há maus romances, maus poemas, maus
contos. E ninguém invalida a literatura por isso.
QUESTÕES PROPOSTAS E POSSÍVEIS RESPOSTAS À
LITERATURA INFANTIL

Na medida em que tivermos diante de nós uma obra


de arte, realizada através de palavras, ela se
caracterizará certamente pela abertura ( possibilidade
de vários níveis de leitura), pelo grau de atenção e
consciência a que nos obriga, pelo fato de ser única,
imprevisível, original, enfim, seja no conteúdo, seja na
forma.
Essa obra, marcada pela conotação e pela
plurissignificação, não pode ser pedagógica, no
sentido de encaminhar o leitor para um único ponto,
uma única interpretação de vida.
QUESTÕES PROPOSTAS E POSSÍVEIS RESPOSTAS À
LITERATURA INFANTIL
4) A literatura infantil é uma traição ao leitor, na medida em que seu
discurso reflete um encaminhamento da criança, que não tem voz
nesse discurso e não pode posicionar-se?

Enquanto manifestação artística não é traição: apesar de


ser sempre o adulto a falar à criança, se ele for realmente
artista, seu discurso abrirá horizontes, proporá reflexão e
recriação, estabelecerá a divergência e não a convergência.
E suas verdadeiras possibilidades educativas se encerram
nesse aspecto.
Traição, pode ocorrer no plano do educador, quando este
escolhe para impingir à criança o livro de intenções
pedagógicas e não o literário.
Quando, descortinado à criança o mundo da arte e da
literatura, ela for livre para estabelecer suas relações com
esse mundo, não se pode falar em traição.
Muitas obras literárias escritas para adultos foram
adotadas pela infância. Esse é o caso, por exemplo, de
Aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e e
de Viagens de Gulliver, cujo autor, visava ao adulto,
em crítica ferina à sociedade da época. Entre tantos
outros que já fizeram história e também os que
continuam surgindo.

Também existe para a classe desprivilegiada


economicamente, com poucas chances de
escolarização ou afastadas dos grandes centros, uma
literatura oral sempre revitalizada e com formas
tradicionais, sem marcas nitidamente infantis.
Por outro lado, é certo que também a verdadeira
literatura infantil agrada aos adultos. Quem não se
enternece com a história do Patinho Feio, mesmo nós
crescidos? Qual adulto não se diverte com as façanhas da
Emília?
Diante disso, podemos chegar a duas conclusões:

•Se as crianças se prendem a apenas algumas das


histórias para adultos que lhes chegaram às mãos ou aos
ouvidos, parece-nos lícito afirmar que existem
determinadas características importantes para o gosto
infantil.

•Se o adulto também lê com interesse a obra infantil, ela


também deixou de ter um leitor “transitório” apenas.
Todas essas reflexões sugerem que a literatura
infantil não só existe, como também é mais
abrangente (apesar do adjetivo restritivo da
expressão); na realidade, toda obra literária para
crianças pode ser lida (e reconhecida como obra de
arte, embora eventualmente não agrade, como
ocorre com qualquer obra) pelo adulto: ela é também
para crianças.
A literatura para adultos, ao contrário, só serve a eles,
é, portanto, menos abrangente do que a infantil.
EXERCÍCIOS
ANÁLISE DE TEXTOS

O PATINHO FEIO

Essa história, que é bem a vida de Andersen, mostra-


nos as tristezas de um patinho considerado feio por
todos da fazenda onde nasceu. A maravilha que lhe
sucede não poderia ser suspeitada quando a
senhora pata está chocando seus ovos...
“Numa clareira da floresta vemos uma velha casa, cercada por um
riacho. Num dos lados da casa o capim crescia viçoso, pois fora
tosado. No meio de uma touceira mais alta, uma pata chocava seus
ovos. Mas já andava começando a achar aquilo maçante – ficar ali
imóvel tanto tempo não era nada agradável e até lhe parecia que os
ovos estavam demorando para picar. Além disso, era pouco visitada,
pois as outras patas preferiam nadar no riacho a subir o barranco
para virem falar com ela sobre a vida alheia.

Afinal, o primeiro ovo picou e, logo após, outro, e assim toda a


ninhada saiu.

-Quá, quá, quá, fazia a pata, e os patinhos tentavam imitá-la, com as


cabecinhas de fora, sob as asas da mãe, olhando para todos os
lados a fim de verem de que jeito era o mundo. E a senhora dona
Pata, muito contente, deixava que eles olhassem à vontade, pois o
verde faria bem para os seus olhinhos irrequietos.

-Como é grande o mundo! Diziam eles, olhando para ao capinzal.

-Pensam que o mundo é só isso? Perguntou a pata. Não! O mundo é


grande. Vai muito além, para o outro lado do jardim até o quintal do
senhor padre se bem que eu jamais tenha ido até lá. Mas, afinal, já
saíram todos? Continuou ela, levantando-se para examinar a
ninhada. Oh, ainda não! O ovo maior ainda não picou. Só queria
saber quanto tempo ainda levará. Já estou cansada. E deitou-se
novamente.

-Então, como vai indo? Perguntou-lhe uma velha pata que era sua
comadre.
-Estou aqui com um ovo muito difícil de picar. Mas olhe o resto. Veja
que lindeza de criaturinhas. São todos a cara do pai, que por sinal,
não se deu ainda ao trabalho de vir ver-me.

-Deixe-me ver o ovo que não quer picar, disse a velha pata. E depois
de examiná-lo: pois fique sabendo que isto é ovo de galinha
d’Angola. Já uma vez também fui enganada e tive um trabalhão com
os pintinhos que saíram. Tinham um medo d’água que só vendo. Por
mais que eu insistisse, não aprenderam a nadar. O melhor é deixar
esse ovo no ninho e sair com o bando.

- Vou esperar mais um pouco, respondeu a pata. Já estou aqui há


tanto tempo que um dia mais, um dia menos, pouco importa.

- Bem, faça então como entender, disse a comadre retirando-se.


Afinal o ovo picou e de dentro saiu um patinho esquisito, feio e
desajeitado, além de maior que os outros. A pata olhou para ele
desconfiada.

ANDERSEN, H.C. O patnho feio. In: Contos de Andersen. Trad e adapt.


Monteiro Lobato. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1961, p. 53-55.
Questões
• Que traços de caráter feminino o autor empresta à pata?
Em que trechos?
• Por que o mundo é grande para os patinhos? O que há de
cômico na resposta da pata?
• A velha pata acha possível que o ovo seja de galinha, ou
tem certeza de que é? Que expressão revela isso?
• Em algum momento a mãe pata dá razão à velha comadre?
Por quê?
• Justifique o emprego dos vários diminutivos do texto:
indicam só tamanho?
ANÁLISE DE TEXTOS

PINOCCHIO

Geppetto, velho bonachão, sentimental e irritadiço,


vive sozinho, o que lhe dá a ideia de fazer um
boneco e com ele percorrer o mundo. Dispõe-se a
fazê-lo quando ganha de seu amigo, o mestre
Cereja, um estranho pedaço de pau...
O quarto de Geppetto ficava num porão onde só entrava luz
pelo vão da escada. O mobiliário não podia ser mais simples – uma
cadeira incômoda, uma cama dura e uma mesa velha. Ao fundo
havia um fogão dentro do qual o fogo brilhava; mas esse fogo era
pintado e sobre as labaredas via-se uma panela, também pintada,
que fervia e deixava sair uma nuvem de fumaça, muito parecida com
as fumaças de verdade.
Assim que chegou em casa, Geppeto foi buscar as
ferramentas e dispôs-se a fazer o seu boneco.
- Que nome lhe darei? Perguntou a si mesmo. Hum! Vou
chamar-lhe Pinocchio. É nome que lhe dará felicidade. Conheci uma
família inteira de Pinocchios. Pinocchio pai, Pinocchia mãe,
Pinocchios filhos e todos eram felizes. O mais rico pedia esmolas.
Tendo encontrado um nome para o boneco, começou ele a
trabalhar com vontade. Primeiro fez os cabelos, depois a testa, em
seguida os olhos.
Terminados os olhos imaginem seu espanto ao notar que se
moviam e o olhavam fixamente.
Vendo-se assim encarar por aqueles dois olhos de pau,
Geppetto levou aquilo a mal e disse em tom de zanga:
- Diabo de olhos de pau, por que é que me encaram?
Ninguém respondeu.
Depois dos olhos Geppetto fez o nariz; mas o nariz apenas
acabado começou a crescer. E cresceu, cresceu até que em poucos
minutos se tornou um nariz colossal que não tinha
fim.
O pobre homem cansava-se de
podá-lo; mas quanto mais o podava mais
comprido se tornava aquele nariz impertinente.
A boca não estava ainda bem feita e já começou a rir e a
zombar do velho.
- Acabe com esses risadas! Ordenou Geppetto irritado – mas
foi o mesmo que ter dito aos ventos que parassem de soprar.
- Acabe com esses risadas, já disse! - rugiu ele com voz
ameaçadora.
A boca parou de rir, mas pôs-lhe a língua.
Geppetto, para não estragar o serviço,
Fingiu não dar pela coisa e continuou a trabalhar.
Depois da boca fez o queixo, o pescoço, os om-
bros, o estômago, os braços e as mãos.
Mal terminara as mãos, Geppetto sentiu sua cabeleira
desgrudar-se da sua cabeça. Voltou-se e que viu? Viu seu chinó
amarelo nas mãos do boneco.
- Pinocchio! Dê cá a minha cabeleira...
Mas em lugar de devolvê-la Pinocchio colocou-a na própra
cabeça ficando quase sufocado dentro dela.
Diante daquele ar zombeteiro e insolente, Geppetto sentiu-se
mais desgostoso e triste do que nunca e, voltando-se para
Pinocchio, disse-lhe:
- Oh, seu canalhinha! Você ainda não está bem acabado e já
começa a faltar com o respeito a seu pai? Faz mal, meu filho, muito
mal, sabe?
E enxugou uma lágrima.
COLLODI, Carlo. Pinocchio. Trad e ver por Monteiro Lobato. 10 ed.
São Paulo: Nacional, 1962, p. 18-20.
Questões
• A descrição inicial é importante para o texto? Que traços
de Geppetto revela?
• Indique o que há de cômico na escolha do nome do
boneco.
• Por que a primeira pergunta de Geppetto ao boneco ficou
sem resposta?
• Observe a repetição do “cresceu”. Como a explica? Por que
o autor emprega o verbo “podar” para o nariz de
Pinocchio?
• Que sentimentos contraditórios sugere o vocativo “seu
canalhinha”? Que elementos sugerem tais sentimentos?